Bibliofilia: Amor por livros e por ler. O Bibliófilo ama ler e sente devoção pelos livros, colecciona-os e admira-os.
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10/04/2011

Imagine o leitor...

Árvore Evolutiva de Darwin (1837)


Imagine o leitor que é professor de História de Roma e de Latim, desejoso de transmitir o seu interesse pelo mundo antigo, pelas elegias de Ovídio e as odes de Horácio, pela economia vigorosa da gramática latina patente na oratória de Cícero, as subtilezas estratégicas das Guerras Púnicas, a perícia de Júlio César e os excessos lúbricos dos últimos imperadores. Trata-se de um grande empreendimento que exige vagar, concentração e dedicação. Porém, o leitor está a ser constantemente interrompido e os seus alunos são distraídos por uma turba barulhenta de ignorantes, que, gozando de forte apoio político e especialmente financeiro, não desistem de tentar convencer os desafortunados alunos de que os Romanos nunca existiram, e de que nunca houve um Império Romano. Além disso, o mundo teria surgido há pouquíssimo tempo. As línguas castelhana, italiana, francesa, portuguesa, catalã, occitana e romanche, bem como os dialectos associados, teriam nascido espontânea e independentemente, e nada deveriam a qualquer idioma predecessor como o Latim. Em vez de dedicar toda a sua atenção à nobre vocação de professor e académico classicista, o leitor via-se forçado a perder tempo e energia na defesa aturada da proposição de que os Romanos existiram de facto: uma defesa contra uma manifestação de preconceitos ignorantes que o fariam chorar se não estivesse demasiado ocupado a combatê-los.

O Espectáculo da Vida – A Prova da Evolução, Richard Dawkins, p.15. Tradução de Isabel Mafra. Casa das Letras (2009)

16/03/2011

Imaginem que têm de partir o braço a alguém.

"Imaginem que têm de partir o braço a alguém.
Não interessa se o direito ou o esquerdo. A questão é que têm de partir o braço a uma pessoa, senão... Bom, isso também não interessa. Digamos apenas que se não fizerem sofrerão as consequências.
O que eu pergunto é o seguinte: partiriam o braço rapidamente - tipo, crac, ups, desculpa lá, deixa-me lá ajudar-te com essa tala improvisada - ou arrastariam todo o processo por uns bons oito minutos, aumenando de vez em quando a pressão em ligeiríssimas doses, até que a dor se tornasse cor-de-rosa e verde, quente e fria ao mesmo tempo, e absolutamente insuportável?
Exactamente. É óbvio. O correcto, a única coisa a fazer, seria tratar do assunto o mais rapidamente possível. partir o braço e depois servir o brandy como qualquer bom cidadão. É a única resposta possível.
A não ser que.
A não ser que... A não ser que... A não ser que...
Quer dizer, se odiassem a pessoa a quem pertencesse o braço? Odiassem a sério? 
Isto era algo a ter agora em conta.
Quando digo agora quero dizer naquela altura, o momento que pretendo descrever. Essa fracção de segundo antes do meu pulso ser puxado até à minha nuca e o meu úmero esquerdo se partir em pelo menos duas partes, possivelmente mais, fragilmente unidas entre si.
É que o braço de que estamos a falar é o meu. Não se trata de um braço abstracto, do braço de um filósofo. O osso, a pele, os pêlos, a pequena cicatriz branca no cotovelo, resultado de um aquecedor de uma sala de arrumações da Gateshill Primary School, tudo isso me pertence. E agora é a altura de pôr a hipótese de que o homem atrás de mim, a agarrar-me o pulso e a puxá-lo para junto da minha coluna com requintes de natureza quase sexual, em odeia a sério. Odeia-me mesmo muito a sério. 
Está a demorar imenso."

O Traficante de Armas, de Hugh Laurie, p. 9. Caderno (2007), Tradução de  João Henriques.


Quando um livro começa assim, promete!

13/03/2011

Excertos...


"Podemos estar confinados a um quarto no interior de um arranha-céus sem ver montanhas, nem rios, nem mar, mas enquanto correr sangue no nosso corpo, o homem vive mergulhado num fluxo igual ao da natureza."

Lua de Mel, Banana Yoshimoto, p. 98. (Tradução do italiano de Sandra Escobar)