Bibliofilia: Amor por livros e por ler. O Bibliófilo ama ler e sente devoção pelos livros, colecciona-os e admira-os.
Mostrar mensagens com a etiqueta 2010. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 2010. Mostrar todas as mensagens

21/02/2011

Verdade ou Consequência? A Casa das Sete Mulheres

Depois da Célia do Estante de Livros, desta vez fui eu a desafiada a escolher “Verdade ou Consequência”, a rubrica mensal do Este meu cantinho... . Escolhi "Consequência", ficando assim “intimada” a ler um livro e escrever a minha opinião. A WhiteLady sugeriu-me o tema História, e como tenho na minha pilha muitos romances históricos o difícil foi escolher! O recém-adquirido (mas desejado há muito) A Casa das Sete Mulheres, de Leticia Wierzchowski, foi o escolhido.


Este livro retrata um período da História do Brasil que ficou conhecida como a Revolução Farroupilha, de uma perspectiva muito feminina. O descontentamento dos fazendeiros do Rio Grande do Sul, província do Império do Brasil, relativamente ao preço da carne e à escravatura negra, desencadeia uma revolta militar liderada pelo General Bento Gonçalves da Silva e com o apoio de outros militares, com o objectivo a deposição do Governador. Essa revolta evoluiu para uma Revolução anti-império, e através de uma série de acontecimentos e batalhas é proclamada a República do Rio Grande do Sul. Uma guerra entre Republicanos e Imperiais instala-se e parece não ter fim, que ficou conhecida como Revolução Farroupilha.

A Casa das Sete Mulheres é um romance que foi adaptado à televisão sob a forma de uma série de TV da Rede Globo. Quando vi a “novela”, em 2003, adorei e passei os 52 episódios agarrada a esta história de mulheres fortes e homens garbosos. Desde essa altura que tencionava ler o livro, mas a verdade é que nunca o vi à venda. Mais recentemente, nos últimos anos, procurei deliberadamente comprar uma cópia, mas não consegui encontrá-lo em lado nenhum. Tive imensa sorte em encontrá-lo no WinkinBooks, apesar de até o ler não saber bem quanta.
A verdade é que adorei este livro. A narrativa é deslumbrante e as personagens são magistralmente construídas. O ritmo da narrativa é por vezes errático, com avanços e recuos, pontos de vista da guerra e notícias que chegam de boca em boca, e cartas que são lidas antes dos acontecimentos que descrevem nos serem contados. A narração do ponto de vista de várias personagens é intercalada com os cadernos de Manuela, a protagonista e eterna Noiva de Garibaldi, que por sua vez tanto se referem ao tempo passado na estância como têm lugar décadas depois da guerra.
A escrita de Letícia Wierzchowski é deliciosamente descritiva. Quando lemos as linhas que enquadram a vida na estância quase que sentimos o vento minuano a soprar, os cheiros das plantas e o tom amarelo da paisagem. Quando nos é permitido visitar o cenário da guerra, as descrições são detalhadas e precisas, mas sempre incrivelmente bem escritas, numa prosa quase poética.
Sendo uma fan dos romances históricos, adoro a concretização do perfeito compromisso entre verdade histórica e o romance e a ficção. Este livro trouxe-me isso mesmo.
Além de um entretenimento viciante e ser praticamente uma “degustação” da linguagem, é também uma boa dose de História, que adorei experienciar.
Dei por mim a pesquisar na net mais informação sobre esta época da História brasileira, de tal forma a escrita me cativou para este tema. Além de ficar com uma noção bastante precisa do que significou este período da História do Brasil, e de me ter apaixonado pelas personalidades que lhe deram forma, senti-me conquistada pela riqueza da Língua Portuguesa. Neste livro deparei-me com imensas expressões regionais do Rio Grande do Sul, algumas usadas ainda hoje, que no português de Portugal são consideradas arcaicas. Deliciei-me com esta linguagem, e de facto o português é uma língua tão rica que é uma pena que algumas palavras deixem ter utilização corrente por cá.

A história começa com o convergir das personagens nos campos que vão constituir a duas frentes do rumo dos acontecimentos: enquanto os homens da família de Bento Gonçalves, o líder da Revolução Farroupilha, se reúnem para a guerra que se aproxima, as mulheres viajam das suas casas na cidade para se refugiarem da guerra na Estância da Barra, propriedade de D. Ana Joaquina, irmã de Bento Gonçalves. Com D. Ana viajam a irmã mais nova, D. Maria Manuela, e as suas três jovens filhas, Rosário, Mariana e Manuela. Juntamente com a cunhada D. Caetana, esposa de Bento, a filha mais velha, Perpétua e os 4 filhos crianças. Estas são as 7 mulheres que vão passar os anos da guerra numa estância no pampa gaúcho (juntamente com D. Antônia, irmã mais velha de Bento, Ana e Maria, proprietária da Estância do Brejo, a poucos minutos a cavalo da Estância da Barra). A história termina com o final da guerra, que se arrastou por 10 longos anos. Dez anos repletos de tristezas próprias da guerra, algumas alegrias, e principalmente acontecimentos que mudaram de forma irrevogável as vidas destas mulheres e da sua família.
O destino desta família é o reflexo do que aconteceu no Rio Grande nestes dez anos, uma região que não voltou a ser a mesma, tal como as pessoas que viveram esta guerra. O que aconteceu nestes dez anos, terão de descobrir por vós próprios. É um livro que recomendo sem reservas.

Uma nota final para referir que descobri no final da leitura que existe uma continuação publicada. Um Farol no Pampa é a continuação escrita por Letícia Wierzchowski, que infelizmente não está publicada em Portugal, mas que quero muito ler (e penso que será quase impossível encontrar A Casa das Sete Mulheres à venda nas livrarias, por isso não espero uma edição portuguesa). Estou a pensar mandar vir pela Wook a versão brasileira. 

17/01/2011

A Senhora de Shalador, Anne Bishop

A Senhora de Shalador, Anne Bishop

Título Original: Shalador's Lady
Núm. páginas: 496
Editora: Saída de Emergência

Sinopse: Durante longos anos, o povo de Shalador suportou as crueldades das Rainhas corruptas que reinavam, proibindo tradições, punindo quem se atrevia a desafiá-las e forçando muitos à clandestinidade. Pese embora os refugiados tenham encontrado abrigo em Dena Nehele, nunca conseguiram considerar esse lugar como a sua terra. Agora, depois da aniquilação dos Sangue deturpados de Dena Nehele após a purificação, a Rainha de Jóia Rosa, Senhora Cassidy, assume como seu dever restaurar a terra e dar provas das suas capacidades como soberana. Ciente de que para assumir tal tarefa irá precisar de todo o ânimo e coragem que conseguir reunir, invoca o poder dentro dela que nunca fora posto à prova, um poder capaz de a consumir caso não consiga controlá-lo. Ainda que a Senhora Cassidy sobreviva à sua prova de fogo, outros perigos a aguardam. Pois as Viúvas Negras descortinam nas suas teias entrelaçadas visões de algo iminente que irá mudar a terra - e a Senhora Cassidy - para sempre.


