Bibliofilia: Amor por livros e por ler. O Bibliófilo ama ler e sente devoção pelos livros, colecciona-os e admira-os.
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20/11/2011

Fallen Angel




Title/Título: Fallen Angel

Author/Autor: Maggie Wilson

Nº of pages/ Nº de páginas: 280

Publisher/Editora: HandE Publishers

Synopsis/Sinopse: Sister Cate Carter has been working at Westwood General Hospital for many years and always loved her job. Until the world according to Cate came crashing down when two detectives marched on to her ward. Ward 73 gave them cause for suspicion, more and more deaths were occurring with no reasonable explanation of why. This had happened before, not at Westwood General, not recently, but it had happened. David Waters, a name very well known in the medical world, was being brought up again. David was responsible for the deaths of seven patients, at least that s all they could get him for. He claimed he just wanted to put his patients out of their misery. Is this a copy-cat murderer? Or is there really another David Waters killing their patients and getting away with it? 


Review/Opinião: This book is what can be called a medical thriller with a romance twist. The plot takes place at a cirurgical ward at a hospital, when suddenly random healthy patients appear dead. The first suspicions fall on the nurse staff, and the story develops around the investigation, by Detective Charlie Hammond, and the point of view of Sister Cate Carter, responsible for the ward. 

This is certainly the kind of book for a reader with a soft spot for medical subjects. The descriptions are long and accurate, and take a great part in the writing of the story. Unfortunately I didn’t relate do any of the characters, nor to the mystery itself. And would have liked a more paced action and stronger dialogues. The romance part was weak, really. It is a light, easy read. This review is part of the Fallen Angel Book Tour, hosted by UK and Beyond Book Tours



Este livro é aquilo que pode ser chamado um thriller médico, com uma ponta de romance. A acção tem lugar numa ala cirúrgica de um hospital, quando subitamente pacientes saudáveis começam a aparecer mortos. As primeiras suspeitas recaem sobre a equipa de enfermagem, e a história desenvolve-se à volta da investigação do Detective Charlie Hammond, e do ponto de vista de Cate Carter, responsável pela ala. 

Este é certamente o tipo de livro para um leitor que tenha preferência por temas médicos. As descrições são longas e precisas, e assumem uma grande parte da escrita da história. Infelizmente não me identifiquei com nenhuma das personagens, nem com o mistério em si. Gostaria de ritmo da acção mais rápido e melhores diálogos. A parte do romance foi também bastante fraca. É uma leitura fácil e leve. Esta opinião faz parte do  Fallen Angel Book Tour, que tem lugar no UK and Beyond Book Tours

2/5 – It's OK/Está OK. 


18/11/2011

Os Jogos da Fome


Título: Os Jogos da Fome
Título original: The Hunger Games
Autor: Suzanne Collins
Tradutor: Jaime Araújo (+)
Nº de páginas: 254
Editora: Editorial Presença



Sinopse: Num futuro pós-apocalíptico, surge das cinzas do que foi a América do Norte Panem, uma nova nação governada por um regime totalitário que a partir da megalópole, Capitol, governa os doze Distritos com mão de ferro. Todos os Distritos estão obrigados a enviar anualmente dois adolescentes para participar nos Jogos da Fome - um espectáculo sangrento de combates mortais cujo lema é «matar ou morrer». No final, apenas um destes jovens escapará com vida… Katniss Everdeen é uma adolescente de dezasseis anos que se oferece para substituir a irmã mais nova nos Jogos, um acto de extrema coragem… Conseguirá Katniss conservar a sua vida e a sua humanidade? Um enredo surpreendente e personagens inesquecíveis elevam este romance de estreia da trilogia Os Jogos da Fome às mais altas esferas da ficção científica.. 






Opinião: Já tinha comprado este livro há alguns meses, e tinha-me chamado à atenção pelo enorme fandom que os livros têm pela internet fora. Tinha intenções de o ler antes da estreia da adaptação cinematográfica, e com opiniões positivas de pessoas cuja opinião valorizo, arrisquei comprar o volume 3 da trilogia, recentemente lançado pela Presença mesmo antes de ter lido o primeiro (para aproveitar a oferta de uma caixa arquivadora para os três livros). Quando a encomenda chegou peguei neste Os Jogos da Fome e comecei a folhear por curiosidade, mas só o pousei quando o sono me venceu 70 páginas depois. 


É um livro que me deu grande gozo ler. O ritmo da escrita é viciante, a personagem principal, Katniss, cativa imediatamente e principalmente, o conceito é promissor. Um país governado por um regime totalitário, em que o poder sobre os 12 distritos de Panem está localizado no Capitólio. Todos os anos se realizam Os Jogos da Fome, em que 2 tributos de cada Distrito são lançados numa arena para se enfrentarem uns aos outros e aos elementos, até que sobreviva apenas um – para entretenimento do Capitólio. 

Apesar da premissa muito interessante, penso que o livro peca por uma exploração pouco aprofundada, mas no fundo adequa-se ao caracter mais juvenil (Young Adults) do livro. A escrita é bastante simples e ritmada, mas o que poderia ser um ponto negativo para mim, mais uma vez adequa-se ao contexto da acção e ao ritmo da narrativa. Honestamente dispensava a vertente mais romântica das personagens, mas ainda assim não se torna o ponto central da história, o que gostei.

Em suma, é um livro leve, que se lê bem e rapidamente. Proporciona bons momentos de leitura descontraída, e deixou-me com uma enorme vontade de ler a continuação. 


O melhor: A premissa e o contexto distópico criados. 



O pior: Honestamente, o final. Não pelo fim em si, mas por ser completamente em aberto, dá vontade de pegar imediatamente na continuação). 


Este livro foi comprado.*


4/5 – Gostei bastante


(*Nota: à semelhança de outros blogs, nomeadamente o Estante de Livros e o A Lâmpada Mágica, vou começar também a incluir na minha opinião a origem do livro)

08/06/2011

Aristides de Sousa Mendes – Um Herói Português

Aristides de Sousa Mendes – Um Herói Português

Autor: José-Alain Fralon
Tradutor: Saul Barata (+)
Nº de páginas: 125
Editora: Editorial Presença


Sinopse: Em Julho de 1885 nascem César e Aristides, dois gémeos de temperamentos diametralmente opostos. Aristides era tão extravagante quanto o seu irmão discreto e cumpridor. Entusiasta, generoso e aventureiro seguiu a carreira diplomática, e encontrava-se em Bordéus num tempo em que o nazismo lançara já a sua sombra sobre a Europa e o Mundo, enquanto Salazar jogava habilmente com a neutralidade. Multidões esperavam junto ao consulado para escapar ao Holocausto. Emanavam ordens do governo português para limitar a concessão de vistos, tanto mais que as tropas alemãs se aproximavam, mas Aristides assinava, dia e noite, correndo contra o tempo, obedecendo a imperativos mais altos. 


Opinião: Já há algum tempo que tinha vontade de saber mais acerca desta personalidade, e este pequeno livro permitiu isso mesmo. 

É um livro que vale pelos relatos acerca da realidade de Portugal na altura que antecedeu e durante a Segunda Guerra Mundial, e mas centra-se essencialmente no contexto familiar de Aristides (o irmão gémeo, o casamento e os seus 14 filhos…), que foi determinante para a sua conduta durante o seu consulado em Bordéus. Achei bastante interessante a inclusão de correspondência entre Aristides de Sousa Mendes e as autoridades portuguesas, documentos da desobediência do Cônsul, e de fotografias da época (apesar de surgirem algumas referências no texto para as quais não existia foto). 

Um livro que se lê bastante bem, numa prosa acessível, no entanto por vezes dramática e exagerada, que ainda tenho dúvidas se resulta ou não, mas que pessoalmente não gostei. Fiquei com vontade de ler ainda mais sobre Aristides de Sousa Mendes. 


O melhor: Caracterização da situação política e social do país na época. 
O pior: O tom da prosa. 

2/5 – Está OK.

14/05/2011

A Filha do Capitão


A Filha do Capitão, José Rodrigues dos Santos



Nº páginas: 634

Editora: Gradiva (2004)



Sinopse: Tendo como pano de fundo a odisseia trágica da participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial, "A Filha do Capitão" conta-nos, num ritmo vivo e empolgante, a comovente história de uma paixão impossível entre um oficial português e uma baronesa francesa.
A história de uma grande paixão em tempo de guerra.
Quem sabe se a vida do capitão Afonso Brandão teria sido totalmente diferente se, naquela noite fria e húmida de 1917, não se tivesse apaixonado por uma bela francesa de olhos verdes e palavras meigas. O oficial do exército português estava nas trincheiras da Flandres, em plena carnificina da Primeira Guerra Mundial, quando viu o seu amor testado pela mais dura das provas. 
Em segredo, o Alto Comando alemão preparava um ataque decisivo, uma ofensiva tão devastadora que lhe permitiria vencer a guerra num só golpe, e tencionava quebrar a linha de defesa dos aliados num pequeno sector do vale do Lys. O sítio onde estavam os portugueses.
O Capitão Afonso Brandão mudou a sua vida quase sem o saber, numa fria noite de boleto, ao prender o olhar numa bela francesa de olhos verdes e voz de mel. O oficial comandava uma companhia da Brigada do Minho e estava havia apenas dois meses nas trincheiras da Flandres quando, durante o período de descanso, decidiu ir pernoitar a um castelo perto de Armentières. Conheceu aí uma deslumbrante baronesa e entre eles nasceu uma atracção irresistível. 
Mas o seu amor iria enfrentar um duro teste. O Alto Comando alemão, reunido em segredo em Mons, decidiu que chegara a hora de lançar a grande ofensiva para derrotar os aliados e ganhar a guerra, e escolheu o vale do Lys como palco do ataque final. À sua espera, ignorando o terrível cataclismo prestes a desabar sobre si, estava o Corpo Expedicionário Português.



