Bibliofilia: Amor por livros e por ler. O Bibliófilo ama ler e sente devoção pelos livros, colecciona-os e admira-os.
Mostrar mensagens com a etiqueta Opinião. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Opinião. Mostrar todas as mensagens

09/09/2013

Queen Hereafter

A novel of Margaret of Scotland

Autora: Susan Fraser King

Editado por: Broadway Books (2010)

Nº de páginas: 354

Editado Originalmente: Crown (2010)

Sinopse: The story of Margaret, the Hungarian-born Saxon princess who married Malcolm Canmore, King of Scots, bringing reform and foreign ways to Scotland—Queen Hereafter is also a tale of Margaret’s friendship and rivalry with Eva, a Scottish harper, and Eva’s kinswoman, the former Queen Gruadh, known as Lady Macbeth.





Opinião: Uma das rainhas mais relembrada da Escócia, a rainha Margarida é uma importante personalidade histórica e religiosa das Grã-Bretanha. Chamada Rainha Santa, canonizada pelo Vaticano e aclamada na Escócia, deixou um importante legado e a sua memória sobrevive ainda hoje, em nomes de localidades, igrejas e escolas. É nos anos de juventude desta rainha que se centra este livro, desde a sua chegada não programada às costas da Escócia com a mãe e os irmãos, até aos primeiros anos do seu casamento com Malcolm III da Escócia. 

Edgar of Wessex, herdeiro ao trono de Inglaterra, vive na corte inglesa com a mãe Agatha e as irmãs Margaret e Cristina. Edgar viveu toda a sua vida em exílio na Europa, e sendo menor de idade e sem condições para governar numa época atribulada, é protegido por Harold II, que assume o governo de Inglaterra até à coroação do jovem Edgar. Com a invasão normanda da Inglaterra, Harold é morto por William, o Conquistador, que usurpa o trono, não deixando outra alternativa ao herdeiro Edgar, e à sua família senão fugir de terras inglesas. O barco em que viajam tem destino a Europa continental, mas uma tempestade (natureza, destino ou providência) arrasta os fugitivos para fora de rota, atirando-os para a porta do Rei Malcolm III da Escócia. Malcolm vive com alguns problemas no seu próprio reino. Tendo morto em batalha os anteriores reis, assumiu o trono de um país dividido entre si, além dos confrontos com Inglaterra. Os senhores do Norte não assumem abertamente rebelião, mas demonstram má vontade para com o Rei, mantendo-se fieis à viúva e mãe dos anteriores reis, Lady Mcbeth. Esta planeia enviar a sua neta, Eva, uma bardo de talento extraordinário e enorme beleza, para a corte de Malcolm, para que esta a informe acerca da nova rainha, e dos planos do rei para o norte do reino. 

Com estas duas facções no seio do reino da Escócia surgem duas personagens que vão guiar o rumo deste livro: Margaret, esposa do Rei Malcolm, lidando de perto com a guerra com os Normandos em Inglaterra, a luta do irmão para retomar o trono e a sua própria luta religiosa interior; e Eva, uma jovem com a missão de lutar pela independência cultural e religiosa de uma Escócia que absorve as influências inglesas da nova rainha. 

Conhecemos estas duas mulheres num capítulo inicial que corresponde à parte final do livro. Eva está presa, Margaret confronta-a com as suas acções e tomamos conhecimento de uma amizade profunda que foi traída, e de um julgamento religioso que se aproxima. O resto do livro conta-nos como ambas chegaram a este ponto. 

Foi uma leitura que me entusiasmou bastante. Adorei a voz da autora e a maneira como introduziu os elementos históricos na narrativa, incluindo pequenos detalhes acerca de Margaret (como as duas tranças loiras sob o véu branco, como é frequentemente retratada, os locais onde passou ou fez obra e que hoje têm o seu nome, a amizade com o monge que viria a ser o seu confessor e os responsável pela documentação da sua biografia, etc). Este detalhe e profundidade da personagem fizeram-me simpatizar com esta rainha religiosa. Por outro lado, a jovem e nobre Eva é também ela uma personagem cativante e interessante. O melhor elogio que posso fazer à maneira como a autora mostrou os pontos de vista destas duas mulheres, é que fez-me não saber por quem torcer no desenrolar dos acontecimentos e do futuro da Escócia, de tal forma ambas as causas me cativaram. No final de tudo, a História determina o final do livro, mas a maneira como lá cheguei manteve-me agarrada à leitura.

Este livro tinha quase tudo para ser uma leitura perfeita para mim, mas achei que faltou algum acontecimento trágico, uma drama emocional ou físico, uma parte mais emocionante que envolvesse as personagens antes do fim. Creio que a autora tentou fazê-lo, mas para mim não foi muito bem conseguido, e acabou por ser um pouco anti-climático. Gostava também que a personagem de Eva tivesse mantido até ao final mais do seu carácter e postura de bardo, e saber um pouco mais sobre esta importante figura da cultura celta. Inesperadamente, fiquei muito curiosa em relação à personagem histórica da esposa e rainha de Mcbeth,  e talvez leia o livro que acabei por descobrir que a autora tem, dedicado a ela.

Em suma, é um belo romance histórico, bem escrito e com personagens cativantes e uma história bem contada. Recomendo, sobretudo a fãs do género. 


O melhor: As personagens Margaret e Eva. A forma como a autora conseguiu incluir os factos históricos na personalidade e destino das personagens. 

O pior: A ausência de um verdadeiro climax na história. 


4/5 - Gostei bastante

03/09/2013

Letters from Skye

Autora: Jessica Brockmole

Publicado por: Ballantine Books (Julho 2013)

Nº de páginas: 304

Sinopse: A sweeping story told in letters, spanning two continents and two world wars, Jessica Brockmole’s atmospheric debut novel captures the indelible ways that people fall in love, and celebrates the power of the written word to stir the heart.

March 1912: Twenty-four-year-old Elspeth Dunn, a published poet, has never seen the world beyond her home on Scotland’s remote Isle of Skye. So she is astonished when her first fan letter arrives, from a college student, David Graham, in far-away America. As the two strike up a correspondence—sharing their favorite books, wildest hopes, and deepest secrets—their exchanges blossom into friendship, and eventually into love. But as World War I engulfs Europe and David volunteers as an ambulance driver on the Western front, Elspeth can only wait for him on Skye, hoping he’ll survive.
June 1940: At the start of World War II, Elspeth’s daughter, Margaret, has fallen for a pilot in the Royal Air Force. Her mother warns her against seeking love in wartime, an admonition Margaret doesn’t understand. Then, after a bomb rocks Elspeth’s house, and letters that were hidden in a wall come raining down, Elspeth disappears. Only a single letter remains as a clue to Elspeth’s whereabouts. As Margaret sets out to discover where her mother has gone, she must also face the truth of what happened to her family long ago.


Opinião: A história divide-se entre duas linhas temporais distintas, contada pelas cartas trocadas entre duas gerações de mulheres cujas vidas foram interrompidas pela guerra. Começamos por conhecer Elspeth, uma poeta escocesa que vive e sempre viveu na isolada Ilha de Skye, no norte da Escócia, e David, um jovem e boémio estudante universitário norte-americano. A distância de dois mundos entre estas duas pessoas torna-se insignificante em cada volta do correio, em cartas onde partilham autores e livros favoritos, confidências e sonhos pessoais, numa troca de correspondência que se mantém, mesmo no auge da Primeira Guerra Mundial. Em correspondência datada de algumas décadas mais tarde, em plena Segunda Guerra Mundial, conhecemos Margaret, filha de Elspeth, que acaba se de apaixonar por um piloto da Força Aérea Britânica, e que não entende a reticência da mãe em aprovar um romance nascido no seio de uma guerra. 

Este livro chegou-me electronicamente às mãos, totalmente por acaso. Estava a pesquisar títulos de livros no catálogo do NetGalley, quando o nome Skye me chamou a atenção, e fiz o pedido para me ser enviada uma cópia do e-book antes da publicação do livro. Não sabia absolutamente nada acerca do enredo do livro, uma vez que apenas li a sinopse até ao ponto em que me confirmou que a história envolvia de facto a minha ilha escocesa favorita (a única que visitei, sejamos honestos). Dois meses depois, passeando pelo Goodreads em busca da minha leitura seguinte, verifiquei que a minha adorada Juliet Marillier tinha gostado do livro, e comparava-o a um outro que eu própria adorei: A Sociedade Literária da Tarde da Casca de Batata, de Mary Ann Shaffer and Annie Barrows. 

Portanto, além da aprovação da minha querida Juliet, este livro continha elementos-chave para mim: romance epistolar, período histórico da Segunda Guerra Mundial, e Escócia. Como não gostar? E a verdade é que gostei. Fui cativada imediatamente pela primeira carta de David, e assim continuei até à última de todas, que quase me fez chorar. Com os mesmos remetente e destinatário, essas duas cartas, separadas por décadas e vidas inteiras, não podiam ser mais diferentes. Entre estas duas cartas há uma belíssima história de amizade, destino e sentimentos profundos que surgem como se sempre estivessem lá estado. Há cartas divertidas e cartas sérias, que relatam felicidade e guerra, e cartas mundanas de rotinas e novidades, e mesmo no meio de desgraças um tom espirituoso que me fez sorrir. 

