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20/01/2011

Sr. Bentley, o Enraba-Passarinhos

Sr. Bentley, o Enraba-Passarinhos, Ágata Ramos Simões 
Núm. páginas: 162
Editora: Saída de Emergência



Sinopse: Sr. Bentley, o Enraba-Passarinhos, irá provocar incontroláveis convulsões aos amantes das ditas avezinhas e a qualquer incauto que ainda não tenha compreendido as verdades do mundo. É um clister moral, uma purga mal-pensante, um insulto ao bom-gosto, um gosto pelo insulto, um compêndio de palavras feias e um espelho do Portugal politicamente correcto em que o leitor habita. O Sr. Bentley não conhece travão e nada tem de sagrado. Mais do que uma pedrada no charco, é um verdadeiro pontapé nas penduricalhas miudezas deste pântano à beira mar encalhado; Portanto, leitor, acomode a coquilha sobre as jóias da família, proteja os dentes, e prepare-se para a porrada, porque o Sr. Bentley é um peso-pesado. Um Atlas que carrega com alegria sobre os ombros tudo o que de mais abjecto, medonho, mesquinho, estúpido e medíocre os portugueses têm… e, por isso, é um verdadeiro encanto. Pensando bem, caro leitor, tire daí a mãozinha; este livro não é para si! 



Opinião: Já estava há bastante tempo (anos) de olho neste livro curioso. O título por si só faz adivinhar uma obra diferente, e a sinopse não engana. Depois de tanto tempo a adiar, a leitura conjunta no Fórum Bang! foi a desculpa ideal que me levou a finalmente incluí-lo na encomenda. 

Assim que o livro chegou estava ansiosa para começá-lo, porque em adição às expectativas anteriores, verifiquei que este livro tem uma edição primorosa: capa dura, encadernação a um papel rugoso, quase tecido; fita de marcação de páginas; papel de excelente qualidade; e o melhor de tudo, engraçadas ilustrações ao longo do texto, que deram uma graça muito especial ao livro (apesar da ficha técnica não referir o autor das mesmas). Em suma, uma excelente edição, que muito me agradou. 

Talvez tivesse expectativas demasiado elevadas relativamente a este livro. Estava à espera de me fazer dar grandes gargalhadas e de o ler num ápice. Mas não. 

O Sr. Bentley é um homenzinho desprezível. O desprezo que lhe é dirigido pelas pessoas em geral só é ultrapassado pelo desprezo que ele próprio sente pelas pessoas. Menos a sua santa esposa, a velha, que adora e maltrata com surpreendente vigor. Mas o que ele adora é visitar cemitérios e cuspir nas criancinhas. E insultar pessoas, claro, mas sempre com o seu guarda-chuva adorado, que lhe permite planar por esses céus afora e assim escapar a valentes sovas. 

Esta personagem é o centro de todo o livro. A autora escreve de forma deliciosa, com um brilhante domínio da língua, que nem o extenso uso do vernáculo disfarça. O livro está pejado de uma forte crítica à sociedade portuguesa (assumindo que não é esse o objectivo central do livro), num tom de humor negro que apesar de mordaz, não me fez rir se não em passagens. 

O Sr. Bentley é uma personagem caricata e excêntrica, e dizem que é mau como as cobras. Algumas das suas acções são verdadeiramente incríveis, e chegam a ser chocantes. Esse é outro tom do livro: chocante. Quer seja por algumas passagens do Sr. Bentley, quer pelo valente vernáculo utilizado (chega a ser palavra sim, palavra sim), é um livro que pode facilmente ferir algumas susceptibilidades. Na minha opinião pessoal os palavrões são despejados no texto como parte da caracterização do personagem (mas não deixam de ser cansativos a certa altura) e senti que em parte foi apenas e meramente com o objectivo de chocar o leitor. 

É um livro que relata episódios sucessivos das aventuras do Sr. Bentley, não necessariamente com ligação entre si. Senti que lhe faltou um fio condutor, um rumo que o poderia ter transformado numa obra genial e hilariante. Penso que este livro tinha enorme potencial e um conceito brilhante, mas a concretização ficou aquém do que poderia ter sido se a autora tivesse seguido um rumo mais maduro. 

É sem dúvida um livro diferente e irreverente, e não o considerei uma perda de tempo, mas não posso negar que me desiludiu um pouco, apesar de algumas cenas verdadeiramente interessantes. 


O melhor: A relação do Sr Bentley com a Miss Joyce e o final. 
O pior: Pensar que este livro tem um conceito brilhante e que poderia ter sido muito melhor. 

2/5 – Ok.

04/12/2010

Eu Sou a Lenda, Richard Matheson




Eu Sou a Lenda, Richard Matheson
Título Original: I Am Legend
Tradutor: David Soares e Fernando Ribeiro
Data de publicação: 1954
Publicações Revista Visão
(original em Portugal por Saída de Emergência)



Sinopse: Robert Neville é o último homem vivo na Terra... mas não está sozinho. Todos os outros homens, mulheres e crianças transformaram-se em vampiros e estão sequiosos pelo sangue de Neville.

