Bibliofilia: Amor por livros e por ler. O Bibliófilo ama ler e sente devoção pelos livros, colecciona-os e admira-os.
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03/06/2013

The Winter Sea

Autora: Susanna Kearsley

Editora: Sourcebooks Landmark (2010)

Nº de páginas: 527

Editado originalmente: Allison & Busby (2008)

Sinopse: History has all but forgotten...

In the spring of 1708, an invading Jacobite fleet of French and Scottish soldiers nearly succeeded in landing the exiled James Stewart in Scotland to reclaim his crown.

Now, Carrie McClelland hopes to turn that story into her next bestselling novel. Settling herself in the shadow of Slains Castle, she creates a heroine named for one of her own ancestors and starts to write.

But when she discovers her novel is more fact than fiction, Carrie wonders if she might be dealing with ancestral memory, making her the only living person who knows the truth-the ultimate betrayal-that happened all those years ago, and that knowledge comes very close to destroying her...





Opinião: Na minha busca por livros passados na Escócia, este The Winter Sea foi redescoberto na minha lista de livros para ler. De uma autora desconhecida para mim, na altura foi adicionado meramente devido a opiniões positivas de algumas pessoas cuja opinião valorizo (ok, e pela capa!), e agora surgiu a ocasião perfeita para a sua leitura. 

Tal como na maioria das minhas leituras actualmente, não sabia quase nada sobre este livro (hábito que cada vez mais tenciono manter). Opiniões positivas e reviews pouco reveladoras bastam-me para decidir ler um livro, e assim conseguir partir para uma obra sem expectativas. Neste caso em particular, como estava à procura de livros sobre a Escócia (naquilo que resultou na minha leitura temática), limitei-me a ler a sinopse muito brevemente e ver os dados de "setting" do Goodreads para me certificar que o livro cumpria os requisitos que procurava. 

Por essa razão fiquei surpreendida quando a história me apresenta Carrie, uma personagem contemporânea, que está a escrever um livro sobre um período da História da Escócia. Essa surpresa depressa deu lugar a satisfação ao ver como a autora constrói a sua história em redor destas duas épocas distintas, ligadas pela História de um pequeno castelo em ruínas na costa da Escócia.

Carrie é escritora de romances históricos, vive em França, em busca de inspiração para o seu livro: a história da falhada invasão Jacobita pela frota francesa em 1708, que tinha como objectivo trazer de volta para o território escocês o príncipe exilado James, para reclamar o seu trono. O bloqueio de escritor de a assola dissipa-se na viagem que faz à Escócia para visitar a sua editora, quando perdida na estrada dá por si nos arredores do Castelo de Slains. Uma inexplicável ligação a este lugar inspira-a a escrever como se a história sempre tivesse estado na sua memória, e só precisasse de ser relembrada. A heroína da sua história, Sophia, é um antepassado escocês da própria Carrie, "emprestada" por ela ao livro que está a escrever, para satisfazer a sua necessidade de uma personagem principal feminina. A narrativa descreve o dia a dia de Carrie, enquanto escreve o seu livro, que é apresentado ao leitor como uma viagem ao passado. 

Passando-se numa fase da História da Escócia acerca da qual sou completamente ignorante, não tenho qualquer base para opinar quanto à veracidade dos factos históricos, mas para mim isso pouco importa neste caso. O que afectou a minha leitura foi sentir que as descrições daquele mundo e daquela época me pareciam credíveis, com personagens reais e diálogos deliciosos, dando-me uma experiência de leitura à altura do que procurava. 

Este livro livro prendeu-me desde o início. Há já algum tempo que não lia com tanto prazer e regressei após algum tempo àquele que é um dos meus géneros favoritos, o romance histórico. E que regresso. Talvez por ter passado demasiado tempo sem ler este género, talvez por se passar na Escócia numa altura em que estou sedenta por qualquer pedaço de história e cultura desse país, talvez pela escrita da autora e os diálogos me conseguirem transportar para uma época que me fascina desde sempre. Seguramente por tudo isto, a verdade é que este livro me encheu as medidas. Foi tudo o que eu desejava ler, e lido na altura certa.

Divido esta história em duas partes que me pareceram distintas inicialmente, mas profundamente ligadas, e os pontos fracos de uma são compensados pela outra. Presente e passado interligam-se não apenas pela localização em comum, mas pelas personagens, pela cultura e pela voz da autora. Gostei bastante da sua escrita e dos diálogos, especialmente nas partes passadas no passado, e se as personagens contemporâneas são interessantes, as medievais são cativantes de uma forma que ficava em suspenso de cada vez que voltava à vida de Carrie e deixava Sophia para trás. 

Apesar do ponto forte da narrativa ser, naturalmente, a história de Sophia, a autora consegue equilibrar bastante bem as duas linhas temporais, intercalando entre uma e outra de forma subtil e inteligente. Mas não se pense que a narrativa de Carrie é desinteressante, pelo contrário, chegando a adquirir um tom autobiográfico (os pontos em comum na história pessoal de Carrie e de Susanna Kearsley são notórios). Além da inclusão do dialecto local derivado do Gaélico, das descrições da pesquisa histórica levada a cabo por um autor de romances históricos e as suas convicções de onde estabelecer a linha entre ficção e História, a autora introduz o tema da genealogia de forma bastante interessante, que me deu imenso gozo ler. E, tal como na linha paralela da história de Sophia, ainda há espaço para algum romance, e para uma adoração pela paisagem da Escócia. Apesar de ter adivinhado parte do final do livro, terminei esta leitura com uma satisfação daquelas que só chegam com os livros que nos tocam de verdade. 

O melhor: As personagens do Castelo de Slains, as descrições das paisagens escocesas, a viagem ao passado. A genealogia. 

O pior: O romance contemporâneo um pouco "morno", especialmente comparando com a história de Sophia. 


5/5 - Excelente!



14/01/2013

Life of Pi


Autor: Yann Martel

Nº páginas: 356

Editora: Seal Books

Primeira edição: 2001


Sinopse (da edição portuguesa): Publicado em Portugal pela Difel em 2003, A Vida de Pi valeu a Yann Martel o Man Booker Prize de 2002, entre outros prémios, e figurou como bestseller do New York Times durante mais de um ano. Sete anos após a primeira edição, a obra ocupa a 74ª posição no top de ficção da Amazon americana e o 99º lugar na tabela de vendas da amazon inglesa. A Vida de Pi encontra-se publicada em mais de 40 países.

Quando Pi tem dezasseis anos, a família decide emigrar para a América do Norte num navio cargueiro juntamente com os habitantes do zoo. Porém, o navio afunda-se logo nos primeiros dias de viagem. Pi vê-se na imensidão do Pacífico a bordo de um salva-vidas acompanhado de uma hiena, um orangotango, uma zebra ferida e um tigre de Bengala. Em breve restarão apenas Pi e o tigre.



Opinião: Comprei a edição portuguesa deste livro há uns 3 anos, ou mais. Não consigo encontrar a razão pela qual sempre fui adiando a sua leitura ao longo do tempo, mas este é um daqueles casos em que senti um profundo arrependimento por não o ter lido há mais tempo. A verdade é que tenho de agradecer a Hollywood por ter decidido fazer uma adaptação do livro, uma vez que foi esse o empurrão que precisava para pegar neste livro. 