Opinião: A história deste livro passa-se logo a seguir aos acontecimentos de Aliança das Trevas. Cassidy é Rainha de Dena Nehele, com um contrato de apenas um ano de experiência. Este povo muito fragilizado e maltratado está tão sedento de uma boa Rainha como a própria terra. Depois de ter recuperado o tesouro de Lia, a antiga Rainha de Jóia Cinzenta do território, Cassidy conquistou a simpatia e a confiança da sua corte e dos habitantes da sua casa. Esta Rainha de Jóia Rosa está gradualmente a demonstrar a sua capacidade de fazer renascer Dena Nehele, quer junto dos Sangue e dos plebeus da povoação de Grayhaven como também junto dos Sangue influentes do resto do território. Mas nem todos sentem que Cassidy possa fazer a diferença, e existem aqueles que sobreviveram à purificação dos Reinos mas que contêm em si uma semente de perversidade e da deturpação dos Sangue. Essa semente pode encontrar terreno para germinar no coração de uma jovem e insegura Rainha, e destruí-la se esta não for protegida. 



Sou uma fan incondicional de Anne Bishop. O seu mundo das Jóias Negras arrebatou-me de forma inesperada e irregovável desde Filha do Sangue, e estas personagens e o seu negro mundo nunca mais me largaram. Para quem já leu a trilogia das Jóias Negras, é fácil perceber que sou uma apaixonada por este mundo e as suas personagens. Basta atentar no próprio nick que escolhi para me apresentar: SaDiablo. É um nome que traz tanto significado. É o nome da minha personagem favorita desta autora, e é o nome da minha segunda personagem favorita, e também (com uma ligeira variação) da minha terceira personagem favorita. A minha quarta personagem favorita não se chama SaDiablo devido a um acontecimento que é desvendado na trama da trilogia, mas é filho da favorita e irmão da terceira. Confuso? Para os estreantes no mundo fascinante de Anne Bishop, cedo percebem que esta é uma família a ter em consideração, e que aprenderão a amar. Para os já convertidos, desafio-vos a adivinhar as minhas preferências. Mas adiante... (para uma descrição muito precisa do significado que esta autora tem para mim, convido-vos a ler este post da Carla Ribeiro, leitora convidada da Célia no Estante de Livros). É sem dúvida uma das minhas autoras favoritas (só perde para Juliet Marillier) e aguardava com expectativa este A Senhora de Shalador.



Apesar da minha devoção a esta autora, foi a muito contragosto que me tive de admitir não ter gostado tanto de alguns dos últimos livros publicados. Em Jóia Perdida achei que muito do potencial da história ficou por terra, e nem o protagonismo da fantástica Surreal e do rebenta-paredes Lucivar, ambos sempre deliciosos, conseguiu trazer o livro ao nível que Bishop nos tinha vindo a habituar. Com Sebastian e Belladona, Bishop apresenta-nos todo um novo universo, Efémera. E apesar de serem livros que gostei imenso e me terem agarrado do início ao fim, não me arrebataram como as Jóias Negras (que estão por si só num patamar muito elevado de comparação). O Anel Oculto apresenta-nos acontecimentos fora da série temporal dos anteriores das Jóias Negras, e apesar de ser um excelente livro, não evitei sentir saudades das personagens que tanto adoro. É no seguimento deste que surge Aliança das Trevas, com novas personagens principais, mas um protagonismo partilhado com o clã SaDiablo e companhia, e devo dizer que isso fez toda a diferença.



E assim chegamos a este A Senhora de Shalador, continuação directa do anterior. O melhor elogio que posso fazer a este livro é que me fez regressar ao mundo das Jóias Negras de uma forma tão arrebatadora como já não acontecia desde a trilogia e Teias de Sonhos. Uma Anne Bishop da qual já sentia saudades e que tem em mim um efeito de droga. Este livro deixou-me ao mesmo tempo saciada e exultante, com vontade de ter mais; para logo a seguir começar sofrer os terríveis efeitos de abstinência com o esgotar da dose. Li-o em dois dias, com direito a noitadas e olheiras consideráveis no dia seguinte. 

A história desta nova Rainha, da sua corte e do seu povo cativou-me e fez-me ler noite adentro. As novas personagens, densas e tão interessantes como as já conhecidas conquistaram-me. Os Parentes fizeram-me rir e quase chorar. A malvadez e a deturpação dos vilões, e a estupidez e cegueira daquele que não é vilão no coração fizeram-me virar páginas furiosamente para ler mais. E claro... as minhas personagens favoritas agarram-me em todos os capítulos em que surgem. Um balão de oxigénio que eu mal conseguia largar, um pedacinho mais desta droga que me faz rir tanto como faz chorar. Matei algumas das saudades destas pessoas que não existem, e fiquei com muitas mais. Talvez seja impressão minha, mas creio que detectei na escrita sentimentos semelhantes da própria autora, como se cada linha escrita acerca de Jaenelle, Daemon, Lucivar, Saetan, Deamonar, Draca e Karla (Beijinho, Beijinho) fosse um presente auto-imposto. Como se a autora sentisse tanto prazer a escrever sobre este mundo, como nós a ler. E tanto carinho e adoração pelas suas criações como os seus leitores mais fieis.

Acredito mesmo que assim seja, e recomendo sem qualquer reserva este livro a leitores de Anne Bishop, mesmo aqueles que se desligaram um pouco da autora. E recomendo também, e recomendo sempre, àqueles que ainda não conhecem esta autora que não percam tempo. Não é um tipo de leitura para todos os gostos, e há quem recomende apenas a estômagos fortes, mas é sem dúvida um universo arrebatador e apaixonante.


