Bibliofilia: Amor por livros e por ler. O Bibliófilo ama ler e sente devoção pelos livros, colecciona-os e admira-os.

06/06/2013

The Other Queen

Autora: Phillippa Gregory

Editora: Harper Collins

Nº de páginas: 452

Publicado originalmente: Harper Collins (2008)

Sinopse (da edição portuguesa): Um romance dramático de paixão, política e traição, da autora de Duas Irmãs, Um Rei. Com a sua característica combinação de magnífica narrativa com um contexto histórico autêntico, Philippa Gregory dá vida a esta época de grandes mudanças, numa fascinante história de traição, lealdade, política e paixão.

Maria Stuart, Rainha dos Escoceses, está em prisão domiciliária em casa de Bess de Hardwick, recém-casada com o Conde de Shrewsbury, mas continua a lutar para recuperar o seu reino.

Maria é Rainha da Escócia mas foi forçada a abandonar o seu país e a refugiar-se na Inglaterra, governada pela sua prima Isabel. Nesta época, a Inglaterra é um país com um protestantismo mal alicerçado, pressionado pelo poder da Espanha, da França e de Roma, e a presença de uma carismática governante católica pode ser perigosa. Cecil, o conselheiro-mor da Rainha Isabel, concebe então um plano para que Maria viva enclausurada com a sua cúmplice, Bess de Hardwick. Bess é uma mulher empreendedora, uma sobrevivente perspicaz, recém-casada com o Conde de Shrewsbury (o seu quarto marido). Mas que casamento resiste aos encantos de Maria? Ou à ameaça de rebelião que a acompanha a todo o momento? No seu cativeiro privilegiado, Maria tem de aguardar pelo regresso à Escócia e pelo reencontro com o seu filho. Mas esperar não significa nada fazer!



Opinião: Sempre adorei a parte da história britânica relativa ao período dos Tudor. Tendo já lido alguns livros da Philippa Gregory e gostado bastante, este livro foi uma escolha obrigatória para a minha leitura temática, já que retrata não só um período do reinado da Rainha Elizabeth I, como o ponto de vista de Mary Stuart, Rainha dos Escoceses, que quis ser rainha de Inglaterra. 

Mary é uma rainha sem reino. Coroada em bebé, mas desde então refugiada em França, esta bela rainha encontra oposição no seu próprio reino da Escócia, sendo forçada pelos nobres escoceses a abandonar uma vez mais o seu reino. A Inglaterra protestante de Elizabeth acolhe a sua prima real. Mas à luz de um ambiente religioso e social pouco favorável e temendo a ameaça à segurança do seu trono que representa esta outra rainha, Elizabeth, aconselhada por Cecil, o Conselheiro-Mor, decide submeter a católica Mary Stuart a uma prisão domiciliária por tempo indeterminado. Este livro conta a história do seu encarceramento nas propriedades dos seus aliados Conde de Shrewsbury e esposa Bess de Hardwick, e é narrado por estas três personagens principais, intercaladamente. Mary é uma mulher belíssima e lutadora, uma rainha irresistível, que suporta a antiga fé. Shrewsbury é um nobre de uma das mais antigas e importantes linhagens de Inglaterra, e incapaz de fazer algo contra a sua noção de honra, e sempre leal ao trono de Inglaterra. Bess é uma mulher peculiar para a sua época, independente e empreendedora, que foi subindo em posição financeira e a quem este casamento trouxe a posição social que ambicionava. É pelos olhos destas personagens tão diferentes que vemos o desenrolar desta história.

Estando habituada a ler livros da época Tudor do ponto de vista da própria Elizabeth ou alguém próximo dela na corte, esta nova perspectiva foi uma agradável surpresa, e Philippa Gregory tem o talento de escrever como se as vozes das suas personagens tomassem vida no papel. Se nos livros que li anteriormente me habituei a olhar para esta Mary Stuart como uma vilã, a usurpadora do trono de Elizabeth e perturbadora da paz do reino, desta vez dei por mim a tomar o partido da pobre Mary, desapoiada, sofrida e tão encantadora. À medida que a sua beleza e graça conquistam todos na casa que a aprisiona, também o leitor é conquistado para a sua causa. Mas como o livro nos apresenta não apenas as páginas narradas por Mary, ficamos divididos nas nossas opiniões, enquanto vemos também o reverso da moeda, o carácter manipulador de Mary, e o caos causado pelas rebeliões que surgiram em Inglaterra durante os anos de aprisionamento da rainha dos escoceses. Este sentimento ambivalente surge, aliás, com cada uma das três personagens, e deixou-me sem saber por quem "torcer" afinal. Na belíssima forma como Philippa Gregory orquestra estes três diferentes pontos de vista, vamos vendo tomando forma a história dentro da História. 