Em todas as cartas há uma voz particular da personagem que a escreve. Quantas vezes saltei o cabeçalho com data e local, ansiosa por chegar ao texto, e sabia de imediato de quem e para quem era a carta, quase como se fosse um filme e ouvisse a voz do actor a ler a carta em voz alta, e visse a imagem do destinatário a lê-la.

A dada altura na leitura achei que a história se ia focar unicamente no lado romântico, e fui agradavelmente surpreendida com uma complexidade inesperada na narrativa, com dilemas e situações envolvendo outras personagens secundárias, e até um pouco de mistério, à medida que Margaret se esforça por entender o passado e a origem das cartas da mãe. 

Este não é um livro brilhante nem uma história extraordinária. Nem sequer tem no tema ou no cenário algo de particularmente original. No entanto, algo neste livro é genuíno e tocante, e está escrito duma forma cativante, que demonstra o talento da autora para nos fazer gostar das personagens que estamos a seguir. O facto de lermos a sua correspondência e nada mais, sem outro narrador que não as cartas que estas personagens enviaram, permite-nos seguir esta história quase em suspenso, como se ansiássemos também nós pela carta seguinte, com o desenrolar dos acontecimentos. Ao mesmo tempo, as cartas estão realisticamente escritas, o que implica por vezes a menção de acontecimentos passados entre as personagens, que não sendo descritos nas cartas entre ambos, deixam o leitor ansioso por descobrir o como e o porquê.  

Achei o tom das cartas simplesmente delicioso, e senti saudades dum tempo em que seres humanos comunicavam desta forma entre si. Se tivesse nascido nesse tempo seria algum dia capaz de escrever cartas tão espirituosas e marcantes? Manter uma correspondência tão frequente e sólida? Dificilmente. Porque afinal de contas trata-se de um livro de ficção, e tal como qualquer bom livro que se preze, quase nos faz desejar que as suas personagens sejam verdadeiras e a sua história seja real. 

Ideal para quem gosta de romances epistolares, mas não só, este foi uma leitura que me deu bastante gozo e que fico contente por tão casualmente a ter descoberto. 

O melhor: A personagem de Elspeth e a busca de Margaret.

O pior: A personagem do noivo de Margaret, sub desenvolvida, como se apenas para criar um destinatário para as suas cartas.


4/5 - Gostei bastante


30/08/2013

The Ocean at the End of the Lane

Autor: Neil Gaiman

Publicado por: Headline Review (2013)

Nº de páginas: 248

Sinopse: THE OCEAN AT THE END OF THE LANE is a fable that reshapes modern fantasy: moving, terrifying and elegiac - as pure as a dream, as delicate as a butterfly's wing, as dangerous as a knife in the dark, from storytelling genius Neil Gaiman. 

It began for our narrator forty years ago when the family lodger stole their car and committed suicide in it, stirring up ancient powers best left undisturbed. Dark creatures from beyond the world are on the loose, and it will take everything our narrator has just to stay alive: there is primal horror here, and menace unleashed - within his family and from the forces that have gathered to destroy it. 

His only defense is three women, on a farm at the end of the lane. The youngest of them claims that her duckpond is ocean. The oldest can remember the Big Bang.

Opinião: Este é daqueles livros acerca dos quais me é difícil escrever uma opinião. Primeiro surge o meu historial Neil Gaiman:

- Dois livros do autor lidos (Deuses Americanos e A Estranha Vida de Nobody Owens), ambos com pontos muito positivos a salientar mas sem me terem deixado realmente fã; 
- Devoção ao autor da parte de amigos e colegas bibliófilos;
- Uma simpatia pessoal muito grande pelo autor e pela sua postura online (nomeadamente no twitter) e offline, em particular em relação aos fãs e tudo relacionado com livros no geral.

Depois surge o historial que incentivo à leitura deste The Ocean at the End of the Lane:

- Um inacreditável hype em redor do livro e do autor semanas antes e depois da publicação;
- Opiniões de pessoas maravilhadas com o livro;
- Capa bonita! (também conta, e foi o que me fez comprar o hardcover em Londres quando o vi ao vivo)

Feita esta contextualização, espero que compreendam melhor quando digo que este era um livro que eu adorava ter adorado. Pelo autor em si, pela simpatia que lhe tenho, e todo o reconhecimento que tem, Neil Gaiman é um autor do qual eu quero (desesperadamente) gostar, mas que de alguma forma fico sempre um furo abaixo de conseguir. 

The Ocean at the End of the Lane é um livro pequeno que foi lido rapidamente (principalmente para o meu ritmo preguiçoso de Verão e sol), devido quer ao ritmo ao qual os acontecimentos se sucedem, quer à prosa do autor, da qual gostei bastante. Tendo em conta o ponto de vista de um menino, era muito fácil falhar no tom da narrativa, no entanto Neil Gaiman conseguiu tornar a sua voz cativante e inocente, sem ser demasiado infantil. Gaiman é, afinal de contas, um autor de muitas obras infantis de sucesso. 

Foi por isso uma surpresa (ou não), quando ao chegar ao fim deste livro me encontrei perdida. A verdade é que não sabia se tinha gostado ou não. Sim, vi-me envolvida na história enquanto a lia, mas nada dela ficou em mim depois de ter terminado o livro. Apesar de reconhecer que está bem escrito (o tom nostálgico do livro é palpável e sem dúvida intencional), nem personagens, nem história, nem escrita me marcaram particularmente. Este é mais um livro de Neil Gaiman que eu tenho de admitir ter pontos bastantes positivos e um conceito interessante, mas que simplesmente não é para mim. 

Apesar de admitir que os seus livros não me cativam sobremaneira, não ouso afirmar que é um mau escritor. Ainda que não me sinta particularmente cativada, tenho a sensibilidade suficiente para perceber que escreve de forma fantástica e domina completamente a prosa que lhe sai das mãos. Todo o aclamado "génio do autor", que identifiquei em livros anteriores, não resulta comigo. Ou ainda não li o livro certo. Como sou teimosa e como já disse, tenho uma simpatia por este autor, vou continuar a tentar. Faço uma nota mental que a escrita do autor em si me agrada mais de livro para livro (o primeiro foi lido em português, o segundo metade tradução, metade original, e o terceiro no original), portanto no futuro manter-me-ei pelas versões originais.

Assim sendo, não recomendo nem deixo de recomendar este livro. Recomendo sim, que o leitor curioso faça o seu próprio juízo desta obra e deste autor, e espero honestamente que resulte com outros leitores como não resultou comigo. 

O melhor: A escrita que transparece a nostalgia e melancolia, de um adulto que recorda a sua infância como uma parte da sua vida que não pode recuperar. As mulheres Hempstock. 

O pior: Falta de empatia com personagens e história. 


2/5 - Está OK. 


23/08/2013

White Rose Rebel



Autora: Janet Paisley

Editora: Viking (2007)

Nº de páginas: 391

Publicado originalmente: Penguin/Viking (2007)

Sinopse (da edição portuguesa): Numa época em que a guerra civil dividia a nação, Anne acreditou que podia bater-se com os melhores guerreiros. Pela espada. Por convicção. Por paixão. A Rosa Rebelde conta-nos a fascinante e turbulenta história de uma notável figura histórica, Lady MacIntosh, que ficou conhecida como coronela Anne. Foi uma heroína das Terras Altas da Escócia, uma encantadora rebelde, uma Braveheart que arriscou tudo, incluindo a sua vida, por amor ao seu país e ao seu rei. Fruto de uma cuidada investigação histórica, e com notável mestria, Janet Paisley criou uma extraordinária história de amor, conflito, lealdade e traição que se lê compulsivamente. Uma sensual aventura histórica, repleta de emoção, protagonizada por uma heroína apaixonada e irresistível.




Opinião: Mais um livro lido no âmbito da minha leitura temática sobre a Escócia. Esta é a história da personagem histórica Anne Farquharson, uma mulher de espírito guerreiro e independente, que ficou conhecida por liderar tropas e o seu povo nas Highlands escocesas contra os exércitos ingleses na revolta Jacobita de 1745. 

Parti para esta leitura entusiasmada com o contexto histórico do livro, que me cativou desde o primeiro momento. Esta fase da História e cultura escocesas, os Clãs escoceses e os territórios das Highlands, que conhecia, mas acerca da qual ainda não tinha lido nenhuma obra, foi-me apresentada com personagens bem caracterizadas e interessantes, num cenário bem construído, tão credível como cativante. 

Foi por isso com alguma estranheza que dei por mim a afastar-me do entusiasmo inicial à medida que fui avançando na história. Não consigo bem explicar o que não gostei. Mais do que elementos precisos, foi a maneira global como a história se desenrolou e as decisões e atitudes da personagem principal, a rebelde Anne. A maneira desapontante como o romance foi desenvolvido é, no entanto, um factor que consigo identificar sem hesitação. 