Opinião: Tinha algumas expectativas para este livro, com base em opiniões de algumas pessoas cuja opinião valorizo. Estava a espera que este fosse um daqueles romances históricos que tanto aprecio e que me arrebatam, mas isso não aconteceu infelizmente, apesar de globalmente ter gostado do livro. A minha impressão não começou muito positiva... Eu até percebo que o autor tenha pretendido cativar o leitor desde o início com uma escrita elaborada, mas o caso sério de overwriting que este livro apresenta teve em mim o efeito inverso.

Quando consegui adaptar-me à escrita deliberadamente elaborada, demorei cerca de 200 páginas até “entrar” na história. Mais uma vez, eu entendo a estratégia do autor: contextualizar os acontecimentos e apresentar uma série de informação da época e factos históricos, relevantes ou curiosos, mas a maneira descritiva e exaustiva como o faz soou-me terrivelmente enfadonha grande parte do tempo. A melhor parte de ler um romance histórico, a razão pela qual adoro este género, é o facto de aprendermos algo mais sobre esse período ou personagens históricas, sem sentir que estamos a ler um livro de História.

Este recurso à descrição excessiva é sem dúvida uma característica do livro, mas devo dizer que em algumas partes da leitura não foi tão incómodo, e no geral, gostei bastante de absorver todo este conhecimento sobre uma época da História portuguesa sobre a qual não leio muito. Não foi a descrição em si que me incomodou neste livro, mas sim a maneira como foi escrita e introduzida, claramente com o objectivo de informar o leitor e sem brilho (vulgo info-dump).
Quanto à narrativa, acho que a história está repleta de constantes crescendos sem concretização, e que este livro é demasiado longo e o ritmo teria facilmente beneficiado de menos 200 páginas.

Mas nem tudo foi negativo, adorei as expressões regionais dos soldados portugueses e a sua relação com os “boches” e os “bifes”. A verdade é que acabei por me sentir cativada pelo destino dos personagens, e considero que a parte mais interessante do livro é a que descreve o posicionamento das tropas portuguesas na Flandres, e as suas relações com os franceses e os ingleses. Dei por mim a querer ler sempre mais sobre a vida nas trincheiras e sobre os pobres e resmungões soldados portugueses, sobre Afonso e Agnès.
No entanto, precisamente por esta parte ter sido mais satisfatória, achei o final totalmente anticlimático. É um livro bastante pretensioso, quer a nível de escrita, quer de história, mas que na minha opinião falhou a concretização por demasiado esforço. Ficou claramente aquém do que esperava.


O melhor: Aprendi mais sobre a participação portuguesa na I Guerra Mundial, a as expressões regionais dos soldados portugueses.

O pior: Overwriting vs infodump


3/5 – Gostei.




PS: Ufa, habemus blogger! :D

28/04/2011

1808


1808, Laurentino Gomes

Nº de páginas: 392
Editora: (Livros D'Hoje (Publicações Dom Quixote 2008)

Sinopse: Nunca algo semelhante tinha acontecido na história de Portugal ou de qualquer outro país europeu. 


Em tempo de guerra, reis e rainhas tinham sido destronados ou obrigados a refugiar-se em territórios alheios, mas nenhum deles tinha ido tão longe, a ponto de cruzar um oceano para viver e reinar do outro lado do mundo. Embora os europeus dominassem colónias imensas em diversos continentes, até àquele momento nenhum rei tinha posto os pés nos seus territórios ultramarinos para uma simples visita - muito menos para ali morar e governar. Era, portanto, um acontecimento sem precedentes tanto para os portugueses, que se achavam na condição de órfãos da sua monarquia da noite para o dia, como para os brasileiros, habituados até então a serem tratados como uma simples colónia de Portugal. 


D. João VI foi o único soberano europeu a visitar terras americanas em mais de quatro séculos e foi quem transformou uma colónia num país independente. 

No entanto, o seu reinado no Brasil padece de um relativo esquecimento que, quando lembrado, é tratado de forma caricata. 

Mas o Brasil de D. João VI não se resume a episódios engraçados. A fuga da família real para o Rio de Janeiro ocorreu num dos momentos mais apaixonantes e revolucionários do Brasil, de Portugal e do mundo. Guerras napoleónicas, revoluções republicanas e escravidão formaram o cenário no qual se deu a mudança da corte portuguesa e a sua instalação no Brasil. 

O propósito deste livro, resultado de dez anos de investigação jornalística, é resgatar e contar de forma acessível a história da corte portuguesa no Brasil e tentar devolver os seus protagonistas à dimensão mais correcta possível dos papéis que desempenharam há duzentos anos. 

Como se verá, estes personagens podem ser, inacreditavelmente caricatos, mas isso é algo que se poderia dizer de todos os governantes que os seguiram, incluindo alguns actuais.



Opinião: Li este livro por insistência do meu pai, professor de História. Confesso que pensei que era um retrato da fuga da família real portuguesa para o Brasil, escrito em forma de romance histórico, e não o documento histórico que é. Este livro, conforme o próprio autor explica logo na sinopse, é fruto de uma investigação exaustiva e longa acerca deste período da História do reino. É um relato preciso, completo e detalhado da realidade política e social de Portugal nas vésperas na Invasão Francesa, das suas relações com Inglaterra e o resto da Europa, do estado do Império e finalmente, das consequências da partida de Portugal e estabelecimento da corte portuguesa no Brasil.

Todos nós aprendemos esta matéria na escola. Mas a verdade é que os livros de História não nos ensinam muito mais além da fuga precipitada da corte, acerca da fragilidade mental da Rainha D. Maria e a timidez do seu filho, o príncipe regente D. João VI. Sabemos que a aliança foi Inglaterra foi determinante nesta empreitada, e que esta fase da nossa História culminou com a independência do Brasil, pela mão de D. Pedro I (do Brasil, IV de Portugal).

Este livro oferece-nos uma descrição detalhada e fundamentada dos acontecimentos e da situação da época, muitas vezes pela própria “voz” de personalidades cuja correspondência constitui hoje documentação valiosa. Faz-nos realmente compreender o contexto em que esta insólita partida para a colónia teve lugar e os seus efeitos políticos, sociais e comerciais que desencadeou não só no Brasil, como em Portugal e na Europa.

O mais fabuloso neste livro é a maneira como conta História de forma precisa, sem se tornar em momento algum aborrecido. A escrita do autor é divertida e ritmada, incentivando o leitor a ler mais e a relacionar informação. Ao mesmo tempo, achei muito bem conseguida a estruturação da obra.

Em suma, é um excelente livro de História, muito bem escrito, e permite-nos aprender mais sobre esta fase da nossa História.

O melhor: O grande nível de detalhe e precisão dos dados; e a escrita cativante

O pior: Sinceramente acho que não tenho nada a apontar.


4/5 – Gostei bastante

13/04/2011

O Espectáculo da Vida - A Prova da Evolução

O Espectáculo da Vida - A Prova da Evolução, Richard Dawkins


Título original: The Greatest Show on Earth - The Evidence for Evolution
Tradutor: Isabel Mafra
Nº páginas: 421
Editora: Casa das Letras (2009)

Sinopse: A evolução é um facto que não suscita dúvidas razoáveis, dúvidas sérias, dúvidas inteligentes, informadas e saudáveis. Não há dúvida de que a evolução é um facto. As provas da evolução são pelo menos tão fortes como as do Holocausto, mesmo considerando a existência de testemunhas oculares deste último. É uma verdade inquestionável que somos primos dos chimpanzés, primos mais distantes dos macacos, primos ainda mais afastados dos papa-formigas e manatins, primos ainda mais distantes das bananas e dos nabos… a lista poderia continuar para sempre. Ora isto não tem de ser verdade. Não se trata de uma verdade evidente, tautológica, óbvia e houve tempos em que a maior parte das pessoas, mesmo as instruídas, pensava que não era. Não tem de ser verdade, mas é. Sabemos isso porque uma vaga crescente de provas o confirma. A evolução é um facto e este livro demonstrá-lo-á. Nenhum cientista respeitável o discute e nenhum leitor imparcial concluirá este livro com dúvidas a esse respeito.


Opinião: Estava com bastante vontade de ler um bom livro de divulgação científica, principalmente tendo acompanhado no Fórum Bang! as leituras, dentro desse género, da pessoa que me recomendou este livro (um obrigada ao Magnus Marco), e que me abriram o apetite. Sendo a minha formação e interesses pessoais e profissionais na área da Biologia, esta foi uma escolha natural para iniciante.