Deixando apenas umas notas finais, positivas e negativas (que este testamento já vai longo). Mais uma vez uma capa muito bonita e apelativa, e uma excelente tradução da Cristina Correia, como tem sido hábito! 
Por outro lado, além do enorme azar que tiveram com a exclusão inadvertida de um capítulo da história, é impossível não reparar no pobre trabalho de revisão que este livro foi alvo. Para aqueles que, como eu, não perdoam uma dose considerável de gralhas, exorto-vos a ignorá-las e prosseguir a leitura, que recompensa os pequenos erros. Não é nada comum no trabalho desta editora, que nos tem proporcionado livros com excelente qualidade gráfica e edições muito boas, por isso esperemos que este livro tenha nos próximos tempos uma nova edição com as devidas correcções.


O melhor: Um excelente regresso ao universo das Jóias Negras.

O pior: Os problemas de nível gráfico que têm assolado esta edição, mas que acabam por não ensombrar a qualidade do livro.



5/5 - Excelente!

11/01/2011

O Homem do Castelo Alto, Philip K. Dick


O Homem do Castelo Alto, Philip K. Dick
Título original: The Man in The High Castle

Núm. páginas: 288


Sinopse: Estamos em 1962. A Segunda Guerra Mundial terminou há dezassete anos e a população já teve tempo de se adaptar à nova ordem mundial. Mas não tem sido fácil: o Mediterrâneo foi drenado, a população de África foi eliminada e os Estados Unidos da América divididos entre nazis e japoneses. Na zona neutra que divide as duas superpotências vive o homem do castelo alto, autor de um bestseller de culto, uma obra de ficção que oferece uma teoria alternativa da história mundial em que o Eixo perdeu a guerra. O romance é um grito de revolta para todos aqueles que sonham derrubar os invasores. Mas poderá ser mais do que isso? Subtil e complexo, O Homem do Castelo Alto permanece como o melhor romance de história alternativa jamais escrito. 




Opinião: A premissa seduziu-me imediatamente: um contexto histórico em que a Segunda Guerra Mundial evoluiu no sentido inverso. Os Aliados perderam a guerra e os países do Eixo dominam a política mundial. A nova ordem mundial consiste numa divisão dos territórios conquistados entre nazis e japoneses, a eliminação do mar mediterrâneo e o extermínio total da população africana. O território leste do país que foi conhecido por Estados Unidos da América está sob o domínio nazi, enquanto que o território Oeste pertence ao Japão. 

Um cidadão sueco que viaja discretamente para o continente americano, onde negócios muito especiais o esperam com um japonês. Este japonês, profundo seguidor dos oráculos do antigo livro chinês I Ching, procura resultados auspiciosos para o futuro, ao mesmo tempo que sente uma terrível angústia face ao presente. É cliente habitual do comerciante nativo que vende objectos do período anterior à guerra, pérolas da extinta cultura norte-americana, aos milionários japoneses que dominam o território. Um dos fabricantes destes produtos é um judeu divorciado que mudou de nome para não ser identificado, e enviado para a Europa para as mãos dos nazis. Despede-se do seu emprego e, sob os augúrios do I Ching, o oráculo da velha sabedoria, procura um novo rumo para a sua vida e acalenta a esperança de reencontrar a ex mulher. Esta, por sua vez, decide fazer-se à estrada em busca do Homem do Castelo Alto, autor de O Gafanhoto será um fardo. Nesta insólita obra de ficção a realidade é totalmente diferente num mundo em que o Eixo perdeu a guerra e os Aliados saíram vitoriosos. 

Este livro é feito de subtilezas. Ao mesmo tempo que lemos acerca da ordem mundial que caracteriza este período de História alternativa, lemos o ponto de vista de personagens que tentam elas próprias viver numa sociedade cheia de tensões sociais e políticas. Quando quase todos tentam ser algo diferente do que aparentam, pode ser demasiado difícil conhecer a verdade. 

Este livro despertou-me sensações contraditórias. Se por um lado adorei e admirei a construção do contexto alternativo da história e a detalhada caracterização emocional e psicológica das personagens, por vezes senti-me perdida na sua espiritualidade e sentido de fatalidade. No entanto, à medida que nos aproximamos do final, o livro prende-nos com a sensação fantástica que algo vai ser revelado, algo vai mudar, algo que é impossível travar porque é tão fatal como se já tivesse acontecido. As páginas finais denunciam o brilhantismo da obra. Recomendo! 

Uma nota para o excelente texto do Nuno Rogeiro, sem dúvida um conhecedor e admirador da obra de Dick. 

O melhor: O final e o Homem do Castelo Alto. 
O pior: Senti-me por vezes perdida nas divagações emocionais/espirituais, principalmente da personagem Tagomi. 


4/5 – Gostei Bastante

30/12/2010

Balanço 2010

Pois é, final de ano e tal.. 
Já que, no que aos livros diz respeito, já fiz as resoluções de ano novo, só me falta fazer o balanço de 2010. Sem mais delongas:

2010 foi o ano do Acordo Ortográfico. Apesar de ainda não estar em vigor, o (des)acordo chegou este ano e causou muito pânico aos amantes da Língua Portuguesa e da literatura, aos mais patrióticos ou aos simples cidadãos. Eu paniquei. Eu admito. Paniquei, e paniquei bem. (oh oh, esta palavra não existe nem no acordo nem fora dele, mas qualquer dia já existe, porque a Língua é mutável eheh. À excepção do Latim, claro, e às tantas é por isso que lhe chamam uma língua morta). Revoltei-me e reclamei, e voltei a revoltar-me com pérolas do género: "eu vou continuar a escrever como quero!" e "eu vou escrever sempre facto com o 'c'!". Mas isso descobri eu depois. Foi quando me disseram: E ainda bem, até porque de facto, facto escreve-se facto. Com acordo ou sem ele. Oh diabo... pensei eu, afinal ando enganada.

Porque a internet é uma fonte de informação inesgotável (entre outras coisas), e eu estou sempre a aprender com ela. Ou melhor, com outras pessoas melhor informadas que eu, com as quais me meto à conversa na net. A minha opinião em relação ao Acordo amadureceu, e o pânico foi-se. A culpa da minha ansiedade inicial, acuso e aponto o dedo, foi da catastrófica comunicação social, que desinforma habilmente a população. Acredito que não "vamos passar a escrever em brasileiro", nem de perto nem de longe. As alterações não são assim tão gigantes e são perfeitamente naturais. Li uns 3 ou 4 livros (pelo menos) traduzidos para a Língua Portuguesa ao abrigo das novas regras do Acordo, e só num deles é que me apercebi claramente das alterações. Outro houve em que me apercebi, mas apenas porque a meio da leitura soube que já estava escrito com as novas regras, e tratei de escaranfunchar todos os parágrafos daí em diante à procura dos "c" invisíveis, que acabei obviamente por encontrar.

