Bibliofilia: Amor por livros e por ler. O Bibliófilo ama ler e sente devoção pelos livros, colecciona-os e admira-os.
Mostrar mensagens com a etiqueta Compromisso Literário 2011. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Compromisso Literário 2011. Mostrar todas as mensagens

14/05/2011

A Filha do Capitão


A Filha do Capitão, José Rodrigues dos Santos



Nº páginas: 634

Editora: Gradiva (2004)



Sinopse: Tendo como pano de fundo a odisseia trágica da participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial, "A Filha do Capitão" conta-nos, num ritmo vivo e empolgante, a comovente história de uma paixão impossível entre um oficial português e uma baronesa francesa.
A história de uma grande paixão em tempo de guerra.
Quem sabe se a vida do capitão Afonso Brandão teria sido totalmente diferente se, naquela noite fria e húmida de 1917, não se tivesse apaixonado por uma bela francesa de olhos verdes e palavras meigas. O oficial do exército português estava nas trincheiras da Flandres, em plena carnificina da Primeira Guerra Mundial, quando viu o seu amor testado pela mais dura das provas. 
Em segredo, o Alto Comando alemão preparava um ataque decisivo, uma ofensiva tão devastadora que lhe permitiria vencer a guerra num só golpe, e tencionava quebrar a linha de defesa dos aliados num pequeno sector do vale do Lys. O sítio onde estavam os portugueses.
O Capitão Afonso Brandão mudou a sua vida quase sem o saber, numa fria noite de boleto, ao prender o olhar numa bela francesa de olhos verdes e voz de mel. O oficial comandava uma companhia da Brigada do Minho e estava havia apenas dois meses nas trincheiras da Flandres quando, durante o período de descanso, decidiu ir pernoitar a um castelo perto de Armentières. Conheceu aí uma deslumbrante baronesa e entre eles nasceu uma atracção irresistível. 
Mas o seu amor iria enfrentar um duro teste. O Alto Comando alemão, reunido em segredo em Mons, decidiu que chegara a hora de lançar a grande ofensiva para derrotar os aliados e ganhar a guerra, e escolheu o vale do Lys como palco do ataque final. À sua espera, ignorando o terrível cataclismo prestes a desabar sobre si, estava o Corpo Expedicionário Português.



Opinião: Tinha algumas expectativas para este livro, com base em opiniões de algumas pessoas cuja opinião valorizo. Estava a espera que este fosse um daqueles romances históricos que tanto aprecio e que me arrebatam, mas isso não aconteceu infelizmente, apesar de globalmente ter gostado do livro. A minha impressão não começou muito positiva... Eu até percebo que o autor tenha pretendido cativar o leitor desde o início com uma escrita elaborada, mas o caso sério de overwriting que este livro apresenta teve em mim o efeito inverso.

Quando consegui adaptar-me à escrita deliberadamente elaborada, demorei cerca de 200 páginas até “entrar” na história. Mais uma vez, eu entendo a estratégia do autor: contextualizar os acontecimentos e apresentar uma série de informação da época e factos históricos, relevantes ou curiosos, mas a maneira descritiva e exaustiva como o faz soou-me terrivelmente enfadonha grande parte do tempo. A melhor parte de ler um romance histórico, a razão pela qual adoro este género, é o facto de aprendermos algo mais sobre esse período ou personagens históricas, sem sentir que estamos a ler um livro de História.

Este recurso à descrição excessiva é sem dúvida uma característica do livro, mas devo dizer que em algumas partes da leitura não foi tão incómodo, e no geral, gostei bastante de absorver todo este conhecimento sobre uma época da História portuguesa sobre a qual não leio muito. Não foi a descrição em si que me incomodou neste livro, mas sim a maneira como foi escrita e introduzida, claramente com o objectivo de informar o leitor e sem brilho (vulgo info-dump).
Quanto à narrativa, acho que a história está repleta de constantes crescendos sem concretização, e que este livro é demasiado longo e o ritmo teria facilmente beneficiado de menos 200 páginas.

Mas nem tudo foi negativo, adorei as expressões regionais dos soldados portugueses e a sua relação com os “boches” e os “bifes”. A verdade é que acabei por me sentir cativada pelo destino dos personagens, e considero que a parte mais interessante do livro é a que descreve o posicionamento das tropas portuguesas na Flandres, e as suas relações com os franceses e os ingleses. Dei por mim a querer ler sempre mais sobre a vida nas trincheiras e sobre os pobres e resmungões soldados portugueses, sobre Afonso e Agnès.
No entanto, precisamente por esta parte ter sido mais satisfatória, achei o final totalmente anticlimático. É um livro bastante pretensioso, quer a nível de escrita, quer de história, mas que na minha opinião falhou a concretização por demasiado esforço. Ficou claramente aquém do que esperava.


O melhor: Aprendi mais sobre a participação portuguesa na I Guerra Mundial, a as expressões regionais dos soldados portugueses.

O pior: Overwriting vs infodump


3/5 – Gostei.