Foi uma leitura que me agradou imenso, densa em ricos conteúdos históricos sem deixar de apresentar personagens que me surgem reais e verdadeiras, enquanto leitora. Em que os factos históricos e intrigas da corte se revestiram de emoções reais e convincentes. E no fundo é isto que eu procuro num romance histórico e a razão pela qual, quando são bons, constituem um dos géneros que mais gosto de ler. E esta autora não desiludiu. 

Numa nota ainda mais pessoal, fico particularmente contente por ter lido este livro imediatamente antes de uma visita à Escócia, onde me vi rodeada constantemente de referências, homenagens e monumentos que evocam a história da vida e morte desta rainha. De certo modo afectou a minha experiência de leitura e ajudou a marcar este livro na minha memória de forma especial (e provavelmente afectou a avaliação global da obra). Fez-me pensar que, não tendo sido amada na Escócia em vida, esta trágica Rainha decerto o é depois da morte. 


O melhor: Uma nova perspectiva acerca de uma rainha da qual pouco sabia,além do que representou para Elizabeth.

O pior: A natureza "tri-fásica" da narrativa origina alguns pontos mais repetitivos, quando as várias personagens relatam o mesmo acontecimento.


4/5 - Gostei bastante


05/06/2013

Estante à Quarta (42)


(imagem daqui)

03/06/2013

The Winter Sea

Autora: Susanna Kearsley

Editora: Sourcebooks Landmark (2010)

Nº de páginas: 527

Editado originalmente: Allison & Busby (2008)

Sinopse: History has all but forgotten...

In the spring of 1708, an invading Jacobite fleet of French and Scottish soldiers nearly succeeded in landing the exiled James Stewart in Scotland to reclaim his crown.

Now, Carrie McClelland hopes to turn that story into her next bestselling novel. Settling herself in the shadow of Slains Castle, she creates a heroine named for one of her own ancestors and starts to write.

But when she discovers her novel is more fact than fiction, Carrie wonders if she might be dealing with ancestral memory, making her the only living person who knows the truth-the ultimate betrayal-that happened all those years ago, and that knowledge comes very close to destroying her...





Opinião: Na minha busca por livros passados na Escócia, este The Winter Sea foi redescoberto na minha lista de livros para ler. De uma autora desconhecida para mim, na altura foi adicionado meramente devido a opiniões positivas de algumas pessoas cuja opinião valorizo (ok, e pela capa!), e agora surgiu a ocasião perfeita para a sua leitura. 

Tal como na maioria das minhas leituras actualmente, não sabia quase nada sobre este livro (hábito que cada vez mais tenciono manter). Opiniões positivas e reviews pouco reveladoras bastam-me para decidir ler um livro, e assim conseguir partir para uma obra sem expectativas. Neste caso em particular, como estava à procura de livros sobre a Escócia (naquilo que resultou na minha leitura temática), limitei-me a ler a sinopse muito brevemente e ver os dados de "setting" do Goodreads para me certificar que o livro cumpria os requisitos que procurava. 

Por essa razão fiquei surpreendida quando a história me apresenta Carrie, uma personagem contemporânea, que está a escrever um livro sobre um período da História da Escócia. Essa surpresa depressa deu lugar a satisfação ao ver como a autora constrói a sua história em redor destas duas épocas distintas, ligadas pela História de um pequeno castelo em ruínas na costa da Escócia.

Carrie é escritora de romances históricos, vive em França, em busca de inspiração para o seu livro: a história da falhada invasão Jacobita pela frota francesa em 1708, que tinha como objectivo trazer de volta para o território escocês o príncipe exilado James, para reclamar o seu trono. O bloqueio de escritor de a assola dissipa-se na viagem que faz à Escócia para visitar a sua editora, quando perdida na estrada dá por si nos arredores do Castelo de Slains. Uma inexplicável ligação a este lugar inspira-a a escrever como se a história sempre tivesse estado na sua memória, e só precisasse de ser relembrada. A heroína da sua história, Sophia, é um antepassado escocês da própria Carrie, "emprestada" por ela ao livro que está a escrever, para satisfazer a sua necessidade de uma personagem principal feminina. A narrativa descreve o dia a dia de Carrie, enquanto escreve o seu livro, que é apresentado ao leitor como uma viagem ao passado. 