Se "pôr o dedo na ferida" em relação aos pontos negativos deste livro é difícil, consigo facilmente identificar o que me fez gostar desta história. Primeiro de tudo, isso mesmo: a História. Este é um romance histórico firmemente construído em redor dos factos históricos (nem todos o são), e fruto de pesquisa competente e uma capacidade de contar História de forma interessante. Isso nota-se na escrita e no desenrolar dos acontecimentos, nos diálogos e nas personagens principais e secundárias. E claro, como em todos os livros desta minha leitura temática, o fascínio pela Escócia manifesta-se uma vez mais ao ler sobre aqueles locais, aqueles nomes, povo e cultura. 

Tenho consciência que algumas das surpresas e comportamentos das personagens que me fizeram torcer um pouco o nariz à narrativa são factos reais e históricos dessas mesmas personagens. O comportamento errático e imprevisível das pessoas em contexto de guerra e rebelião terá sido precisamente o que fez com que estas personagens reais ficassem marcadas na História da Escócia e Inglaterra, e portanto não tenho como "culpar" a autora, quando a veracidade histórica foi precisamente um dos factores que valorizei. 

Durante todo o livro senti-me dividida nos meus sentimentos em relação a Anne, alternando entre admiração e irritação. Mas foi sem dúvida muito interessante ler acerca de uma mulher guerreira, mas também bonita e inteligente, uma heroína independente numa época em que ainda existia uma sociedade matriacal, antes da influência do cristianismo se espalhar também pela Escócia. 

Não estranhamente, a empatia com a personagem central da história reflecte-se na opinião global do livro, e passei um livro inteiro sem conseguir decidir se estava a adorar ou simplesmente a gostar da leitura, e algum tempo depois de o ter lido continuo sem saber. É sem dúvida uma leitura agradável e um bom romance histórico, mas faltou algo para me agarrar completamente. 


O melhor: O contexto histórico, a história de uma mulher guerreira e independente que ficou na História. 

O pior: A maneira como o romance e a história pessoal entre Anne, Aeneas e McGillivray foi explorada. 

3/5 - Gostei

06/06/2013

The Other Queen

Autora: Phillippa Gregory

Editora: Harper Collins

Nº de páginas: 452

Publicado originalmente: Harper Collins (2008)

Sinopse (da edição portuguesa): Um romance dramático de paixão, política e traição, da autora de Duas Irmãs, Um Rei. Com a sua característica combinação de magnífica narrativa com um contexto histórico autêntico, Philippa Gregory dá vida a esta época de grandes mudanças, numa fascinante história de traição, lealdade, política e paixão.

Maria Stuart, Rainha dos Escoceses, está em prisão domiciliária em casa de Bess de Hardwick, recém-casada com o Conde de Shrewsbury, mas continua a lutar para recuperar o seu reino.

Maria é Rainha da Escócia mas foi forçada a abandonar o seu país e a refugiar-se na Inglaterra, governada pela sua prima Isabel. Nesta época, a Inglaterra é um país com um protestantismo mal alicerçado, pressionado pelo poder da Espanha, da França e de Roma, e a presença de uma carismática governante católica pode ser perigosa. Cecil, o conselheiro-mor da Rainha Isabel, concebe então um plano para que Maria viva enclausurada com a sua cúmplice, Bess de Hardwick. Bess é uma mulher empreendedora, uma sobrevivente perspicaz, recém-casada com o Conde de Shrewsbury (o seu quarto marido). Mas que casamento resiste aos encantos de Maria? Ou à ameaça de rebelião que a acompanha a todo o momento? No seu cativeiro privilegiado, Maria tem de aguardar pelo regresso à Escócia e pelo reencontro com o seu filho. Mas esperar não significa nada fazer!



Opinião: Sempre adorei a parte da história britânica relativa ao período dos Tudor. Tendo já lido alguns livros da Philippa Gregory e gostado bastante, este livro foi uma escolha obrigatória para a minha leitura temática, já que retrata não só um período do reinado da Rainha Elizabeth I, como o ponto de vista de Mary Stuart, Rainha dos Escoceses, que quis ser rainha de Inglaterra. 

Mary é uma rainha sem reino. Coroada em bebé, mas desde então refugiada em França, esta bela rainha encontra oposição no seu próprio reino da Escócia, sendo forçada pelos nobres escoceses a abandonar uma vez mais o seu reino. A Inglaterra protestante de Elizabeth acolhe a sua prima real. Mas à luz de um ambiente religioso e social pouco favorável e temendo a ameaça à segurança do seu trono que representa esta outra rainha, Elizabeth, aconselhada por Cecil, o Conselheiro-Mor, decide submeter a católica Mary Stuart a uma prisão domiciliária por tempo indeterminado. Este livro conta a história do seu encarceramento nas propriedades dos seus aliados Conde de Shrewsbury e esposa Bess de Hardwick, e é narrado por estas três personagens principais, intercaladamente. Mary é uma mulher belíssima e lutadora, uma rainha irresistível, que suporta a antiga fé. Shrewsbury é um nobre de uma das mais antigas e importantes linhagens de Inglaterra, e incapaz de fazer algo contra a sua noção de honra, e sempre leal ao trono de Inglaterra. Bess é uma mulher peculiar para a sua época, independente e empreendedora, que foi subindo em posição financeira e a quem este casamento trouxe a posição social que ambicionava. É pelos olhos destas personagens tão diferentes que vemos o desenrolar desta história.

Estando habituada a ler livros da época Tudor do ponto de vista da própria Elizabeth ou alguém próximo dela na corte, esta nova perspectiva foi uma agradável surpresa, e Philippa Gregory tem o talento de escrever como se as vozes das suas personagens tomassem vida no papel. Se nos livros que li anteriormente me habituei a olhar para esta Mary Stuart como uma vilã, a usurpadora do trono de Elizabeth e perturbadora da paz do reino, desta vez dei por mim a tomar o partido da pobre Mary, desapoiada, sofrida e tão encantadora. À medida que a sua beleza e graça conquistam todos na casa que a aprisiona, também o leitor é conquistado para a sua causa. Mas como o livro nos apresenta não apenas as páginas narradas por Mary, ficamos divididos nas nossas opiniões, enquanto vemos também o reverso da moeda, o carácter manipulador de Mary, e o caos causado pelas rebeliões que surgiram em Inglaterra durante os anos de aprisionamento da rainha dos escoceses. Este sentimento ambivalente surge, aliás, com cada uma das três personagens, e deixou-me sem saber por quem "torcer" afinal. Na belíssima forma como Philippa Gregory orquestra estes três diferentes pontos de vista, vamos vendo tomando forma a história dentro da História. 

Foi uma leitura que me agradou imenso, densa em ricos conteúdos históricos sem deixar de apresentar personagens que me surgem reais e verdadeiras, enquanto leitora. Em que os factos históricos e intrigas da corte se revestiram de emoções reais e convincentes. E no fundo é isto que eu procuro num romance histórico e a razão pela qual, quando são bons, constituem um dos géneros que mais gosto de ler. E esta autora não desiludiu. 

Numa nota ainda mais pessoal, fico particularmente contente por ter lido este livro imediatamente antes de uma visita à Escócia, onde me vi rodeada constantemente de referências, homenagens e monumentos que evocam a história da vida e morte desta rainha. De certo modo afectou a minha experiência de leitura e ajudou a marcar este livro na minha memória de forma especial (e provavelmente afectou a avaliação global da obra). Fez-me pensar que, não tendo sido amada na Escócia em vida, esta trágica Rainha decerto o é depois da morte. 


O melhor: Uma nova perspectiva acerca de uma rainha da qual pouco sabia,além do que representou para Elizabeth.

O pior: A natureza "tri-fásica" da narrativa origina alguns pontos mais repetitivos, quando as várias personagens relatam o mesmo acontecimento.


4/5 - Gostei bastante


03/06/2013

The Winter Sea

Autora: Susanna Kearsley

Editora: Sourcebooks Landmark (2010)

Nº de páginas: 527

Editado originalmente: Allison & Busby (2008)

Sinopse: History has all but forgotten...

In the spring of 1708, an invading Jacobite fleet of French and Scottish soldiers nearly succeeded in landing the exiled James Stewart in Scotland to reclaim his crown.

Now, Carrie McClelland hopes to turn that story into her next bestselling novel. Settling herself in the shadow of Slains Castle, she creates a heroine named for one of her own ancestors and starts to write.

But when she discovers her novel is more fact than fiction, Carrie wonders if she might be dealing with ancestral memory, making her the only living person who knows the truth-the ultimate betrayal-that happened all those years ago, and that knowledge comes very close to destroying her...





Opinião: Na minha busca por livros passados na Escócia, este The Winter Sea foi redescoberto na minha lista de livros para ler. De uma autora desconhecida para mim, na altura foi adicionado meramente devido a opiniões positivas de algumas pessoas cuja opinião valorizo (ok, e pela capa!), e agora surgiu a ocasião perfeita para a sua leitura. 