PS: Ufa, habemus blogger! :D

13/04/2011

O Espectáculo da Vida - A Prova da Evolução

O Espectáculo da Vida - A Prova da Evolução, Richard Dawkins


Título original: The Greatest Show on Earth - The Evidence for Evolution
Tradutor: Isabel Mafra
Nº páginas: 421
Editora: Casa das Letras (2009)

Sinopse: A evolução é um facto que não suscita dúvidas razoáveis, dúvidas sérias, dúvidas inteligentes, informadas e saudáveis. Não há dúvida de que a evolução é um facto. As provas da evolução são pelo menos tão fortes como as do Holocausto, mesmo considerando a existência de testemunhas oculares deste último. É uma verdade inquestionável que somos primos dos chimpanzés, primos mais distantes dos macacos, primos ainda mais afastados dos papa-formigas e manatins, primos ainda mais distantes das bananas e dos nabos… a lista poderia continuar para sempre. Ora isto não tem de ser verdade. Não se trata de uma verdade evidente, tautológica, óbvia e houve tempos em que a maior parte das pessoas, mesmo as instruídas, pensava que não era. Não tem de ser verdade, mas é. Sabemos isso porque uma vaga crescente de provas o confirma. A evolução é um facto e este livro demonstrá-lo-á. Nenhum cientista respeitável o discute e nenhum leitor imparcial concluirá este livro com dúvidas a esse respeito.


Opinião: Estava com bastante vontade de ler um bom livro de divulgação científica, principalmente tendo acompanhado no Fórum Bang! as leituras, dentro desse género, da pessoa que me recomendou este livro (um obrigada ao Magnus Marco), e que me abriram o apetite. Sendo a minha formação e interesses pessoais e profissionais na área da Biologia, esta foi uma escolha natural para iniciante.

A verdade é que provavelmente teria sido mais útil ler um livro fora da minha área de formação, mas confesso que temia que a divulgação científica fosse mais um discorrer de ciência pouco cativante, ao invés de uma forma interessante de conhecer ciência. Quanto a este livro, não podia estar mais enganada.

Dawkins escreve numa linguagem clara e acessível, sem deixar de ser eloquente, precisa e detalhada. A maior surpresa foi precisamente o bom humor que transparece nesta escrita, e a forma cativante como apresenta factos científicos bem como históricos.

O objectivo deste livro é expor de forma clara e inequívoca as provas conhecidas da evolução, de forma a constituir uma base de informação completa e simples disponível aos cidadãos do mundo moderno. Após anos de “luta” contra as teorias criacionistas, o autor sentiu que a influência dos criacionistas é cada vez maior, quer nas escolas (onde se começa a proibir o ensino da evolução!) quer junto do público em geral, numa política de desinformação. Com este livro, Richard Dawkins procura tão simplesmente expor as provas conhecidas, e explicar a razão pela qual constituem provas de que a evolução, qualquer que seja o seu caminho, é inegável.

O que senti na leitura deste livro foi que o programa completo de Biologia do 12º ano que estudei na escola está aqui explicado de forma facilmente assimilável, interessante e até divertida. A diferença é que o currículo de Biologia está acessível apenas aos estudantes dessa disciplina, ao passo que este livro constitui uma fonte de informação disponível a qualquer pessoa. O autor apresenta as referências (como cabe ao cientista), inclui apêndices com informação detalhada de estudos e inclui 12 páginas centrais com fotografias a cores, que refere ao longo do texto. Além destas imagens coloridas de alta qualidade, ao longo do texto surgem frequentemente imagens a preto e branco que elucidam passagens e raciocínios.

Fiquei impressionada com a enorme carga de informação apresentada de forma natural e facilmente compreensível até para o mais leigo dos leitores, muitas vezes recorrendo a metáforas improváveis mas interessantes. A minha favorita (além da que reproduzi no excerto) é a analogia entre as primeiras fases do desenvolvimento embrionário e uma estrutura de origami: a parte de um pedaço de papel único, e sem introduzir mais papel, parte-se se um simples quadrado, passando por várias construções até chegarmos a um complexo barco de bambu. Facilmente se interioriza o conceito, um pouco abstracto e difícil de “visualizar”, da divisão celular que ocorre no verdadeiro início da vida de um embrião. Conceitos específicos e “complicados” são explicados com igual naturalidade com que surgem explicações de fenómenos que conhecemos quase empiricamente, o que demonstra que o autor se dirige ao leitor sem preconceitos, sem distanciamentos intelectuais.

Obviamente eu não pertenço ao público-alvo deste livro, uma vez que tendo já estudado e compreendido os processos evolutivos, a evolução é para mim algo perfeitamente aceite. No entanto esses processos da evolução e os exemplos concretos não deixam de me fascinar, e como tal, este livro cativou-me e aprendi imensas coisas e relembrei outras mais esquecidas. Voltando ao público-alvo, este livro dirige-se ao comum cidadão, por assim dizer, e não à comunidade científica. É acessível a qualquer pessoa que sinta curiosidade pelo tema, e será com certeza uma leitura interessante.

Curiosamente, visitei recentemente a exposição Darwin, presente na Casa Andresen, no Jardim Botânico da Universidade do Porto, e tive oportunidade de observar fisicamente muitos elementos referidos ao longo do livro, o que se revelou um exercício bastante interessante. Aproveito também para recomendar a visita à exposição (decorre até Julho), bastante completa e interessante, além de permitir a visita à magnífica casa onde viveu Sophia de Melo Breyner.

O melhor: A forma clara e precisa, mas acessível, como conhecimento científico é exposto.
O pior: Pessoalmente, muita da informação já fez parte da minha informação, pelo que senti como uma repetição (apreciação pessoal, independente do livro em si).