A verdade é que provavelmente teria sido mais útil ler um livro fora da minha área de formação, mas confesso que temia que a divulgação científica fosse mais um discorrer de ciência pouco cativante, ao invés de uma forma interessante de conhecer ciência. Quanto a este livro, não podia estar mais enganada.

Dawkins escreve numa linguagem clara e acessível, sem deixar de ser eloquente, precisa e detalhada. A maior surpresa foi precisamente o bom humor que transparece nesta escrita, e a forma cativante como apresenta factos científicos bem como históricos.

O objectivo deste livro é expor de forma clara e inequívoca as provas conhecidas da evolução, de forma a constituir uma base de informação completa e simples disponível aos cidadãos do mundo moderno. Após anos de “luta” contra as teorias criacionistas, o autor sentiu que a influência dos criacionistas é cada vez maior, quer nas escolas (onde se começa a proibir o ensino da evolução!) quer junto do público em geral, numa política de desinformação. Com este livro, Richard Dawkins procura tão simplesmente expor as provas conhecidas, e explicar a razão pela qual constituem provas de que a evolução, qualquer que seja o seu caminho, é inegável.

O que senti na leitura deste livro foi que o programa completo de Biologia do 12º ano que estudei na escola está aqui explicado de forma facilmente assimilável, interessante e até divertida. A diferença é que o currículo de Biologia está acessível apenas aos estudantes dessa disciplina, ao passo que este livro constitui uma fonte de informação disponível a qualquer pessoa. O autor apresenta as referências (como cabe ao cientista), inclui apêndices com informação detalhada de estudos e inclui 12 páginas centrais com fotografias a cores, que refere ao longo do texto. Além destas imagens coloridas de alta qualidade, ao longo do texto surgem frequentemente imagens a preto e branco que elucidam passagens e raciocínios.

Fiquei impressionada com a enorme carga de informação apresentada de forma natural e facilmente compreensível até para o mais leigo dos leitores, muitas vezes recorrendo a metáforas improváveis mas interessantes. A minha favorita (além da que reproduzi no excerto) é a analogia entre as primeiras fases do desenvolvimento embrionário e uma estrutura de origami: a parte de um pedaço de papel único, e sem introduzir mais papel, parte-se se um simples quadrado, passando por várias construções até chegarmos a um complexo barco de bambu. Facilmente se interioriza o conceito, um pouco abstracto e difícil de “visualizar”, da divisão celular que ocorre no verdadeiro início da vida de um embrião. Conceitos específicos e “complicados” são explicados com igual naturalidade com que surgem explicações de fenómenos que conhecemos quase empiricamente, o que demonstra que o autor se dirige ao leitor sem preconceitos, sem distanciamentos intelectuais.

Obviamente eu não pertenço ao público-alvo deste livro, uma vez que tendo já estudado e compreendido os processos evolutivos, a evolução é para mim algo perfeitamente aceite. No entanto esses processos da evolução e os exemplos concretos não deixam de me fascinar, e como tal, este livro cativou-me e aprendi imensas coisas e relembrei outras mais esquecidas. Voltando ao público-alvo, este livro dirige-se ao comum cidadão, por assim dizer, e não à comunidade científica. É acessível a qualquer pessoa que sinta curiosidade pelo tema, e será com certeza uma leitura interessante.

Curiosamente, visitei recentemente a exposição Darwin, presente na Casa Andresen, no Jardim Botânico da Universidade do Porto, e tive oportunidade de observar fisicamente muitos elementos referidos ao longo do livro, o que se revelou um exercício bastante interessante. Aproveito também para recomendar a visita à exposição (decorre até Julho), bastante completa e interessante, além de permitir a visita à magnífica casa onde viveu Sophia de Melo Breyner.

O melhor: A forma clara e precisa, mas acessível, como conhecimento científico é exposto.
O pior: Pessoalmente, muita da informação já fez parte da minha informação, pelo que senti como uma repetição (apreciação pessoal, independente do livro em si).

4/5 – Gostei bastante



08/04/2011

Marina

Marina, Carlos Ruiz Zafón



Tradução: Maria do Carmo Abreu (+)
Nº de páginas: 260
Editora: Planeta (2010)

Sinopse: «Marina disse-me uma vez que apenas recordamos o que nunca aconteceu. Passaria uma eternidade antes que compreendesse aquelas palavras. Mas mais vale começar pelo princípio, que neste caso é o fim.» «Em Maio de 1980 desapareci do mundo durante uma semana. No espaço de sete dias e sete noites, ninguém soube do meu paradeiro.» «Não sabia então que oceano do tempo mais tarde ou mais cedo nos devolve as recordações que nele enterramos. Quinze anos mais tarde, a memória daquele dia voltou até mim. Vi aquele rapaz a vaguear por entre as brumas da estação de Francia e o nome de Marina tornou-se de novo incandescente como uma ferida fresca. «Todos temos um segredo fechado à chave nas águas-furtadas da alma. Este é o meu.» 



Opinião: Li este livro numa noite. Peguei nele a meio do serão e só o larguei quando o terminei, de madrugada. Se não me tivesse prendido imediatamente pela história, que começa como descrito na sinopse, ter-me-ia rendido apenas à escrita de Zafón. Deste autor já tinha lido o cada vez mais célebre A Sombra do Vento, ao qual fiquei rendida. Sabendo que este Marina foi o primeiro romance do autor, creio ter notado alguma diferença na escrita, mais descontraída e divertida (reflectindo também a personalidade do protagonista, Óscar), menos elaborada, se for esse o termo, mas igualmente descritiva de forma belíssima. 

Óscar é um jovem de 15 anos que mora num internato na cidade de Barcelona. A sua rotina passa por aproveitar a janela de tempo entre o fim das aulas e o jantar para explorar Barcelona, e num desses dias acaba por entrar numa casa aparentemente desabitada, atraído por uma música sublime. Uns dias mais tarde, após uma fuga assustada que precipita um furto inadvertido, Óscar conhece a improvável inquilina desta mansão semi-abandonada, onde vive com o seu pai. Marina. 

Não pude obviamente deixar de identificar alguns pontos em comum com a história de A Sombra do Vento. A fórmula é em muito semelhante: Um jovem rapaz perdido nos mistérios de uma intriga em Barcelona, acompanhado de uma bela jovem. 

Esta história está repleta de mistérios e reviravoltas. Adivinhei todas as revelações antes de acontecerem, mas isso não fez com que tivesse gostado deste livro nem um bocadinho menos. Passo a explicar. Numa certa discussão familiar há uns meses, chegou-se à conclusão que todas as grandes obras literárias (ou uma grande maioria daquelas que nos apaixonam) e/ou cinematográficas, retirados todos os contextos e cenários e deixando apenas o núcleo, evocam o enredo tronco das tragédias gregas ou peças Shakespeareanas. Não foi por não ter sido apanhada de surpresa que deixei de me comover com a forma como esta história foi escrita, e o seu enredo apresentado. 

Este livro foi uma delícia do início ao fim, quer pela mistura de elementos históricos e fantásticos, pela graciosidade da linguagem e até, como piscadela de olho ao romance de terror, uma María Shelley no meio de um mistério que surge com estranhos objectos que ganham vida. E mais não digo. Mesmo no fim, acabei por ser surpreendida pelo rumo que os acontecimentos tomaram e pela forma como a história foi terminada… tal como começou. E já mencionei como adoro a escrita deste autor? Terminei este livro com aquele suspiro de quem termina uma aventura, mas que apreciou cada momento. 

O melhor: A escrita de Zafón. 
O pior: Alguns pontos de contacto com a obra que conheço do autor, e mais uma vez fiquei frustrada por não conhecer Barcelona. 

4/5 – Gostei bastante

07/04/2011

Lua de Mel

 Lua de Mel, Banana Yoshimoto



Tradução (do italiano): Sandra Escobar (+)
Nº de páginas: 120
Editora: Cavalo de Ferro (2007)



Sinopse: Manaka e Hiroshi conhecem-se desde pequenos. Cresceram juntos, tornaram-se cúmplices, confidentes e casam-se ainda muito jovens. O seu amor foi construído sobre um passado em comum, mas as suas personalidades são muito diferentes. Manaka é serena e vive o seu jardim de forma profunda e meditativa, enquanto Hiroshi continua assombrado por traumas familiares. Hiroshi sofre a perda do avô e o casal decide então partir numa segunda lua-de-mel para a Austrália, uma viagem que lhes vai reservar surpresas, reencontros inesperados e a forte magia dos pequenos nadas. Banana Yoshimoto envolve o leitor no romance de dois jovens cujo amor e inocência vai chocar com as mais torpes manifestações do género humano. 