Se preferia que as coisas se mantivessem iguais? Claro. Mas não acho que seja motivo para pânico nem revoltas, muito menos arritmias literárias, principalmente porque ninguém vai ser obrigado a escrever segundo as novas regras, e as grafias anteriores ao Acordo serão aceites na mesma e consideradas igualmente correctas. 
Em suma, eu e praticamente toda a gente da minha geração e anteriores, vamos continuar a escrever como aprendemos e achamos bem. Quer seja porque somos contra ou porque burro velho não aprende línguas. Mas as gerações mais novas vão aprender na escola uma grafia mais adequada ao português que falam e que se falará nas próximas décadas.


Quanto à leitura per capita, e voltando ao balanço...

Li 43 livros em 2010. Mais do que em 2009 certamente, apesar de ter sido a primeira vez que contabilizei. 
Considerando o aumento na quantidade de literatura por metro quadrado cá de casa, e também das leituras per capita, devo dizer que em termos que quantidade não foi um ano nada mau. 

Igualmente, em termos de qualidade, 2010 foi um ano de boa colheita, por assim dizer.  Li excelentes livros ao longo deste ano. Alguns, não tenho dúvidas, tornar-se-ão com o tempo em favoritos de sempre. Apesar de todos os esforços, também li alguns livros que foram perdas de tempo. Nunca se consegue escapar totalmente às uvas podres, e pior são aquelas que até tinham bom aspecto.  
Segue a lista, no meu entender, claro:


O Melhor de 2010: 

(sem ordem definida)

A Sombra do Vento, Carlos Ruiz Zafón
Os Leões de Al-Rassan, Guy Gavriel Kay
A Canção de Kali, Dan Simmons
Duna, Frank Herbert
Os Homens que Odeiam as Mulheres, Stieg Larsson
A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo, Stieg Larsson
A Mulher do Viajante no Tempo, Audrey Niffenegger
O Físico, Noah Gordon
O Dardo de Kushiel e A Marca de Kushiel, de Jacqueline Carey
A Senhora de Shalador, Anne Bishop

O muito mau:
(vulgo, por que raio é que eu li isto?)
Darwinia, Robert Charles Wilson
Comer, Orar, Amar, Elizabeth Gilbert

As surpresas positivas:
Guerra Mundial Z, Max Brooks
Eu Sou a Lenda, Richard Matheson
A Canção de Kali, Dan Simmons

As desilusões:
Pátria, R. A. Salvatore
O Mago, Raymond E. Feist
O Evangelho do Enforcado, David Soares
O Festim dos Corvos, George R. R. Martin



A lista completa está na página Leituras 2010, no topo do blog. Lamentavelmente, só li 3 livros de autores portugueses. Pergunto-me: como é possível!? Que vergonha! É um dos objectivos para 2011, sem dúvida! Nunca se publicou tanto livro em Portugal, e as editoras estão a apostar, e bem, em jovens autores portugueses, principalmente no género do fantástico (tão inflamado nos dias que correm!). Há vários nomes de novos autores (alguns novos para mim, e outros verdadeiros estreantes) que tenho debaixo de olho, e não apenas por serem portugueses, mas porque me parecem verdadeiramente bons. E não se pode desperdiçar o talento nacional. Há que ter em atenção o PIB e comprar nacional.

Falando em PIB.. Quanto ao balanço financeiro do vício... Não quero fazê-lo! Até porque ainda quero ler muitos livros antes de morrer, e se fizesse as contas ainda entrava em paragem cardio-respiratória e a gata da foto ficava orfã, e ela não gosta de mais ninguém a não ser eu (e mesmo assim é só às vezes hihi).

Fica apenas a nota, pequenina, que tenho uma boa pilha para ler, e tenciono acabar com ela em 2011 (serve?). Ah, e que as minhas estantes estão cada vez mais bonitas :)

Desejo a todos umas excelentes entradas em 2011, e boas leituras.

27/12/2010

Pátria, R. A. Salvatore




Pátria, R. A. Salvatore
Título original: Homeland
Núm. páginas: 304
Editora: Saída de Emergência

Sinopse: Nas profundezas da terra e rodeada de trevas eternas, esconde-se a imensa cidade proibida de Menzoberranzan. Habitada pelos drows, os temidos elfos negros, Menzoberranzan é governada por um complexo sistema de Casas em constante batalha. No meio de uma dessas batalhas nasce uma criança com olhos cor púrpura. A criança, Drizzt Do'Urden, destinada a tornar-se príncipe de uma das Casas, cresce num mundo vil onde a sua própria família não hesita em conspirar, trair e assassinar. Surpreendentemente, Drizzt desenvolve um sentido de honra e justiça completamente estranho à sua cidade. Mas haverá lugar para ele num mundo onde a crueldade é a maior virtude? Venha descobrir Drizzt, o elfo negro, uma das personagens mais lendárias da fantasia. E acompanhe-o na épica e intrépida jornada para longe de um mundo onde não tem lugar... em busca de outro, na superfície, onde talvez nunca o aceitem.



Opinião: Menzoberranzan é a enorme e subterrânea cidade, domínio dos Drows, os elfos negros. Nesta sociedade malévola e negra, tudo é permitido, até arrancar olhos, desde que não se seja apanhado. Começamos a história numa altura que antecede o nascimento do herói desta história, mas os acontecimentos que levam ao nascimento e crescimento desta criança são forjados na verdadeira essência dos Drow: Drizzt Do’Urden nasce no seio da batalha de extermínio de uma casa rival da sua família, sendo a energia e a força provenientes do parto canalizadas para a batalha pelas sacerdotisas que são sua a mãe e suas irmãs. O bebé deveria ter sido sacrificado à terrível deusa das aranhas, Lolth, em nome da batalha, mas no meio de vitória e assassínio, é permitido que viva. 

Mas este rapaz que nasce de olhos púrpura cedo se revela diferente dos restantes drow, e não apenas na cor dos olhos. Guerreiro excepcional e jovem inteligente, Drizzt surpreende pelo seu sentido de honra e coração pleno de luz, num subterrâneo mundo de escuridão. 

Este livro faz parte de uma trilogia que tem como cenário o universo de fantasia Forgotten Realms, que é um universo do jogo RPG (Role Playing Game) Dungeons & Dragons (D&D). Este foi o meu primeiro contacto com o universo D&D, que nunca joguei. No entanto, arrisco dizer que a muitos dos jogos RPG de fantasia que foram lançados na última década ou mais foram de alguma forma influenciados por D&D. Já passei muitas e muitas horas em jogos de fantasia, e muitos deles RPG’s, e sou uma apreciadora do género.