Tal como na maioria das minhas leituras actualmente, não sabia quase nada sobre este livro (hábito que cada vez mais tenciono manter). Opiniões positivas e reviews pouco reveladoras bastam-me para decidir ler um livro, e assim conseguir partir para uma obra sem expectativas. Neste caso em particular, como estava à procura de livros sobre a Escócia (naquilo que resultou na minha leitura temática), limitei-me a ler a sinopse muito brevemente e ver os dados de "setting" do Goodreads para me certificar que o livro cumpria os requisitos que procurava. 

Por essa razão fiquei surpreendida quando a história me apresenta Carrie, uma personagem contemporânea, que está a escrever um livro sobre um período da História da Escócia. Essa surpresa depressa deu lugar a satisfação ao ver como a autora constrói a sua história em redor destas duas épocas distintas, ligadas pela História de um pequeno castelo em ruínas na costa da Escócia.

Carrie é escritora de romances históricos, vive em França, em busca de inspiração para o seu livro: a história da falhada invasão Jacobita pela frota francesa em 1708, que tinha como objectivo trazer de volta para o território escocês o príncipe exilado James, para reclamar o seu trono. O bloqueio de escritor de a assola dissipa-se na viagem que faz à Escócia para visitar a sua editora, quando perdida na estrada dá por si nos arredores do Castelo de Slains. Uma inexplicável ligação a este lugar inspira-a a escrever como se a história sempre tivesse estado na sua memória, e só precisasse de ser relembrada. A heroína da sua história, Sophia, é um antepassado escocês da própria Carrie, "emprestada" por ela ao livro que está a escrever, para satisfazer a sua necessidade de uma personagem principal feminina. A narrativa descreve o dia a dia de Carrie, enquanto escreve o seu livro, que é apresentado ao leitor como uma viagem ao passado. 

Passando-se numa fase da História da Escócia acerca da qual sou completamente ignorante, não tenho qualquer base para opinar quanto à veracidade dos factos históricos, mas para mim isso pouco importa neste caso. O que afectou a minha leitura foi sentir que as descrições daquele mundo e daquela época me pareciam credíveis, com personagens reais e diálogos deliciosos, dando-me uma experiência de leitura à altura do que procurava. 

Este livro livro prendeu-me desde o início. Há já algum tempo que não lia com tanto prazer e regressei após algum tempo àquele que é um dos meus géneros favoritos, o romance histórico. E que regresso. Talvez por ter passado demasiado tempo sem ler este género, talvez por se passar na Escócia numa altura em que estou sedenta por qualquer pedaço de história e cultura desse país, talvez pela escrita da autora e os diálogos me conseguirem transportar para uma época que me fascina desde sempre. Seguramente por tudo isto, a verdade é que este livro me encheu as medidas. Foi tudo o que eu desejava ler, e lido na altura certa.

Divido esta história em duas partes que me pareceram distintas inicialmente, mas profundamente ligadas, e os pontos fracos de uma são compensados pela outra. Presente e passado interligam-se não apenas pela localização em comum, mas pelas personagens, pela cultura e pela voz da autora. Gostei bastante da sua escrita e dos diálogos, especialmente nas partes passadas no passado, e se as personagens contemporâneas são interessantes, as medievais são cativantes de uma forma que ficava em suspenso de cada vez que voltava à vida de Carrie e deixava Sophia para trás. 

Apesar do ponto forte da narrativa ser, naturalmente, a história de Sophia, a autora consegue equilibrar bastante bem as duas linhas temporais, intercalando entre uma e outra de forma subtil e inteligente. Mas não se pense que a narrativa de Carrie é desinteressante, pelo contrário, chegando a adquirir um tom autobiográfico (os pontos em comum na história pessoal de Carrie e de Susanna Kearsley são notórios). Além da inclusão do dialecto local derivado do Gaélico, das descrições da pesquisa histórica levada a cabo por um autor de romances históricos e as suas convicções de onde estabelecer a linha entre ficção e História, a autora introduz o tema da genealogia de forma bastante interessante, que me deu imenso gozo ler. E, tal como na linha paralela da história de Sophia, ainda há espaço para algum romance, e para uma adoração pela paisagem da Escócia. Apesar de ter adivinhado parte do final do livro, terminei esta leitura com uma satisfação daquelas que só chegam com os livros que nos tocam de verdade. 

O melhor: As personagens do Castelo de Slains, as descrições das paisagens escocesas, a viagem ao passado. A genealogia. 

O pior: O romance contemporâneo um pouco "morno", especialmente comparando com a história de Sophia. 


5/5 - Excelente!



01/06/2013

Never Let Me Go


Autor: Kazuo Ishiguro

Editora: Faber and Faber

Nº de páginas: 263

Publicado originalmente: Faber and Faber (2005)


Sinopse: In one of the most acclaimed and strange novels of recent years, Kazuo Ishiguro imagines the lives of a group of students growing up in a darkly skewered version of contemporary England. 
Narrated by Kathy, now 31, "Never Let Me Go" hauntingly dramatises her attempts to come to terms with her childhood at the seemingly idyllic Hailsham School, and with the fate that has always awaited her and her closest friends in the wider world. 

A story of love, friendship and memory, "Never Let Me Go" is charged throughout with a sense of the fragility of life.


Opinião: Parti para este livro com algumas expectactivas, apesar de não saber nada sobre o conteúdo. Um livro amplamente aclamado e recomendado por amigos que prometia uma leitura cativante e emotiva. Infelizmente, para mim não representou nenhuma das duas. 

A narradora da história, Kathy, tem 31 anos e trabalha a prestar cuidados a outras pessoas debilitadas fisicamente, os dadores. Kathy descreve a sua vida actual sem explicar quem são as pessoas que cuida nem a razão pela qual precisam de cuidados como dadores. Ao mesmo tempo, fala dos amigos Tommy e Ruth, do tempo de Hailsham, o colégio interno no interior de Inglaterra, onde cresceram. Diria que este livro é a história dessa amizade. Uma amizade profunda e verdadeira, que ultrapassa décadas, separações e provações. 

À medida que Kathy conta ao leitor a sua história e a vida em Hailsham, vai-se percebendo o contexto estranho e misterioso em que estas crianças foram criadas, e que Hailsham não é um colégio normal. Vivem felizes, mas sem contacto com o exterior, nenhuma delas tem uma vaga ideia de como é a vida no exterior de Hailsham, e são educadas para não fazer perguntas. Como qualquer criança, essas questões surgem, mas mesmo sem as compreenderem, cumprem as regras definidas e mantêm a sua integridade física e emocional, tal como são incentivados a fazer pelos tutores.

Apesar da expectativa inicial, desde o início que lutei para me manter interessada neste livro. É daquelas historias que têm tudo de bom na teoria, mas que simplesmente não me cativou. No meio de tanto mistério, ao longo do livro fui lendo, à espera do momento de revelação, o ponto de viragem da leitura, o ponto de maior emoção que me faria finalmente compreender tudo e ter vontade de ler sem parar. Mas antes de chegar esse momento chegou o fim do livro. Fui lendo, e quando dei por mim a história tinha acabado, eu já tinha compreendido todos os mistérios, e mesmo assim a história não me tinha cativado. 

Achei que o autor conseguiu de forma subtil elucidar o leitor da mesma forma que estas crianças foram crescendo. Vivendo as histórias e aventuras do momento entre amigos, e assimilando pouco a pouco pequenas peças de informação que vão sendo reveladas sobre o que é na realidade o contexto desta história, sem sequer se aperceberem que sabem de algo diferente. Simples e naturalmente, passam da ignorância para a aceitação como dado adquirido daquilo que os espera fora de Hailsham. Assim é para o leitor: Começa a história sem saber nada, e quando chega ao fim entende o contexto, mas é como se sempre tivesse sabido, não houve nenhuma "revelação".

Apesar de ter achado a dinâmica das personagens interessante, nunca cheguei a criar empatia com Kathy nem com os seus amigos tão importantes. Ao mesmo tempo, considerei o conceito global do livro, o material que coloca este livro na categoria de "distopia", a parte mais interessante de toda a história, e fiquei frustrada por isso não ser tão explorado como achei que seria, ou como gostaria. 

Agora em perspectiva, vejo que ao construir um tema forte em redor da vida destes três amigos, o autor conseguiu criar uma história feita de emoções humanas, de forma bastante pesada e irónica. Talvez por uma questão de timing e disponibilidade pessoais, infelizmente não consegui captar essas emoções em nenhuma fase da leitura, mas consigo perceber que este livro tenha agradado a tanta gente. Consigo apreciar a obra de forma global, mas simplesmente não resultou para mim. 

O melhor: O conceito distópico.

O pior: Falta de empatia com as personagens e o rumo da história.

3/5 - Gostei. 