Opinião: Confesso que comprei este livro apenas por 3 razões, nenhuma relacionada com o conteúdo. Primeiro, pela capa. Ou melhor, pelas capas. Tentei fotografar de forma a mostrar como a edição cuidada deste livro é deliciosa (como tenho reparado que é a maioria das edições da Cavalo de Ferro. Porque nunca reparei nesta editora antes?!). A sobrecapa em forma de “caixa” sobre a capa vermelha faz uma montagem engraçada, o que me chamou à atenção para o livro e para o nome da autora. Nunca tinha lido um autor japonês, mas há muito que queria e isso levou-me a analisar o 3º motivo: o preço. Por 2€ (isso mesmo! Comprei na mesma ocasião d’O Reino de Glome) não hesitei em experimentar. 


Este pequeno livro conta a história de dois jovens, Manaka e Hiroshi, que se conhecem desde que se lembram. Passam juntos pela infância e pela adolescência, e da amizade e convivência vai nascendo um amor inocente e sereno. Observamos o ponto de vista de Manaka (que para os leigos ocidentais esclareço que é a rapariga), cuja personalidade serena é muito diferente do inseguro e traumatizado Hiroshi, que tem dificuldade em compreender. Essa incompreensão e questões que Manaka coloca a si própria passam para o leitor. 

Não me senti muito cativada pelas personagens e a sua relação, mas fui sendo seduzida pela escrita simples, mas fluída e de certa forma espiritual da escritora, que creio ser também devida à sua cultura. A história destas duas personagens é feita de dúvidas e desencontros emocionais, é acerca de enfrentarmos os nossos medos e evoca também a enraizada convicção japonesa de sermos melhores para dessa forma sermos melhores para os outros. 

Apesar de não me ter conquistado completamente, gostei, e vou seguramente ler mais livros da autora. 


O melhor: A escrita e o retrato de parte da cultura japonesa 

O pior: Só ter reparado no fim da leitura no glossário de termos japoneses, que teria gostado de ter visto ao longo da leitura 

3/5 - Gostei

03/04/2011

The Northern Lights

The Northern Lights, Philip Pullman
Editora: BBC Audiobooks (2002)
Narrador: Philip Pullman


Sinopse: In a landmark epic of fantasy and storytelling, Philip Pullman invites readers into a world as convincing and thoroughly realized as Narnia, Earthsea, or Redwall. Here lives an orphaned ward named Lyra Belacqua, whose carefree life among the scholars at Oxford's Jordan College is shattered by the arrival of two powerful visitors. First, her fearsome uncle, Lord Asriel, appears with evidence of mystery and danger in the far North, including photographs of a mysterious celestial phenomenon called Dust and the dim outline of a city suspended in the Aurora Borealis that he suspects is part of an alternate universe. He leaves Lyra in the care of Mrs. Coulter, an enigmatic scholar and explorer who offers to give Lyra the attention her uncle has long refused her. In this multilayered narrative, however, nothing is as it seems. Lyra sets out for the top of the world in search of her kidnapped playmate, Roger, bearing a rare truth-telling instrument, the compass of the title. All around her children are disappearing, victims of so-called "Gobblers", and being used as subjects in terrible experiments that separate humans from their daemons, creatures that reflect each person's inner being. And somehow, both Lord Asriel and Mrs. Coulter are involved.

Opinião: Este foi o primeiro livro que ouvi (não considerando uma colecção Disney que ouvia em criança acompanhada dos livros), e como tal esta opinião do livro é indissociável da minha opinião do audiobook por si só. A verdade é que já tinha lido este livro em 2008, mas nunca li os restantes dois livros da trilogia dos Mundos Paralelos (His Dark Materials, no original). Já andava com vontade de ler o resto da trilogia, mas tendo passado tanto tempo desde a leitura do primeiro, fui adiando. Quando decidi que ia experimentar ouvir audiobooks, decidi também que iria começar por um livro que já tivesse lido, e portanto ao escolher este livro foi uma matança de dois coelhos de uma cajadada só. Não só experimentei um audio-livro, como relembrei o primeiro livro da trilogia. 

Já tinha gostado bastante do livro na minha primeira leitura, há 3 anos. Não o considerei um livro para crianças, apesar da história nos ser contada do ponto de vista de uma. Lyra Belacqua é uma criança activa e irreverente, a crescer no seio da Universidade de Oxford (principalmente os telhados, as caves e outros locais proibidos), numa Inglaterra em muito igual à que conhecemos, mas em tudo o resto bastante diferente.  
Gostei bastante do conceito de "daemon" (creio que traduziram para "génio", em português) e de todo o significado profundo da ligação entre cada humano e o seu. Este livro tem todos os elementos de um verdadeiro livro de fantasia.  Entre o povo do rio (cultura em parte semelhante à cigana), estudiosos e teólogos, instrumentos misteriosos, clãs de bruxas em guerra, aeronautas em balão e fabulosos ursos armados. A intriga desenvolve-se em redor da entidade religiosa Magisterium, os estudos divergentes relacionados com a Poeira (Dust no original), reflexões filosóficas e crianças desaparecidas. Todas as aventuras da pequena Lyra, desde a Inglaterra steampunk à gelada e inóspita região do Norte, nos prendem do início ao fim, bem como os mistérios, as personagens enigmáticas e o terrível destino que se adivinha.

Se já tinha gostado de ler o livro, adorei ouvi-lo. Esta edição da BBC é narrada pelo próprio Philip Pullman, e as vozes das personagens pertencem a um pequeno elenco. Adorei o dinamismo do narrador, que conta a história ao ritmo da verdadeira acção e verbaliza o estado de espírito de Lyra mesmo fora dos diálogos.  Adorei a perfeita interpretação das personagens, que diferem nos sotaques e maneirismos próprios das personagens, e exploram os seus estados de espírito. 
Resumindo, não só fiquei cheia de vontade de continuar a ler a trilogia, como adorei esta experiência com os audiobooks, e continuarei a ouvi-los. É óptimo estar a aproveitar o tempo em que não podemos estar a ler, mas podemos ouvir. 


O melhor: O conceito de Daemon e a narração.
O pior: Algumas personagens surgem repentinamente a apenas com um propósito, perdendo alguma da ligação com a história.

4/5 - Gostei bastante

30/03/2011

O Traficante de Armas


O Traficante de Armas, Hugh Laurie
Título original: The Gun Seller
Tradutor: João Henriques (nota ++)
Editora: Caderno



Sinopse: Thomas lang é um ex-polícia que se tornou um mercenário. Um dia recebe a visita de um tal McClusky, que lhe oferece cem mil dólares para assassinar Alexander Woolf, um empresário americano com negócios na Inglaterra e Escócia. Indignado, Lang recusa o trabalho e decide avisar a vítima para o perigo que corre, em vez de matá-la: uma boa acção que não ficará impune. 

A partir do momento em que o protagonista entra em contacto com a família Woolf ver-se-á imerso num turbilhão de mentiras, corrupção e violência, que o obrigará a esmagar umas quantas cabeças com a estatueta de um Buda, a medir o seu engenho com multimilionários malvados e deixar a sua vida (entre outras coisas) nas mãos de um grupo de femmes fatales. 

Hugh Laurie apresenta-nos um engenhoso e ácido romance que fará as delícias não só dos seus fãs, mas também de todos os leitores ávidos por enredos originais e cativantes. 


Opinião: Eu juro que tentei ler este livro sem ter em mente que o seu autor é um dos mais brilhantes comediantes europeu das duas últimas décadas. Eu juro que tentei ler este livro sem associar o narrador ao sotaque britânico delicioso do autor, e tentei ser imparcial relativamente ao sentido magnífico de humor de Hugh Laurie. Eu tentei, mas ele não deixou. 

Este livro respira Hugh Laurie em todas as letras. São vários os elementos: o excelente sentido de humor do narrador e personagem principal (publiquei aqui as primeiras linhas do livro, e dá para ver o tom do discurso); a mentalidade de superioridade britânica face à América da parte de um inglês “obrigado” a lidar com americanos em contexto profissional; até a necessidade de disfarçar o sotaque britânico tão próprio para exercer uma profissão e até fazer-se passar por americano nascido e criado; e Londres, cidade que adoro, como pano de fundo de grande parte da acção. Todos estes elementos, além de me remeterem para o artista Hugh Laurie e para as suas performances enquanto actor e comediante, prenderam-me do início ao fim como narrativa. Muitos só conhecem este artista pela famosa (e excelente, uma das minhas favoritas) série de TV House (e uns poucos pela fantástica Black Hadder), mas a carreira dele no Reino Unido começou há muitos anos atrás, e além de cantar, tocar e representar com um humor apurado, também escreve. Recomendo uma breve pesquisa no YouTube dos vídeos mais antigos dos programas deles se quiserem rir-se um bom bocado. Mas voltando ao livro...

Um homem britânico que anda metido com pessoal do governo de Sua Majestade, por causa de uma confusão com uns americanos brutos e limitados (não são todos?), que apenas procura levar a sua vida descansado, e se possível com uma Glock à mão. No meio disto tudo há uns negócios de venda de armas que envolvem terrorismo, e Thomas Lang é deixado numa encruzilhada moral, da qual só consegue ver os olhos da bela americana Sarah Woolf. 

