Bibliofilia: Amor por livros e por ler. O Bibliófilo ama ler e sente devoção pelos livros, colecciona-os e admira-os.
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01/06/2013

Never Let Me Go


Autor: Kazuo Ishiguro

Editora: Faber and Faber

Nº de páginas: 263

Publicado originalmente: Faber and Faber (2005)


Sinopse: In one of the most acclaimed and strange novels of recent years, Kazuo Ishiguro imagines the lives of a group of students growing up in a darkly skewered version of contemporary England. 
Narrated by Kathy, now 31, "Never Let Me Go" hauntingly dramatises her attempts to come to terms with her childhood at the seemingly idyllic Hailsham School, and with the fate that has always awaited her and her closest friends in the wider world. 

A story of love, friendship and memory, "Never Let Me Go" is charged throughout with a sense of the fragility of life.


Opinião: Parti para este livro com algumas expectactivas, apesar de não saber nada sobre o conteúdo. Um livro amplamente aclamado e recomendado por amigos que prometia uma leitura cativante e emotiva. Infelizmente, para mim não representou nenhuma das duas. 

A narradora da história, Kathy, tem 31 anos e trabalha a prestar cuidados a outras pessoas debilitadas fisicamente, os dadores. Kathy descreve a sua vida actual sem explicar quem são as pessoas que cuida nem a razão pela qual precisam de cuidados como dadores. Ao mesmo tempo, fala dos amigos Tommy e Ruth, do tempo de Hailsham, o colégio interno no interior de Inglaterra, onde cresceram. Diria que este livro é a história dessa amizade. Uma amizade profunda e verdadeira, que ultrapassa décadas, separações e provações. 

À medida que Kathy conta ao leitor a sua história e a vida em Hailsham, vai-se percebendo o contexto estranho e misterioso em que estas crianças foram criadas, e que Hailsham não é um colégio normal. Vivem felizes, mas sem contacto com o exterior, nenhuma delas tem uma vaga ideia de como é a vida no exterior de Hailsham, e são educadas para não fazer perguntas. Como qualquer criança, essas questões surgem, mas mesmo sem as compreenderem, cumprem as regras definidas e mantêm a sua integridade física e emocional, tal como são incentivados a fazer pelos tutores.

Apesar da expectativa inicial, desde o início que lutei para me manter interessada neste livro. É daquelas historias que têm tudo de bom na teoria, mas que simplesmente não me cativou. No meio de tanto mistério, ao longo do livro fui lendo, à espera do momento de revelação, o ponto de viragem da leitura, o ponto de maior emoção que me faria finalmente compreender tudo e ter vontade de ler sem parar. Mas antes de chegar esse momento chegou o fim do livro. Fui lendo, e quando dei por mim a história tinha acabado, eu já tinha compreendido todos os mistérios, e mesmo assim a história não me tinha cativado. 

Achei que o autor conseguiu de forma subtil elucidar o leitor da mesma forma que estas crianças foram crescendo. Vivendo as histórias e aventuras do momento entre amigos, e assimilando pouco a pouco pequenas peças de informação que vão sendo reveladas sobre o que é na realidade o contexto desta história, sem sequer se aperceberem que sabem de algo diferente. Simples e naturalmente, passam da ignorância para a aceitação como dado adquirido daquilo que os espera fora de Hailsham. Assim é para o leitor: Começa a história sem saber nada, e quando chega ao fim entende o contexto, mas é como se sempre tivesse sabido, não houve nenhuma "revelação".

Apesar de ter achado a dinâmica das personagens interessante, nunca cheguei a criar empatia com Kathy nem com os seus amigos tão importantes. Ao mesmo tempo, considerei o conceito global do livro, o material que coloca este livro na categoria de "distopia", a parte mais interessante de toda a história, e fiquei frustrada por isso não ser tão explorado como achei que seria, ou como gostaria. 

Agora em perspectiva, vejo que ao construir um tema forte em redor da vida destes três amigos, o autor conseguiu criar uma história feita de emoções humanas, de forma bastante pesada e irónica. Talvez por uma questão de timing e disponibilidade pessoais, infelizmente não consegui captar essas emoções em nenhuma fase da leitura, mas consigo perceber que este livro tenha agradado a tanta gente. Consigo apreciar a obra de forma global, mas simplesmente não resultou para mim. 