Pi Patel é um menino indiano que passa a infância e parte da adolescência em convivência com os animais selvagens que vivem em cativeiro no Zoo de Pondicherry, na Índia. Até ao dia em que os pais decidem emigrar para o Canadá, levando consigo num cargueiro a maioria dos animais para realojar em zoológicos do norte da América. O cargueiro acaba por naufragar ainda na fase inicial da viagem, reunindo-se num bote salva-vidas os únicos sobreviventes da tragédia: uma zebra, um orangotango, uma hiena, um tigre de Bengala e Pi.

Filho de pais metódicos e pouco religiosos, Pi é um menino curioso e estudioso, além de profundamente sensível ao comportamento animal e à natureza humana. Pi chega aos seus 16 anos professando não só a religião hindu, comum entre o seu povo e na sua família, como também o cristianismo e o Islão, sem considerar que nenhuma das religiões contraria as outras.

O facto de uma pessoa tão profundamente religiosa escolher para si próprio (o seu nome verdadeiro é Piscine) o nome de um símbolo matemático é um detalhe delicioso desta personagem fascinante e invulgar. 

Na verdade, considero que todo este livro me cativou principalmente pela personagem de Pi. Um miúdo brilhante, inteligente e culto, sempre desejoso de aprender e incrivelmente corajoso, além de espirituoso. 

Além disso, é um livro incrivelmente bem escrito.A voz do autor é deslumbrante, cativante desde o primeiro minuto, mesmo nas partes mais aborrecidas e descritivas do livro. Ao longo da obra, e não deixando de me surpreender durante a narrativa, Yann Martel fez-me soltar gargalhadas ao longo do livro, tão frequentemente como as suas detalhadas descrições do quotidiano num bote salva-vidas e do sofrimento dos seus habitantes me fizeram ranger os dentes e pensar "por favor, já chega, é demais". Quase consegui sentir o calor sufocante, o sal a corroer-me a pele e a tensão territorial lidando com o tigre, mas logo a seguir ria-me com uma qualquer saída espirituosa do querido e corajoso Pi. 

Não há muito mais formas de descrever esta história além de dos clichés "enorme luta pela sobrevivência", "belíssima metáfora espiritual", "história de coragem e resistência" e "busca espiritual e religiosa". Mas há muito mais que se pode dizer sobre este livro. 

Yann Martel agarrou-me ao destino das suas personagens e deliciou-me com a sua escrita fantástica, ao mesmo tempo bela, simples e desarmante, com passagens inspiradoras, e por vezes até cruas e aterrorizantes. Como se não fosse suficiente, quando achava que já tinha esta história definida na minha cabeça e sabia para onde ela me levava, fui arrebatada pelo final, quando este livro me retirou o tapete de debaixo dos pés. E isso foi o melhor de tudo. Como leitora, que mais poderia esperar de um livro?

O melhor: A escrita, Pi e Richard Parker

O pior: Algumas partes cansativas no auge da jornada de Pi, mais aborrecidas.

5/5 - Excelente!

22/06/2012

The Lions of Al-Rassan



Título: The Lions of Al-Rassan
Autor: Guy Gavriel Kay
Nº de páginas: Kindle edition
Releitura



Sinopse: The ruling Asharites of Al-Rassan have come from the desert sands, but over centuries, seduced by the sensuous pleasures of their new land, their stern piety has eroded. The Asharite empire has splintered into decadent city-states led by warring petty kings. King Almalik of Cartada is on the ascendancy, aided always by his friend and advisor, the notorious Ammar ibn Khairan — poet, diplomat, soldier — until a summer afternoon of savage brutality changes their relationship forever.

Meanwhile, in the north, the conquered Jaddites' most celebrated — and feared — military leader, Rodrigo Belmonte, driven into exile, leads his mercenary company south.

In the dangerous lands of Al-Rassan, these two men from different worlds meet and serve — for a time — the same master. Sharing their interwoven fate — and increasingly torn by her feelings — is Jehane, the accomplished court physician, whose own skills play an increasing role as Al-Rassan is swept to the brink of holy war, and beyond.

Hauntingly evocative of medieval Spain, The Lions of Al-Rassan is both a brilliant adventure and a deeply compelling story of love, divided loyalties, and what happens to men and women when hardening beliefs begin to remake — or destroy — a world.



Opinião: Foi a segunda vez que li este livro, desta vez no original em inglês. A primeira já foi há algum tempo e fez deste livro um dos meus favoritos de sempre. Por causa dele, em conversa com uma amiga a quem o recomendei e que acabou por o adorar tanto como eu, criámos o termo perfeito para aplicar a livros que nos enchem as medidas: “Este livro é um aquecedor de almas”. Aquele tipo de livros que não precisa de ser uma grande obra reconhecida pelos críticos para que nos toque e nos aqueça a alma enquanto o lemos, e quando mais tarde o recordamos.


Foi mais ou menos assim que surgiu esta releitura. Em conversa com a Tchetcha, que o está a ler, fiquei com tantas saudades das personagens, do universo e dos sentimentos que este livro despertou na primeira leitura que fiquei com uma vontade irresistível de voltar a Al-Rassan.


Precisamente por ter gostado tanto do livro da primeira vez, temi que a “magia” do universo se perdesse numa releitura. Felizmente isso não aconteceu. Fiquei agarrada ao livro desde o primeiro momento, pelo ambiente árabe e medieval do livro, pela descrição das culturas e do conflito religioso, pelas personagens brilhantes e a narrativa tão própria. Tal como da primeira leitura, chorei com o final e acabei a sorrir no epílogo.

O melhor: Ammar ibn Khairan. A maneira como o universo ficcional foi construído em redor da história e geografia da Península Ibérica.

O pior: Não me ocorre nada.


5/5 – Excelente

21/02/2011

Verdade ou Consequência? A Casa das Sete Mulheres

Depois da Célia do Estante de Livros, desta vez fui eu a desafiada a escolher “Verdade ou Consequência”, a rubrica mensal do Este meu cantinho... . Escolhi "Consequência", ficando assim “intimada” a ler um livro e escrever a minha opinião. A WhiteLady sugeriu-me o tema História, e como tenho na minha pilha muitos romances históricos o difícil foi escolher! O recém-adquirido (mas desejado há muito) A Casa das Sete Mulheres, de Leticia Wierzchowski, foi o escolhido.


Este livro retrata um período da História do Brasil que ficou conhecida como a Revolução Farroupilha, de uma perspectiva muito feminina. O descontentamento dos fazendeiros do Rio Grande do Sul, província do Império do Brasil, relativamente ao preço da carne e à escravatura negra, desencadeia uma revolta militar liderada pelo General Bento Gonçalves da Silva e com o apoio de outros militares, com o objectivo a deposição do Governador. Essa revolta evoluiu para uma Revolução anti-império, e através de uma série de acontecimentos e batalhas é proclamada a República do Rio Grande do Sul. Uma guerra entre Republicanos e Imperiais instala-se e parece não ter fim, que ficou conhecida como Revolução Farroupilha.