Passando-se numa fase da História da Escócia acerca da qual sou completamente ignorante, não tenho qualquer base para opinar quanto à veracidade dos factos históricos, mas para mim isso pouco importa neste caso. O que afectou a minha leitura foi sentir que as descrições daquele mundo e daquela época me pareciam credíveis, com personagens reais e diálogos deliciosos, dando-me uma experiência de leitura à altura do que procurava. 

Este livro livro prendeu-me desde o início. Há já algum tempo que não lia com tanto prazer e regressei após algum tempo àquele que é um dos meus géneros favoritos, o romance histórico. E que regresso. Talvez por ter passado demasiado tempo sem ler este género, talvez por se passar na Escócia numa altura em que estou sedenta por qualquer pedaço de história e cultura desse país, talvez pela escrita da autora e os diálogos me conseguirem transportar para uma época que me fascina desde sempre. Seguramente por tudo isto, a verdade é que este livro me encheu as medidas. Foi tudo o que eu desejava ler, e lido na altura certa.

Divido esta história em duas partes que me pareceram distintas inicialmente, mas profundamente ligadas, e os pontos fracos de uma são compensados pela outra. Presente e passado interligam-se não apenas pela localização em comum, mas pelas personagens, pela cultura e pela voz da autora. Gostei bastante da sua escrita e dos diálogos, especialmente nas partes passadas no passado, e se as personagens contemporâneas são interessantes, as medievais são cativantes de uma forma que ficava em suspenso de cada vez que voltava à vida de Carrie e deixava Sophia para trás. 

Apesar do ponto forte da narrativa ser, naturalmente, a história de Sophia, a autora consegue equilibrar bastante bem as duas linhas temporais, intercalando entre uma e outra de forma subtil e inteligente. Mas não se pense que a narrativa de Carrie é desinteressante, pelo contrário, chegando a adquirir um tom autobiográfico (os pontos em comum na história pessoal de Carrie e de Susanna Kearsley são notórios). Além da inclusão do dialecto local derivado do Gaélico, das descrições da pesquisa histórica levada a cabo por um autor de romances históricos e as suas convicções de onde estabelecer a linha entre ficção e História, a autora introduz o tema da genealogia de forma bastante interessante, que me deu imenso gozo ler. E, tal como na linha paralela da história de Sophia, ainda há espaço para algum romance, e para uma adoração pela paisagem da Escócia. Apesar de ter adivinhado parte do final do livro, terminei esta leitura com uma satisfação daquelas que só chegam com os livros que nos tocam de verdade. 

O melhor: As personagens do Castelo de Slains, as descrições das paisagens escocesas, a viagem ao passado. A genealogia. 

O pior: O romance contemporâneo um pouco "morno", especialmente comparando com a história de Sophia. 


5/5 - Excelente!



01/06/2013

Never Let Me Go


Autor: Kazuo Ishiguro

Editora: Faber and Faber

Nº de páginas: 263

Publicado originalmente: Faber and Faber (2005)


Sinopse: In one of the most acclaimed and strange novels of recent years, Kazuo Ishiguro imagines the lives of a group of students growing up in a darkly skewered version of contemporary England. 
Narrated by Kathy, now 31, "Never Let Me Go" hauntingly dramatises her attempts to come to terms with her childhood at the seemingly idyllic Hailsham School, and with the fate that has always awaited her and her closest friends in the wider world. 

A story of love, friendship and memory, "Never Let Me Go" is charged throughout with a sense of the fragility of life.


Opinião: Parti para este livro com algumas expectactivas, apesar de não saber nada sobre o conteúdo. Um livro amplamente aclamado e recomendado por amigos que prometia uma leitura cativante e emotiva. Infelizmente, para mim não representou nenhuma das duas. 

A narradora da história, Kathy, tem 31 anos e trabalha a prestar cuidados a outras pessoas debilitadas fisicamente, os dadores. Kathy descreve a sua vida actual sem explicar quem são as pessoas que cuida nem a razão pela qual precisam de cuidados como dadores. Ao mesmo tempo, fala dos amigos Tommy e Ruth, do tempo de Hailsham, o colégio interno no interior de Inglaterra, onde cresceram. Diria que este livro é a história dessa amizade. Uma amizade profunda e verdadeira, que ultrapassa décadas, separações e provações. 

À medida que Kathy conta ao leitor a sua história e a vida em Hailsham, vai-se percebendo o contexto estranho e misterioso em que estas crianças foram criadas, e que Hailsham não é um colégio normal. Vivem felizes, mas sem contacto com o exterior, nenhuma delas tem uma vaga ideia de como é a vida no exterior de Hailsham, e são educadas para não fazer perguntas. Como qualquer criança, essas questões surgem, mas mesmo sem as compreenderem, cumprem as regras definidas e mantêm a sua integridade física e emocional, tal como são incentivados a fazer pelos tutores.