Gostava de ter conseguido dedicar mais tempo à leitura deste livro, para que esta tivesse sido mais fluída, porque este enredo está repleto de reviravoltas, surpresas inesperadas e personagens determinantes. Infelizmente não tive disponibilidade para tal, e acabei por me sentir uma ou duas vezes perdida no meio de tantas curvas, mas sempre divertida e a soltar gargalhadas no autocarro. Se é verdade que por vezes me senti confusa com as reviravoltas no enredo, considero que além da escrita fantástica do autor, um dos pontos fortes neste livro é precisamente o facto de o leitor não saber em quem acreditar. Se por um lado Thomas Lang parece não poder confiar em ninguém (e quando parece que confia, nós não sabemos se confia mesmo ou se quando virar costas vai agir ao contrário), nós também não sabemos bem se confiamos em Thomas Lang. Estranho, não? Tendo em conta que o ponto de vista é dos pensamentos da personagem, é preciso o escritor ser terrivelmente engenhoso e inventivo para não revelar o que não quer que seja revelado. Até ao final, a dúvida quanto às verdadeiras intenções das personagens permanece juntamente com a verdade acerca do nosso herói. Porque ele torna-se o nosso herói desde o primeiro momento em que entramos na sua cabeça, mas mesmo assim o final é surpreendente. Reconheço que o enredo é pouco sólido de forma geral, porque se foca muito nos pormenores, mas não deixa de ser brilhantemente bem escrito, um livro despretensioso e uma óptima forma de passar o tempo. 


O melhor: A escrita divertida, chegando a ser hilariante. 

O pior: O enredo em si pouco sólido em certos pontos. 

4/5 – Gostei bastante

13/03/2011

No Reino de Glome

No Reino de Glome - Até Termos Rostos, C. S. Lewis

Título original: Till We Have Faces: A Myth Retold
Tradutora: Isabel Milhazes
Nº de páginas: 256
Editora: Cavalo de Ferro


Sinopse: «Agora já estou velha e não temo a fúria dos deuses… irei escrever neste livro tudo aquilo que uma pessoa que é feliz não se atreveria a escrever. Vou acusar os deuses, especialmente o deus da Montanha cinzenta. Vou contar tudo o que ele me fez, como se estivesse a apresentar a minha acusação perante um juíz. Eu sou Orual, a filha mais velha de Trom, rei de Glome.» 
O Reino de Glome, situado nas montanhas da fronteira com a antiga Grécia, é um reino bárbaro que pratica um culto obscuro à cruel deusa do amor, Ungit, e ao seu filho, o deus da montanha, a que os gregos chamam Afrodite e Cupido. Quando Trom, o rei, casa novamente e dessa relação nasce Psique, a sua irmã mais velha, a princesa Orual, está longe de imaginar que esse nascimento irá modificar a sua vida e o curso da história. 
Psique é de uma beleza inigualável, tão bela que o povo se esquece do culto a Ungit. A cruel deusa exige que a princesa seja oferecida em sacrifício ao deus da montanha e os acontecimentos precipitam-se… 





Opinião: Esta é uma recriação do mito grego de Eros e Psique. Segundo o próprio C. S. Lewis, quando leu este mito pela primeira achou que “faltava” alguma coisa, e decidiu-se portanto a recriá-lo. Não sabia nada deste livro quando comecei a lê-lo, por isso acho que as minhas expectativas não eram muito elevadas. O que me fez comprar o livro, além do preço quase ridículo de 3€ (exemplar novo, numa livraria) foi a belíssima edição. Achei a capa muito bonita (na imagem não dá para ver os relevos das figuras e os dourados), e quando li o primeiro parágrafo (transcrito na sinopse) fiquei imediatamente cativada pelo livro. 

No entanto esse entusiasmo inicial foi esmorecendo. Tudo nesta obra grita tragédia grega. Além do próprio enredo, com guerras entre humanos e deuses, e tarefas impossíveis (com as quais podia bem), as personagens e principalmente os diálogos e os monólogos, quase me levaram ao desespero. Numa altura estava a gostar, no momento a seguir estava quase a largar o livro. Talvez estivesse à espera de uma obra de fantasia, mas a verdade é que se trata de uma recriação de uma obra clássica, e procura de certa forma recriar o estilo clássico de escrita da tragédia grega. Não uma adaptação, que teria considerado interessante, mas sim uma verdadeira recriação. 

Confesso que com o avançar do livro fui gostando cada vez menos, até fazer o esforço para terminar. Já estava saturada de tanta tragédia grega, literalmente. 

O melhor: Fiquei a saber um pouco mais acerca deste episódio da mitologia grega. 
O pior: Fiquei saturada principalmente com os diálogos. 

2/5 – Está OK

07/03/2011

A Rainha no Palácio das Correntes de Ar

A Rainha no Palácio das Correntes de Ar, Stieg Larsson (Millenium #3)

Título original: Luftslottet som sprängdes
Tradutor: (do inglês) Mário Dias Correia
Nº de páginas: 720
Editora: Oceanos (2009)


Sinopse: Lisbeth Salander sobreviveu aos ferimentos de que foi vítima, mas não tem razões para sorrir: o seu estado de saúde inspira cuidados e terá de permanecer várias semanas no hospital, completamente impossibilitada de se movimentar e agir. As acusações que recaem sobre ela levaram a polícia a mantê-la incontactável. Lisbeth sente-se sitiada e, como se isto não bastasse, vê-se ainda confrontada com outro problema: o pai, que a odeia e que ela feriu à machadada, encontra-se no mesmo hospital com ferimentos menos graves e intenções mais maquiavélicas… Entretanto, mantêm-se as movimentações secretas de alguns elementos da Säpo, a polícia de segurança sueca. Para se manter incógnita, esta gente que actua na sombra está determinada a eliminar todos os que se atravessam no seu caminho. Mas nem tudo podia ser mau: Lisbeth pode contar com Mikael Blomkvist que, para a ilibar, prepara um artigo sobre a conspiração que visa silenciá-la para sempre. E Mikael Blomkvist também não está sozinho nesta cruzada: Dragan Armanskij, o inspector Bublanski, Anika Gianini, entre outros, unem esforços para que se faça justiça. E Erika Berger? Será que Mikael pode contar com a sua ajuda, agora que também ela está a ser ameaçada? E quem é Rosa Figuerola, a bela mulher que seduz Mikael Blomkvist?

Opinião: Depois da maneira arrebatadora e atordoante como termina o segundo livro desta trilogia Millenium, estava ansiosa por deitar as mãos a este terceiro e derradeiro livro. Alguns elementos mantêm-se: Lisbeth continua em maus lençóis com a justiça e a sociedade suecas, e Mikael Blomkvist continua a ser um verdadeiro amigo desinteressado. Fervoroso jornalista que se mantém empenhado em desvendar toda a conspiração que envolve a morte dos seus dois amigos e a personagem misteriosa Zala, e acaba por juntar as peças que ligam Lisbeth Salander à conspiração.

O livro começa muito bem, precisamente no ponto em que terminou o anterior, e no mesmo ritmo. No entanto, com Lisbeth hospitalizada e ao mesmo tempo detida por vários crimes, a narrativa envereda por um caminho diferente, liderado essencialmente por personagens secundárias (mas importantes) e pela investigação a partir de vários pontos de abordagem.
Entra-se então numa fase que considerei algo aborrecida, mas que admito essencial para que o leitor considere verosímil aquele que será o apogeu deste livro. Este chega com o final da investigação, com vários núcleos diferentes de investigação envolvendo várias personagens, seguido do julgamento de Lisbeth Salander.

Além deste apogeu que considerei brilhante, algumas notas que considerei muito positivas prendem-se com as personagens. Primeiro, Lisbeth Salander, claro. Sendo esta mulher o ponto forte da trilogia e a razão pela qual ela existe, este livro não podia deixar de ser afectado pelo facto desta personagem se ver impedida pelas circunstâncias de “actuar” e de brilhar sendo simplesmente Lisbeth. Mas apesar de tudo mais perto do final temos oportunidade de ver mais uma vez os seus talentos. Gostei também da derivação da narrativa da investigação para a perspectiva paralela dos desafios a Erika Berger. Não só temos a oportunidade de conhecer melhor esta personagem, que se revela ainda mais interessante, como também proporciona a intervenção de outras personagens femininas.

Estes foram os pontos que me fizeram adorar este livro, mas também há notas negativas. Já referi acima uma parte mais enfadonha que explica o funcionamento da polícia secreta sueca, mas que não só é útil como essencial para perceber toda a evolução da conspiração. A outra parte, achei essencialmente dispensável, é a “porra do Super Blomkvist”, aka, engatatão barrigudo de serviço. Sim, ele é fantástico e tudo isso, mas satura um bocado estar sempre a saber que ele, juntamente com a sua ausência de boa forma física, tendência abusiva de se envolver em situações perigosas e/ou escandalosas, capacidade de ficar dias sem dar sinais de vida e incapacidade para qualquer compromisso emocional, são extremamente sensuais e qualquer mulher se sente irrevogavelmente atraída sexualmente para este sueco.

Tirando isso, gostei muito deste livro, mas não tanto como dos dois primeiros. É pena pensar que poderiam existir dez livros em vez de três, mas, ao contrário dos dois primeiros, que deixam o final totalmente dependente da continuação, este terceiro volume termina de uma forma bem “atada”, sem pontas soltas, mas deixa um espaço aberto à imaginação. É uma excelente conclusão para uma trilogia absolutamente recomendável.