Neste caso em particular, ao contrário do que muitas vezes acontece, foi o jogo que deu origem aos livros, e eu senti isso tão claramente enquanto lia, que se me tivessem dito não teria acreditado. Houve ocasiões na leitura em que ficava com a nítida sensação de que deveria preparar as teclas das skills para a batalha que se antecipava. Foi uma sensação deveras estranha (nunca pensei em vir a “ler um jogo”), mas não foi de todo negativa. Se há coisa que os melhores RPG’s de fantasia têm é um universo bastante complexo e bem estruturado, com personagens bem construídas e com carisma. E como tal, também tudo isso tem este Pátria. 


A sua personagem principal, Drizzt cativou-me desde o início, bem como as intrigas da sociedade dos Drow, em Menzoberranzan (e fora dela) e a sua fiel companheira Guenhwyvar, a pantera de ónix. 

Apesar de todos estes pontos positivos, senti que de alguma forma o livro deixou algo a desejar. Talvez esperasse algo mais literário e mais profundo. Gostei desta leitura, e irei sem hesitação ler a continuação quando se proporcionar, mas posso dizer que ficou abaixo das minhas expectativas. Mas recomendo a qualquer amante de fantasia. Uma nota muito positiva para as cenas de lutas, com descrições precisas e detalhadas, sem serem exaustivas e aborrecidas. 

O melhor: Dritzz Do’Urden (a personagem e o nome).
O pior: O ritmo arrastado da primeira metade do livro.


3/5 - Gostei

12/12/2010

O Segredo do Chocolate, James Runcie


O Segredo do Chocolate, James Runcie
Título Original: The Discovery of Chocolate (2001)
Tradutor: Manuel Marques
Nº de páginas: 272 (formato bolso)
Editora: Saída de Emergência (2005)


Sinopse: Diego de Godoy, um jovem espanhol em busca de fama e fortuna, embarca rumo ao Novo Mundo no ano de 1518. Nas Américas luta ao lado de Cortés, o conquistador do México. No meio dessa grandiosa campanha, onde conhece o líder Asteca Montezuma, apaixona-se pela bela Ignacia, uma nativa que o inicia nos segredos sensuais do chocolate.

Apesar das circunstâncias separarem os amantes, Ignacia dá a Diego um elixir e uma promessa: "Se estiveres vivo, então eu estarei viva. Nunca desistas de me procurar."
Acompanhado pelo seu cão, Diego está destinado a vaguear pelo mundo através dos séculos, em busca do seu amor perdido, da perfeição do chocolate e do sentido da vida. No seu percurso pela Europa acompanha os maiores acontecimentos e cruza-se com personalidades como o excêntrico Marquês de Sade, ou o psicanalista Sigmund Freud.



Opinião: O conceito deste livro era promissor. Um jovem espanhol que parte para o Novo Mundo em busca de um presente para conquistar uma bela e rica donzela. Corre o ano de 1518, e Diego de Godoy, com a companhia do seu galgo Pedro, parte na esperança de conseguir encontrar algo que nenhum outro homem pudesse oferecer. No México, acaba por encontrar muito mais: não só conhece o líder Asteca Montezuma como se apaixona por uma nativa. A bela Ignacia seduz Diego com a sua beleza e com o sublime sabor do chocolate.
Os dois amantes são separados pelos acontecimentos que acabam por culminar na queda da civilização Asteca sob o jugo dos espanhóis, e os dois (e o cão) tomam uma estranha e secreta bebida, cujos efeitos Diego só descobre no momento em que se apercebe que passou um século desde a sua separação do seu amor. Começa assim uma longa viagem de Diego pela vida e pelos aromas do chocolate.

Louvo a capacidade do autor de descrever precisamente os aromas do chocolate com notável detalhe. Um verdadeiro apelo aos sentidos, na preparação, confecção e degustação do chocolate. Posso dizer que ele é o verdadeiro protagonista deste livro: o chocolate.
A premissa era boa: um contexto histórico interessante, a introdução de personalidades reais (como o Marques de Sade ou Freud) e o chocolate e as suas origens como pano de fundo. No entanto, senti que este livro ficou muito aquém do que poderia ter sido. As suas personagens foram mal exploradas e perdidas no meio dos acontecimentos da sua vida. A narrativa em tom leve e ligeiro foi inicialmente agradável, um avançar ritmado e levemente descrito como é natural numa fase inicial de introdução do enredo e personagens. Mas quanto mais avançava mais pensava quando é que começava a história propriamente dita. A verdade é que já tinha começado, mas o tom da narrativa e o muito rápido avançar dos acontecimentos, tão rapidamente descritos (não obstante, precisamente) que sentia quase só eram mencionados, fez-me sentir que a história não estava a ser explorada. 
Se Diego frequentemente afirmava que a sua longevidade lhe causava tédio e aborrecimento pelo lento ritmo da sua vida, eu senti precisamente o contrário. Excepção feita para as detalhadas e deliciosas descrições de chocolate, toda a restante acção passou a correr. Isso não seria por si só negativo, se não tivesse igualmente sentido que essa velocidade implicou um subdesenvolvimento do potencial das personagens e do enredo.

Foi uma leitura agradável e não é um mau livro, mas não me cativou. Fiquei com a sensação que o autor teria capacidade para um romance mais denso.

O melhor: O chocolate
O pior: A falta de profundidade do livro

2/5 – Está OK

07/12/2010

A Rapariga que Sonhava com Uma Lata de Gasolina e um Fósforo, Stieg Larsson


A Rapariga que Sonhava com Uma Lata de Gasolina e um Fósforo, Stieg Larsson
Editora: Oceanos
ISBN: 9789892303451


Sinopse: Depois do sucesso mundial de Os Homens Que Odeiam as Mulheres, o segundo volume da trilogia Millennium revela-se ainda mais empolgante. Enquanto Lisbeth Salander goza de uma vida aparentemente tranquila nas Caraíbas, Mikael Blomkvist, reabilitado, vitorioso, prepara um número especial da revista Millennium sobre um tema escaldante para algumas personalidades altamente colocadas: uma história sombria de prostitutas exportadas dos países de Leste. O livro que os muitos milhares de leitores de Stieg Larsson esperavam ansiosamente.