4/5 – Gostei bastante



07/03/2011

A Rainha no Palácio das Correntes de Ar

A Rainha no Palácio das Correntes de Ar, Stieg Larsson (Millenium #3)

Título original: Luftslottet som sprängdes
Tradutor: (do inglês) Mário Dias Correia
Nº de páginas: 720
Editora: Oceanos (2009)


Sinopse: Lisbeth Salander sobreviveu aos ferimentos de que foi vítima, mas não tem razões para sorrir: o seu estado de saúde inspira cuidados e terá de permanecer várias semanas no hospital, completamente impossibilitada de se movimentar e agir. As acusações que recaem sobre ela levaram a polícia a mantê-la incontactável. Lisbeth sente-se sitiada e, como se isto não bastasse, vê-se ainda confrontada com outro problema: o pai, que a odeia e que ela feriu à machadada, encontra-se no mesmo hospital com ferimentos menos graves e intenções mais maquiavélicas… Entretanto, mantêm-se as movimentações secretas de alguns elementos da Säpo, a polícia de segurança sueca. Para se manter incógnita, esta gente que actua na sombra está determinada a eliminar todos os que se atravessam no seu caminho. Mas nem tudo podia ser mau: Lisbeth pode contar com Mikael Blomkvist que, para a ilibar, prepara um artigo sobre a conspiração que visa silenciá-la para sempre. E Mikael Blomkvist também não está sozinho nesta cruzada: Dragan Armanskij, o inspector Bublanski, Anika Gianini, entre outros, unem esforços para que se faça justiça. E Erika Berger? Será que Mikael pode contar com a sua ajuda, agora que também ela está a ser ameaçada? E quem é Rosa Figuerola, a bela mulher que seduz Mikael Blomkvist?

Opinião: Depois da maneira arrebatadora e atordoante como termina o segundo livro desta trilogia Millenium, estava ansiosa por deitar as mãos a este terceiro e derradeiro livro. Alguns elementos mantêm-se: Lisbeth continua em maus lençóis com a justiça e a sociedade suecas, e Mikael Blomkvist continua a ser um verdadeiro amigo desinteressado. Fervoroso jornalista que se mantém empenhado em desvendar toda a conspiração que envolve a morte dos seus dois amigos e a personagem misteriosa Zala, e acaba por juntar as peças que ligam Lisbeth Salander à conspiração.

O livro começa muito bem, precisamente no ponto em que terminou o anterior, e no mesmo ritmo. No entanto, com Lisbeth hospitalizada e ao mesmo tempo detida por vários crimes, a narrativa envereda por um caminho diferente, liderado essencialmente por personagens secundárias (mas importantes) e pela investigação a partir de vários pontos de abordagem.
Entra-se então numa fase que considerei algo aborrecida, mas que admito essencial para que o leitor considere verosímil aquele que será o apogeu deste livro. Este chega com o final da investigação, com vários núcleos diferentes de investigação envolvendo várias personagens, seguido do julgamento de Lisbeth Salander.

Além deste apogeu que considerei brilhante, algumas notas que considerei muito positivas prendem-se com as personagens. Primeiro, Lisbeth Salander, claro. Sendo esta mulher o ponto forte da trilogia e a razão pela qual ela existe, este livro não podia deixar de ser afectado pelo facto desta personagem se ver impedida pelas circunstâncias de “actuar” e de brilhar sendo simplesmente Lisbeth. Mas apesar de tudo mais perto do final temos oportunidade de ver mais uma vez os seus talentos. Gostei também da derivação da narrativa da investigação para a perspectiva paralela dos desafios a Erika Berger. Não só temos a oportunidade de conhecer melhor esta personagem, que se revela ainda mais interessante, como também proporciona a intervenção de outras personagens femininas.

Estes foram os pontos que me fizeram adorar este livro, mas também há notas negativas. Já referi acima uma parte mais enfadonha que explica o funcionamento da polícia secreta sueca, mas que não só é útil como essencial para perceber toda a evolução da conspiração. A outra parte, achei essencialmente dispensável, é a “porra do Super Blomkvist”, aka, engatatão barrigudo de serviço. Sim, ele é fantástico e tudo isso, mas satura um bocado estar sempre a saber que ele, juntamente com a sua ausência de boa forma física, tendência abusiva de se envolver em situações perigosas e/ou escandalosas, capacidade de ficar dias sem dar sinais de vida e incapacidade para qualquer compromisso emocional, são extremamente sensuais e qualquer mulher se sente irrevogavelmente atraída sexualmente para este sueco.

Tirando isso, gostei muito deste livro, mas não tanto como dos dois primeiros. É pena pensar que poderiam existir dez livros em vez de três, mas, ao contrário dos dois primeiros, que deixam o final totalmente dependente da continuação, este terceiro volume termina de uma forma bem “atada”, sem pontas soltas, mas deixa um espaço aberto à imaginação. É uma excelente conclusão para uma trilogia absolutamente recomendável.

O melhor: Lisbeth Salander, claro. O julgamento e a conspiração.
O Pior: Super Blomkvist vs Mikael Blomkvist

3/5 – Gostei.

04/02/2011

2666, Roberto Bolaño


2666, Roberto Bolaño

Tradução: Cristina Rodríguez e Artur Guerra

Editora: Quetzal (2009)


Sinopse:

O que liga quatro germanistas europeus (unidos pela paixão física e pela paixão intelectual pela obra de Benno von Archimboldi) ao repórter afro-americano Oscar Fate, que viaja até ao México para fazer a cobertura de um combate de boxe? O que liga este último a Amalfitano, um professor de filosofia, melancólico e meio louco, que se instala com a filha, Rosa, na cidade fronteiriça de Santa Teresa? O que liga o forasteiro chileno à série de homicídios de contornos macabros que vitimam centenas de mulheres no deserto de Sonora? E o que liga Benno von Archimboldi, o secreto e misterioso escritor alemão do pós-guerra, a essas mulheres barbaramente violadas e assassinadas? 2666.