O melhor: Lisbeth Salander, claro. O julgamento e a conspiração.
O Pior: Super Blomkvist vs Mikael Blomkvist

3/5 – Gostei.

04/03/2011

Um Crime no Expresso do Oriente

Um Crime no Expresso do Oriente, Agatha Christie
Tradutor: Alberto Gomes
Nº de páginas: 236
Editora: Edições RBA


Sinopse: Em pleno Inverno, Poirot encontra-se em Istambul, decidido a tomar o Expresso do Oriente. Depois de uma noite mal passada, a sua tranquilidade é perturbada quando uma tempestade de neve obriga o comboio a parar e aparece o cadáver de um passageiro brutalmente apunhalado. 


Opinião: Este é apenas o segundo livro que leio da mestre do crime, Agatha Christie, depois de Morte no Nilo. É também o primeiro em que travo conhecimento com o mítico Hercule Poirot, apesar da sua fama o preceder, claro. 


Além do enredo em redor do crime, este livro conquistou-me logo pelo cenário, comboio mais famoso do mundo: o Expresso do Oriente. Adorei a maneira como cada uma das personagens (os suspeitos, portanto) foi sendo introduzida juntamente com um pedaço de informação relevante, mas aparentemente casual. 

Gostei do tom dedutivo dos diálogos e o livro prendeu-me desde o início até à última página. A única coisa que consegui adivinhar, quando estava quase no fim do livro e já se isolavam alguns suspeitos, foi que provavelmente nas poucas páginas que faltavam alguma reviravolta surgiria e mudaria tudo. E não me desiludiu. 
Tenho este livro numa edição da colecção de banca da RBA, e a qualidade é muito boa mesmo. Quer na publicação em si (capa dura e boa qualidade do papel) como da tradução e texto. 

Uma leitura leve mas absorvente, que dispensa apresentações. Recomendo.

O melhor: O raciocínio dedutivo. 
O pior: Nada que tenha identificado. 

4/5 – Gostei bastante.

25/02/2011

Alex 9 - A Guardiã da Espada



Alex 9 - A Guardiã da Espada, Martin S. Braun
Colecção: TEEN
Nº de páginas: 256
Editora: Saída de Emergência



Sinopse: A caminho da frente de batalha contra os invasores, o Príncipe Dael de Brodom descansava com a sua guarda junto às margens de um lago quando um estranho fenómeno aconteceu: uma estrela despenha se no lago, e das águas emerge uma mulher quase nua que cai inconsciente nos seus braços. Será este o sinal de que uma antiga profecia se está a realizar? Sem saber porquê, a Tenente Coronel Alex 9, da 3ª Unidade de Comandos de Elite, é projectada para um planeta muito parecido com a Terra, onde uma guerra entre impérios medievais se está a travar. Aparentemente, a chegada de Alex à Segunda Terra despoletou uma miríade de consequências políticas que estão ainda longe de fazer sentido. Ao longo deste volume, repleto de batalhas com espadas e armas magnéticas, as linhas de trama começam a cruzar se e descobrimos um conflito que se prepara há séculos. Mas onde levará?

Opinião: Não sei o que dizer em relação a este livro. Não há qualquer indecisão quanto a um ponto: gostei muito desta leitura! Há algum tempo que não me surgia uma leitura escrita verdadeiramente em fantasia. Mas por outro lado não consegui deixar de considerar alguns pontos que teriam beneficiado de um amadurecimento da escrita do autor. Martin S. Braun apresenta-nos uma mistura de diversas culturas, universos e mesmo contextos temporais, que me deliciou na originalidade. Não tanto dos elementos separadamente (mas também) mas principalmente pela maneira graciosa como foram interligados.

Temos essencialmente duas realidades principais que se misturam logo nas primeiras páginas. De um lado temos o elemento clássico da fantasia: uma terra medieval, com territórios rivais e governantes reais, o fascínio e temor pela magia e pelo inexplicável, as personagens fortes e cativantes que lideram batalhas ou lideram nos caminhos mais discretos da intriga. Do outro lado temos uma realidade futurista, num cenário de expansão da civilização humana pelos planetas do nosso sistema solar. E como é próprio da natureza humana, tal como no contexto medieval, também no contexto do futuro espacial os homens de guerreiam por recursos e poder. A unir estes dois elementos temos Alex 9, uma guerreira de armas laser e plasma e exímia em artes marciais. Por algum truque do destino, a rota da nave onde viaja, para fugir da batalha em Marte no fim da sua missão, é radicalmente alterada e a programação da sua cápsula de hibernação é alterada. Alex acorda de uma sesta de 200 anos, ao aterrar num planeta de outro sistema, mas em tudo semelhante à Terra, com habitantes em tudo semelhantes aos seres humanos que conhece. A aventura começa e Alex começa a descobrir que talvez tenha uma missão em tudo diferente das que sempre teve. Entrelaçadas nestas duas tapeçarias distintas encontramos também a cultura oriental e também uma pitada de cultura árabe, de uma forma que me encantou.

Se adorei o conceito deste livro e a generalidade da escrita do autor, existiram alguns elementos que me custaram a digerir, principalmente algumas características mais jovens da escrita e o ritmo acelerado da história. Se por um lado me deixou cheia de vontade de continuar a ler, por outro sentia que sempre que estava a cativar-me o ponto de vista de uma personagem, terminava o capítulo e surgia a visão de outra. Penso que não tive em mente que este é um livro direccionado para público mais jovem, e isso me impediu um pouco de aproveitar a leitura. A verdade é que não conseguia deixar de pensar que o autor tem potencialidades para escrever uma grande obra de fantasia, e isso me cegou um pouco para o óptimo livro que estava a ler, dentro do seu género. Não leio muitos livros para jovens adultos, mas penso que o que na maioria dos casos esses livros carecem de maturidade sob a forma do universo em que se passam (em regra pouco elaborado e não muito extenso) e das personagens jovens e imaturas. Neste caso, penso que Alex 9 tem um contexto muito mais próximo de High Fantasy do que de Young Adults, bem como as excelentes personagens que foram criadas, mas que no entanto é apresentado com alguns elementos de escrita mais leve e juvenil. Daí achar que o este autor tem inequivocamente potencial para muito mais (não desprestigiando o género juvenil). Uma nota muito especial para as descrições de momentos de acção e batalha, que achei bastante precisos, plenos de movimento, e no fundo um ponto forte do livro (apesar de na minha opinião pessoal achar que uma edição mais pesada na escrita propriamente dita teria sido vantajosa).

Penso que este primeiro volume peca por demasiado introdutório, isto é, introduz muitas pistas e desafios para o leitor, sem chegar a desenvolver nenhuma linha em particular e sem oferecer respostas. O resultado foi uma leitora muito sedenta de informação e muito frustrada quando chegou ao fim do último capítulo!  Mas ao mesmo tempo já rendida às personagens e aos mistérios que se adensam. Fiquei imediatamente comprometida moral e existencialmente a ler o segundo volume assim que tiver oportunidade. É um livro que recomendo, e que foi sem dúvida uma surpresa, uma vez que parti para a sua leitura com um espírito muito céptico. A escrita de Martin S. Braun destruiu as minhas ilusões logo nas primeiras páginas.

O melhor: A graciosidade com que foram incluídas tantas vertentes culturais distintas, enriquecendo a história.
O pior: Sem dúvida o cariz mais jovem da escrita, em alguns pontos.

4/5 – Gostei bastante

04/02/2011

2666, Roberto Bolaño


2666, Roberto Bolaño

Tradução: Cristina Rodríguez e Artur Guerra

Editora: Quetzal (2009)


Sinopse:

O que liga quatro germanistas europeus (unidos pela paixão física e pela paixão intelectual pela obra de Benno von Archimboldi) ao repórter afro-americano Oscar Fate, que viaja até ao México para fazer a cobertura de um combate de boxe? O que liga este último a Amalfitano, um professor de filosofia, melancólico e meio louco, que se instala com a filha, Rosa, na cidade fronteiriça de Santa Teresa? O que liga o forasteiro chileno à série de homicídios de contornos macabros que vitimam centenas de mulheres no deserto de Sonora? E o que liga Benno von Archimboldi, o secreto e misterioso escritor alemão do pós-guerra, a essas mulheres barbaramente violadas e assassinadas? 2666.

Para se ler sem rede, como num sonho em que percorremos um caminho que nos poderá levar a todos os lugares possíveis.  


Opinião: Demorei praticamente um mês a percorrer as mais de mil páginas deste enorme livre. Além de ter sido o maior livro que já li na íntegra, foi também um livro como nunca tinha lido. Fazer uma análise deste livro é uma tarefa de uma enormidade inglória e nem sequer pretendo fazê-lo. A verdade é que escrever uma simples opinião pessoal acerca desta leitura é-me extremamente difícil e fica aquém de qualquer texto que consiga construir.