Opinião: Após a leitura do primeiro volume da trilogia Millenium, já parti para este livro com a certeza que seria mais uma dose de excelente literatura. Não sabia o quanto.

Encontramos Lisbeth Salander e Mikael Blomkvist algum tempo após os acontecimentos do livro anterior, cada um para seu lado, e cada um à sua maneira. 
No meio de uma investigação de uma rede de tráfico sexual de mulheres na Suécia prestes a expor uma série de personalidades importantes, 3 assassinatos definem o início de uma série de acontecimentos que deixam o leitor sem fôlego, mas sempre sôfrego pela página seguinte. 
Uma trama magnificamente tecida, com fios muito mais profundos e sérios do que podemos possivelmente imaginar, personagens habilmente construídas e tão reais que nos ligamos a elas. Lisbeth Salander é claramente a estrela mais brilhante, e apesar de ser uma jovem extremamente anti-social, tem a capacidade de cativar o leitor imediatamente. 

É sem dúvida um livro excelente que recomendo a toda a gente, especialmente a quem odeia os homens que odeiam as mulheres.

O melhor: Lisbeth
O pior: O final deixa-nos a arfar pela continuação!

5/5 - Excelente!


04/12/2010

Eu Sou a Lenda, Richard Matheson




Eu Sou a Lenda, Richard Matheson
Título Original: I Am Legend
Tradutor: David Soares e Fernando Ribeiro
Data de publicação: 1954
Publicações Revista Visão
(original em Portugal por Saída de Emergência)



Sinopse: Robert Neville é o último homem vivo na Terra... mas não está sozinho. Todos os outros homens, mulheres e crianças transformaram-se em vampiros e estão sequiosos pelo sangue de Neville.

De dia, ele é o predador, caçando os mortos vivos pelas ruínas abandonadas da civilização. De noite, Neville barrica-se em casa e reza para que chegue a manhã.
Durante quanto tempo pode um homem sobreviver num mundo de vampiros?



Opinião: Li este livro no âmbito de um exercício de leitura conjunta no fórum Bang!, e foi um excelente exercício. Ao ler esta obra tentei ter sempre presente a data original de publicação: 1954. Não que isso tenha influenciado de forma definitiva a minha apreciação da obra, mas a consciência da “idade” da obra ajudou-me a entender que em alguns aspectos tenha “envelhecido” mal. Refiro-me essencialmente ao contexto científico e o concerne à investigação científica a que a personagem leva a cabo a dada altura no livro. Desconfio que alguns termos biológicos tenham sido prejudicados pela tradução, mas apenas por preciosismo. Posto isto, em todos os outros aspectos, achei o livro excelente.

Facilmente descobrimos pela sinopse que Robert Neville é o último ser humano vivo do planeta. Saber que não existe mais ninguém vivo à face do planeta não significa que esteja sozinho. Uma praga à escala planetária transformou todos os seres humanos (e não só) em vampiros e erradicou a civilização humana. Como se pode sobreviver em permanente ameaça por seres resilientes, violentos e sequiosos de sangue, e principalmente, que não permanecem mortos quando se matam?

E principalmente, como pode um homem viver rodeado da mais profunda solidão?
Porque é disso que se trata. A história é bem mais do que a capacidade de resistência humana da parte de um homem que se recusa a deixar-se vencer pela praga que lhe levou a família e todos os conhecidos. Esse homem que sobrevive a anos de ataques, anos de luta pela sobrevivência, sobrevive também a anos sem qualquer contacto humano. Que efeito terá isso num ser cuja parte integrante da sua biologia é a comunicação intra-específica?

Na minha opinião, a caracterização da personagem é brilhante. Todo o conflito emocional e psicológico da personagem, perdida num mundo, totalmente só, é descrito de forma magistral. A escrita não é particularmente deslumbrante, mas toda a carga emocional do homem na sua solidão e constante memória da mulher e da filha é avassaladora e bastante bem construída. Passa a quilómetros de distância dos lugares comuns, não fosse esta obra anterior a quase todas que tenho lido. Os dilemas interiores e as discussões que Robert tem consigo próprio são cheias de ritmo e humor, num tom ácido bastante compatível com uma personagem que perdeu toda a fé no futuro.

Apesar das minhas reservas relativamente à teoria científica que explica a praga, gostei do conceito de vampiro. Esqueçam o vampiro clássico, sedutor, super inteligente e bebedor de sangue dos vivos, porque esta história está construída com base numa premissa diferente em certos aspectos. Com tanto contacto com histórias de vampiros que temos tido nas últimas décadas, e com a oferta esmagadora que existe actualmente, foi uma lufada de ar fresco. Com mais de 55 anos, até podia ser ar bastante bafiento, mas não é.

É incrível como uma obra de 1954 se mantém tão actual em alguns aspectos. Sem querer revelar demasiado, considero que, por baixo da máscara de terror, esta obra encerra uma profunda e irónica crítica à sociedade humana “normalizada”. Num mundo em que todos somos iguais, não será aquele que se mostra diferente o anormal. Mas e se formos todos anormais? 


O que caracteriza o ser humano? A sua inteligência racional? A capacidade de organização em sociedade? É a humanidade a verdadeira característica da natureza humana? É no levantar de forma subtil todas estas questões, e não na luta homem vs vampiro, que esta obra se revela brilhante. Recomendo.

Além da história Eu Sou a Lenda, o livro oferece-nos 3 contos de terror, que achei deliciosos.
Nascido de Homem e Mulher, Presa e Perto da Morte. Adorei os três, mas os dois últimos achei divinais! Presa é verdadeiramente assustador, com ambiente com laivos de um Chucky tribal e um final genial.
Perto da Morte pode ser considerado um mini conto. Umas meras 2 páginas e meia de normalidade, que se torna brilhante na última linha.


Uma última nota para o filme com o mesmo nome, baseado neste livro, protagonizado por Will Smith. Foi a 3ª adaptação desta obra para o cinema, e eu não vi nenhuma delas. Tenho de tirar algum tempo para o fazer. Se sempre tive curiosidade me relação ao filme, agora que li o livro quero meramente fazer o habitual exercício de comparação. Pelo que já me foi dado a saber (começando pelo protagonista negro para interpretar uma personagem germânica) até parecem duas obras distintas, de tão diferentes que são. Para quem nunca leu o livro por achar o filme suficiente, recomendo ainda mais a leitura!


O melhor: A caracterização da personagem e os contos
O pior: Um mau envelhecimento da parte científica da história.