O melhor: O conceito distópico.

O pior: Falta de empatia com as personagens e o rumo da história.

3/5 - Gostei. 


18/05/2013

Admirável Mundo Novo

Autor: Aldous Huxley

Tradução: Mário-Henrique Leiria (+)

Título original: Brave New World

Editora: Livros do Brasil (1984)

Nº de páginas: 280

Publicação original: Chatto & Windus (1932)

Sinopse: Publicado em 1932, Admirável Mundo Novo tornar-se-ia um dos mais extraordinários sucessos literários europeus das décadas seguintes. O livro descreve uma sociedade futura em que as pessoas seriam condicionadas em termos genéticos e psicológicos, a fim de se conformarem com as regras sociais dominantes. Tal sociedade dividir-se-ia em castas e desconheceria os conceitos de família e de moral. Contudo, esse mundo quase irrespirável não deixa de gerar os seus anticorpos. Bernard Marx, o protagonista, sente-se descontente com ele, em parte por ser fisicamente diferente dos restantes membros da sua casta. Então, numa espécie de reserva histórica em que algumas pessoas continuam a viver de acordo com valores e regras do passado, Bernard encontra um jovem que irá apresentar à sociedade asséptica do seu tempo, como um exemplo de outra forma de ser e de viver. Sem imaginar sequer os problemas e os conflitos que essa sua decisão provocará. Admirável Mundo Novo é um aviso, um apelo à consciência dos homens. É uma denúncia do perigo que ameaça a humanidade, se a tempo não fechar os ouvidos ao canto da sereia de uma falsa noção de progresso.


Opinião: Admirável Mundo Novo é considerado um clássico moderno e uma obra distópica obrigatória. A acção decorre no futuro distante de 2450, onde séculos de avanços científicos originaram uma sociedade em tudo diferente da que temos hoje em dia. Os seres humanos são "cultivados" em instalações científicas, e total e absolutamente condicionados desde o momento em que são uma célula única, até ao final dos seus dias (final esse obviamente também condicionado por avançadas técnicas anti envelhecimento).

Nesta sociedade, tudo aquilo que é susceptível de criar conflitos ou angústias, mal estar e revolta nos seres humanos foi eliminado. São divididos em categorias, ou castas, em que as características que os distinguem são tão sociais como biológicas. Embriões são manipulados química e geneticamente para apresentarem as características necessárias a cada casta, e as crianças são sujeitas a um condicionamento por mensagens áudio, reproduzidas milhares de vezes durante o sono e que se alojam profundamente nas suas mentes, como verdades inquestionáveis. Necessidades biológicas e sociais essenciais a um ser humano saudável, como sexo e entretenimento inconsequente são encorajadas e disponibilizadas de acordo com as necessidades da casta. Para as categorias superiores, quando apesar de tudo existem sentimentos como ansiedade ou melancolia, basta tomar drogas que dissolvem a consciência e ajudam a voltar a ser leve e feliz.

Não existe sofrimento por amor, porque não existem relações, apenas sexo. Não existe ciúme, porque a poligamia é a regra e a monogamia impensável. Não existem emoções familiares cujos laços possam interferir com o bem estar, porque não há famílias. Não existe religião, mas sim uma veneração a uma metodologia, instalada desde cedo nas mentes das crianças e inquestionável. Não existe sentimento de injustiça social, uma vez que cada indivíduo foi feito para pertencer à sua categoria, e desejar nada mais.

Que razão terá um trabalhador inferior para ser infeliz, se o seu genoma foi manipulado para apresentar características físicas concordantes com as suas funções profissionais, e se no seu crescimento foi interiorizada psicologicamente a noção que tem tudo o que deseja, que é feliz e que bom é ser um trabalhador simples? Como não ser feliz quando se pertence à categoria superior Alfa? O nosso físico ideal se completa com  um intelecto compatível com profissões superiores, e um condicionamento embrionário é mantido ao longo do crescimento, para ser feliz, viver  satisfeito com a vida como Alfa, e não questionar nada?

A História mostrou-nos que o povo se torna perigoso quando se vê infeliz e descontente, e a melhor maneira de controlar as pessoas, é criar um mundo onde todos são felizes. Que melhor maneira de eliminar a rejeição das visões impostas do que eliminar a vontade de rejeitar? O melhor tirano é aquele que não é visto como tal.

