Árvore Evolutiva de Darwin (1837)
Imagine o leitor que é professor de História de Roma e de Latim, desejoso de transmitir o seu interesse pelo mundo antigo, pelas elegias de Ovídio e as odes de Horácio, pela economia vigorosa da gramática latina patente na oratória de Cícero, as subtilezas estratégicas das Guerras Púnicas, a perícia de Júlio César e os excessos lúbricos dos últimos imperadores. Trata-se de um grande empreendimento que exige vagar, concentração e dedicação. Porém, o leitor está a ser constantemente interrompido e os seus alunos são distraídos por uma turba barulhenta de ignorantes, que, gozando de forte apoio político e especialmente financeiro, não desistem de tentar convencer os desafortunados alunos de que os Romanos nunca existiram, e de que nunca houve um Império Romano. Além disso, o mundo teria surgido há pouquíssimo tempo. As línguas castelhana, italiana, francesa, portuguesa, catalã, occitana e romanche, bem como os dialectos associados, teriam nascido espontânea e independentemente, e nada deveriam a qualquer idioma predecessor como o Latim. Em vez de dedicar toda a sua atenção à nobre vocação de professor e académico classicista, o leitor via-se forçado a perder tempo e energia na defesa aturada da proposição de que os Romanos existiram de facto: uma defesa contra uma manifestação de preconceitos ignorantes que o fariam chorar se não estivesse demasiado ocupado a combatê-los.
O Espectáculo da Vida – A Prova da Evolução, Richard Dawkins, p.15. Tradução de Isabel Mafra. Casa das Letras (2009)