Apesar da expectativa inicial, desde o início que lutei para me manter interessada neste livro. É daquelas historias que têm tudo de bom na teoria, mas que simplesmente não me cativou. No meio de tanto mistério, ao longo do livro fui lendo, à espera do momento de revelação, o ponto de viragem da leitura, o ponto de maior emoção que me faria finalmente compreender tudo e ter vontade de ler sem parar. Mas antes de chegar esse momento chegou o fim do livro. Fui lendo, e quando dei por mim a história tinha acabado, eu já tinha compreendido todos os mistérios, e mesmo assim a história não me tinha cativado. 

Achei que o autor conseguiu de forma subtil elucidar o leitor da mesma forma que estas crianças foram crescendo. Vivendo as histórias e aventuras do momento entre amigos, e assimilando pouco a pouco pequenas peças de informação que vão sendo reveladas sobre o que é na realidade o contexto desta história, sem sequer se aperceberem que sabem de algo diferente. Simples e naturalmente, passam da ignorância para a aceitação como dado adquirido daquilo que os espera fora de Hailsham. Assim é para o leitor: Começa a história sem saber nada, e quando chega ao fim entende o contexto, mas é como se sempre tivesse sabido, não houve nenhuma "revelação".

Apesar de ter achado a dinâmica das personagens interessante, nunca cheguei a criar empatia com Kathy nem com os seus amigos tão importantes. Ao mesmo tempo, considerei o conceito global do livro, o material que coloca este livro na categoria de "distopia", a parte mais interessante de toda a história, e fiquei frustrada por isso não ser tão explorado como achei que seria, ou como gostaria. 

Agora em perspectiva, vejo que ao construir um tema forte em redor da vida destes três amigos, o autor conseguiu criar uma história feita de emoções humanas, de forma bastante pesada e irónica. Talvez por uma questão de timing e disponibilidade pessoais, infelizmente não consegui captar essas emoções em nenhuma fase da leitura, mas consigo perceber que este livro tenha agradado a tanta gente. Consigo apreciar a obra de forma global, mas simplesmente não resultou para mim. 

O melhor: O conceito distópico.

O pior: Falta de empatia com as personagens e o rumo da história.

3/5 - Gostei. 


30/05/2013

Quando não estou a ler no kindle...

... posso precisar do gimble!




Adapta-se a todos os tamanhos de livros e as peças laterais que seguram as páginas são flexíveis, permitindo passar as páginas com facilidade de um lado para o outro (e sem danificar as páginas), e ao mesmo tempo seguram bem o livro. Além de manter o livro aberto, a parte mais robusta do gimble mantém o livro direito, em pé ou deitado, sem necessidade de o segurar. No fim da leitura, dobra-se e arruma-se facilmente, tão leve que se pode levar na carteira. Como sou preguiçosa, até a ler, comprei o meu ontem, para a minha colecção de acessórios bibliófilos. Já antecipo as leituras na praia e na esplanada, quando se o Verão finalmente chegar. 




Comprei numa livraria, mas podem encontrar online este objecto para bibliófilos. 

18/05/2013

Admirável Mundo Novo

Autor: Aldous Huxley

Tradução: Mário-Henrique Leiria (+)

Título original: Brave New World

Editora: Livros do Brasil (1984)

Nº de páginas: 280

Publicação original: Chatto & Windus (1932)

Sinopse: Publicado em 1932, Admirável Mundo Novo tornar-se-ia um dos mais extraordinários sucessos literários europeus das décadas seguintes. O livro descreve uma sociedade futura em que as pessoas seriam condicionadas em termos genéticos e psicológicos, a fim de se conformarem com as regras sociais dominantes. Tal sociedade dividir-se-ia em castas e desconheceria os conceitos de família e de moral. Contudo, esse mundo quase irrespirável não deixa de gerar os seus anticorpos. Bernard Marx, o protagonista, sente-se descontente com ele, em parte por ser fisicamente diferente dos restantes membros da sua casta. Então, numa espécie de reserva histórica em que algumas pessoas continuam a viver de acordo com valores e regras do passado, Bernard encontra um jovem que irá apresentar à sociedade asséptica do seu tempo, como um exemplo de outra forma de ser e de viver. Sem imaginar sequer os problemas e os conflitos que essa sua decisão provocará. Admirável Mundo Novo é um aviso, um apelo à consciência dos homens. É uma denúncia do perigo que ameaça a humanidade, se a tempo não fechar os ouvidos ao canto da sereia de uma falsa noção de progresso.