Num mundo em que todos são aquilo que nasceram para ser, com castas definidas desde o estado embrionário e condicionadas no seu desenvolvimento para desejarem unicamente aquilo que têm, todos são felizes. A vida é boa, sem descontentamentos, reivindicações sociais, conflitos interpessoais de espécie alguma, nem questões existenciais.

Mas tal como em qualquer linha de montagem bem oleada, alguns indivíduos podem sair defeituosos. O que acontece quando um homem que entende o sistema de condicionamento como ninguém tem uma consciência mais alerta do que os demais da sua casta? Quando sabe que o que pensa é aquilo que lhe foi dito para pensar? O que acontece quando começa a agir de forma diferente e a procurar algo diferente do que aquilo que tem? E como reagiria alguém criado num ambiente como o que conhecemos hoje em dia a uma sociedade perfeita como esta? 

Esta é a premissa deste livro. Arrebatador deste o início, a primeira parte é pura ficção científica (ou ciência), em que nos são descritos os processos de manipulação genética responsáveis pelo estabelecimento desta sociedade. E foi por isso que este livro me impressionou desde o início, não só a questão científica por detrás desta sociedade, mas o conceito que a compõe, sendo claramente futurista, é assustadoramente actual. Como pode este livro ter sido escrito em 1932?!, era a minha questão a cada novo capítulo.

O meu fascínio foi crescendo com a descrição da sociedade e dos seus pormenores, com a introdução de personagens e dos seus pontos de vista. Apercebi-me que este livro foi escrito por alguém com uma profunda compreensão da natureza humana e das suas necessidades físicas e espirituais, e da humanidade e do caminho que trilhamos. Numa altura em que somos bombardeados em informação e influências, este livro fez-me reflectir em quão maleáveis somos enquanto seres humanos. Desde pequenos, no seio das nossas famílias, somos educados para pensar e agir de determinada forma, e enquanto adultos, absorvemos as influências dos outros e dos media. Quantas vezes precisamos de ouvir uma mentira para passarmos a acreditar nela?

Acabei por não sentir empatia por nenhuma das personagens, e cada uma delas me pareceu imprevisível e até irritante na sua perspectiva particular, o que me fez pensar que ou o autor não "explicou" as suas personagens ou eu não as compreendi. Dei por mim a desejar ler mais rápido os devaneios das personagens para voltar ao rumo dos acontecimentos. Não obstante, recomendo sem hesitação esta leitura. 
Um livro impressionante em vários aspectos, mas sobretudo intemporal. 

O melhor: A incrível premissa do livro e quão actual se mantém. A integração dos textos de Shakespeare.

O pior: Pouca ligação e empatia com as personagens.

4/5 - Gostei bastante

16/05/2013

Adult Dystopia



A Diana descobriu-o, a Slayra adoptou-o, e eu agora copio-o. Este desafio Adult Dystopia é especial porque a razão que me fez aderir foi o facto de não ter tempo limite. Isso mesmo, para o completar "basta" ler todos os livros da lista. É um incentivo, mas sem a parte da pressão de o concluir (que normalmente é o que me faz ficar sem vontade de ler os livros em questão). 

Distopia. É um género (?) que gosto bastante, e que pode ser bastante versátil (imensos livros diferentes caem nesta categoria), e já que a lista inclui imensos livros que já tenho na minha lista de livros para ler, porque não tentar oficializar a coisa? Ao mesmo tempo fico com imensas sugestões de obras dentro do género.

Eis a lista, e risquei os livros que já li. Quanto à conclusão deste desafio, vemo-nos quando nos virmos!