Para se ler sem rede, como num sonho em que percorremos um caminho que nos poderá levar a todos os lugares possíveis.  


Opinião: Demorei praticamente um mês a percorrer as mais de mil páginas deste enorme livre. Além de ter sido o maior livro que já li na íntegra, foi também um livro como nunca tinha lido. Fazer uma análise deste livro é uma tarefa de uma enormidade inglória e nem sequer pretendo fazê-lo. A verdade é que escrever uma simples opinião pessoal acerca desta leitura é-me extremamente difícil e fica aquém de qualquer texto que consiga construir.


As suas histórias são histórias dentro de outras histórias, com outras histórias dentro. Roberto Bolaño constrói uma teia ambiciosa com as suas palavras (que sentimos faladas, mais do que escritas), e o leitor é a mosca atraída para essa teia, e que fica capturada nela, juntamente com as dezenas de personagens que o acompanham. Essas histórias afastam-se da narrativa central, arrastando o leitor consigo, por vezes em saltos de narrativa que nos fazem esquecer por momentos quem estamos a seguir. Mas ao invés de ficarmos confusos e perdidos, quando voltamos à personagem e ao cenário de onde partimos é como se tivéssemos andado viajando, regressando naturalmente ao ponto de partida. A linguagem é tão própria e magnetizante que nos mantém no rumo, mesmo sem percebermos que rumo é esse. 

Sinto que Bolaño escreve com a alma mais do que com a cabeça. Escreve sem travão, acerca de tudo o que decidiu despejar no texto de forma paralela à narrativa principal, e seguimos as estradas secundárias sobre a angústia humana, sobre injustiça, amor, dinheiro, violência e medo (da morte, de viver, de ser maltratado, de ser rejeitado, de perder e de ganhar), poder, história, cultura contemporânea, máquinas de escrever, tuberculose e Hitler. Seguimos a vida das personagens e das acções que motivam o desenvolvimento da história, mas somos constantemente deslocados dessas acções para uma saída de exploração ao interior das personagens ou em direcção a outras, e às tantas o autor regressa de repente à estrada principal como se nunca dela tivesse saído.
É um livro com um ritmo próprio, para ler com toda a disponibilidade para que se possa saborear a linguagem e todo o conteúdo. 
Contém uma enorme dose da cultura latino-americana, quer seja na linguagem empregue, no contexto das narrativas ou no estado ao mesmo tempo alegre e melancólico das personagens e do tempo.  Por outro lado, é ao mesmo tempo profundamente europeu, reflectindo muito percurso do próprio escritor. Tenho vontade de transcrever excertos inteiros para que me entendam como este livro é fenomenal.


Está dividido em 5 partes, aparentemente distintas. 

Livro I - A Parte dos Críticos. 
Começamos com a história de 4 estudiosos das letras, particularmente literatura alemã, que são unidos pela sua devoção à obra do escritor Benno von Archimboldi, um obscuro escritor do qual ninguém sabe quase nada e que nunca ninguém viu. Sabe-se apenas que é magro e incrivelmente alto. Em redor da paixão pelo escritor alemão, o francês Pelletier, o espanhol Espinoza, o italiano Morini e a inglesa Liz Norton vão desenvolver uma relação de amizade e cumplicidade que ultrapassa a devoção académica. Na busca por Archimboldi, Pelletier, Espinoza e Liz viajam até ao México (Morini, dono de uma saúde frágil, permaneceu, não por acaso, em Itália), mais concretamente a uma brutal e árida cidade perto da fronteira, Santa Teresa, onde se diz que o escritor teria estado. Qualquer semelhança com Cidade Juarez não é pura coincidência. Em Santa Teresa, os críticos tomam conhecimento da terrível onda de brutais homicídios de mulheres, além de conhecerem Óscar Amalfitano, um chileno, originário de Barcelona que traduziu para castelhano uma das obras de Archimboldi, não sendo no entanto grande entusiasta do escritor.


Livro II - A Parte de Amalfitano.
O professor universitário em Barcelona cuja mulher o deixou com a sua filha Rosa ainda bebé, muda-se para Santa Teresa, no norte do México. Numa cidade próspera, onde o desemprego é quase inexistente, Amalfitano sente o ambiente pesado e sombrio da cidade e preocupa-se com a segurança da sua jovem filha, que por sua vez se preocupa com a sanidade mental do seu não tão jovem pai, que pendurou um livro de geometria no estendal da roupa. E aí o deixou ficar.


Livro III - A Parte de Fate
A mãe de Fate morreu. A notícia da sua morte por ataque cardíaco foi-lhe dada por uma vizinha da mãe em Harlem, que no mesmo telefonema sofre ela própria uma paragem cardíaca, acabando por ter o mesmo destino. Fate é um jornalista afro-americano de uma revista "negra", que normalmente escreve sobre temas político-sociais relacionados com sua comunidade, mas devido ao homicídio do seu colega da secção de desporto, é enviado para Santa Teresa, México, para fazer a cobertura de um combate de boxe. Em Santa Teresa, Fate envolve-se no andamento sombrio e perigoso da cidade, juntamente com alguns colegas de profissão mexicanos e compatriotas não jornalistas. Algures entre a melancolia e as drogas e o sexo, Fate conhece a rapariga mais bonita que já teve a sorte de colocar os olhos em cima. Mas Rosa Amalfitano está, sem se aperceber, a enredar-se na atmosfera perigosa e doentia da cidade, que Fate detecta assim que chega a Santa Teresa. Também detecta que nenhuma mulher bonita está totalmente a salvo em Santa Teresa.