De dia, ele é o predador, caçando os mortos vivos pelas ruínas abandonadas da civilização. De noite, Neville barrica-se em casa e reza para que chegue a manhã.
Durante quanto tempo pode um homem sobreviver num mundo de vampiros?



Opinião: Li este livro no âmbito de um exercício de leitura conjunta no fórum Bang!, e foi um excelente exercício. Ao ler esta obra tentei ter sempre presente a data original de publicação: 1954. Não que isso tenha influenciado de forma definitiva a minha apreciação da obra, mas a consciência da “idade” da obra ajudou-me a entender que em alguns aspectos tenha “envelhecido” mal. Refiro-me essencialmente ao contexto científico e o concerne à investigação científica a que a personagem leva a cabo a dada altura no livro. Desconfio que alguns termos biológicos tenham sido prejudicados pela tradução, mas apenas por preciosismo. Posto isto, em todos os outros aspectos, achei o livro excelente.

Facilmente descobrimos pela sinopse que Robert Neville é o último ser humano vivo do planeta. Saber que não existe mais ninguém vivo à face do planeta não significa que esteja sozinho. Uma praga à escala planetária transformou todos os seres humanos (e não só) em vampiros e erradicou a civilização humana. Como se pode sobreviver em permanente ameaça por seres resilientes, violentos e sequiosos de sangue, e principalmente, que não permanecem mortos quando se matam?

E principalmente, como pode um homem viver rodeado da mais profunda solidão?
Porque é disso que se trata. A história é bem mais do que a capacidade de resistência humana da parte de um homem que se recusa a deixar-se vencer pela praga que lhe levou a família e todos os conhecidos. Esse homem que sobrevive a anos de ataques, anos de luta pela sobrevivência, sobrevive também a anos sem qualquer contacto humano. Que efeito terá isso num ser cuja parte integrante da sua biologia é a comunicação intra-específica?

Na minha opinião, a caracterização da personagem é brilhante. Todo o conflito emocional e psicológico da personagem, perdida num mundo, totalmente só, é descrito de forma magistral. A escrita não é particularmente deslumbrante, mas toda a carga emocional do homem na sua solidão e constante memória da mulher e da filha é avassaladora e bastante bem construída. Passa a quilómetros de distância dos lugares comuns, não fosse esta obra anterior a quase todas que tenho lido. Os dilemas interiores e as discussões que Robert tem consigo próprio são cheias de ritmo e humor, num tom ácido bastante compatível com uma personagem que perdeu toda a fé no futuro.

Apesar das minhas reservas relativamente à teoria científica que explica a praga, gostei do conceito de vampiro. Esqueçam o vampiro clássico, sedutor, super inteligente e bebedor de sangue dos vivos, porque esta história está construída com base numa premissa diferente em certos aspectos. Com tanto contacto com histórias de vampiros que temos tido nas últimas décadas, e com a oferta esmagadora que existe actualmente, foi uma lufada de ar fresco. Com mais de 55 anos, até podia ser ar bastante bafiento, mas não é.

É incrível como uma obra de 1954 se mantém tão actual em alguns aspectos. Sem querer revelar demasiado, considero que, por baixo da máscara de terror, esta obra encerra uma profunda e irónica crítica à sociedade humana “normalizada”. Num mundo em que todos somos iguais, não será aquele que se mostra diferente o anormal. Mas e se formos todos anormais? 


O que caracteriza o ser humano? A sua inteligência racional? A capacidade de organização em sociedade? É a humanidade a verdadeira característica da natureza humana? É no levantar de forma subtil todas estas questões, e não na luta homem vs vampiro, que esta obra se revela brilhante. Recomendo.

Além da história Eu Sou a Lenda, o livro oferece-nos 3 contos de terror, que achei deliciosos.
Nascido de Homem e Mulher, Presa e Perto da Morte. Adorei os três, mas os dois últimos achei divinais! Presa é verdadeiramente assustador, com ambiente com laivos de um Chucky tribal e um final genial.
Perto da Morte pode ser considerado um mini conto. Umas meras 2 páginas e meia de normalidade, que se torna brilhante na última linha.


Uma última nota para o filme com o mesmo nome, baseado neste livro, protagonizado por Will Smith. Foi a 3ª adaptação desta obra para o cinema, e eu não vi nenhuma delas. Tenho de tirar algum tempo para o fazer. Se sempre tive curiosidade me relação ao filme, agora que li o livro quero meramente fazer o habitual exercício de comparação. Pelo que já me foi dado a saber (começando pelo protagonista negro para interpretar uma personagem germânica) até parecem duas obras distintas, de tão diferentes que são. Para quem nunca leu o livro por achar o filme suficiente, recomendo ainda mais a leitura!


O melhor: A caracterização da personagem e os contos
O pior: Um mau envelhecimento da parte científica da história.

4/5 – Gostei Muito