As suas histórias são histórias dentro de outras histórias, com outras histórias dentro. Roberto Bolaño constrói uma teia ambiciosa com as suas palavras (que sentimos faladas, mais do que escritas), e o leitor é a mosca atraída para essa teia, e que fica capturada nela, juntamente com as dezenas de personagens que o acompanham. Essas histórias afastam-se da narrativa central, arrastando o leitor consigo, por vezes em saltos de narrativa que nos fazem esquecer por momentos quem estamos a seguir. Mas ao invés de ficarmos confusos e perdidos, quando voltamos à personagem e ao cenário de onde partimos é como se tivéssemos andado viajando, regressando naturalmente ao ponto de partida. A linguagem é tão própria e magnetizante que nos mantém no rumo, mesmo sem percebermos que rumo é esse. 

Sinto que Bolaño escreve com a alma mais do que com a cabeça. Escreve sem travão, acerca de tudo o que decidiu despejar no texto de forma paralela à narrativa principal, e seguimos as estradas secundárias sobre a angústia humana, sobre injustiça, amor, dinheiro, violência e medo (da morte, de viver, de ser maltratado, de ser rejeitado, de perder e de ganhar), poder, história, cultura contemporânea, máquinas de escrever, tuberculose e Hitler. Seguimos a vida das personagens e das acções que motivam o desenvolvimento da história, mas somos constantemente deslocados dessas acções para uma saída de exploração ao interior das personagens ou em direcção a outras, e às tantas o autor regressa de repente à estrada principal como se nunca dela tivesse saído.
É um livro com um ritmo próprio, para ler com toda a disponibilidade para que se possa saborear a linguagem e todo o conteúdo. 
Contém uma enorme dose da cultura latino-americana, quer seja na linguagem empregue, no contexto das narrativas ou no estado ao mesmo tempo alegre e melancólico das personagens e do tempo.  Por outro lado, é ao mesmo tempo profundamente europeu, reflectindo muito percurso do próprio escritor. Tenho vontade de transcrever excertos inteiros para que me entendam como este livro é fenomenal.


Está dividido em 5 partes, aparentemente distintas. 

Livro I - A Parte dos Críticos. 
Começamos com a história de 4 estudiosos das letras, particularmente literatura alemã, que são unidos pela sua devoção à obra do escritor Benno von Archimboldi, um obscuro escritor do qual ninguém sabe quase nada e que nunca ninguém viu. Sabe-se apenas que é magro e incrivelmente alto. Em redor da paixão pelo escritor alemão, o francês Pelletier, o espanhol Espinoza, o italiano Morini e a inglesa Liz Norton vão desenvolver uma relação de amizade e cumplicidade que ultrapassa a devoção académica. Na busca por Archimboldi, Pelletier, Espinoza e Liz viajam até ao México (Morini, dono de uma saúde frágil, permaneceu, não por acaso, em Itália), mais concretamente a uma brutal e árida cidade perto da fronteira, Santa Teresa, onde se diz que o escritor teria estado. Qualquer semelhança com Cidade Juarez não é pura coincidência. Em Santa Teresa, os críticos tomam conhecimento da terrível onda de brutais homicídios de mulheres, além de conhecerem Óscar Amalfitano, um chileno, originário de Barcelona que traduziu para castelhano uma das obras de Archimboldi, não sendo no entanto grande entusiasta do escritor.


Livro II - A Parte de Amalfitano.
O professor universitário em Barcelona cuja mulher o deixou com a sua filha Rosa ainda bebé, muda-se para Santa Teresa, no norte do México. Numa cidade próspera, onde o desemprego é quase inexistente, Amalfitano sente o ambiente pesado e sombrio da cidade e preocupa-se com a segurança da sua jovem filha, que por sua vez se preocupa com a sanidade mental do seu não tão jovem pai, que pendurou um livro de geometria no estendal da roupa. E aí o deixou ficar.


Livro III - A Parte de Fate
A mãe de Fate morreu. A notícia da sua morte por ataque cardíaco foi-lhe dada por uma vizinha da mãe em Harlem, que no mesmo telefonema sofre ela própria uma paragem cardíaca, acabando por ter o mesmo destino. Fate é um jornalista afro-americano de uma revista "negra", que normalmente escreve sobre temas político-sociais relacionados com sua comunidade, mas devido ao homicídio do seu colega da secção de desporto, é enviado para Santa Teresa, México, para fazer a cobertura de um combate de boxe. Em Santa Teresa, Fate envolve-se no andamento sombrio e perigoso da cidade, juntamente com alguns colegas de profissão mexicanos e compatriotas não jornalistas. Algures entre a melancolia e as drogas e o sexo, Fate conhece a rapariga mais bonita que já teve a sorte de colocar os olhos em cima. Mas Rosa Amalfitano está, sem se aperceber, a enredar-se na atmosfera perigosa e doentia da cidade, que Fate detecta assim que chega a Santa Teresa. Também detecta que nenhuma mulher bonita está totalmente a salvo em Santa Teresa.


Livro IV - A Parte dos Crimes
As centenas de homicídios brutais que acontecem em Santa Teresa ao longo de anos são a base deste volume do livro. São relatos específicos, quase relatórios das brutais violações e actos de violência que culminam na morte miserável de centenas de mulheres. A idade das vítimas varia entre os 10 e os 40 anos, e se a maioria delas são mulheres trabalhadoras, operárias nas "maquilladoras" de Santa Teresa, são também prostitutas ou acompanhantes de luxo, ou mulheres de educação superior e nível social mais elevado. Os crimes são pobremente investigados, uns mais que outros, mas ainda assim é possível concluir que os criminosos são inúmeros e os crimes são diferentes. Têm apenas em comum o sexo das suas vítimas e a perversidade dos assassinos. Não obstante, surge um suspeito, alemão naturalizado norte-americano, que é acusado de algumas das mortes, e encerrado na prisão de Santa Teresa.


Livro V - A Parte de Archimboldi.
Hans Reiter nasceu na Prússia, depois da primeira guerra, filho de pai coxo e mãe zarolha. Aos 10 anos de idade, quando nasce a sua adorável e ternurenta irmã, Hans já é um jovem da mesma altura dos rapazes de 12 da sua aldeia e mais alto que a maioria dos de 15. Hans desiste da escola e vai trabalhar na ajuda à manutenção da casa do Barão von Zumpe, onde a biblioteca da família começa a atraí-lo como a escola não fez. Até a guerra chegar novamente e ser incorporado na Frente do Leste do exército alemão.
Após a guerra, Hans Reiter envolve-se na primeira relação amorosa, ao mesmo tempo que começa a escrever. Ao enviar o seu primeiro manuscrito para uma editora, decide-se pelo nome de Benno von Archimboldi.

Muito (bastante, extremamente, estupidamente) resumido, é disto que se trata 2666. No entanto, esta obra fala de muito, muito mais. É como um iceberg: encerra no seu interior muito mais do que poderíamos conseguir adivinhar ao observar a superfície. Tem muito mais conteúdo do que as suas 1030 páginas conseguem abarcar. O discurso tem frequentemente um tom mordaz e irónico, e constitui um retrato bastante acutilante de muitos aspectos negativos da sociedade mexicana e da natureza humana no geral. Deixa-nos a pensar mesmo muito tempo depois de fecharmos as suas páginas.



Abro um pequeno parênteses para referir que nesta última fase do livro, a parte de Archimboldi, a escrita de Bolaño assume um carácter ainda mais mordaz e irónico. Chegando mesmo a ser espirituoso, como se a personalidade de Archimboldi/Reiter de emiscuisse na escrita, ou como se a escrita de Bolaño nesta fase tivesse influenciado a personagem. Deixo aqui um "pequeno" excerto que adorei:

"O editor, que se chamava Michael Bittner, mas que gostava ou que lhe agradava que os amigos o tratassem por Mickey, como o ratinho, explicou-lhe que um bombardeamento de saturação era quando um monte de aviões inimigos, mas um monte grande, enorme, superlativo, lançava as suas bombas sobre uma faixa de terreno na frente um bocado de campo previamente delimitado, até que dele não restasse nem uma folha de erva. 
- Não sei se me expliquei com clareza, Benno - disse ele olhando fixamente Archimboldi nos olhos.
- O senhor explicou-me com clareza total, Mickey - disse Archimboldi, ao mesmo tempo que pensava que o tipo em questão não era só chato, como também ridículo, com aquela ridicularia que só os histriões têm e os pobres-diabos convencidos de ter participado num momento determinante da História, quando é bem sabido, pensou Archimboldi, que a História, que é uma puta simples, não tem momentos determinantes, mas é sim uma proliferação de instantes de brevidades que rivalizam entre si em monstruosidade."

O autor, com o conhecimento da morte bastante próxima, tentou a todo o custo deixar a obra terminada, principalmente como legado financeiro para os seus herdeiros. As suas instruções foram para publicar as 5 partes individualmente, de forma a permitir uma maior segurança financeira aos herdeiros. No entanto estes decidiram acatar a opinião do seu amigo e editor, que a apreciação da obra só faria sentido como um todo e publicaram o livro único. Sobre o autor, deixo aqui uma ligação ao blog Bibliotecário de Babel, com um artigo interessante acerca de Bolaño e de 2666, pelo José Mário Silva.