18/05/2013

Admirável Mundo Novo

Autor: Aldous Huxley

Tradução: Mário-Henrique Leiria (+)

Título original: Brave New World

Editora: Livros do Brasil (1984)

Nº de páginas: 280

Publicação original: Chatto & Windus (1932)

Sinopse: Publicado em 1932, Admirável Mundo Novo tornar-se-ia um dos mais extraordinários sucessos literários europeus das décadas seguintes. O livro descreve uma sociedade futura em que as pessoas seriam condicionadas em termos genéticos e psicológicos, a fim de se conformarem com as regras sociais dominantes. Tal sociedade dividir-se-ia em castas e desconheceria os conceitos de família e de moral. Contudo, esse mundo quase irrespirável não deixa de gerar os seus anticorpos. Bernard Marx, o protagonista, sente-se descontente com ele, em parte por ser fisicamente diferente dos restantes membros da sua casta. Então, numa espécie de reserva histórica em que algumas pessoas continuam a viver de acordo com valores e regras do passado, Bernard encontra um jovem que irá apresentar à sociedade asséptica do seu tempo, como um exemplo de outra forma de ser e de viver. Sem imaginar sequer os problemas e os conflitos que essa sua decisão provocará. Admirável Mundo Novo é um aviso, um apelo à consciência dos homens. É uma denúncia do perigo que ameaça a humanidade, se a tempo não fechar os ouvidos ao canto da sereia de uma falsa noção de progresso.


Opinião: Admirável Mundo Novo é considerado um clássico moderno e uma obra distópica obrigatória. A acção decorre no futuro distante de 2450, onde séculos de avanços científicos originaram uma sociedade em tudo diferente da que temos hoje em dia. Os seres humanos são "cultivados" em instalações científicas, e total e absolutamente condicionados desde o momento em que são uma célula única, até ao final dos seus dias (final esse obviamente também condicionado por avançadas técnicas anti envelhecimento).

Nesta sociedade, tudo aquilo que é susceptível de criar conflitos ou angústias, mal estar e revolta nos seres humanos foi eliminado. São divididos em categorias, ou castas, em que as características que os distinguem são tão sociais como biológicas. Embriões são manipulados química e geneticamente para apresentarem as características necessárias a cada casta, e as crianças são sujeitas a um condicionamento por mensagens áudio, reproduzidas milhares de vezes durante o sono e que se alojam profundamente nas suas mentes, como verdades inquestionáveis. Necessidades biológicas e sociais essenciais a um ser humano saudável, como sexo e entretenimento inconsequente são encorajadas e disponibilizadas de acordo com as necessidades da casta. Para as categorias superiores, quando apesar de tudo existem sentimentos como ansiedade ou melancolia, basta tomar drogas que dissolvem a consciência e ajudam a voltar a ser leve e feliz.

Não existe sofrimento por amor, porque não existem relações, apenas sexo. Não existe ciúme, porque a poligamia é a regra e a monogamia impensável. Não existem emoções familiares cujos laços possam interferir com o bem estar, porque não há famílias. Não existe religião, mas sim uma veneração a uma metodologia, instalada desde cedo nas mentes das crianças e inquestionável. Não existe sentimento de injustiça social, uma vez que cada indivíduo foi feito para pertencer à sua categoria, e desejar nada mais.

Que razão terá um trabalhador inferior para ser infeliz, se o seu genoma foi manipulado para apresentar características físicas concordantes com as suas funções profissionais, e se no seu crescimento foi interiorizada psicologicamente a noção que tem tudo o que deseja, que é feliz e que bom é ser um trabalhador simples? Como não ser feliz quando se pertence à categoria superior Alfa? O nosso físico ideal se completa com  um intelecto compatível com profissões superiores, e um condicionamento embrionário é mantido ao longo do crescimento, para ser feliz, viver  satisfeito com a vida como Alfa, e não questionar nada?

A História mostrou-nos que o povo se torna perigoso quando se vê infeliz e descontente, e a melhor maneira de controlar as pessoas, é criar um mundo onde todos são felizes. Que melhor maneira de eliminar a rejeição das visões impostas do que eliminar a vontade de rejeitar? O melhor tirano é aquele que não é visto como tal.

Num mundo em que todos são aquilo que nasceram para ser, com castas definidas desde o estado embrionário e condicionadas no seu desenvolvimento para desejarem unicamente aquilo que têm, todos são felizes. A vida é boa, sem descontentamentos, reivindicações sociais, conflitos interpessoais de espécie alguma, nem questões existenciais.

Mas tal como em qualquer linha de montagem bem oleada, alguns indivíduos podem sair defeituosos. O que acontece quando um homem que entende o sistema de condicionamento como ninguém tem uma consciência mais alerta do que os demais da sua casta? Quando sabe que o que pensa é aquilo que lhe foi dito para pensar? O que acontece quando começa a agir de forma diferente e a procurar algo diferente do que aquilo que tem? E como reagiria alguém criado num ambiente como o que conhecemos hoje em dia a uma sociedade perfeita como esta? 

Esta é a premissa deste livro. Arrebatador deste o início, a primeira parte é pura ficção científica (ou ciência), em que nos são descritos os processos de manipulação genética responsáveis pelo estabelecimento desta sociedade. E foi por isso que este livro me impressionou desde o início, não só a questão científica por detrás desta sociedade, mas o conceito que a compõe, sendo claramente futurista, é assustadoramente actual. Como pode este livro ter sido escrito em 1932?!, era a minha questão a cada novo capítulo.

O meu fascínio foi crescendo com a descrição da sociedade e dos seus pormenores, com a introdução de personagens e dos seus pontos de vista. Apercebi-me que este livro foi escrito por alguém com uma profunda compreensão da natureza humana e das suas necessidades físicas e espirituais, e da humanidade e do caminho que trilhamos. Numa altura em que somos bombardeados em informação e influências, este livro fez-me reflectir em quão maleáveis somos enquanto seres humanos. Desde pequenos, no seio das nossas famílias, somos educados para pensar e agir de determinada forma, e enquanto adultos, absorvemos as influências dos outros e dos media. Quantas vezes precisamos de ouvir uma mentira para passarmos a acreditar nela?

Acabei por não sentir empatia por nenhuma das personagens, e cada uma delas me pareceu imprevisível e até irritante na sua perspectiva particular, o que me fez pensar que ou o autor não "explicou" as suas personagens ou eu não as compreendi. Dei por mim a desejar ler mais rápido os devaneios das personagens para voltar ao rumo dos acontecimentos. Não obstante, recomendo sem hesitação esta leitura. 
Um livro impressionante em vários aspectos, mas sobretudo intemporal. 

O melhor: A incrível premissa do livro e quão actual se mantém. A integração dos textos de Shakespeare.

O pior: Pouca ligação e empatia com as personagens.

4/5 - Gostei bastante

29/04/2013

Memoirs of a Geisha


Autor: Arthur Golden

Nº de páginas: 512

Primeira edição: Knopf, 1997

Sinopse: In Memoirs of a Geisha, we enter a world where appearances are paramount; where a girl's virginity is auctioned to the highest bidder; where women are trained to beguile the most powerful men; and where love is scorned as illusion. It is a unique and triumphant work of fiction—at once romantic, erotic, suspenseful—and completely unforgettable.




Opinião: Este é um daqueles livros cuja edição portuguesa tinha na minha estante, literalmente, há anos à espera de vez. Daqueles cuja leitura vamos adiando sem nenhuma razão em particular e que quando finalmente o lemos nos perguntamos como pode o nosso julgamento ser tão fraco, quando se trata de escolher umas leituras em detrimento de outras. 

A própria capa do livro, nas edições posteriores ao filme de 2005, sempre me atraiu na sua simplicidade e beleza, as opiniões no geral eram positivas, e no entanto só recentemente decidi ler este livro.

Memoirs of a Geisha é uma obra de ficção escrita na forma de memórias, contadas na primeira pessoa, de uma mulher que viveu o auge da cultura das Geisha japonesas, e também o seu declínio pós e durante a Segunda Guerra Mundial. Chiyo Sakamoto, a menina de invulgares olhos cinzentos que conhecemos no início do livro, é tão diferente da geisha Sayuri Nitta que narra a história, que quando esta inadvertidamente revela a sua origem humilde algures na história, o deslize é tomado por gracejo. Chiyo e a irmã Satsu são levadas da sua aldeia piscatória natal e os seus caminhos divergem quando Chiyo é vendida a um okiya (casa de residência e formação de geishas) de Gion, um importante distrito de geishas de Kyoto.

Nem sempre o facto da história ser contada na primeira pessoa significa que o leitor crie afinidade com a personagem principal, ou sequer a considere interessante. Neste caso, a história contada por esta narradora cativou-me desde as primeiras páginas, e a ligação à personagem principal e ao seu destino foi imediata. O autor constrói imagens com palavras, usando a voz narrativa de Sayuri, que conquista o leitor desde o início com as suas metáforas simples e inteligentes. As fantásticas descrições do ambiente, cerimónias, danças e costumes japoneses, e particularmente, da cultura geisha transportam-nos de forma brilhante para a história e para este (para mim) estranho e misterioso mundo de mulheres, mas dominado por homens. Fiquei maravilhada com as descrições dos belíssimos kimonos usados por estas mulheres, e fascinada pelos diferentes conceitos de beleza e erotismo retratados neste contexto cultural. Divertiu-me e fez-me reflectir no cruzamento de culturas com os soldados e cidadãos norte-americanos, do ponto de vista da cordial cultura japonesa, no decorrer da guerra. 