Livro IV - A Parte dos Crimes
As centenas de homicídios brutais que acontecem em Santa Teresa ao longo de anos são a base deste volume do livro. São relatos específicos, quase relatórios das brutais violações e actos de violência que culminam na morte miserável de centenas de mulheres. A idade das vítimas varia entre os 10 e os 40 anos, e se a maioria delas são mulheres trabalhadoras, operárias nas "maquilladoras" de Santa Teresa, são também prostitutas ou acompanhantes de luxo, ou mulheres de educação superior e nível social mais elevado. Os crimes são pobremente investigados, uns mais que outros, mas ainda assim é possível concluir que os criminosos são inúmeros e os crimes são diferentes. Têm apenas em comum o sexo das suas vítimas e a perversidade dos assassinos. Não obstante, surge um suspeito, alemão naturalizado norte-americano, que é acusado de algumas das mortes, e encerrado na prisão de Santa Teresa.


Livro V - A Parte de Archimboldi.
Hans Reiter nasceu na Prússia, depois da primeira guerra, filho de pai coxo e mãe zarolha. Aos 10 anos de idade, quando nasce a sua adorável e ternurenta irmã, Hans já é um jovem da mesma altura dos rapazes de 12 da sua aldeia e mais alto que a maioria dos de 15. Hans desiste da escola e vai trabalhar na ajuda à manutenção da casa do Barão von Zumpe, onde a biblioteca da família começa a atraí-lo como a escola não fez. Até a guerra chegar novamente e ser incorporado na Frente do Leste do exército alemão.
Após a guerra, Hans Reiter envolve-se na primeira relação amorosa, ao mesmo tempo que começa a escrever. Ao enviar o seu primeiro manuscrito para uma editora, decide-se pelo nome de Benno von Archimboldi.

Muito (bastante, extremamente, estupidamente) resumido, é disto que se trata 2666. No entanto, esta obra fala de muito, muito mais. É como um iceberg: encerra no seu interior muito mais do que poderíamos conseguir adivinhar ao observar a superfície. Tem muito mais conteúdo do que as suas 1030 páginas conseguem abarcar. O discurso tem frequentemente um tom mordaz e irónico, e constitui um retrato bastante acutilante de muitos aspectos negativos da sociedade mexicana e da natureza humana no geral. Deixa-nos a pensar mesmo muito tempo depois de fecharmos as suas páginas.



Abro um pequeno parênteses para referir que nesta última fase do livro, a parte de Archimboldi, a escrita de Bolaño assume um carácter ainda mais mordaz e irónico. Chegando mesmo a ser espirituoso, como se a personalidade de Archimboldi/Reiter de emiscuisse na escrita, ou como se a escrita de Bolaño nesta fase tivesse influenciado a personagem. Deixo aqui um "pequeno" excerto que adorei:

"O editor, que se chamava Michael Bittner, mas que gostava ou que lhe agradava que os amigos o tratassem por Mickey, como o ratinho, explicou-lhe que um bombardeamento de saturação era quando um monte de aviões inimigos, mas um monte grande, enorme, superlativo, lançava as suas bombas sobre uma faixa de terreno na frente um bocado de campo previamente delimitado, até que dele não restasse nem uma folha de erva. 
- Não sei se me expliquei com clareza, Benno - disse ele olhando fixamente Archimboldi nos olhos.
- O senhor explicou-me com clareza total, Mickey - disse Archimboldi, ao mesmo tempo que pensava que o tipo em questão não era só chato, como também ridículo, com aquela ridicularia que só os histriões têm e os pobres-diabos convencidos de ter participado num momento determinante da História, quando é bem sabido, pensou Archimboldi, que a História, que é uma puta simples, não tem momentos determinantes, mas é sim uma proliferação de instantes de brevidades que rivalizam entre si em monstruosidade."

O autor, com o conhecimento da morte bastante próxima, tentou a todo o custo deixar a obra terminada, principalmente como legado financeiro para os seus herdeiros. As suas instruções foram para publicar as 5 partes individualmente, de forma a permitir uma maior segurança financeira aos herdeiros. No entanto estes decidiram acatar a opinião do seu amigo e editor, que a apreciação da obra só faria sentido como um todo e publicaram o livro único. Sobre o autor, deixo aqui uma ligação ao blog Bibliotecário de Babel, com um artigo interessante acerca de Bolaño e de 2666, pelo José Mário Silva.


Foram precisas seguramente mais de 100 páginas para eu me aperceber duma particularidade que é a principal característica "física" da escrita deste livro. Fiquei espantada por só após tanto texto lido (e este livro tem letra bem pequena e margens reduzidas) me ter apercebido e com a maior das naturalidades, que a escrita de Bolaño não apresenta parágrafos. Chegam a ser páginas e páginas de texto contínuo. Com o uso magistral da vírgula, com travessões e aspas a introduzir os diálogos (mas nem sempre). Depois de ouvir tanta gente afirmar que José Saramago, que nunca li, é difícil de ler devido aos diálogos corridos, frases longas e à ausência de parágrafos, fiquei naturalmente surpreendida. Dei-me ao trabalho de ir procurar algum livro de Saramago que sei que havia em casa dos meus pais (já desviado para a minha, claro!). Encontrei O Ano da Morte de Ricardo Reis (eu ia jurar que também tínhamos o  Memorial do Convento) e sem ler o texto, comparei a estrutura. É que a estrutura da prosa de Roberto Bolaño, sendo semelhante, é deliciosa.  Depois lá me lembrei que apesar das várias vozes que afirmam que José Saramago é "seca" e difícil de ler, tantas ou mais o veneram, e a palavra Nobel surgiu-me por fim. Fiz uma nota mental para ler Saramago o mais rapidamente possível. 
Enquanto não leio o Nobel, posso dizer que a escrita de Bolaño, pela ausência de pontos finais e parágrafos, se torna alucinante e de uma velocidade estonteante (indo ao encontro à escrita sem travão, que referi acima). Ao mesmo tempo evoca a naturalidade do discurso associado ao raciocínio, sem pausas nem limitações, e passando brevemente do narrador para o diálogo.