1. White Horse by Alex Adams
2. Feed by M. T. Anderson
3. The Handmaid’s Tale by Margaret Atwood
4. Oryx and Crake by Margaret Atwood
5. The Year of the Flood by Margaret Atwood
6. The Windup Girl by Paolo Bacigalupi
7. Nod by Adrian Barnes
8. City of Bohane by Kevin Barry
9. Jennifer Government by Max Barry
10. Mountain Man by Keith Blackmore
11. Fahrenheit 451 by Ray Bradbury
12. The Postman by David Brin
13. The Sheep Look Up by David Brin
14. Armageddon’s Children by Terry Brooks
15. The End of This Day’s Business by Katharine Burdekin
16. A Clockwork Orange by Anthony Burgess
17. The Wanting Seed by Anthony Burgess
18. Veracity by Laura Bynum
19. The Death of Grass by John Christopher
20. The Passage by Justin Cronin
21. The Twelve by Justin Cronin
22. Do Androids Dream of Electric Sheep? by Philip K. Dick
23. Shades of Grey by Jasper Fforde
24. Alas Babylon by Pat Frank
25. The Carhullan Army by Sarah Hall
26. The Gone-Away World by Nick Harkaway
27. Into the Forest by June Hegland
28. The Unit by Ninni Holmqvist
29. The Possibility of an Island by Michel Houellebecq
30. Brave New World by Aldous Huxley
31. Never Let Me Go by Kazuo Ishiguro
32. This Dark Earth by John Hornor Jacobs
33. The Children of Men by P. D. James
34. When She Woke by Hillary Jordan
35. The Trial by Franz Kafka
36. In a Perfect World, by Laura Kasischke
37. The Stand by Stephen King
38. Always Coming Home by Ursula LeGuin
39. Lathe of Heaven by Ursula K. LeGuin
40. The First Century After Beatrice by Amin Maalouf
41. I am Legend by Richard Matheson
42. The Road by Cormac McCarthy
43. A Creed for the Third Millennium by Colleen McCollough
44. I Have Waited and You Have Come by Martine McDonagh
45. A Canticle for Leibowitz by Walter M. Miller Jr.
46. Cloud Atlas by David Mitchell
47. V for Vendetta by Alan Moore
48. 1Q84 by Haruki Murakami
49. Bend Sinister by Vladimir Nabokov
50. Sulphuric Acid by Amelie Nothomb
51. 1984 by George Orwell
52. Anthem by Ayn Rand
53. Mistborn by Brandon Sanderson
54. Blindness by Jose Saramago
55. Seeing by Jose Saramago
56. The Diamond Age by Neal Stephenson
57. Earth Abides by George R Stewart
58. Dies the Fire by S. M. Stirling
59. The Domination by S. M. Stirling
60. A Voyage to Kazohinia by Sandor Szathmari
61. Battle Royale by Koushun Takami
62. Far North by Marcel Theroux
63. The Traveler by John Twelve Hawks
64. The Sleeper Awakes by H.G. Wells
65. The Time Machine by H.G. Wells
66. Julian Comstock: A Story of 22nd Century America by Robert Charles Wilson
67. The Book of the New Sun by Gene Wolfe
68. The Crysalids by John Wyndham
69. We by Yvengy Zamyatin
70. Corpus delicti by Juli Zeh

Este desafio foi elaborado pelo blog Uncorked Thoughts.

15/03/2013

Atlas das Nuvens


Autor: David Mitchell

Título original: Cloud Atlas

Editora: Dom Quixote, 2007

Tradução: Artur Ramos e Helena Ramos (+)

Nº Páginas: 616

ISBN: 9789722029940

Primeira Edição: Sceptre, 2004

Sinopse: Um viajante forçado a atravessar o oceano Pacífico em 1850; um jovem compositor deserdado, conquistando à força de tortuosas invenções um modo de vida precário num solar da Bélgica, entre a Primeira e a Segunda Grande Guerra; uma jornalista com princípios morais na Califórnia do governador Reagan; um editor menor fugindo aos seus credores mafiosos; o testamento de uma «criada de restaurante» geneticamente modificada, ditado na ala da morte; e Zachry, jovem ilhéu do Pacífico que assiste ao crepúsculo da Ciência e da Civilização: são os narradores de ATLAS DAS NUVENS, que escutam os ecos uns dos outros através dos corredores da história e vêem os seus destinos alterados de várias maneiras.

Opinião: Não sabia que este livro existia até começar a promoção do filme baseado nele. No final do ano passado, antecipando a estreia do filme em portugal, vários conhecidos cujas opiniões valorizo o começaram a ler, e perante opiniões unânimes de aprovação, resolvi começar a ler a edição inglesa. Confesso que desisti ao fim de algumas páginas, para pegar na edição portuguesa uns meses mais tarde, porque a escrita densa e repleta de peculiaridades geográficas e de época me desarmou logo no primeiro capítulo. Ao pegar no livro em português, gentilmente emprestado pela Célia (Obrigada!), imediatamente me rendi à escrita e à história deste Atlas das Nuvens. 