Seguimos a vida de Sayuri ao longo do intenso e duro treino para se tornar uma geisha, das particularidades do entretenimento dos homens e da posição relativa das mulheres numa micro-sociedade competitiva. Talvez o melhor elogio que posso fazer é ter dado por mim a pensar que nesta personagem como real e inegável, apesar de saber bem que é fictícia (apesar de baseada numa geisha real). 

Este livro faz parte da lista de 1001 Livros Para ler Antes de Morrer, e foi nessa categoria que entrou no meu Book Bingo, mas recomendo-o a qualquer pessoa, principalmente as que apreciam a cultura japonesa. É de facto uma leitura memorável.


O melhor: As descrições dos kimonos, cerimónias e ambiente em geral. A personagem de Sayuri.

O pior: Um twist um pouco repentino antes do final, sem no entanto prejudicar a conclusão.


4/5 - Gostei bastante

08/04/2013

The Great Gatsby


Autor: F. Scott Fitzgerald

Editora: Alma Books (2012)

Nº de páginas: 213

Publicado originalmente: Charles Scribner's Sons (1925)

ISBN: 1847492584

Sinopse: Jay Gatsby is the man who has everything. But one thing will always be out of his reach ...
Everybody who is anybody is seen at his glittering parties. Day and night his Long Island mansion buzzes with bright young things drinking, dancing and debating his mysterious character. For Gatsby - young, handsome, fabulously rich - always seems alone in the crowd, watching and waiting, though no one knows what for. 

Beneath the shimmering surface of his life he is hiding a secret: a silent longing that can never be fulfilled. And soon this destructive obsession will force his world to unravel.


Opinião: Muitos leitores se sentem defraudados com este O Grande Gatsby e eu entendo o porquê. Neste livro pouco há de grandioso se olharmos apenas para a forma desta história e a realidade das suas personagens. Não é um page turner cheio de reviravoltas, acontecimentos surpreendes e personagens apaixonantes. É, sim, uma narrativa curta e que consideraria até pouco rica em eventos, com uma primeira parte lenta e altamente descritiva de uma realidade com a qual, nós, leitores europeus do século XXI, não nos identificamos. Com personagens que não compreendemos totalmente e que sugerem pouco mais do que futilidade, dinheiro de berço e vidas privilegiadas. 

No entanto, na minha perspectiva, este livro tem a grandiosidade que o autor lhe procurou dar. Scott F. Fitzgerald decidiu escrever o "ultimate American novel" e o resultado foi O Grande Gatsby. 
A escrita é fantástica, sedutora nas nuances e entoações e ao mesmo tempo forte e desapaixonada, como que atirada ao leitor por quem escreve sem se importar se alguém vai ler. 

A história é-nos trazida pela perspectiva de Nick Carraway, que se muda para a rica Long Island, nos arredores da grande cidade de Nova Iorque. Esta mudança de residência vai permitir-lhe voltar a socializar com os seus amigos Tom e Daisy, uma nova geração de famílias endinheiradas e bem posicionadas socialmente, e que vivem as suas vidas numa frívola nuvem de eventos sociais, viagens e dinheiro. Ao mesmo tempo, a mudança vai também proporcionar a Nick o contacto com Jay Gatsby, o proprietário da maior mansão de Long Island (palco de estrondosas e dispendiosas festas de arromba e o local onde todos querem estar) mas que ninguém parece conhecer. 

A primeira parte do livro, descritiva e lenta em ritmo, transporta o leitor para esse ambiente da sociedade americana corrupta e endinheirada, e prepara-o para a confrontação e o desvendar dos mistérios de Gatsby. 

Fitzgerald traça um retrato de uma sociedade americana da época do pós-guerra, com a crítica do que se reconhece que ela tem de pior, e no entanto se aceita como dado adquirido. Uma sociedade corrupta de valores morais, em que o  "dinheiro antigo" das famílias abastadas se opõe ao "dinheiro novo" dos homens que constroem as suas próprias oportunidades. 

O Grande Gatsby é um retrato preciso e melancólico de uma época. A escrita de Fitzgerald é fabulosa para e o facto de ser um livro curto resulta brilhantemente. Após uma fase altamente descritiva do contexto da acção, um desencadear de acontecimentos em catadupa surge no último terço do livro e traz a narrativa a um final abrupto e até anti-climático. Toda a familiarização inicial com esta sociedade reverte para o final, em que as decisões das personagens determinam os acontecimentos, e são determinadas pelo mundo em que vivem. Juntamente com Nick, a personagem que nos narra a história, procuramos no final encontrar algo que dê sentido a estas personagens e aos seus destinos. Pessoalmente, senti-me tão desalentada e conformada com a maneira como tudo se desenrola, como o próprio Nick.

Um pequeno livro, que li numa belíssima edição que inclui biografia e fotos da vida do autor; um clássico moderno que recomendo e me faz esperar ansiosa pela nova adaptação cinematográfica que deverá estrear este ano. 

O melhor: A escrita, o retrato e a crítica social e o final.

O pior: A pressão de estar a ler aquele que é considerado o melhor clássico americano, sem no entanto estar por dentro da realidade da época nos Estados Unidos, nem da literatura americana em geral.

4/5 - Gostei bastante

22/03/2013

O Último Livro

Autor: Zoran Živković

Título original: Poslednja knjiga

Tradutor: João Cruz (+)

Editora: Cavalo de Ferro, 2011

ISBN: 9896231443

Nº de páginas: 238

Publicação original: Novosti, 2007

Sinopse: Uma série de mortes misteriosas na Livraria Papyrus conduz o inspector Dejan Lukic, aficionado por literatura, a uma investigação. Aqui ele encontra a atraente proprietária, Vera Gavrilovic, e descobre que a única relação existente entre as vítimas é o facto de momentos antes das suas mortes estarem a ler o mesmo livro – O Último Livro.
Com a multiplicação do número de mortes aparentemente sem explicação, envolvem-se no caso a Agência de Segurança Nacional – uma seita secreta e apocalíptica, e um exótico salão de chá; ao mesmo tempo a crescente ligação entre Dejan e Vera é ameaçada por pesadelos e uma eminente sensação de perigo. Estará um louco apaixonado por literatura à solta, assassinando leitores de acordo com o método apresentado em O Nome da Rosa?

Numa corrida contra o tempo, o inspector Lukic precisa de descobrir o segredo do Último Livro e também porque sente que já leu algures tudo o que lhe está a acontecer. O desenlace extraordinário revela verdades escondidas sobre o choque de diferentes realidades, e o incrível poder da imaginação.

Opinião: Gosto de livros sobre livros. Quando vejo um livro cuja história inclui livros, bibliotecas ou livrarias, sinto-me imediatamente curiosa. Do mesmo autor deste O Último Livro já tinha lido o pequeno A Biblioteca, do qual gostei bastante, e portanto parti para esta leitura com algumas expectativas, quer pelo tema, quer pelo autor. 

Conhecemos o inspector da polícia Dejan enquanto percorre com interesse as estantes da livraria Papyrus. Chamado ao local devido a uma morte inesperada na livraria, rapidamente se chega à conclusão que a morte natural de um leitor com um livro nas mãos não é caso de polícia, mesmo para um inspector licenciado em Literatura. Mas as mortes misteriosas na livraria sucedem-se, e juntamente com Vera, a dona da livraria, Dejan vê-se envolvido numa investigação tão policial quanto literária, juntando referências a O Nome da Rosa com suspeitas de uma arma biológica e o segredo do Último Livro. 

Este livro tinha tudo para resultar como um mistério sobre livros e leitores: o ambiente de uma livraria especial, com personalidade e ideal para amantes de livros, a pouca distância de uma interessante casa de chá; o cenário de uma cidade na Europa Central, cinzenta de chuva e frio; um livro misterioso que ninguém sabe que aspecto tem nem que conteúdo encerra; referências a grandes obras literárias; a curiosa sensação de déjà lu do protagonista, que sente que está a viver a história de um livro que já leu; e personagens excêntricas como só bibliófilos podem ser. Todos estes elementos me agradaram como leitora, e por eles fiz o esforço de tentar adorar este livro, mas tal não aconteceu. A culpa, acuso, é da escrita. Não consegui entrar na história nem sentir empatia pelas personagens, superficiais e banais, nem com um romance mal conseguido e pouco surpreendente. Os maus diálogos, como as linhas mais clichés de um filme pouco original, não compensaram o ritmo agradável do desenrolar do mistério, e a verdade é que a escrita não me agradou no geral. 

Não considero uma má leitura, e admitindo que seja meramente uma questão de gosto pessoal, este livro pode vir a agradar a outros leitores, mas a mim soube-me a pouco, pelo potencial que lhe vi e pela concretização que acabou por ter.

Ainda assim, depois de uma boa experiência e uma "assim-assim", vou manter-me atenta ao autor e provavelmente lerei mais livros seus, se se proporcionar uma nova oportunidade.


O melhor: O cenário em redor da história, que me agradou bastante: a livraria Papyrus, o ambiente cinzento e chuvoso que convida à leitura e o conceito engraçado de déjà lu

O pior: Os diálogos e o romance clichés e banais. 