Com a leitura deste livro decidi, e já implementei, que vou passar a andar sempre com post-its colados no livro que estou a ler (daqueles bons, que colam bem sem estragar o papel, o que é que pensam?), e marcar a página de alguma passagem particularmente especial. Isto porque ao longo deste livro abundaram as passagens deliciosas. Sei que é um livro no qual vou pegar mais vezes, quando tiver vontade, mas para já, deixo-vos aqui uns excertos que já estavam publicados na net, e que apesar de não terem sido escolhidos por mim, bem que poderiam ter sido.


Excerto da parte I:

"A certeza porém foi que nem Pelletier nem Espinoza visitaram Norton no seu quarto nem uma única vez, pelo contrário,o quarto que Espinoza visitou, uma vez, foi o de Pelletier, e o quarto que Pelletier visitou, duas vezes, foi o de Espinoza, entusiasmados como crianças perante a notícia que se espalhava mais depressa do que um rastilho de pólvora, do que uma bomba atómica, pelos corredores e pelas reuniões em petitcomitédas jornadas, ou seja, que Archimboldi era candidato ao Nobel naquele ano, uma coisa que para os archimboldistas de todos os lados era não só um motivo de imensa alegria como também um triunfo e uma vingança. A tal ponto que foi em Salzburgo, precisamente, na Cervejaria O Touro Vermelho, durante uma noite cheia de brindes, que se assinou a paz entre os dois grupos principais de estudiosos archimboldianos, isto é, entre a facção de Pelletier e Espinoza e a facção de Borchmeyer, Pohl e Schwarz, que a partir de então decidiram, respeitando as suas diferenças e os seus métodos de interpretação, juntar esforços e não voltarem a passar rasteiras uns aos outros, o que expresso em termos práticos queria dizer que Pelletier já não vetaria os ensaios de Schwartz nas revistas onde ele mantinha um certo ascendente, e Schwartz já não vetaria os trabalhos de Pelletier nas publicações onde ele, Schwartz, era considerado um deus."

Excerto da parte IV:
"Viver neste deserto, pensou Lalo Cura enquanto o carro conduzido por Epifanio se afastava do descampado, é como viver no mar. A fronteira entre Sonora e o Arizona é um grupo de ilhas fantasmagóricas ou encantadas. As cidades e as aldeias são barcos. O deserto é um mar interminável. Este é um bom sítio para os peixes, sobretudo para os peixes que vivem nas fossas mais profundas, não para os homens."


Excerto da parte V:

"Toda a obra menor tem um autor secreto e todo o autor secreto é, por definição, um escritor de obras-primas. Quem é que escreveu tal obra menor? Aparentemente um escritor menor. A mulher deste pobre escritor pode testemunhar isso, ela viu-o sentado à mesa, inclinado sobre as páginas em branco, a retorcer-se e a deslizar a sua caneta sobre o papel. Parece uma testemunha irrebatível. Mas o que ela viu é só a parte exterior. A carapaça da literatura. Uma aparência – disse o velho ex-escritor a Archimboldi e Archimboldi lembrou-se de Ansky. – Quem na verdade está a escrever essa obra menor é um escritor secreto que só aceita os ditados de uma obra-prima.
O nosso bom artesão escreve. Está enfronhado naquilo que vai plasmando bem ou mal no papel. A sua mulher, sem que ele o saiba, observa-o. Efectivamente, é ele quem escreve. Mas se a sua mulher tivesse uma visão de raios X aperceber-se-ia de que não assiste propriamente a um exercício de criação literária, mas sim a uma sessão de hipnotismo. No interior do homem que está sentado a escrever não há nada. Nada que seja ele, quero dizer. Quão melhor faria esse pobre homem dedicando-se à leitura. A leitura é prazer e alegria de estar vivo ou tristeza de estar vivo e sobretudo é conhecimento e perguntas. A escrita, em compensação, costuma ser vazio. Nas entranhas do homem que escreve não há nada. Nada, quero dizer, que a sua mulher, num dado momento, possa reconhecer. Escreve por ditado. O seu romance ou poemário, decentes, decentezinhos, saem não por um exercício de estilo ou vontade, como o pobre desgraçado julga, mas sim graças a um exercício de ocultamento. É necessário que haja muitos livros, muitos pinheiros encantadores, para que escondam de olhares avessos o livro que realmente importa, a maldita gruta da nossa desgraça, a flor mágica do Inverno!
Desculpe as metáforas. Às vezes excito-me e fico romântico. Mas escute. Toda a obra que não seja uma obra-prima é, como lhe dizer, uma peça de uma vasta camuflagem. Você foi soldado, calculo, e já sabe ao que me refiro. Todo o livro que não seja uma obra-prima é carne para canhão, infantaria esforçada, peça sacrificável dado que reproduz, de múltiplas maneiras, o esquema da obra-prima. Quando compreendi esta verdade deixei de escrever. A minha mente, porém, não deixou de funcionar. Pelo contrário, ao não escrever
funcionava melhor. Perguntei-me: porque é que uma obra-prima precisa de estar oculta?, que estranhas forças a arrastam para o segredo e o mistério?
Já sabia que escrever era inútil. Ou que só valia a pena se uma pessoa estiver disposta a escrever uma obra-prima. A maior parte dos escritores engana-se ou brinca. Talvez enganar-se e brincar seja a mesma coisa, as duas faces da mesma moeda. Na realidade, nunca deixamos de ser crianças, crianças monstruosas cheias de dói-dóis e de varizes e de tumores e de manchas na pele, mas crianças afinal, isto é, nunca deixamos de nos agarrar ferreamente à vida dado que somos vida. Também se poderia dizer: somos teatro, somos música. De igual maneira, pouco são os escritores que renunciam. Brincamos a julgarmo-nos imortais. Enganamo-nos no
julgamento das nossas próprias obras e no julgamento sempre impreciso das obras dos outros. Vemo-nos no Nobel, dizem os escritores, como quem diz: vemo-nos no Inferno."