Opinião: Admirável Mundo Novo é considerado um clássico moderno e uma obra distópica obrigatória. A acção decorre no futuro distante de 2450, onde séculos de avanços científicos originaram uma sociedade em tudo diferente da que temos hoje em dia. Os seres humanos são "cultivados" em instalações científicas, e total e absolutamente condicionados desde o momento em que são uma célula única, até ao final dos seus dias (final esse obviamente também condicionado por avançadas técnicas anti envelhecimento).

Nesta sociedade, tudo aquilo que é susceptível de criar conflitos ou angústias, mal estar e revolta nos seres humanos foi eliminado. São divididos em categorias, ou castas, em que as características que os distinguem são tão sociais como biológicas. Embriões são manipulados química e geneticamente para apresentarem as características necessárias a cada casta, e as crianças são sujeitas a um condicionamento por mensagens áudio, reproduzidas milhares de vezes durante o sono e que se alojam profundamente nas suas mentes, como verdades inquestionáveis. Necessidades biológicas e sociais essenciais a um ser humano saudável, como sexo e entretenimento inconsequente são encorajadas e disponibilizadas de acordo com as necessidades da casta. Para as categorias superiores, quando apesar de tudo existem sentimentos como ansiedade ou melancolia, basta tomar drogas que dissolvem a consciência e ajudam a voltar a ser leve e feliz.

Não existe sofrimento por amor, porque não existem relações, apenas sexo. Não existe ciúme, porque a poligamia é a regra e a monogamia impensável. Não existem emoções familiares cujos laços possam interferir com o bem estar, porque não há famílias. Não existe religião, mas sim uma veneração a uma metodologia, instalada desde cedo nas mentes das crianças e inquestionável. Não existe sentimento de injustiça social, uma vez que cada indivíduo foi feito para pertencer à sua categoria, e desejar nada mais.

Que razão terá um trabalhador inferior para ser infeliz, se o seu genoma foi manipulado para apresentar características físicas concordantes com as suas funções profissionais, e se no seu crescimento foi interiorizada psicologicamente a noção que tem tudo o que deseja, que é feliz e que bom é ser um trabalhador simples? Como não ser feliz quando se pertence à categoria superior Alfa? O nosso físico ideal se completa com  um intelecto compatível com profissões superiores, e um condicionamento embrionário é mantido ao longo do crescimento, para ser feliz, viver  satisfeito com a vida como Alfa, e não questionar nada?

A História mostrou-nos que o povo se torna perigoso quando se vê infeliz e descontente, e a melhor maneira de controlar as pessoas, é criar um mundo onde todos são felizes. Que melhor maneira de eliminar a rejeição das visões impostas do que eliminar a vontade de rejeitar? O melhor tirano é aquele que não é visto como tal.

Num mundo em que todos são aquilo que nasceram para ser, com castas definidas desde o estado embrionário e condicionadas no seu desenvolvimento para desejarem unicamente aquilo que têm, todos são felizes. A vida é boa, sem descontentamentos, reivindicações sociais, conflitos interpessoais de espécie alguma, nem questões existenciais.

Mas tal como em qualquer linha de montagem bem oleada, alguns indivíduos podem sair defeituosos. O que acontece quando um homem que entende o sistema de condicionamento como ninguém tem uma consciência mais alerta do que os demais da sua casta? Quando sabe que o que pensa é aquilo que lhe foi dito para pensar? O que acontece quando começa a agir de forma diferente e a procurar algo diferente do que aquilo que tem? E como reagiria alguém criado num ambiente como o que conhecemos hoje em dia a uma sociedade perfeita como esta? 

Esta é a premissa deste livro. Arrebatador deste o início, a primeira parte é pura ficção científica (ou ciência), em que nos são descritos os processos de manipulação genética responsáveis pelo estabelecimento desta sociedade. E foi por isso que este livro me impressionou desde o início, não só a questão científica por detrás desta sociedade, mas o conceito que a compõe, sendo claramente futurista, é assustadoramente actual. Como pode este livro ter sido escrito em 1932?!, era a minha questão a cada novo capítulo.

O meu fascínio foi crescendo com a descrição da sociedade e dos seus pormenores, com a introdução de personagens e dos seus pontos de vista. Apercebi-me que este livro foi escrito por alguém com uma profunda compreensão da natureza humana e das suas necessidades físicas e espirituais, e da humanidade e do caminho que trilhamos. Numa altura em que somos bombardeados em informação e influências, este livro fez-me reflectir em quão maleáveis somos enquanto seres humanos. Desde pequenos, no seio das nossas famílias, somos educados para pensar e agir de determinada forma, e enquanto adultos, absorvemos as influências dos outros e dos media. Quantas vezes precisamos de ouvir uma mentira para passarmos a acreditar nela?