A Casa das Sete Mulheres é um romance que foi adaptado à televisão sob a forma de uma série de TV da Rede Globo. Quando vi a “novela”, em 2003, adorei e passei os 52 episódios agarrada a esta história de mulheres fortes e homens garbosos. Desde essa altura que tencionava ler o livro, mas a verdade é que nunca o vi à venda. Mais recentemente, nos últimos anos, procurei deliberadamente comprar uma cópia, mas não consegui encontrá-lo em lado nenhum. Tive imensa sorte em encontrá-lo no WinkinBooks, apesar de até o ler não saber bem quanta.
A verdade é que adorei este livro. A narrativa é deslumbrante e as personagens são magistralmente construídas. O ritmo da narrativa é por vezes errático, com avanços e recuos, pontos de vista da guerra e notícias que chegam de boca em boca, e cartas que são lidas antes dos acontecimentos que descrevem nos serem contados. A narração do ponto de vista de várias personagens é intercalada com os cadernos de Manuela, a protagonista e eterna Noiva de Garibaldi, que por sua vez tanto se referem ao tempo passado na estância como têm lugar décadas depois da guerra.
A escrita de Letícia Wierzchowski é deliciosamente descritiva. Quando lemos as linhas que enquadram a vida na estância quase que sentimos o vento minuano a soprar, os cheiros das plantas e o tom amarelo da paisagem. Quando nos é permitido visitar o cenário da guerra, as descrições são detalhadas e precisas, mas sempre incrivelmente bem escritas, numa prosa quase poética.
Sendo uma fan dos romances históricos, adoro a concretização do perfeito compromisso entre verdade histórica e o romance e a ficção. Este livro trouxe-me isso mesmo.
Além de um entretenimento viciante e ser praticamente uma “degustação” da linguagem, é também uma boa dose de História, que adorei experienciar.
Dei por mim a pesquisar na net mais informação sobre esta época da História brasileira, de tal forma a escrita me cativou para este tema. Além de ficar com uma noção bastante precisa do que significou este período da História do Brasil, e de me ter apaixonado pelas personalidades que lhe deram forma, senti-me conquistada pela riqueza da Língua Portuguesa. Neste livro deparei-me com imensas expressões regionais do Rio Grande do Sul, algumas usadas ainda hoje, que no português de Portugal são consideradas arcaicas. Deliciei-me com esta linguagem, e de facto o português é uma língua tão rica que é uma pena que algumas palavras deixem ter utilização corrente por cá.

A história começa com o convergir das personagens nos campos que vão constituir a duas frentes do rumo dos acontecimentos: enquanto os homens da família de Bento Gonçalves, o líder da Revolução Farroupilha, se reúnem para a guerra que se aproxima, as mulheres viajam das suas casas na cidade para se refugiarem da guerra na Estância da Barra, propriedade de D. Ana Joaquina, irmã de Bento Gonçalves. Com D. Ana viajam a irmã mais nova, D. Maria Manuela, e as suas três jovens filhas, Rosário, Mariana e Manuela. Juntamente com a cunhada D. Caetana, esposa de Bento, a filha mais velha, Perpétua e os 4 filhos crianças. Estas são as 7 mulheres que vão passar os anos da guerra numa estância no pampa gaúcho (juntamente com D. Antônia, irmã mais velha de Bento, Ana e Maria, proprietária da Estância do Brejo, a poucos minutos a cavalo da Estância da Barra). A história termina com o final da guerra, que se arrastou por 10 longos anos. Dez anos repletos de tristezas próprias da guerra, algumas alegrias, e principalmente acontecimentos que mudaram de forma irrevogável as vidas destas mulheres e da sua família.
O destino desta família é o reflexo do que aconteceu no Rio Grande nestes dez anos, uma região que não voltou a ser a mesma, tal como as pessoas que viveram esta guerra. O que aconteceu nestes dez anos, terão de descobrir por vós próprios. É um livro que recomendo sem reservas.

Uma nota final para referir que descobri no final da leitura que existe uma continuação publicada. Um Farol no Pampa é a continuação escrita por Letícia Wierzchowski, que infelizmente não está publicada em Portugal, mas que quero muito ler (e penso que será quase impossível encontrar A Casa das Sete Mulheres à venda nas livrarias, por isso não espero uma edição portuguesa). Estou a pensar mandar vir pela Wook a versão brasileira. 

04/02/2011

2666, Roberto Bolaño


2666, Roberto Bolaño

Tradução: Cristina Rodríguez e Artur Guerra

Editora: Quetzal (2009)


Sinopse:

O que liga quatro germanistas europeus (unidos pela paixão física e pela paixão intelectual pela obra de Benno von Archimboldi) ao repórter afro-americano Oscar Fate, que viaja até ao México para fazer a cobertura de um combate de boxe? O que liga este último a Amalfitano, um professor de filosofia, melancólico e meio louco, que se instala com a filha, Rosa, na cidade fronteiriça de Santa Teresa? O que liga o forasteiro chileno à série de homicídios de contornos macabros que vitimam centenas de mulheres no deserto de Sonora? E o que liga Benno von Archimboldi, o secreto e misterioso escritor alemão do pós-guerra, a essas mulheres barbaramente violadas e assassinadas? 2666.

Para se ler sem rede, como num sonho em que percorremos um caminho que nos poderá levar a todos os lugares possíveis.  


Opinião: Demorei praticamente um mês a percorrer as mais de mil páginas deste enorme livre. Além de ter sido o maior livro que já li na íntegra, foi também um livro como nunca tinha lido. Fazer uma análise deste livro é uma tarefa de uma enormidade inglória e nem sequer pretendo fazê-lo. A verdade é que escrever uma simples opinião pessoal acerca desta leitura é-me extremamente difícil e fica aquém de qualquer texto que consiga construir.


As suas histórias são histórias dentro de outras histórias, com outras histórias dentro. Roberto Bolaño constrói uma teia ambiciosa com as suas palavras (que sentimos faladas, mais do que escritas), e o leitor é a mosca atraída para essa teia, e que fica capturada nela, juntamente com as dezenas de personagens que o acompanham. Essas histórias afastam-se da narrativa central, arrastando o leitor consigo, por vezes em saltos de narrativa que nos fazem esquecer por momentos quem estamos a seguir. Mas ao invés de ficarmos confusos e perdidos, quando voltamos à personagem e ao cenário de onde partimos é como se tivéssemos andado viajando, regressando naturalmente ao ponto de partida. A linguagem é tão própria e magnetizante que nos mantém no rumo, mesmo sem percebermos que rumo é esse. 

Sinto que Bolaño escreve com a alma mais do que com a cabeça. Escreve sem travão, acerca de tudo o que decidiu despejar no texto de forma paralela à narrativa principal, e seguimos as estradas secundárias sobre a angústia humana, sobre injustiça, amor, dinheiro, violência e medo (da morte, de viver, de ser maltratado, de ser rejeitado, de perder e de ganhar), poder, história, cultura contemporânea, máquinas de escrever, tuberculose e Hitler. Seguimos a vida das personagens e das acções que motivam o desenvolvimento da história, mas somos constantemente deslocados dessas acções para uma saída de exploração ao interior das personagens ou em direcção a outras, e às tantas o autor regressa de repente à estrada principal como se nunca dela tivesse saído.
É um livro com um ritmo próprio, para ler com toda a disponibilidade para que se possa saborear a linguagem e todo o conteúdo. 
Contém uma enorme dose da cultura latino-americana, quer seja na linguagem empregue, no contexto das narrativas ou no estado ao mesmo tempo alegre e melancólico das personagens e do tempo.  Por outro lado, é ao mesmo tempo profundamente europeu, reflectindo muito percurso do próprio escritor. Tenho vontade de transcrever excertos inteiros para que me entendam como este livro é fenomenal.