in 2666, Roberto Bolaño. Tradução de Cristina Rodríguez e Artur Guerra, Quetzal, 2009





Sei que muito do que queria expor ficou por dizer, e certamente muito me terá escapado (e que poucas almas leram este texto até ao fim). É um livro denso e tão engraçado como terrivelmente sério. Marca-nos assim que começamos a desfolhar as primeiras páginas. A única justiça que posso fazer a este livro é recomendar a sua leitura. Entendo que não seja uma leitura fácil para alguns e que  possa ser cansativa pela sua extensão (é um livro realmente longo) e densidade. Recomendo pois que este livro seja lido com calma e seguindo um ritmo muito particular, pois se for lido com prazer e devidamente apreciado, é sem dúvida uma leitura daquelas que nunca esquecemos. 

Por fim, para os resistentes e audazes que leram este testamento e querem ler mais… Vão ler o livro! Depois disso, passem no blog HÁ SEMPRE UM LIVRO… à nossa espera!, onde está publicada uma fenomenal análise de 2666 (atentem, não uma mera opinião ou suposta crítica, mas uma verdadeira análise), pela Cláudia de Sousa Dias. A análise do livro está publicada em 5 partes (uma para cada parte do livro), não percam nenhuma. Recomendo que leiam primeiro o livro ou circulem cuidadosamente, devido aos spoilers.



O melhor: A entrega de Bolaño na sua escrita
O pior: É tão pesado…
5/5 – Excelente!


 

04/01/2011

Cleo - Helen Brown


Cleo, Helen Brown
A história de uma gatinha que salvou uma família
Páginas: 352
Título original: Cleo: The Cat Who Mended a Family
Editora: Caderno




Sinopse: Helen estava na casa de uma amiga quando recebeu a notícia: Sam tinha acabado de morrer. Ainda pensou que Sam fosse um familiar qualquer distante, mas não, era mesmo o seu Sam, o seu filho mais velho: morreu atropelado, à frente do irmão mais novo. O mundo de Helen começou a ruir. Noites sem dormir, pensamentos suicidas, uma depressão profunda. Enquanto, à sua volta, a família se deixava levar pelo desespero, pelas discussões, pela tristeza infinita de perder um ente querido. Até que um dia bateram à porta. Era uma vizinha, trazia no colo um gato ainda bebé. Helen já nem se lembrava. Um mês antes tinha ido com os filhos ver uma ninhada, e prometera a Sam que lhe daria um dos gatinhos. E ali estava ele, uma impertinente bola de pêlo preto. O seu primeiro impulso foi rejeitar de imediato aquele pequeno intruso. Mas então viu Rob, o seu outro filho, a acariciar o bichano. E pela primeira vez em muito tempo, viu-o sorrir… Cleo tinha chegado a casa. E aos poucos começaria a devolver àquela família a alegria de viver.

Opinião: Este foi um livro que, depois de quase um ano na estante, decidi do nada pegar e ler. E li-o num dia inteiro. Não é seguramente uma grande obra literária, é essencialmente uma história pessoal contada na primeira pessoa pela autora. Mas a leitura avança no ritmo agradável da escrita.

Helen é uma mãe de 2 filhos, de 9 e 6 anos. A sua família, filhos, marido e cadela, vivem numa casa de madeira no topo de uma encosta na capital da Nova Zelândia. As suas vidas são arrasadas quando o filho mais velho, Sam, morre atropelado num acidente, alterando o centro de gravidade de todos os elementos da família. Enquanto Helen se afunda numa depressão profunda, a sua família começa a desmoronar. Na segunda semana após a morte de Sam, a pequena Cleo é entregue em casa de Helen por uma vizinha. A gatinha, a mais pequena e frágil da ninhada, tinha sido escolhida por Sam um mês antes, mas é claro que Helen já não tinha memória desse compromisso, e não tencionava cumpri-lo. Todos na sua família eram amantes de cães, e nada fans de felinos. Cleo era a gata para Sam, mas sem ele, como poderiam adoptar uma gatinha bebé no momento mais negro das suas vidas? A verdade é que foi Cleo quem adoptou a família.