Acabei por não sentir empatia por nenhuma das personagens, e cada uma delas me pareceu imprevisível e até irritante na sua perspectiva particular, o que me fez pensar que ou o autor não "explicou" as suas personagens ou eu não as compreendi. Dei por mim a desejar ler mais rápido os devaneios das personagens para voltar ao rumo dos acontecimentos. Não obstante, recomendo sem hesitação esta leitura. 
Um livro impressionante em vários aspectos, mas sobretudo intemporal. 

O melhor: A incrível premissa do livro e quão actual se mantém. A integração dos textos de Shakespeare.

O pior: Pouca ligação e empatia com as personagens.

4/5 - Gostei bastante

17/05/2013

Leitura temática - Escócia medieval

Quem me conhece sabe que tenho um fascínio quase infantil com a época medieval. Há quem tenha um interesse académico, estude e seja especialista no tema (estou a olhar para vocês, Diana e Carla), mas no meu caso é apenas um interesse de quem sempre adorou História, castelos e reis e rainhas. Qualquer livro ou filme com cenário medieval tem à partida interesse, e deliro com feiras medievais e castelos no geral.

Como leitora, isso reflecte-se na eleição dos meus géneros favoritos, aqueles cuja leitura me enche as medidas, mesmo sem os considerar os melhores livros de sempre: Romance histórico e Fantasia (sendo que a esmagadora maioria dos livros destes géneros têm como base a cultura medieval europeia).

Em antecipação a uma viagem à Escócia, enquanto pesquisava os locais de interesse, factos históricos e paisagens, fiquei com vontade de ler um livro cuja acção se passasse por lá, para entrar no ambiente da viagem (Castelos!). Após uma rápida pesquisa por títulos, verifiquei sem surpresas que os livros que me chamaram à atenção foram os romances históricos. Sabe-se lá porquê, passei demasiado tempo sem ler um livro deste género, e decidi imediatamente fazer uma leitura temática sobre a Escócia medieval, não necessariamente histórias passadas na Escócia mas também com personagens escocesas ou envolvendo de alguma forma a História da Escócia. A ideia era ler estes livros antes de ir, mas a lista de livros foi crescendo, transformando o "estágio pré-viagem" numa leitura temática por tempo indefinido.



Não é um desafio, é mais uma forma de me divertir enquanto regresso a este género querido, e talvez convencer mais leitores a fazer o mesmo ou experimentarem-no pela primeira vez. Sugestões são bem vindas!
Assim sendo, aqui fica uma lista de alguns dos livros que encontrei, dos quais provavelmente não vou ler  posso não ler todos, já que tendo em conta que estes livros são todos calhamaços de mais de 500 páginas, posso desenvolver sintomas de overdose. 




The Winter Sea, Susanna Kearsley (lido)

Queen Hereafter, Susan Fraser King (a ler)

The Other Queen, Phillipa Gregory (lido)

White Rose Rebel , Janet Paisley (lido)

The White Mare, Jules Watson

Outlander, by Diana Gabaldon 

On a Highland Shore, Kathleen Givens

The Forgotten Queen, D.L. Bogdan

Blue Bells of Scotland, Laura Vosika 

Mary Queen of Scotland & The Isles, Margaret George

Lady Of The Glen, Jennifer Roberson

Immortal Queen: Mary Queen of Scots, Elizabeth Byrd








Facto engraçado descoberto aquando da minha pesquisa de livros passados na Escócia, e para referência futura: romances entre donzelas e Highlanders musculados de kilt são, por alguma razão, bastante populares.


16/05/2013

Adult Dystopia



A Diana descobriu-o, a Slayra adoptou-o, e eu agora copio-o. Este desafio Adult Dystopia é especial porque a razão que me fez aderir foi o facto de não ter tempo limite. Isso mesmo, para o completar "basta" ler todos os livros da lista. É um incentivo, mas sem a parte da pressão de o concluir (que normalmente é o que me faz ficar sem vontade de ler os livros em questão). 

Distopia. É um género (?) que gosto bastante, e que pode ser bastante versátil (imensos livros diferentes caem nesta categoria), e já que a lista inclui imensos livros que já tenho na minha lista de livros para ler, porque não tentar oficializar a coisa? Ao mesmo tempo fico com imensas sugestões de obras dentro do género.

Eis a lista, e risquei os livros que já li. Quanto à conclusão deste desafio, vemo-nos quando nos virmos!

