Bibliofilia: Amor por livros e por ler. O Bibliófilo ama ler e sente devoção pelos livros, colecciona-os e admira-os.
Mostrar mensagens com a etiqueta Hugh Laurie. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Hugh Laurie. Mostrar todas as mensagens

30/03/2011

O Traficante de Armas


O Traficante de Armas, Hugh Laurie
Título original: The Gun Seller
Tradutor: João Henriques (nota ++)
Editora: Caderno



Sinopse: Thomas lang é um ex-polícia que se tornou um mercenário. Um dia recebe a visita de um tal McClusky, que lhe oferece cem mil dólares para assassinar Alexander Woolf, um empresário americano com negócios na Inglaterra e Escócia. Indignado, Lang recusa o trabalho e decide avisar a vítima para o perigo que corre, em vez de matá-la: uma boa acção que não ficará impune. 

A partir do momento em que o protagonista entra em contacto com a família Woolf ver-se-á imerso num turbilhão de mentiras, corrupção e violência, que o obrigará a esmagar umas quantas cabeças com a estatueta de um Buda, a medir o seu engenho com multimilionários malvados e deixar a sua vida (entre outras coisas) nas mãos de um grupo de femmes fatales. 

Hugh Laurie apresenta-nos um engenhoso e ácido romance que fará as delícias não só dos seus fãs, mas também de todos os leitores ávidos por enredos originais e cativantes. 


Opinião: Eu juro que tentei ler este livro sem ter em mente que o seu autor é um dos mais brilhantes comediantes europeu das duas últimas décadas. Eu juro que tentei ler este livro sem associar o narrador ao sotaque britânico delicioso do autor, e tentei ser imparcial relativamente ao sentido magnífico de humor de Hugh Laurie. Eu tentei, mas ele não deixou. 

Este livro respira Hugh Laurie em todas as letras. São vários os elementos: o excelente sentido de humor do narrador e personagem principal (publiquei aqui as primeiras linhas do livro, e dá para ver o tom do discurso); a mentalidade de superioridade britânica face à América da parte de um inglês “obrigado” a lidar com americanos em contexto profissional; até a necessidade de disfarçar o sotaque britânico tão próprio para exercer uma profissão e até fazer-se passar por americano nascido e criado; e Londres, cidade que adoro, como pano de fundo de grande parte da acção. Todos estes elementos, além de me remeterem para o artista Hugh Laurie e para as suas performances enquanto actor e comediante, prenderam-me do início ao fim como narrativa. Muitos só conhecem este artista pela famosa (e excelente, uma das minhas favoritas) série de TV House (e uns poucos pela fantástica Black Hadder), mas a carreira dele no Reino Unido começou há muitos anos atrás, e além de cantar, tocar e representar com um humor apurado, também escreve. Recomendo uma breve pesquisa no YouTube dos vídeos mais antigos dos programas deles se quiserem rir-se um bom bocado. Mas voltando ao livro...

Um homem britânico que anda metido com pessoal do governo de Sua Majestade, por causa de uma confusão com uns americanos brutos e limitados (não são todos?), que apenas procura levar a sua vida descansado, e se possível com uma Glock à mão. No meio disto tudo há uns negócios de venda de armas que envolvem terrorismo, e Thomas Lang é deixado numa encruzilhada moral, da qual só consegue ver os olhos da bela americana Sarah Woolf. 

Gostava de ter conseguido dedicar mais tempo à leitura deste livro, para que esta tivesse sido mais fluída, porque este enredo está repleto de reviravoltas, surpresas inesperadas e personagens determinantes. Infelizmente não tive disponibilidade para tal, e acabei por me sentir uma ou duas vezes perdida no meio de tantas curvas, mas sempre divertida e a soltar gargalhadas no autocarro. Se é verdade que por vezes me senti confusa com as reviravoltas no enredo, considero que além da escrita fantástica do autor, um dos pontos fortes neste livro é precisamente o facto de o leitor não saber em quem acreditar. Se por um lado Thomas Lang parece não poder confiar em ninguém (e quando parece que confia, nós não sabemos se confia mesmo ou se quando virar costas vai agir ao contrário), nós também não sabemos bem se confiamos em Thomas Lang. Estranho, não? Tendo em conta que o ponto de vista é dos pensamentos da personagem, é preciso o escritor ser terrivelmente engenhoso e inventivo para não revelar o que não quer que seja revelado. Até ao final, a dúvida quanto às verdadeiras intenções das personagens permanece juntamente com a verdade acerca do nosso herói. Porque ele torna-se o nosso herói desde o primeiro momento em que entramos na sua cabeça, mas mesmo assim o final é surpreendente. Reconheço que o enredo é pouco sólido de forma geral, porque se foca muito nos pormenores, mas não deixa de ser brilhantemente bem escrito, um livro despretensioso e uma óptima forma de passar o tempo. 


O melhor: A escrita divertida, chegando a ser hilariante. 

O pior: O enredo em si pouco sólido em certos pontos. 

4/5 – Gostei bastante

16/03/2011

Imaginem que têm de partir o braço a alguém.

"Imaginem que têm de partir o braço a alguém.
Não interessa se o direito ou o esquerdo. A questão é que têm de partir o braço a uma pessoa, senão... Bom, isso também não interessa. Digamos apenas que se não fizerem sofrerão as consequências.
O que eu pergunto é o seguinte: partiriam o braço rapidamente - tipo, crac, ups, desculpa lá, deixa-me lá ajudar-te com essa tala improvisada - ou arrastariam todo o processo por uns bons oito minutos, aumenando de vez em quando a pressão em ligeiríssimas doses, até que a dor se tornasse cor-de-rosa e verde, quente e fria ao mesmo tempo, e absolutamente insuportável?
Exactamente. É óbvio. O correcto, a única coisa a fazer, seria tratar do assunto o mais rapidamente possível. partir o braço e depois servir o brandy como qualquer bom cidadão. É a única resposta possível.
A não ser que.
A não ser que... A não ser que... A não ser que...
Quer dizer, se odiassem a pessoa a quem pertencesse o braço? Odiassem a sério? 
Isto era algo a ter agora em conta.
Quando digo agora quero dizer naquela altura, o momento que pretendo descrever. Essa fracção de segundo antes do meu pulso ser puxado até à minha nuca e o meu úmero esquerdo se partir em pelo menos duas partes, possivelmente mais, fragilmente unidas entre si.
É que o braço de que estamos a falar é o meu. Não se trata de um braço abstracto, do braço de um filósofo. O osso, a pele, os pêlos, a pequena cicatriz branca no cotovelo, resultado de um aquecedor de uma sala de arrumações da Gateshill Primary School, tudo isso me pertence. E agora é a altura de pôr a hipótese de que o homem atrás de mim, a agarrar-me o pulso e a puxá-lo para junto da minha coluna com requintes de natureza quase sexual, em odeia a sério. Odeia-me mesmo muito a sério. 
Está a demorar imenso."

O Traficante de Armas, de Hugh Laurie, p. 9. Caderno (2007), Tradução de  João Henriques.


Quando um livro começa assim, promete!