Foram precisas seguramente mais de 100 páginas para eu me aperceber duma particularidade que é a principal característica "física" da escrita deste livro. Fiquei espantada por só após tanto texto lido (e este livro tem letra bem pequena e margens reduzidas) me ter apercebido e com a maior das naturalidades, que a escrita de Bolaño não apresenta parágrafos. Chegam a ser páginas e páginas de texto contínuo. Com o uso magistral da vírgula, com travessões e aspas a introduzir os diálogos (mas nem sempre). Depois de ouvir tanta gente afirmar que José Saramago, que nunca li, é difícil de ler devido aos diálogos corridos, frases longas e à ausência de parágrafos, fiquei naturalmente surpreendida. Dei-me ao trabalho de ir procurar algum livro de Saramago que sei que havia em casa dos meus pais (já desviado para a minha, claro!). Encontrei O Ano da Morte de Ricardo Reis (eu ia jurar que também tínhamos o  Memorial do Convento) e sem ler o texto, comparei a estrutura. É que a estrutura da prosa de Roberto Bolaño, sendo semelhante, é deliciosa.  Depois lá me lembrei que apesar das várias vozes que afirmam que José Saramago é "seca" e difícil de ler, tantas ou mais o veneram, e a palavra Nobel surgiu-me por fim. Fiz uma nota mental para ler Saramago o mais rapidamente possível. 
Enquanto não leio o Nobel, posso dizer que a escrita de Bolaño, pela ausência de pontos finais e parágrafos, se torna alucinante e de uma velocidade estonteante (indo ao encontro à escrita sem travão, que referi acima). Ao mesmo tempo evoca a naturalidade do discurso associado ao raciocínio, sem pausas nem limitações, e passando brevemente do narrador para o diálogo.


Com a leitura deste livro decidi, e já implementei, que vou passar a andar sempre com post-its colados no livro que estou a ler (daqueles bons, que colam bem sem estragar o papel, o que é que pensam?), e marcar a página de alguma passagem particularmente especial. Isto porque ao longo deste livro abundaram as passagens deliciosas. Sei que é um livro no qual vou pegar mais vezes, quando tiver vontade, mas para já, deixo-vos aqui uns excertos que já estavam publicados na net, e que apesar de não terem sido escolhidos por mim, bem que poderiam ter sido.


Excerto da parte I:

"A certeza porém foi que nem Pelletier nem Espinoza visitaram Norton no seu quarto nem uma única vez, pelo contrário,o quarto que Espinoza visitou, uma vez, foi o de Pelletier, e o quarto que Pelletier visitou, duas vezes, foi o de Espinoza, entusiasmados como crianças perante a notícia que se espalhava mais depressa do que um rastilho de pólvora, do que uma bomba atómica, pelos corredores e pelas reuniões em petitcomitédas jornadas, ou seja, que Archimboldi era candidato ao Nobel naquele ano, uma coisa que para os archimboldistas de todos os lados era não só um motivo de imensa alegria como também um triunfo e uma vingança. A tal ponto que foi em Salzburgo, precisamente, na Cervejaria O Touro Vermelho, durante uma noite cheia de brindes, que se assinou a paz entre os dois grupos principais de estudiosos archimboldianos, isto é, entre a facção de Pelletier e Espinoza e a facção de Borchmeyer, Pohl e Schwarz, que a partir de então decidiram, respeitando as suas diferenças e os seus métodos de interpretação, juntar esforços e não voltarem a passar rasteiras uns aos outros, o que expresso em termos práticos queria dizer que Pelletier já não vetaria os ensaios de Schwartz nas revistas onde ele mantinha um certo ascendente, e Schwartz já não vetaria os trabalhos de Pelletier nas publicações onde ele, Schwartz, era considerado um deus."

Excerto da parte IV:
"Viver neste deserto, pensou Lalo Cura enquanto o carro conduzido por Epifanio se afastava do descampado, é como viver no mar. A fronteira entre Sonora e o Arizona é um grupo de ilhas fantasmagóricas ou encantadas. As cidades e as aldeias são barcos. O deserto é um mar interminável. Este é um bom sítio para os peixes, sobretudo para os peixes que vivem nas fossas mais profundas, não para os homens."


Excerto da parte V:

"Toda a obra menor tem um autor secreto e todo o autor secreto é, por definição, um escritor de obras-primas. Quem é que escreveu tal obra menor? Aparentemente um escritor menor. A mulher deste pobre escritor pode testemunhar isso, ela viu-o sentado à mesa, inclinado sobre as páginas em branco, a retorcer-se e a deslizar a sua caneta sobre o papel. Parece uma testemunha irrebatível. Mas o que ela viu é só a parte exterior. A carapaça da literatura. Uma aparência – disse o velho ex-escritor a Archimboldi e Archimboldi lembrou-se de Ansky. – Quem na verdade está a escrever essa obra menor é um escritor secreto que só aceita os ditados de uma obra-prima.
O nosso bom artesão escreve. Está enfronhado naquilo que vai plasmando bem ou mal no papel. A sua mulher, sem que ele o saiba, observa-o. Efectivamente, é ele quem escreve. Mas se a sua mulher tivesse uma visão de raios X aperceber-se-ia de que não assiste propriamente a um exercício de criação literária, mas sim a uma sessão de hipnotismo. No interior do homem que está sentado a escrever não há nada. Nada que seja ele, quero dizer. Quão melhor faria esse pobre homem dedicando-se à leitura. A leitura é prazer e alegria de estar vivo ou tristeza de estar vivo e sobretudo é conhecimento e perguntas. A escrita, em compensação, costuma ser vazio. Nas entranhas do homem que escreve não há nada. Nada, quero dizer, que a sua mulher, num dado momento, possa reconhecer. Escreve por ditado. O seu romance ou poemário, decentes, decentezinhos, saem não por um exercício de estilo ou vontade, como o pobre desgraçado julga, mas sim graças a um exercício de ocultamento. É necessário que haja muitos livros, muitos pinheiros encantadores, para que escondam de olhares avessos o livro que realmente importa, a maldita gruta da nossa desgraça, a flor mágica do Inverno!
Desculpe as metáforas. Às vezes excito-me e fico romântico. Mas escute. Toda a obra que não seja uma obra-prima é, como lhe dizer, uma peça de uma vasta camuflagem. Você foi soldado, calculo, e já sabe ao que me refiro. Todo o livro que não seja uma obra-prima é carne para canhão, infantaria esforçada, peça sacrificável dado que reproduz, de múltiplas maneiras, o esquema da obra-prima. Quando compreendi esta verdade deixei de escrever. A minha mente, porém, não deixou de funcionar. Pelo contrário, ao não escrever
funcionava melhor. Perguntei-me: porque é que uma obra-prima precisa de estar oculta?, que estranhas forças a arrastam para o segredo e o mistério?
Já sabia que escrever era inútil. Ou que só valia a pena se uma pessoa estiver disposta a escrever uma obra-prima. A maior parte dos escritores engana-se ou brinca. Talvez enganar-se e brincar seja a mesma coisa, as duas faces da mesma moeda. Na realidade, nunca deixamos de ser crianças, crianças monstruosas cheias de dói-dóis e de varizes e de tumores e de manchas na pele, mas crianças afinal, isto é, nunca deixamos de nos agarrar ferreamente à vida dado que somos vida. Também se poderia dizer: somos teatro, somos música. De igual maneira, pouco são os escritores que renunciam. Brincamos a julgarmo-nos imortais. Enganamo-nos no
julgamento das nossas próprias obras e no julgamento sempre impreciso das obras dos outros. Vemo-nos no Nobel, dizem os escritores, como quem diz: vemo-nos no Inferno."

in 2666, Roberto Bolaño. Tradução de Cristina Rodríguez e Artur Guerra, Quetzal, 2009





Sei que muito do que queria expor ficou por dizer, e certamente muito me terá escapado (e que poucas almas leram este texto até ao fim). É um livro denso e tão engraçado como terrivelmente sério. Marca-nos assim que começamos a desfolhar as primeiras páginas. A única justiça que posso fazer a este livro é recomendar a sua leitura. Entendo que não seja uma leitura fácil para alguns e que  possa ser cansativa pela sua extensão (é um livro realmente longo) e densidade. Recomendo pois que este livro seja lido com calma e seguindo um ritmo muito particular, pois se for lido com prazer e devidamente apreciado, é sem dúvida uma leitura daquelas que nunca esquecemos. 

Por fim, para os resistentes e audazes que leram este testamento e querem ler mais… Vão ler o livro! Depois disso, passem no blog HÁ SEMPRE UM LIVRO… à nossa espera!, onde está publicada uma fenomenal análise de 2666 (atentem, não uma mera opinião ou suposta crítica, mas uma verdadeira análise), pela Cláudia de Sousa Dias. A análise do livro está publicada em 5 partes (uma para cada parte do livro), não percam nenhuma. Recomendo que leiam primeiro o livro ou circulem cuidadosamente, devido aos spoilers.



O melhor: A entrega de Bolaño na sua escrita
O pior: É tão pesado…
5/5 – Excelente!