Está dividido em 5 partes, aparentemente distintas. 

Livro I - A Parte dos Críticos. 
Começamos com a história de 4 estudiosos das letras, particularmente literatura alemã, que são unidos pela sua devoção à obra do escritor Benno von Archimboldi, um obscuro escritor do qual ninguém sabe quase nada e que nunca ninguém viu. Sabe-se apenas que é magro e incrivelmente alto. Em redor da paixão pelo escritor alemão, o francês Pelletier, o espanhol Espinoza, o italiano Morini e a inglesa Liz Norton vão desenvolver uma relação de amizade e cumplicidade que ultrapassa a devoção académica. Na busca por Archimboldi, Pelletier, Espinoza e Liz viajam até ao México (Morini, dono de uma saúde frágil, permaneceu, não por acaso, em Itália), mais concretamente a uma brutal e árida cidade perto da fronteira, Santa Teresa, onde se diz que o escritor teria estado. Qualquer semelhança com Cidade Juarez não é pura coincidência. Em Santa Teresa, os críticos tomam conhecimento da terrível onda de brutais homicídios de mulheres, além de conhecerem Óscar Amalfitano, um chileno, originário de Barcelona que traduziu para castelhano uma das obras de Archimboldi, não sendo no entanto grande entusiasta do escritor.


Livro II - A Parte de Amalfitano.
O professor universitário em Barcelona cuja mulher o deixou com a sua filha Rosa ainda bebé, muda-se para Santa Teresa, no norte do México. Numa cidade próspera, onde o desemprego é quase inexistente, Amalfitano sente o ambiente pesado e sombrio da cidade e preocupa-se com a segurança da sua jovem filha, que por sua vez se preocupa com a sanidade mental do seu não tão jovem pai, que pendurou um livro de geometria no estendal da roupa. E aí o deixou ficar.


Livro III - A Parte de Fate
A mãe de Fate morreu. A notícia da sua morte por ataque cardíaco foi-lhe dada por uma vizinha da mãe em Harlem, que no mesmo telefonema sofre ela própria uma paragem cardíaca, acabando por ter o mesmo destino. Fate é um jornalista afro-americano de uma revista "negra", que normalmente escreve sobre temas político-sociais relacionados com sua comunidade, mas devido ao homicídio do seu colega da secção de desporto, é enviado para Santa Teresa, México, para fazer a cobertura de um combate de boxe. Em Santa Teresa, Fate envolve-se no andamento sombrio e perigoso da cidade, juntamente com alguns colegas de profissão mexicanos e compatriotas não jornalistas. Algures entre a melancolia e as drogas e o sexo, Fate conhece a rapariga mais bonita que já teve a sorte de colocar os olhos em cima. Mas Rosa Amalfitano está, sem se aperceber, a enredar-se na atmosfera perigosa e doentia da cidade, que Fate detecta assim que chega a Santa Teresa. Também detecta que nenhuma mulher bonita está totalmente a salvo em Santa Teresa.


Livro IV - A Parte dos Crimes
As centenas de homicídios brutais que acontecem em Santa Teresa ao longo de anos são a base deste volume do livro. São relatos específicos, quase relatórios das brutais violações e actos de violência que culminam na morte miserável de centenas de mulheres. A idade das vítimas varia entre os 10 e os 40 anos, e se a maioria delas são mulheres trabalhadoras, operárias nas "maquilladoras" de Santa Teresa, são também prostitutas ou acompanhantes de luxo, ou mulheres de educação superior e nível social mais elevado. Os crimes são pobremente investigados, uns mais que outros, mas ainda assim é possível concluir que os criminosos são inúmeros e os crimes são diferentes. Têm apenas em comum o sexo das suas vítimas e a perversidade dos assassinos. Não obstante, surge um suspeito, alemão naturalizado norte-americano, que é acusado de algumas das mortes, e encerrado na prisão de Santa Teresa.


Livro V - A Parte de Archimboldi.
Hans Reiter nasceu na Prússia, depois da primeira guerra, filho de pai coxo e mãe zarolha. Aos 10 anos de idade, quando nasce a sua adorável e ternurenta irmã, Hans já é um jovem da mesma altura dos rapazes de 12 da sua aldeia e mais alto que a maioria dos de 15. Hans desiste da escola e vai trabalhar na ajuda à manutenção da casa do Barão von Zumpe, onde a biblioteca da família começa a atraí-lo como a escola não fez. Até a guerra chegar novamente e ser incorporado na Frente do Leste do exército alemão.
Após a guerra, Hans Reiter envolve-se na primeira relação amorosa, ao mesmo tempo que começa a escrever. Ao enviar o seu primeiro manuscrito para uma editora, decide-se pelo nome de Benno von Archimboldi.

Muito (bastante, extremamente, estupidamente) resumido, é disto que se trata 2666. No entanto, esta obra fala de muito, muito mais. É como um iceberg: encerra no seu interior muito mais do que poderíamos conseguir adivinhar ao observar a superfície. Tem muito mais conteúdo do que as suas 1030 páginas conseguem abarcar. O discurso tem frequentemente um tom mordaz e irónico, e constitui um retrato bastante acutilante de muitos aspectos negativos da sociedade mexicana e da natureza humana no geral. Deixa-nos a pensar mesmo muito tempo depois de fecharmos as suas páginas.



Abro um pequeno parênteses para referir que nesta última fase do livro, a parte de Archimboldi, a escrita de Bolaño assume um carácter ainda mais mordaz e irónico. Chegando mesmo a ser espirituoso, como se a personalidade de Archimboldi/Reiter de emiscuisse na escrita, ou como se a escrita de Bolaño nesta fase tivesse influenciado a personagem. Deixo aqui um "pequeno" excerto que adorei:

"O editor, que se chamava Michael Bittner, mas que gostava ou que lhe agradava que os amigos o tratassem por Mickey, como o ratinho, explicou-lhe que um bombardeamento de saturação era quando um monte de aviões inimigos, mas um monte grande, enorme, superlativo, lançava as suas bombas sobre uma faixa de terreno na frente um bocado de campo previamente delimitado, até que dele não restasse nem uma folha de erva. 
- Não sei se me expliquei com clareza, Benno - disse ele olhando fixamente Archimboldi nos olhos.
- O senhor explicou-me com clareza total, Mickey - disse Archimboldi, ao mesmo tempo que pensava que o tipo em questão não era só chato, como também ridículo, com aquela ridicularia que só os histriões têm e os pobres-diabos convencidos de ter participado num momento determinante da História, quando é bem sabido, pensou Archimboldi, que a História, que é uma puta simples, não tem momentos determinantes, mas é sim uma proliferação de instantes de brevidades que rivalizam entre si em monstruosidade."

O autor, com o conhecimento da morte bastante próxima, tentou a todo o custo deixar a obra terminada, principalmente como legado financeiro para os seus herdeiros. As suas instruções foram para publicar as 5 partes individualmente, de forma a permitir uma maior segurança financeira aos herdeiros. No entanto estes decidiram acatar a opinião do seu amigo e editor, que a apreciação da obra só faria sentido como um todo e publicaram o livro único. Sobre o autor, deixo aqui uma ligação ao blog Bibliotecário de Babel, com um artigo interessante acerca de Bolaño e de 2666, pelo José Mário Silva.