4/5 – Gostei Muito

18/11/2010

Duna, Frank Herbert

Duna, Frank Herbert
Editora: Saída de Emergência
Título Original: Dune
Tradutor: Jorge Candeias
Nº Páginas: 576



Tem nas suas mãos aquele que é considerado o melhor romance de ficção científica de sempre. Uma obra que arrebatou a crítica com o estilo poderoso de Frank Herbert e conquistou milhões de leitores com a sua imaginação prodigiosa. Prepare-se para uma viagem que nunca irá esquecer, até um longínquo planeta chamado Arrakis...


Sinopse: O Duque Atreides é enviado para governar o planeta Arrakis, mais conhecido como Duna. Coberto por areia e montanhas, parece o local mais miserável do Império. Mas as aparências enganam: apenas em Arrakis se encontra a especiaria, uma droga imensamente valiosa e sem a qual o Império se desmoronará. O Duque sabe que a sua posição em Duna é invejada pelos seus inimigos, mas nem a cautela o salvará. E quando o pior acontece caberá ao seu filho, Paul Atreides, vingar-se da conspiração contra a sua família e refugiar-se no deserto para se tornar no misterioso homem de nome Muad'Dib. Mas Paul é muito mais do que o herdeiro da Casa Atreides. Ao viver no deserto entre o povo Fremen, ele tornar-se-á não apenas no líder, mas num messias, libertando o imenso poder que Duna abriga numa guerra que irá ter repercussões em todo o Império...

  

Opinião: Confesso que uma das minhas falhas literárias é no género da FC. Para uma junky de filmes de ficção científica desde miúda, nem sei explicar porque é que nunca peguei numa verdadeira obra literária do género. Tratarei de resolver este assunto nas próximas leituras! Para já, comecei com Duna, de Frank Herbert. Aparentemente não poderia ter-me estreado com melhor material, uma vez que este é considerado “O Senhor dos Anéis da Ficção Científica”.

Travei o primeiro conhecimento com o universo de Dune na minha infância. O filme saiu antes de eu ter nascido, mas o VHS passava muitas vezes no vídeo lá de casa. Vi-o a última vez certamente há mais de 10 anos, e já recordava muito pouco da história, além de Arrakis e o Muad’Dib de olhos de profundo azul brilhante. Agora que finalmente li o livro de Frank Herbert que deu origem ao filme (e a diversos jogos, séries de tv, etc) é engraçado ter sentido que aquilo que mais recordava do filme era o que menos importância tem no contexto global do livro. Recordei os excelentes fatos destilatórios, os vermes da areia, o planeta deserto de Duna e as suas dunas, os olhos de profundo azul e as armas de laser, e claro, Muad’Dib. Mas ao recordar todas essas coisas, quase que elas foram afastadas para o segundo plano, à medida que descobria e me perdia no tom épico da história.

A casa Atreides é nomeada o poder governante no inóspito planeta Arrakis. Apesar de ser a única fonte no universo da valiosa especiaria Melange, poucos consideram Duna um destino suportável. Mas a ausência de água, temperaturas abrasadoras numa superfície quase totalmente coberta por areia e rocha e um povo nativo pouco dócil – os Fremen – não constituem o real perigo para a casa Atreides. Começamos por conhecer o jovem Paul Atreides, filho do Duque Leto Atreides e da concubina Jessica, uma Bene Gesserit que teve a ousadia de gerar um filho sem o aval da sua Ordem (e treiná-lo nos seus ensinamentos mentais e físicos). Paul rapidamente se destaca com a sua familiaridade e fácil adaptação à agreste realidade de Arrakis. Quando a conspiração do inimigo mortal, o Barão Harkonnen, se concretiza, Paul e a mãe vêm-se obrigados a recuar para o deserto profundo e a viver entre os fremen. Mas o que surgiu como uma luta pela sobrevivência torna-se um intenso propósito superior a uma simples vingança.

Este livro tem todos os elementos que uma obra literária deve ter. Tem personagens densas e cenários bem construídos. Tem um fio condutor em redor do qual se desencadeia toda a história. Tem as motivações das suas personagens expostas nas suas acções. Tem tragédia, amor, honra e um “motivo maior”. Tem um universo complexo e bem construído. E principalmente, é completamente actual, não esquecendo a data da sua publicação em plenos anos 60 do século passado!
Filosofia, religião, messianismo e propósito. Culto, tragédia, devoção e ecologia. Tudo isto é Duna.

As analogias da cultura nómada árabe na construção dos Fremen, povo do deserto estão bastante bem conseguidas e é um dos factores que torna este livro bastante actual.

Além do ”conteúdo”, este livro está bastante bem escrito. Reconheço que é um estilo pouco vulgar e por vezes difícil, mas é estimulante e compensador ao mesmo tempo. Gostei bastante das introduções a cada capítulo, com as epígrafes em forma dos excertos dos textos literários da Princesa Irulan. Dão profundidade à narrativa e impelem o leitor a querer ler mais.

Esta obra não é perfeita, como nenhuma é. As motivações internas das personagens, sempre totalmente centradas em Muad’Dib, e o tom dos discursos e dos conhecimentos prescientes de Jessica e Paul chegam a ser cansativos no seu tom repetitivo. Mas essa repetição deve-se muito ao facto de termos a visão do pensamento de todas as personagens, mudando o foco com o decorrer da acção.

O melhor romance de Ficção Científica de sempre, dizem eles. "Eles" devem ter lido muitos. Eu só li este, e fiquei totalmente rendida. É uma obra obrigatória.

O melhor: O tom épico de todo o livro
O pior: Já devia ter lido isto há anos!

5/5 - Excelente!

16/11/2010

A Mecânica do Coração, Mathias Malzieu


A Mecânica do Coração
de Mathias Malzieu
Páginas: 144
Editor: Edições Contraponto
ISBN: 9789896660734

Sinopse: Edimburgo, 1874. Jack nasce no dia mais frio do mundo, com o coração… congelado. A Dr.ª Madeleine, a parteira (segundo alguns, uma bruxa) que o trouxe ao mundo, consegue salvar-lhe a vida instalando um mecanismo - um relógio de madeira - no seu peito, para ajudar o coração a funcionar. A prótese resulta e Jack sobrevive, mas com uma contrapartida: terá sempre de se proteger das sobrecargas emocionais. Nada de raiva e, sobretudo, nada de amor. A Dr.ª Madeleine, que o adopta e vela pelo seu mecanismo, avisa: «o amor é perigoso para o teu coraçãozinho.» Mas não há mecânica capaz de fazer frente à vida e, um dia, uma pequena cantora de rua arrebata o coração - o mecânico e o verdadeiro - de Jack. Disposto a tudo para a conquistar, Jack parte numa peregrinação sentimental até à Andaluzia, a terra natal da sua amada, onde encontrará as delícias do amor… e a sua crueldade. Um conto de fadas para adultos, ao estilo de Tim Burton ou Lewis Carrol.