3/5 - Gostei


15/03/2013

Atlas das Nuvens


Autor: David Mitchell

Título original: Cloud Atlas

Editora: Dom Quixote, 2007

Tradução: Artur Ramos e Helena Ramos (+)

Nº Páginas: 616

ISBN: 9789722029940

Primeira Edição: Sceptre, 2004

Sinopse: Um viajante forçado a atravessar o oceano Pacífico em 1850; um jovem compositor deserdado, conquistando à força de tortuosas invenções um modo de vida precário num solar da Bélgica, entre a Primeira e a Segunda Grande Guerra; uma jornalista com princípios morais na Califórnia do governador Reagan; um editor menor fugindo aos seus credores mafiosos; o testamento de uma «criada de restaurante» geneticamente modificada, ditado na ala da morte; e Zachry, jovem ilhéu do Pacífico que assiste ao crepúsculo da Ciência e da Civilização: são os narradores de ATLAS DAS NUVENS, que escutam os ecos uns dos outros através dos corredores da história e vêem os seus destinos alterados de várias maneiras.

Opinião: Não sabia que este livro existia até começar a promoção do filme baseado nele. No final do ano passado, antecipando a estreia do filme em portugal, vários conhecidos cujas opiniões valorizo o começaram a ler, e perante opiniões unânimes de aprovação, resolvi começar a ler a edição inglesa. Confesso que desisti ao fim de algumas páginas, para pegar na edição portuguesa uns meses mais tarde, porque a escrita densa e repleta de peculiaridades geográficas e de época me desarmou logo no primeiro capítulo. Ao pegar no livro em português, gentilmente emprestado pela Célia (Obrigada!), imediatamente me rendi à escrita e à história deste Atlas das Nuvens. 

É-me muito difícil falar acerca deste livro. É difícil de explicar com precisão porque é que o devem ler, mas por favor, façam-no. 

Atlas das Nuvens é um conjunto de 6 histórias independentes entre si em geografia, data e tema, mas ligadas por subtis linhas do destino. As páginas do diário do americano Adam Ewing ao atravessar o Pacífico em 1850; as cartas do jovem compositor Robert Frobisher, caído em desgraça em Inglaterra e que encontra abrigo na Bélgica pós-Primeira Guerra Mundial; as aventuras de Luisa Rey, jornalista cujo caminho se cruza com um relatório contendo os planos defeituosos de uma central nuclear na América de 1975; no tempo presente, Timothy Cavendish, um editor de 65 anos vê-se forçado a fugir da família de um autor pouco sério, acabando na Escócia em condições preocupantes; num futuro distópico, Somni~451, uma "fabricante" oriental geneticamente modificada para pertencer à classe trabalhadora presta declarações gravadas digitalmente a um "arquivista" antes da execução da pena de morte; o relato de Zachry, um idoso habitante de uma ilha no Pacífico, que conta histórias da sua juventude num mundo depois da "Queda", onde a tecnologia não existe e a própria linguagem está fragmentada.

Este é o conteúdo do Atlas das Nuvens, e se analisando as curtas sinopses ficamos com a sensação que pouco há em comum entre as histórias, ao lê-las sentimos que poderiam ser, não apenas livros diferentes, mas até escritas por autores diferentes, tal é a variação na narrativa, nas personagens e nos géneros. Desde a ficção histórica de Adam Ewing e Frobisher, o thriller de Luisa Rey, passando pelo texto quase humorístico de Timothy Cavendish até à ficção científica e distópica de Somny~451 e Zachry.

Mas muito mais do que o conteúdo em si, o que me fascinou neste livro foi a forma. A estrutura física da obra e da escrita fazem este livro único e imperdível. David Mitchell constrói uma narrativa diferente para cada uma das suas histórias, e apresenta-as numa curiosa estrutura de cebola, com as suas camadas dispostas em redor do miolo central (foi a melhor analogia que me consegui lembrar, mas também já li em reviews a analogia com as bonecas russas Matryoshka, que me parece mais engraçada e menos aromática). Começamos o livro pela primeira metade diário de Adam Ewing, avançamos no tempo e no espaço até à primeira parte das cartas de Frobisher, depois a primeira parte da história de Luisa Rey, seguidas da primeira parte da Terrível Provação de Timothy Cavendish até ao início do Orison de Somni~451. Neste ponto chegamos à história de Zachry, a única história a não ser dividida e a peça central do livro, passado no ponto mais avançado no tempo. Finda a odisseia de Zachry, regredimos novamente no espaço e no tempo, com as segundas metades das histórias surgindo pela ordem inversa, completando as camadas em redor da história central e terminando o livro com a história que o começou. 

Confuso? Pelas minhas palavras, provavelmente, mas pelas de David Mitchell. não. A brilhante escrita e visão do autor transformam uma cebola numa peça literária inesquecível, e as ténues e ao mesmo tempo fortíssimas ligações entre as histórias são deliciosas e transformam o leitor num cúmplice das personagens. A cada pequena peça de informação sentimo-nos como alguém que lê os sinais e os entende e às suas consequências, mais do que as próprias personagens, e apetece dizer-lhes "Eu sei! Eu sei!" (pequena piada privada para quem já leu o livro). É difícil de definir o tema deste livro, mas eu diria que é uma história sobre a natureza humana e sobre o poder que os seres humanos têm um sobre os outros.

Uma obra fantástica, para ler com disposição e com calma para apreciar todos os detalhes das 6 histórias e mais de 500 páginas. Pode não ser uma leitura fácil (o que determinou a diferença entre as 4 e as 5 estrelas) mas fico imensamente feliz por não ter desistido de vez deste livro singular. 

Uma nota muito positiva desta tradução da Dom Quixote (não sei se a edição da Presença tem os mesmos tradutores), que numa obra complexa e muito difícil de traduzir, conseguiram fazer um excelente trabalho. 


O melhor: A estrutura da obra e a escrita

O pior: Nada que me ocorra


4/5 - Gostei bastante


24/02/2013

Gone Girl

Autora: Gillian Flynn

Nº Páginas: 560

Primeira edição: Crown, 2011

Sinopse: Marriage can be a real killer.
On a warm summer morning in North Carthage, Missouri, it is Nick and Amy Dunne’s fifth wedding anniversary. Presents are being wrapped and reservations are being made when Nick’s clever and beautiful wife disappears from their rented McMansion on the Mississippi River. Husband-of-the-Year Nick isn’t doing himself any favors with cringe-worthy daydreams about the slope and shape of his wife’s head, but passages from Amy's diary reveal the alpha-girl perfectionist could have put anyone dangerously on edge. Under mounting pressure from the police and the media—as well as Amy’s fiercely doting parents—the town golden boy parades an endless series of lies, deceits, and inappropriate behavior. Nick is oddly evasive, and he’s definitely bitter—but is he really a killer?

As the cops close in, every couple in town is soon wondering how well they know the one that they love. With his twin sister, Margo, at his side, Nick stands by his innocence. Trouble is, if Nick didn’t do it, where is that beautiful wife? And what was in that silvery gift box hidden in the back of her bedroom closet?

With her razor-sharp writing and trademark psychological insight, Gillian Flynn delivers a fast-paced, devilishly dark, and ingeniously plotted thriller that confirms her status as one of the hottest writers around.


Opinião: Este livro chamou-me à atenção pela primeira vez no Goodreads pelas classificações positivas, tendo inclusive sido o livro com mais votações na categoria de Thriller/Mistery nos Prémios Goodreads de 2012, e acompanhei os updates da leitura da Célia, que foram (para variar) o empurrão decisivo para começar a ler. 
A premissa pareceu-me interessante, e prometedora: no aniversário de casamento de Amy e Nick, a mulher desaparece e o marido torna-se imediatamente o foco dos olhares do público e da polícia. Tratei de me manter completamente às escuras em relação à história até finalmente começar a ler. Este início tão clássico em histórias de mistério não foi propriamente o que me atraiu, mas sim a sensação que esta história teria necessariamente de ser mais do que isto. 

E não me desiludi. O livro está escrito numa estrutura que nunca muda ao longo de toda a história: capítulos intercalando o ponto de vista dos dois protagonistas, Nick e Amy. Os capítulos de Nick relatam os desenvolvimentos no momento presente, desde o desaparecimento de Amy, que por sua vez nos surge na história na forma de relatos de um diário. A maneira fabulosa como a autora começou por apresentar a dinâmica deste casal cativou-me imediatamente. Conhecemos as suas vidas do ponto de vista de ambos, alternadamente, cada capítulo passado num ponto temporal diferente, mas evocando a história do casal, por memórias no caso de Nick, por descrições do diário, no caso de Amy. Vemos, por exemplo, como um qualquer acontecimento das suas vidas teve uma percepção diferente da parte da cada um deles. 

Sem querer revelar demasiado da história, porque acho que aqui o factor surpresa é determinante, queria apenas elogiar a capacidade da autora de me enganar e surpreender por diversas vezes. Comecei o livro pensando que a história era sobre algo, chegando a meio senti que afinal o livro era em tudo diferente do que pensava, e ainda assim consegui ficar embasbacada de surpresa e ultraje antes do final da história. 