Foram precisas seguramente mais de 100 páginas para eu me aperceber duma particularidade que é a principal característica "física" da escrita deste livro. Fiquei espantada por só após tanto texto lido (e este livro tem letra bem pequena e margens reduzidas) me ter apercebido e com a maior das naturalidades, que a escrita de Bolaño não apresenta parágrafos. Chegam a ser páginas e páginas de texto contínuo. Com o uso magistral da vírgula, com travessões e aspas a introduzir os diálogos (mas nem sempre). Depois de ouvir tanta gente afirmar que José Saramago, que nunca li, é difícil de ler devido aos diálogos corridos, frases longas e à ausência de parágrafos, fiquei naturalmente surpreendida. Dei-me ao trabalho de ir procurar algum livro de Saramago que sei que havia em casa dos meus pais (já desviado para a minha, claro!). Encontrei O Ano da Morte de Ricardo Reis (eu ia jurar que também tínhamos o  Memorial do Convento) e sem ler o texto, comparei a estrutura. É que a estrutura da prosa de Roberto Bolaño, sendo semelhante, é deliciosa.  Depois lá me lembrei que apesar das várias vozes que afirmam que José Saramago é "seca" e difícil de ler, tantas ou mais o veneram, e a palavra Nobel surgiu-me por fim. Fiz uma nota mental para ler Saramago o mais rapidamente possível. 
Enquanto não leio o Nobel, posso dizer que a escrita de Bolaño, pela ausência de pontos finais e parágrafos, se torna alucinante e de uma velocidade estonteante (indo ao encontro à escrita sem travão, que referi acima). Ao mesmo tempo evoca a naturalidade do discurso associado ao raciocínio, sem pausas nem limitações, e passando brevemente do narrador para o diálogo.


Com a leitura deste livro decidi, e já implementei, que vou passar a andar sempre com post-its colados no livro que estou a ler (daqueles bons, que colam bem sem estragar o papel, o que é que pensam?), e marcar a página de alguma passagem particularmente especial. Isto porque ao longo deste livro abundaram as passagens deliciosas. Sei que é um livro no qual vou pegar mais vezes, quando tiver vontade, mas para já, deixo-vos aqui uns excertos que já estavam publicados na net, e que apesar de não terem sido escolhidos por mim, bem que poderiam ter sido.


Excerto da parte I:

"A certeza porém foi que nem Pelletier nem Espinoza visitaram Norton no seu quarto nem uma única vez, pelo contrário,o quarto que Espinoza visitou, uma vez, foi o de Pelletier, e o quarto que Pelletier visitou, duas vezes, foi o de Espinoza, entusiasmados como crianças perante a notícia que se espalhava mais depressa do que um rastilho de pólvora, do que uma bomba atómica, pelos corredores e pelas reuniões em petitcomitédas jornadas, ou seja, que Archimboldi era candidato ao Nobel naquele ano, uma coisa que para os archimboldistas de todos os lados era não só um motivo de imensa alegria como também um triunfo e uma vingança. A tal ponto que foi em Salzburgo, precisamente, na Cervejaria O Touro Vermelho, durante uma noite cheia de brindes, que se assinou a paz entre os dois grupos principais de estudiosos archimboldianos, isto é, entre a facção de Pelletier e Espinoza e a facção de Borchmeyer, Pohl e Schwarz, que a partir de então decidiram, respeitando as suas diferenças e os seus métodos de interpretação, juntar esforços e não voltarem a passar rasteiras uns aos outros, o que expresso em termos práticos queria dizer que Pelletier já não vetaria os ensaios de Schwartz nas revistas onde ele mantinha um certo ascendente, e Schwartz já não vetaria os trabalhos de Pelletier nas publicações onde ele, Schwartz, era considerado um deus."

Excerto da parte IV:
"Viver neste deserto, pensou Lalo Cura enquanto o carro conduzido por Epifanio se afastava do descampado, é como viver no mar. A fronteira entre Sonora e o Arizona é um grupo de ilhas fantasmagóricas ou encantadas. As cidades e as aldeias são barcos. O deserto é um mar interminável. Este é um bom sítio para os peixes, sobretudo para os peixes que vivem nas fossas mais profundas, não para os homens."


Excerto da parte V:

"Toda a obra menor tem um autor secreto e todo o autor secreto é, por definição, um escritor de obras-primas. Quem é que escreveu tal obra menor? Aparentemente um escritor menor. A mulher deste pobre escritor pode testemunhar isso, ela viu-o sentado à mesa, inclinado sobre as páginas em branco, a retorcer-se e a deslizar a sua caneta sobre o papel. Parece uma testemunha irrebatível. Mas o que ela viu é só a parte exterior. A carapaça da literatura. Uma aparência – disse o velho ex-escritor a Archimboldi e Archimboldi lembrou-se de Ansky. – Quem na verdade está a escrever essa obra menor é um escritor secreto que só aceita os ditados de uma obra-prima.
O nosso bom artesão escreve. Está enfronhado naquilo que vai plasmando bem ou mal no papel. A sua mulher, sem que ele o saiba, observa-o. Efectivamente, é ele quem escreve. Mas se a sua mulher tivesse uma visão de raios X aperceber-se-ia de que não assiste propriamente a um exercício de criação literária, mas sim a uma sessão de hipnotismo. No interior do homem que está sentado a escrever não há nada. Nada que seja ele, quero dizer. Quão melhor faria esse pobre homem dedicando-se à leitura. A leitura é prazer e alegria de estar vivo ou tristeza de estar vivo e sobretudo é conhecimento e perguntas. A escrita, em compensação, costuma ser vazio. Nas entranhas do homem que escreve não há nada. Nada, quero dizer, que a sua mulher, num dado momento, possa reconhecer. Escreve por ditado. O seu romance ou poemário, decentes, decentezinhos, saem não por um exercício de estilo ou vontade, como o pobre desgraçado julga, mas sim graças a um exercício de ocultamento. É necessário que haja muitos livros, muitos pinheiros encantadores, para que escondam de olhares avessos o livro que realmente importa, a maldita gruta da nossa desgraça, a flor mágica do Inverno!
Desculpe as metáforas. Às vezes excito-me e fico romântico. Mas escute. Toda a obra que não seja uma obra-prima é, como lhe dizer, uma peça de uma vasta camuflagem. Você foi soldado, calculo, e já sabe ao que me refiro. Todo o livro que não seja uma obra-prima é carne para canhão, infantaria esforçada, peça sacrificável dado que reproduz, de múltiplas maneiras, o esquema da obra-prima. Quando compreendi esta verdade deixei de escrever. A minha mente, porém, não deixou de funcionar. Pelo contrário, ao não escrever
funcionava melhor. Perguntei-me: porque é que uma obra-prima precisa de estar oculta?, que estranhas forças a arrastam para o segredo e o mistério?
Já sabia que escrever era inútil. Ou que só valia a pena se uma pessoa estiver disposta a escrever uma obra-prima. A maior parte dos escritores engana-se ou brinca. Talvez enganar-se e brincar seja a mesma coisa, as duas faces da mesma moeda. Na realidade, nunca deixamos de ser crianças, crianças monstruosas cheias de dói-dóis e de varizes e de tumores e de manchas na pele, mas crianças afinal, isto é, nunca deixamos de nos agarrar ferreamente à vida dado que somos vida. Também se poderia dizer: somos teatro, somos música. De igual maneira, pouco são os escritores que renunciam. Brincamos a julgarmo-nos imortais. Enganamo-nos no
julgamento das nossas próprias obras e no julgamento sempre impreciso das obras dos outros. Vemo-nos no Nobel, dizem os escritores, como quem diz: vemo-nos no Inferno."

in 2666, Roberto Bolaño. Tradução de Cristina Rodríguez e Artur Guerra, Quetzal, 2009





Sei que muito do que queria expor ficou por dizer, e certamente muito me terá escapado (e que poucas almas leram este texto até ao fim). É um livro denso e tão engraçado como terrivelmente sério. Marca-nos assim que começamos a desfolhar as primeiras páginas. A única justiça que posso fazer a este livro é recomendar a sua leitura. Entendo que não seja uma leitura fácil para alguns e que  possa ser cansativa pela sua extensão (é um livro realmente longo) e densidade. Recomendo pois que este livro seja lido com calma e seguindo um ritmo muito particular, pois se for lido com prazer e devidamente apreciado, é sem dúvida uma leitura daquelas que nunca esquecemos. 