É-me muito difícil falar acerca deste livro. É difícil de explicar com precisão porque é que o devem ler, mas por favor, façam-no. 

Atlas das Nuvens é um conjunto de 6 histórias independentes entre si em geografia, data e tema, mas ligadas por subtis linhas do destino. As páginas do diário do americano Adam Ewing ao atravessar o Pacífico em 1850; as cartas do jovem compositor Robert Frobisher, caído em desgraça em Inglaterra e que encontra abrigo na Bélgica pós-Primeira Guerra Mundial; as aventuras de Luisa Rey, jornalista cujo caminho se cruza com um relatório contendo os planos defeituosos de uma central nuclear na América de 1975; no tempo presente, Timothy Cavendish, um editor de 65 anos vê-se forçado a fugir da família de um autor pouco sério, acabando na Escócia em condições preocupantes; num futuro distópico, Somni~451, uma "fabricante" oriental geneticamente modificada para pertencer à classe trabalhadora presta declarações gravadas digitalmente a um "arquivista" antes da execução da pena de morte; o relato de Zachry, um idoso habitante de uma ilha no Pacífico, que conta histórias da sua juventude num mundo depois da "Queda", onde a tecnologia não existe e a própria linguagem está fragmentada.

Este é o conteúdo do Atlas das Nuvens, e se analisando as curtas sinopses ficamos com a sensação que pouco há em comum entre as histórias, ao lê-las sentimos que poderiam ser, não apenas livros diferentes, mas até escritas por autores diferentes, tal é a variação na narrativa, nas personagens e nos géneros. Desde a ficção histórica de Adam Ewing e Frobisher, o thriller de Luisa Rey, passando pelo texto quase humorístico de Timothy Cavendish até à ficção científica e distópica de Somny~451 e Zachry.

Mas muito mais do que o conteúdo em si, o que me fascinou neste livro foi a forma. A estrutura física da obra e da escrita fazem este livro único e imperdível. David Mitchell constrói uma narrativa diferente para cada uma das suas histórias, e apresenta-as numa curiosa estrutura de cebola, com as suas camadas dispostas em redor do miolo central (foi a melhor analogia que me consegui lembrar, mas também já li em reviews a analogia com as bonecas russas Matryoshka, que me parece mais engraçada e menos aromática). Começamos o livro pela primeira metade diário de Adam Ewing, avançamos no tempo e no espaço até à primeira parte das cartas de Frobisher, depois a primeira parte da história de Luisa Rey, seguidas da primeira parte da Terrível Provação de Timothy Cavendish até ao início do Orison de Somni~451. Neste ponto chegamos à história de Zachry, a única história a não ser dividida e a peça central do livro, passado no ponto mais avançado no tempo. Finda a odisseia de Zachry, regredimos novamente no espaço e no tempo, com as segundas metades das histórias surgindo pela ordem inversa, completando as camadas em redor da história central e terminando o livro com a história que o começou. 

Confuso? Pelas minhas palavras, provavelmente, mas pelas de David Mitchell. não. A brilhante escrita e visão do autor transformam uma cebola numa peça literária inesquecível, e as ténues e ao mesmo tempo fortíssimas ligações entre as histórias são deliciosas e transformam o leitor num cúmplice das personagens. A cada pequena peça de informação sentimo-nos como alguém que lê os sinais e os entende e às suas consequências, mais do que as próprias personagens, e apetece dizer-lhes "Eu sei! Eu sei!" (pequena piada privada para quem já leu o livro). É difícil de definir o tema deste livro, mas eu diria que é uma história sobre a natureza humana e sobre o poder que os seres humanos têm um sobre os outros.

Uma obra fantástica, para ler com disposição e com calma para apreciar todos os detalhes das 6 histórias e mais de 500 páginas. Pode não ser uma leitura fácil (o que determinou a diferença entre as 4 e as 5 estrelas) mas fico imensamente feliz por não ter desistido de vez deste livro singular. 

Uma nota muito positiva desta tradução da Dom Quixote (não sei se a edição da Presença tem os mesmos tradutores), que numa obra complexa e muito difícil de traduzir, conseguiram fazer um excelente trabalho. 


O melhor: A estrutura da obra e a escrita

O pior: Nada que me ocorra


4/5 - Gostei bastante