1. White Horse by Alex Adams
2. Feed by M. T. Anderson
3. The Handmaid’s Tale by Margaret Atwood
4. Oryx and Crake by Margaret Atwood
5. The Year of the Flood by Margaret Atwood
6. The Windup Girl by Paolo Bacigalupi
7. Nod by Adrian Barnes
8. City of Bohane by Kevin Barry
9. Jennifer Government by Max Barry
10. Mountain Man by Keith Blackmore
11. Fahrenheit 451 by Ray Bradbury
12. The Postman by David Brin
13. The Sheep Look Up by David Brin
14. Armageddon’s Children by Terry Brooks
15. The End of This Day’s Business by Katharine Burdekin
16. A Clockwork Orange by Anthony Burgess
17. The Wanting Seed by Anthony Burgess
18. Veracity by Laura Bynum
19. The Death of Grass by John Christopher
20. The Passage by Justin Cronin
21. The Twelve by Justin Cronin
22. Do Androids Dream of Electric Sheep? by Philip K. Dick
23. Shades of Grey by Jasper Fforde
24. Alas Babylon by Pat Frank
25. The Carhullan Army by Sarah Hall
26. The Gone-Away World by Nick Harkaway
27. Into the Forest by June Hegland
28. The Unit by Ninni Holmqvist
29. The Possibility of an Island by Michel Houellebecq
30. Brave New World by Aldous Huxley
31. Never Let Me Go by Kazuo Ishiguro
32. This Dark Earth by John Hornor Jacobs
33. The Children of Men by P. D. James
34. When She Woke by Hillary Jordan
35. The Trial by Franz Kafka
36. In a Perfect World, by Laura Kasischke
37. The Stand by Stephen King
38. Always Coming Home by Ursula LeGuin
39. Lathe of Heaven by Ursula K. LeGuin
40. The First Century After Beatrice by Amin Maalouf
41. I am Legend by Richard Matheson
42. The Road by Cormac McCarthy
43. A Creed for the Third Millennium by Colleen McCollough
44. I Have Waited and You Have Come by Martine McDonagh
45. A Canticle for Leibowitz by Walter M. Miller Jr.
46. Cloud Atlas by David Mitchell
47. V for Vendetta by Alan Moore
48. 1Q84 by Haruki Murakami
49. Bend Sinister by Vladimir Nabokov
50. Sulphuric Acid by Amelie Nothomb
51. 1984 by George Orwell
52. Anthem by Ayn Rand
53. Mistborn by Brandon Sanderson
54. Blindness by Jose Saramago
55. Seeing by Jose Saramago
56. The Diamond Age by Neal Stephenson
57. Earth Abides by George R Stewart
58. Dies the Fire by S. M. Stirling
59. The Domination by S. M. Stirling
60. A Voyage to Kazohinia by Sandor Szathmari
61. Battle Royale by Koushun Takami
62. Far North by Marcel Theroux
63. The Traveler by John Twelve Hawks
64. The Sleeper Awakes by H.G. Wells
65. The Time Machine by H.G. Wells
66. Julian Comstock: A Story of 22nd Century America by Robert Charles Wilson
67. The Book of the New Sun by Gene Wolfe
68. The Crysalids by John Wyndham
69. We by Yvengy Zamyatin
70. Corpus delicti by Juli Zeh

Este desafio foi elaborado pelo blog Uncorked Thoughts.

15/05/2013

Estante à Quarta (41)


(imagem daqui)

14/05/2013

Top Ten Tuesday - 10 Leituras complicadas


Tal como diversos blogs que sigo, também eu resolvi aderir a esta rubrica semanal, Top Ten Tuesday, originalmente publicada no blog The Broke and the Bookish. Todas as terças-feiras é publicado um tema, e blogs por essa internet fora publicam o seu top 10 (ou o máximo que consigam) de livros segundo esse tema. 
Os temas costumam ser bastante interessantes, e apesar de não prometer participar todas as semanas, fica aqui hoje a primeira participação: o meu top 9 (não me consegui lembrar de 10) de leituras desconfortáveis, livros que lidem com temas sérios, difíceis para o leitor, por ordem de leitura.



Diário de Anne Frank, por Anne Frank - Li este livro na adolescência (ainda uma criança, quase), e foi a primeira leitura que me marcou. Fiquei terrivelmente impressionada com a realidade de uma guerra que ouvia falar mas da qual nada sabia e pouco queria saber. A perspectiva da guerra e da perseguição nazi, de uma menina da minha idade, em tantos aspectos tão ignorante acerca da guerra como eu, marcou-me profundamente e apesar de ter adorado o livro, foi uma leitura difícil e devido a ela sempre senti uma atracção para as obras passadas nesta época da História.