Por fim, para os resistentes e audazes que leram este testamento e querem ler mais… Vão ler o livro! Depois disso, passem no blog HÁ SEMPRE UM LIVRO… à nossa espera!, onde está publicada uma fenomenal análise de 2666 (atentem, não uma mera opinião ou suposta crítica, mas uma verdadeira análise), pela Cláudia de Sousa Dias. A análise do livro está publicada em 5 partes (uma para cada parte do livro), não percam nenhuma. Recomendo que leiam primeiro o livro ou circulem cuidadosamente, devido aos spoilers.



O melhor: A entrega de Bolaño na sua escrita
O pior: É tão pesado…
5/5 – Excelente!


 

17/01/2011

A Senhora de Shalador, Anne Bishop

A Senhora de Shalador, Anne Bishop

Título Original: Shalador's Lady
Núm. páginas: 496
Editora: Saída de Emergência

Sinopse: Durante longos anos, o povo de Shalador suportou as crueldades das Rainhas corruptas que reinavam, proibindo tradições, punindo quem se atrevia a desafiá-las e forçando muitos à clandestinidade. Pese embora os refugiados tenham encontrado abrigo em Dena Nehele, nunca conseguiram considerar esse lugar como a sua terra. Agora, depois da aniquilação dos Sangue deturpados de Dena Nehele após a purificação, a Rainha de Jóia Rosa, Senhora Cassidy, assume como seu dever restaurar a terra e dar provas das suas capacidades como soberana. Ciente de que para assumir tal tarefa irá precisar de todo o ânimo e coragem que conseguir reunir, invoca o poder dentro dela que nunca fora posto à prova, um poder capaz de a consumir caso não consiga controlá-lo. Ainda que a Senhora Cassidy sobreviva à sua prova de fogo, outros perigos a aguardam. Pois as Viúvas Negras descortinam nas suas teias entrelaçadas visões de algo iminente que irá mudar a terra - e a Senhora Cassidy - para sempre.


Opinião: A história deste livro passa-se logo a seguir aos acontecimentos de Aliança das Trevas. Cassidy é Rainha de Dena Nehele, com um contrato de apenas um ano de experiência. Este povo muito fragilizado e maltratado está tão sedento de uma boa Rainha como a própria terra. Depois de ter recuperado o tesouro de Lia, a antiga Rainha de Jóia Cinzenta do território, Cassidy conquistou a simpatia e a confiança da sua corte e dos habitantes da sua casa. Esta Rainha de Jóia Rosa está gradualmente a demonstrar a sua capacidade de fazer renascer Dena Nehele, quer junto dos Sangue e dos plebeus da povoação de Grayhaven como também junto dos Sangue influentes do resto do território. Mas nem todos sentem que Cassidy possa fazer a diferença, e existem aqueles que sobreviveram à purificação dos Reinos mas que contêm em si uma semente de perversidade e da deturpação dos Sangue. Essa semente pode encontrar terreno para germinar no coração de uma jovem e insegura Rainha, e destruí-la se esta não for protegida. 



Sou uma fan incondicional de Anne Bishop. O seu mundo das Jóias Negras arrebatou-me de forma inesperada e irregovável desde Filha do Sangue, e estas personagens e o seu negro mundo nunca mais me largaram. Para quem já leu a trilogia das Jóias Negras, é fácil perceber que sou uma apaixonada por este mundo e as suas personagens. Basta atentar no próprio nick que escolhi para me apresentar: SaDiablo. É um nome que traz tanto significado. É o nome da minha personagem favorita desta autora, e é o nome da minha segunda personagem favorita, e também (com uma ligeira variação) da minha terceira personagem favorita. A minha quarta personagem favorita não se chama SaDiablo devido a um acontecimento que é desvendado na trama da trilogia, mas é filho da favorita e irmão da terceira. Confuso? Para os estreantes no mundo fascinante de Anne Bishop, cedo percebem que esta é uma família a ter em consideração, e que aprenderão a amar. Para os já convertidos, desafio-vos a adivinhar as minhas preferências. Mas adiante... (para uma descrição muito precisa do significado que esta autora tem para mim, convido-vos a ler este post da Carla Ribeiro, leitora convidada da Célia no Estante de Livros). É sem dúvida uma das minhas autoras favoritas (só perde para Juliet Marillier) e aguardava com expectativa este A Senhora de Shalador.



Apesar da minha devoção a esta autora, foi a muito contragosto que me tive de admitir não ter gostado tanto de alguns dos últimos livros publicados. Em Jóia Perdida achei que muito do potencial da história ficou por terra, e nem o protagonismo da fantástica Surreal e do rebenta-paredes Lucivar, ambos sempre deliciosos, conseguiu trazer o livro ao nível que Bishop nos tinha vindo a habituar. Com Sebastian e Belladona, Bishop apresenta-nos todo um novo universo, Efémera. E apesar de serem livros que gostei imenso e me terem agarrado do início ao fim, não me arrebataram como as Jóias Negras (que estão por si só num patamar muito elevado de comparação). O Anel Oculto apresenta-nos acontecimentos fora da série temporal dos anteriores das Jóias Negras, e apesar de ser um excelente livro, não evitei sentir saudades das personagens que tanto adoro. É no seguimento deste que surge Aliança das Trevas, com novas personagens principais, mas um protagonismo partilhado com o clã SaDiablo e companhia, e devo dizer que isso fez toda a diferença.



E assim chegamos a este A Senhora de Shalador, continuação directa do anterior. O melhor elogio que posso fazer a este livro é que me fez regressar ao mundo das Jóias Negras de uma forma tão arrebatadora como já não acontecia desde a trilogia e Teias de Sonhos. Uma Anne Bishop da qual já sentia saudades e que tem em mim um efeito de droga. Este livro deixou-me ao mesmo tempo saciada e exultante, com vontade de ter mais; para logo a seguir começar sofrer os terríveis efeitos de abstinência com o esgotar da dose. Li-o em dois dias, com direito a noitadas e olheiras consideráveis no dia seguinte. 