Este livro descreve uma depressão e dor tão profundas que eu creio não conseguir apreender nem à superfície: a perda de um filho. Apesar de toda a comoção associada ao relato real de uma tragédia tão triste, Helen Brown escreve com graça e precisão aquilo que em muitos livros acaba por se tornar numa mera torrente de desespero e depressão que arrasta o leitor. O resultado é uma empatia com a família em sofrimento, e o reconhecimento do desespero que uma situação assim causa num lar, mas sem cair na lamechice e no chorrilho de tristezas. E assim queremos continuar a ler. Ao mesmo tempo, criei imediatamente uma empatia com Cleo, a pequena gata metediça que invade a tristeza destas pessoas, e tem a ousadia de trazer a alegria de novo aos seus corações. Eu própria sou uma amante de gatos. Tenho uma gata comigo, e revi-a em muitas das situações engraçadas e enternecedoras que Cleo protagonizou. Afinal não é só a minha gata que, ao ver-me a ler um livro, considera isso um convite a vir posicionar-se precisamente entre o livro e os olhos da dona (e reclama quando é afastada), e não é só a minha que se sente atraída pelos cantos dos livros pelo que são: excelentes locais para esfregar o focinho e roer.

O início de cada capítulo tem uma frase que caracteriza os felinos, e vi nelas verdadeiras citações da Bíblia dos Gatos, se tal coisa existisse! Expressões como “O verdadeiro nome para um gato é ‘Sua Majestade’” e “É o gato que escolhe o dono, e não o contrário” fizeram-me rir de tão verdadeiras que são. Deliciei-me com as traquinices e a personalidade de Cleo à medida que a família endireitava o seu percurso na vida, e acreditei na força que adveio deste animal de estimação para ultrapassar outros obstáculos que foram surgindo.

No fundo acabei por ficar a gostar ainda mais de gatos! Quando soube que este livro abordava a temática da perda de um filho, temi ficar demasiado triste ao lê-lo, mas acabei por passar mais momentos a sorrir para o livro e até a rir alto (passando vergonhas no comboio, pois claro) do que com sentimentos tristes. 

Por outro lado, também temi um livro mais lamechas e pouco rico em conteúdo. Ainda bem que senti o impulso de pegar neste livro!

Fiquei agradavelmente surpreendida com a leveza de discurso e até com o carácter espirituoso com que esta história foi contada. Recomendo para os amantes de gatos, que  deliciar-se-ão com as traquinices felinas, mas também para as pessoas que pensam que não gostam de gatos. Talvez mudem de opinião.

Acabo esta opinião como comecei: não é seguramente uma grande obra literária, mas proporcionou-me bons momentos de leitura.
Uma nota final para as fotos pessoais da autora e da família, que vão surgindo, uma por capítulo, que não nos deixam esquecer que se trata de uma história real.

O melhor: Cleo, em todo o seu poderio felino.
O pior: Saber que, apesar de tudo, é uma história real

4/5 – Gostei bastante

21/12/2010

Compromisso Literário 2011


Com o ano quase a acabar as chamadas resoluções de Ano Novo começam a surgir como cogumelos, e como este espaço também é terreno fértil, eu também tenho algumas!

1. Em primeiro lugar, gostava de ler mais. Há tantos livros que quero ler, e tão pouco tempo para o fazer. Já dizia o poeta… Li em 2010 mais do que li em 2009, e espero que a tendência se mantenha.

E agora começam as resoluções em cadeia.

2. Relacionada com a resolução anterior, decidi que vou (tentar) exterminar a minha lista de livros por ler que tenho cá em casa. A Pilha, como carinhosamente a chamo, já tem andares a mais!

3. Além de ler mais, gostaria de variar mais as minhas leituras. Como fan de fantasia que sou, reconheço que acabo por me manter muito agarrada a este género. Como tal, à semelhança de outros blogs, vou impor a mim própria uma relativa variabilidade de obras e autores.

Atribuí a cada mês um tema/género, por uma ordem totalmente aleatória (à excepção de Dezembro), tentando ao máximo variar as minhas leituras e ao mesmo tempo aproveitar os livros que já tenho na estante. Sim, porque a última resolução literária para 2011, que vai de encontro à nr 2, é diminuir a compra de livros. Vai ser difícil resistir às promoções malucas que as lojas online e editoras andam sempre a fazer ultimamente (o que é que lhes deu?!), mas eu sou mais forte que os senhores do departamento de marketing!

Deixo aqui o meu compromisso literário de 2011. Em breve farei a lista (mais ou menos) definitiva dos livros que tenho por cá em cada um dos géneros. No fim do ano logo veremos se cumpri o meu compromisso!

1 - Autores Sul-Americanos
2- Policial/Thriller
3- Divulgação Científica
4- Romance Histórico Português
5- Ficção Cientifica
6 - Autores da Nova Geração de 70
7 - Terror
8 - Romance
9 - Clássico Universal
10 - Nobel da Literatura
11 - Não Ficção
12 - Novidades 2011

Mas eu continuo a querer ler fantasia (e muitas novidades apetitosas se esperam em 2011), e quaisquer outros títulos que me seduzam em determinado momento. Reparei que leio, em média, 4 livros por mês. Tendo isso em conta, comprometo-me a ler pelo menos um “livro temático” por mês, dois sempre que possível. Mantendo assim o tempo livre para o que me apetecer ler. Era capaz de começar a experienciar sintomas físicos de ressaca ao fim de uns 45 dias sem fantasia.
Vamos ver no que isto vai dar. Sintam-se à vontade para fazer sugestões ou alinhar!

Boas leituras