Apesar da estrutura de capítulos de pontos de vista diferentes - por vezes bastante curtos e sempre com um acontecimento ou revelação determinantes em foco - fazer deste livro um verdadeiro page-turner, para mim o ponto forte do livro é sem dúvida as personagens, muito bem construídas psicologicamente. A autora faz um retrato impressionante da normalidade (e anormalidade) das relações, das aparências e de como factores como desemprego e pressões familiares e sociais podem interferir nas mesmas. Fez-me reflectir também sobre como a forma como somos educados afecta a nossa personalidade e as pessoas em que nos tornamos quando crescemos, e principalmente como nos relacionamos com os outros. Deixou-me também a pensar sobre uma série de coisas sobre a natureza humana, mas sobre isso não vou falar, só lendo saberão ao que me refiro.

Não digo que este Gone Girl seja o livro do ano, mas foi sem dúvida uma leitura surpreendente e que me deu imenso gozo. Recomendo vivamente e fiquei com vontade de ler mais coisas da autora.


O melhor: A caracterização das personagens e os (vários) momentos "wtf?!"

O pior: Achei que o crescimento da narrativa merecia um final mais gritante, mas foi surpreendente à sua maneira.


4/5 - Gostei bastante.

01/02/2013

A Series of Unfortunate Events #1-3

Autor: Lemony Snickets (Pseudónimo de Daniel Handler)
Série: A Series of Unfortunate Events
Editora: Harper Collins
Edição: Áudio-book 
Publicação original: 1999-2000

 The Bad Beginning (#1)

Sinopse: I'm sorry to say that the book you are holding in your hands is extremely unpleasant. It tells an unhappy tale about three very unlucky children. Even though they are charming and clever, the Baudelaire siblings lead lives filled with misery and woe. From the very first page of this book when the children are at the beach and receive terrible news, continuing on through the entire story, disaster lurks at their heels. One might say they are magnets for misfortune. 


In this short book alone, the three youngsters encounter a greedy and repulsive villain, itchy clothing, a disastrous fire, a plot to steal their fortune, and cold porridge for breakfast.

It is my sad duty to write down these unpleasant tales, but there is nothing stopping you from putting this book down at once and reading something happy, if you prefer that sort of thing. 

With all due respect, 

Lemony Snicket

_________

The Reptile Room (#2) 

Sinopse: After narrowly escaping the menacing clutches of the dastardly Count Olaf, the three Baudelaire orphans are taken in by a kindly herpetologist with whom they live happily for an all-too-brief time.

_________

The Wide Room (#3)

Sinopse: If you have not read anything about the Baudelaire orphans, then before you read even one more sentence, you should know this: Violet, Klaus, and Sunny are kindhearted and quick-witted, but their lives, I am sorry to say, are filled with bad luck and misery. All of the stories about these three children are unhappy and wretched, and this one may be the worst of them all.If you haven't got the stomach for a story that includes a hurricane, a signalling device, hungry leeches, cold cucumber soup, a horrible villain, and a doll named Pretty Penny, then this book will probably fill you with despair.I will continue to record these tragic tales, for that is what I do. You, however, should decide for yourself whether you can possibly endure this miserable story.


With all due respect,

Lemony Snicket


Opinião: Esta longa série é constituída por 13 curtos livros, cada um dos quais contando as trágicas desventuras dos órfãos Baudelaire. Por serem livros bastante curtos e episódicos, decidi agregar a opinião dos três primeiros, e fazer o mesmo com os restantes volumes à medida que avançar na saga. 

Travei conhecimento com esta saga através do filme de 2004, que adapta os 3 primeiros livros da saga, Lemony Snicket's A Series of Unfortunate Events, com Jim Carey no papel do vilão Count Olaf e Jude Law como Lemony Snickets, o narrador da história. Na altura gostei bastante, quer das personagens e do enredo catastrófico, quer do ar gótico-depressivo da história, salpicada com laivos de humor. Já conhecendo a história dos três primeiros volumes, esses elementos continuam a ser os que mais me cativam nestes livros infanto-juvenis. 

Em cada livro, começamos por entrar na história pela voz do narrador, Lemony Snicket, que avisa imediatamente o leitor de que está na posse de um livro cheio de desgraças, sofrimento e desespero. O próprio autor é uma personagem (Lemony Snicket é o pseudónimo de Daniel Handler) que conta a história dos órfãos Baudelaire - Violet, Klaus e a bebé Sunny - após a perda dos pais num grande incêndio na sua casa. Lamentavelmente, os órfãos não têm familiares próximos, e a responsabilidade em encontrar um guardião para  as crianças está a cargo do gestor da fortuna dos Baudelaire, o bancário Mr. Poe. 

Todos os irmãos são especiais, inteligentes e brilhantes à sua maneira. Violet é a irmã mais velha, uma inventora, adora mecânica e afins. Quando ata o cabelo num rabo de cavalo sabemos que está a concentrar-se para inventar alguma coisa. Klaus, o prodígio das palavras, memoriza tudo o que lê, e não é pouco, e pode-se sempre contar com ele para definir o significado de uma palavra difícil. Sunny, a bebé adorável, exprime-se por monossílabos de linguagem de bebé que só os irmãos entendem. Adora morder coisas, e os seus dentes afiados são a sua arma não secreta. Bibliotecas são as coisas favoritas dos Baudelaire.

No primeiro livro, The Bad Beginning, a sua primeira escolha revela-se desastrosa, sendo os órfãos entregues à guarda do maléfico Count Olaf, cujo único objectivo é deitar as mãos à fortuna dos órfãos, sem ter qualquer problema em maltratar as crianças e cometer outros crimes horríveis. Desse ponto em diante, os órfãos Baudelaire vêem-se perseguidos por esquemas mirabolantes, personalidades inventadas por Count Olaf para enganar o tuberculoso Mr. Poe de forma a ganhar mais uma vez a custódia (e o acesso à fortuna) dos Baudelaire. No segundo, The Reptile Room, os  órfãos são postos ao cuidado do excêntrico Uncle Monty, que possui uma sala repleta de répteis do mundo inteiro, uma biblioteca sobre répteis e que pretende levar os irmãos numa excitante excursão ao Peru. No terceiro livro, The Wide Window, Violet, Klaus e Sunny são deixados ao cuidado de uma tia distante. Aunt Josephine, uma viúva que vive numa casa sobre o lago Lacrymose, que tem medo de tudo (especialmente do lago), menos de gramática, e possui uma extensa biblioteca constituída unicamente por livros de gramática inglesa.

Adoro o tom destes livros, a maneira como a narração decorre, intercalando a angústia dos órfãos com saídas de humor negro por vezes hilariantes. Os três irmãos são personagens adoráveis com as quais é muito fácil criar empatia. Acho especialmente piada às inúmeras referências literárias e trocadilhos ao longo dos três livros, começando com os nomes das várias personagens e locais. 
Segundo li, estes livros foram criticados em diversos contextos, pelo conteúdo catastrófico e pelas diversas coisas que acontecem às personagens, especialmente tratando-se de livros infantis. Os livros estão classificados para maiores de 9/10 anos, e creio que se trata de uma classificação adequada. As crianças por vezes têm uma maior capacidade de entender histórias "pesadas" do que o que lhes damos crédito.

Quanto ao audiobook em si, estou a adorar a narração. Os 1º e 2º livros são narrados pelo actor Tim Curry, com a excepção da introdução por Lemony Snicket, narrada pelo próprio autor. No entanto, o livro 3 é narrado na íntegra pelo autor, e apesar da mudança de me ter feito alguma confusão no início, rapidamente me habituei, e gosto das duas vozes. Enquanto que a edição em papel destes livros inclui ilustrações que obviamente se perdem na versão áudio, o audio-book tem interlúdios musicais no início e final de cada livro.

Como já referi, oiço audiobooks quando vou pela rua a caminhar ou ando por casa a fazer tarefas (cozinhar, passar a ferro, arrumar  e limpar a casa, etc. Gosto especialmente de ouvir livros quando estou a fazer bolos, não me perguntem porquê), actividades essas que podem ser mais ou menos regulares, e requerer mais ou menos concentração e multitasking da minha parte. Por essa razão, nem todos os livros são os mais adequados, para mim, para o formato de audiobooks. Estes Series of Unfortunate Events pertencem ao perfeito tipo de livro para eu ouvir em audiobook: curto, fácil de retomar o fio à meada mesmo passados vários dias desde a última paragem, história leve com narrador espirituoso e volumes episódicos mais ou menos independentes. É uma excelente maneira de aproveitar tempo em que não posso estar a ler. 

Estes livros são uma boa leitura para quem procura algo leve e divertido. Classifiquei os três volumes da mesma forma e considero que são bastante semelhantes em termos de conceito e narrativa. Estou curiosa para ver se se tornam demasiado repetitivos até ao 13 volume. 

O melhor: As personagens e o humor negro.

O pior: A narrativa dos 3 livros é quase igual.

4/5 - Gostei bastante