A história desta nova Rainha, da sua corte e do seu povo cativou-me e fez-me ler noite adentro. As novas personagens, densas e tão interessantes como as já conhecidas conquistaram-me. Os Parentes fizeram-me rir e quase chorar. A malvadez e a deturpação dos vilões, e a estupidez e cegueira daquele que não é vilão no coração fizeram-me virar páginas furiosamente para ler mais. E claro... as minhas personagens favoritas agarram-me em todos os capítulos em que surgem. Um balão de oxigénio que eu mal conseguia largar, um pedacinho mais desta droga que me faz rir tanto como faz chorar. Matei algumas das saudades destas pessoas que não existem, e fiquei com muitas mais. Talvez seja impressão minha, mas creio que detectei na escrita sentimentos semelhantes da própria autora, como se cada linha escrita acerca de Jaenelle, Daemon, Lucivar, Saetan, Deamonar, Draca e Karla (Beijinho, Beijinho) fosse um presente auto-imposto. Como se a autora sentisse tanto prazer a escrever sobre este mundo, como nós a ler. E tanto carinho e adoração pelas suas criações como os seus leitores mais fieis.

Acredito mesmo que assim seja, e recomendo sem qualquer reserva este livro a leitores de Anne Bishop, mesmo aqueles que se desligaram um pouco da autora. E recomendo também, e recomendo sempre, àqueles que ainda não conhecem esta autora que não percam tempo. Não é um tipo de leitura para todos os gostos, e há quem recomende apenas a estômagos fortes, mas é sem dúvida um universo arrebatador e apaixonante.


Deixando apenas umas notas finais, positivas e negativas (que este testamento já vai longo). Mais uma vez uma capa muito bonita e apelativa, e uma excelente tradução da Cristina Correia, como tem sido hábito! 
Por outro lado, além do enorme azar que tiveram com a exclusão inadvertida de um capítulo da história, é impossível não reparar no pobre trabalho de revisão que este livro foi alvo. Para aqueles que, como eu, não perdoam uma dose considerável de gralhas, exorto-vos a ignorá-las e prosseguir a leitura, que recompensa os pequenos erros. Não é nada comum no trabalho desta editora, que nos tem proporcionado livros com excelente qualidade gráfica e edições muito boas, por isso esperemos que este livro tenha nos próximos tempos uma nova edição com as devidas correcções.


O melhor: Um excelente regresso ao universo das Jóias Negras.

O pior: Os problemas de nível gráfico que têm assolado esta edição, mas que acabam por não ensombrar a qualidade do livro.



5/5 - Excelente!

07/12/2010

A Rapariga que Sonhava com Uma Lata de Gasolina e um Fósforo, Stieg Larsson


A Rapariga que Sonhava com Uma Lata de Gasolina e um Fósforo, Stieg Larsson
Editora: Oceanos
ISBN: 9789892303451


Sinopse: Depois do sucesso mundial de Os Homens Que Odeiam as Mulheres, o segundo volume da trilogia Millennium revela-se ainda mais empolgante. Enquanto Lisbeth Salander goza de uma vida aparentemente tranquila nas Caraíbas, Mikael Blomkvist, reabilitado, vitorioso, prepara um número especial da revista Millennium sobre um tema escaldante para algumas personalidades altamente colocadas: uma história sombria de prostitutas exportadas dos países de Leste. O livro que os muitos milhares de leitores de Stieg Larsson esperavam ansiosamente.




Opinião: Após a leitura do primeiro volume da trilogia Millenium, já parti para este livro com a certeza que seria mais uma dose de excelente literatura. Não sabia o quanto.

Encontramos Lisbeth Salander e Mikael Blomkvist algum tempo após os acontecimentos do livro anterior, cada um para seu lado, e cada um à sua maneira. 
No meio de uma investigação de uma rede de tráfico sexual de mulheres na Suécia prestes a expor uma série de personalidades importantes, 3 assassinatos definem o início de uma série de acontecimentos que deixam o leitor sem fôlego, mas sempre sôfrego pela página seguinte. 
Uma trama magnificamente tecida, com fios muito mais profundos e sérios do que podemos possivelmente imaginar, personagens habilmente construídas e tão reais que nos ligamos a elas. Lisbeth Salander é claramente a estrela mais brilhante, e apesar de ser uma jovem extremamente anti-social, tem a capacidade de cativar o leitor imediatamente. 

É sem dúvida um livro excelente que recomendo a toda a gente, especialmente a quem odeia os homens que odeiam as mulheres.

O melhor: Lisbeth
O pior: O final deixa-nos a arfar pela continuação!

5/5 - Excelente!


18/11/2010

Duna, Frank Herbert

Duna, Frank Herbert
Editora: Saída de Emergência
Título Original: Dune
Tradutor: Jorge Candeias
Nº Páginas: 576



Tem nas suas mãos aquele que é considerado o melhor romance de ficção científica de sempre. Uma obra que arrebatou a crítica com o estilo poderoso de Frank Herbert e conquistou milhões de leitores com a sua imaginação prodigiosa. Prepare-se para uma viagem que nunca irá esquecer, até um longínquo planeta chamado Arrakis...


Sinopse: O Duque Atreides é enviado para governar o planeta Arrakis, mais conhecido como Duna. Coberto por areia e montanhas, parece o local mais miserável do Império. Mas as aparências enganam: apenas em Arrakis se encontra a especiaria, uma droga imensamente valiosa e sem a qual o Império se desmoronará. O Duque sabe que a sua posição em Duna é invejada pelos seus inimigos, mas nem a cautela o salvará. E quando o pior acontece caberá ao seu filho, Paul Atreides, vingar-se da conspiração contra a sua família e refugiar-se no deserto para se tornar no misterioso homem de nome Muad'Dib. Mas Paul é muito mais do que o herdeiro da Casa Atreides. Ao viver no deserto entre o povo Fremen, ele tornar-se-á não apenas no líder, mas num messias, libertando o imenso poder que Duna abriga numa guerra que irá ter repercussões em todo o Império...

  

Opinião: Confesso que uma das minhas falhas literárias é no género da FC. Para uma junky de filmes de ficção científica desde miúda, nem sei explicar porque é que nunca peguei numa verdadeira obra literária do género. Tratarei de resolver este assunto nas próximas leituras! Para já, comecei com Duna, de Frank Herbert. Aparentemente não poderia ter-me estreado com melhor material, uma vez que este é considerado “O Senhor dos Anéis da Ficção Científica”.

Travei o primeiro conhecimento com o universo de Dune na minha infância. O filme saiu antes de eu ter nascido, mas o VHS passava muitas vezes no vídeo lá de casa. Vi-o a última vez certamente há mais de 10 anos, e já recordava muito pouco da história, além de Arrakis e o Muad’Dib de olhos de profundo azul brilhante. Agora que finalmente li o livro de Frank Herbert que deu origem ao filme (e a diversos jogos, séries de tv, etc) é engraçado ter sentido que aquilo que mais recordava do filme era o que menos importância tem no contexto global do livro. Recordei os excelentes fatos destilatórios, os vermes da areia, o planeta deserto de Duna e as suas dunas, os olhos de profundo azul e as armas de laser, e claro, Muad’Dib. Mas ao recordar todas essas coisas, quase que elas foram afastadas para o segundo plano, à medida que descobria e me perdia no tom épico da história.