Opinião:
Este pequeno livro cativou-me assim que o vi. Desde a capa, o título, a sinopse que li apenas na diagonal… O tom da narrativa seduziu-me logo no primeiro parágrafo.
O nosso protagonista, Little Jack, tem a infelicidade de vir ao mundo no Dia Mais Frio do Mundo. Tão frio que o seu coraçãozinho nasce gelado. A Dra Madeleine, médica-parteira peculiar, salva a vida ao pequeno Jack quando decide instalar no seu peito um relógio de madeira, acertando a sua vida ao permitir que o seu coração funcione a corda.
Mas um coração controlado por um mecanismo de relógio é uma peça frágil, e Madeleine desde o início que alerta o seu protegido para a necessidade de se manter afastado de emoções demasiado intensas para o relógio de cuco, como as resultantes de amor ou de raiva. As engrenagens são sensíveis e os ponteiros não se podem desregular, e o cuco não pode perder a hora. Um dia na infância de Jack em Edimburgo, encontra uma pequena cantora desastrada. A voz e fragilidade de passarinho de Miss Acácia aceleram o coração de Jack num turbilhão de emoção e fazem disparar o cuco descontroladamente! Mas os avisos de Madeleine não são em vão, será que o coraçãozinho de Jack aguenta os prazeres e as tristezas da paixão?
Apreciei cada momento desta pequena leitura. É uma história adorável e um conceito encantador. A escrita é despretensiosa e ritmada, tornando-se cativante e poética. Este livro cumpre o seu propósito, senti que a premissa tem conteúdo para uma abordagem mais profunda das personagens e originar uma história “maior”. Mas senti que parte da beleza desta obra é a sua brevidade.
Apesar de embevecida com o tom da história passada no séc. XIX, não pude deixar de reparar em alguns pormenores, como referências a helicópteros, etc…
 Além disso, este livro é claramente “material Tim Burton”. Admitindo a originalidade do escritor, e não desprestigiando, é inevitável a associação com o universo gótico e delicioso do realizador.
Uma mistura de Eduardo Mãos-de-Tesoura com conto de fadas, com uma boa dose de tragédia, ao mesmo tempo madura, e docemente infantil.

O melhor: O tom despretensioso do texto e a premissa.
O pior: É curto. Lê-se demasiado rápido.

4/5 - Gostei muito

04/11/2010

O Festim dos Corvos e O Mar de Ferro - opinião

Título: A Feast For Crows (O Festim dos Corvos + O Mar de Ferro)
Autor: George R. R. Martin
Editora: Saída de Emergência
Nº de páginas: 448 e 336
Ano de edição: 2009






Esta opinião refere-se aos dois volumes do 4º livro da saga (A Fest for Crows), O Festim dos Corvos e O Mar de Ferro. Contém spoilers para os volumes anteriores.

Segundo explicação do próprio autor, dada no final do livro, este Feast for Crows é uma primeira parte do livro em eterno processo de escrita A Dance With Dragons, uma vez que devido ao tamanho do manuscrito se viu forçado a fazer a divisão.

A verdade é que depois dos magníficos livros anteriores, Tormenta de Espadas e principalmente A Glória dos Traidores, preparei-me para que os dois livros seguintes, e os últimos publicados até ao momento, não conseguissem ser tão bons. Em adição, talvez inconscientemente adiando o momento em que deixaria de ter mais livros desta saga  para ler, passaram-se muitos meses entre a leitura dos volumes anteriores e o inicio da leitura destes. 

O livro anterior deixa-nos com um panorama sombrio para as personagens, boas ou más. O Inverno está a chegar a Westeros, mas parece já ter chegado aos corações dos homens desta terra. Reviravoltas de enredo alucinantes e surpresas inacreditáveis. Personagens perdidas ainda mais perdidas, caminhos cruzados desviando-se por pouco, novos inimigos e novas alianças, morte e assassínio, e traição. Principalmente traição. Com este nível de intriga, seria difícil manter as expectativas.

E de facto, este(s) livro(s) não me fascinou como os anteriores da saga, e acredito que isso se deveu essencialmente à alteração do foco das personagens dos capítulos, excluindo do conhecimento do leitor as melhores personagens como Tyrion, Daenerys ou Davos, e dando poucos capítulos a outras como Jon e Arya. 
Além de tudo isso, é duro ver desaparecer definitivamente (ou não) personagens fortíssimas da saga, mas tenho mesmo de tirar o chapéu ao autor pela coragem de o fazer, e por de facto construir uma intriga ao mais alto nível. Se há coisa que George R. R. Martin faz bem, é construir personagens. Fá-lo de forma brilhante, ou não estivéssemos nós prestes a odiar um Regicida visto pelos olhos dos outros, pelo qual  nos apaixonamos depois de lermos os seus próprios capítulos. A personagem é a mesma, rigorosamente. Não há ilusões de avaliação de carácter. A diferença é que ao termos acesso aos seus pensamentos, as personagens tornam-se incrivelmente reais, totalmente humanas. E poucas há nesta saga que sejam puramente "maus", sendo cada uma delas um reflexo da natureza do ser humano e das suas ambições pessoais, sejam elas honra, amor, poder, dinheiro, família, uma senhoria ou simplesmente servir.
É esta a magia dos livros da Saga do Gelo e do Fogo, e se tenho de admitir que, em 2 terços deste(s) livro(s) senti o nível da escrita e o rumo da história a fraquejarem (quem sabe o resultado do processo de bloqueio, reescrita e adiamento de publicação pelo qual esta obra passou) fico contente por dizer que o último terço me agarrou totalmente. Os capítulos finais revelaram-se um desenrolar de acontecimentos tão inesperados como deliciosos, mais nós nesta teia de Westeros, com as personagens suspensas no limite. 
E é claro, agora junto-me à horda de fans que espera ansiosamente pela publicação do tão aguardado 5º livro desta sega, desesperando por saber o que aconteceu às personagens que deixámos, algumas ainda em Glória dos Traidores, e o rumo dos acontecimentos. 
A verdade é esta, algo em Westeros está a mudar. O Inverno está a chegar. 

4/5 - Gostei muito