A casa Atreides é nomeada o poder governante no inóspito planeta Arrakis. Apesar de ser a única fonte no universo da valiosa especiaria Melange, poucos consideram Duna um destino suportável. Mas a ausência de água, temperaturas abrasadoras numa superfície quase totalmente coberta por areia e rocha e um povo nativo pouco dócil – os Fremen – não constituem o real perigo para a casa Atreides. Começamos por conhecer o jovem Paul Atreides, filho do Duque Leto Atreides e da concubina Jessica, uma Bene Gesserit que teve a ousadia de gerar um filho sem o aval da sua Ordem (e treiná-lo nos seus ensinamentos mentais e físicos). Paul rapidamente se destaca com a sua familiaridade e fácil adaptação à agreste realidade de Arrakis. Quando a conspiração do inimigo mortal, o Barão Harkonnen, se concretiza, Paul e a mãe vêm-se obrigados a recuar para o deserto profundo e a viver entre os fremen. Mas o que surgiu como uma luta pela sobrevivência torna-se um intenso propósito superior a uma simples vingança.

Este livro tem todos os elementos que uma obra literária deve ter. Tem personagens densas e cenários bem construídos. Tem um fio condutor em redor do qual se desencadeia toda a história. Tem as motivações das suas personagens expostas nas suas acções. Tem tragédia, amor, honra e um “motivo maior”. Tem um universo complexo e bem construído. E principalmente, é completamente actual, não esquecendo a data da sua publicação em plenos anos 60 do século passado!
Filosofia, religião, messianismo e propósito. Culto, tragédia, devoção e ecologia. Tudo isto é Duna.

As analogias da cultura nómada árabe na construção dos Fremen, povo do deserto estão bastante bem conseguidas e é um dos factores que torna este livro bastante actual.

Além do ”conteúdo”, este livro está bastante bem escrito. Reconheço que é um estilo pouco vulgar e por vezes difícil, mas é estimulante e compensador ao mesmo tempo. Gostei bastante das introduções a cada capítulo, com as epígrafes em forma dos excertos dos textos literários da Princesa Irulan. Dão profundidade à narrativa e impelem o leitor a querer ler mais.

Esta obra não é perfeita, como nenhuma é. As motivações internas das personagens, sempre totalmente centradas em Muad’Dib, e o tom dos discursos e dos conhecimentos prescientes de Jessica e Paul chegam a ser cansativos no seu tom repetitivo. Mas essa repetição deve-se muito ao facto de termos a visão do pensamento de todas as personagens, mudando o foco com o decorrer da acção.

O melhor romance de Ficção Científica de sempre, dizem eles. "Eles" devem ter lido muitos. Eu só li este, e fiquei totalmente rendida. É uma obra obrigatória.

O melhor: O tom épico de todo o livro
O pior: Já devia ter lido isto há anos!

5/5 - Excelente!

31/10/2010

Os Leões de Al-Rassan


Saída de Emergência lançou este mês uma nova edição do fantástico Os Leões de Al-Rassan! Com nova capa, um prefácio do autor, Guy Gavriel Kay, e o mapa que faltou na primeira edição em português. 
Como grande admiradora deste livro, é com grande satisfação que vejo este melhoramento na edição. E mais ainda com as intenções da editora de publicar outra obra deste autor em 2011. Aproveito para deixar aqui a minha opinião deste maravilhoso livro, lido há alguns meses, na primeira edição.






Título: Os Leões de Al-Rassan
Autor: Guy Gavriel Kay
Editora: Saída de Emergência
Nº de páginas: 548
Ano de edição: 2008





Sinopse: "Inspirado na História da Península Ibérica, Os Leões de Al-Rassan é uma épica e comovente história sobre amor, lealdades divididas e aquilo que acontece aos homens e mulheres quando crenças apaixonadas conspiram para refazer – ou destruir – o mundo. Lar de três culturas muito diferentes, Al-Rassan é uma terra de beleza sedutora e história violenta. A paz entre Jaddites, Asharites e Kindath é precária e frágil, mas é precisamente a sombra que separa os povos que acaba por unir três personagens extraordinárias: o orgulhoso Ammar ibn Khairan – poeta, diplomata e soldado, o corajoso Rodrigo Belmonte – famoso líder militar, e a bela e sensual Jehane bet Ishak – física brilhante. Três figuras cuja vida se irá cruzar devido a uma série de eventos marcantes que levam Al-Rassan ao limiar da guerra."



Opinião: Adorei este livro! Um épico grandioso, com personagens excelentes e bem construídas. A escrita é fascinante, pela maneira como me soa ligeiramente diferente de cada vez que estamos sob o ponto de vista uma personagem distinta, e nos prende aos acontecimentos futuros (que às vezes já são passado, mas nós ainda não sabemos como aconteceram). 

É comovente, sem ser lamechas. É poético, sem ser cliché. É histórico, de uma forma que chega a ser irónica. As 3 religiões introduzidas de forma tão clara e tão bela. Faz-nos pensar que todas as culturas são diferentes e interessantes na sua diversidade, todas são belas, nenhuma é totalmente bárbara por si só. Porque o ser humano é que o é. 

Fiquei profundamente tocada pelas personagens principais. Se fosse um cidadão de Al-Rassan a minha indecisão seria a de me apaixonar pelo Poeta ou de seguir o Capitão para a guerra. Ou faria ambas as coisas. 

As reviravoltas na narrativa são magníficas, porque mesmo quando estamos quase a adivinhar o que aconteceu, a maneira como o autor escreve faz-nos acreditar que afinal estávamos enganados, para depois sermos surpreendidos novamente. 

Adorei a maneira inteligente e bela (estou sempre a usar esta palavra, mas não me ocorre nenhuma mais precisa) como o autor relacionou a questão das religiões e diferentes culturas, sem deixar de ser muito próxima dos acontecimentos históricos. Se não nas questões geográficas e cronológicas da península e do continente, muito precisa nos acontecimentos, intrigas e motivações que deram origem a guerras e "reconquistas"

5/5 - Excelente

30/10/2010

A Sombra do Vento, Carlos Ruiz Zafón




Título: A Sombra do Vento
Autor: Carlos Ruiz Zafón
Editora: Dom Quixote
Nº de páginas: 400
Ano de edição: 2001


Sinopse: "Numa manhã de 1945, um rapaz é conduzido pelo pai a um lugar misterioso, oculto no coração da cidade velha: O Cemitério dos Livros Esquecidos. Aí, Daniel Sempere encontra um livro maldito que muda o rumo da sua vida e o arrasta para um labirinto de intrigas e segredos enterrados na alma obscura de Barcelona. Juntando as técnicas do relato de intriga e suspense, o romance histórico e a comédia de costumes, "A Sombra do Vento" é sobretudo uma trágica história de amor cujo eco se projecta através do tempo."


Opinião: Numa escrita fabulosa, Carlos Ruiz Zafón conta-nos a história de um livro, dos seus leitores e do seu autor. As histórias e as vidas dos dois protagonistas confundem-se entre si, e nós confundimo-nos nelas. Um livro inebriante que não se consegue largar. A escrita magnífica apresenta-nos uma história profundamente tocante, cheia de segredos e personagens misteriosas, que nos enredam à medida que os protagonistas se envolvem nos próprios mistérios obscuros.
Somos ainda presenteados com pérolas de sabedoria popular à moda de Barcelona, na voz de Fermín Romero de Torres, uma das melhores personagens que tenho conhecido nos últimos tempos.
O autor revela um profundo conhecimento da natureza humana, sendo Barcelona um palco com o arrepiante cenário da Guerra Civil Espanhola e o regime fascista.
Um livro que permanece connosco muito depois de termos fechado as suas páginas.

5/5 - Excelente