Vendidas, Zana Mushen - Tal como o livro anterior, li o Vendidas no início da adolescência e teve em mim um impacto fortíssimo. Conta a história de duas irmãs, residentes no Reino Unido e filhas de pai iemenita e mãe inglesa, que são levadas para o Iémen e vendidas em casamento pelo pai . Por várias vezes quis largar o livro, para não ler mais os horrores e humilhações que Zana e Nadia são submetidas na vida de casadas num país árabe, em lares profundamente retrógrados. O facto do livro ser contado na primeira pessoa por Zana, e de ambas terem crescido numa sociedade ocidental semelhante à minha e terem sofrido o choque cultural terrível, na minha idade, fez com que me marcasse profundamente. Um livro forte, por ser uma história real.



Lolita, Vladimir Nobokov - Este livro podia ser (e é, na verdade), um caso de estudo literário. Ainda hoje não consigo dizer se gostei dele ou não. Em retrospectiva, tudo o que tem de bom é tudo o que me repugna no conteúdo. Gostei das personagens, bem construídas e incrivelmente reais. Gostei da narrativa e do trágico da obra. Mas como é que simpatizamos com Humbert Humbert, um homem que sem hesitação chamaríamos um pervertido? Como é que acreditamos  nos seus devaneios e justificações ao ponto de acreditarmos na sua perspectiva das coisas? Como pensar que Lolita não é tão inocente como qualquer menina de 13 anos? É um livro duplamente desconfortável, primeiro pelo tema que aborda, e depois por fazer o leitor auto-criticar-se por (quase) tomar o partido do adulto abusador.




Trilogia Millenium, Stieg Larsson - Apesar do título, quem começa a ler o primeiro livro da trilogia, Os Homens que Odeiam as Mulheres, não sabe que está a ler uma obra que retrata temas fortes como a violência de género, tráfico de seres humanos, prostituição forçada,  maus tratos, negligência parental e abusos físicos e psicológicos no seio da família, na aparente sofisticada e cristalina sociedade sueca. Apesar do primeiro livro ter como trama central uma situação de corrupção financeira, a fascinante personagem principal, Lisbeth Salander, vê-se envolvida em situações que me deixaram revoltada e horrorizada. As descrições cruas de cenas fortíssimas, do ponto de vista da própria Lisbeth perturbaram-me imenso, como só o tema de violência contra as mulheres me consegue perturbar. Ao longo dos restantes livros da trilogia percebemos que o tema global é a violência contra as mulheres, nas suas mais diversas formas, numa obra cuja escrita foi motivada por um acontecimento real na vida do autor, ao testemunhar uma situação de violência contra uma jovem desconhecida. 


The Help (As Serviçais), Kathryn Stockett - Este livro retrata a realidade da segregação de raça nos anos 60, no estado do Mississipi, Estados Unidos da América. A época de Martin Luther King, e escolas de negros e escolas de brancos e violência de raça a decorrer abertamente. É a história de 3 mulheres, duas criadas negras e uma branca. Os relatos destas personagens fictícias poderiam bem ser reais, no contexto desta fase da história recente dos Estados Unidos, e o desconforto e revolta que senti ao lê-los foi bem real. 



Room (O Quarto de Jack, em português), Emma Donohue - Este livro é contado por um menino de 5 anos, que vive com a mãe num quarto. Toda a sua vida e o seu mundo são aquele quarto fechado, onde nasceu e vai crescendo. É estranha a maneira como a história nos é contada, porque um menino de 5 anos tem um raciocínio e vocabulário lineares. Mas os contornos perturbadores desta história começam a definir-se quando começamos a perceber como e porquê Jack e a mãe vivem neste quarto. 




Pequena Abelha, Chris Cleave - Mais uma vez, um livro que me impressionou e deixou desconfortável pela dose de realidade que representa. Little Bee, uma menina nigeriana, conta na primeira pessoa a emocionante história da sua breve vida, e a maneira marcante como conheceu Sarah, uma inglesa na casa dos 30 anos. Este livro aborda não só o tema da realidade violenta e dificuldades sociais na Nigéria, mas também temas mais profundos como os refugiados no Reino Unido, como as nossas vidas podem mudar para sempre por um acontecimento imprevisível,  auto-sacrifício e até que ponto estamos dispostos a sair do nosso caminho para ajudar alguém.


Habibi, Craig Thompson - A sublime arte presente em cada uma das 672 páginas desta fantástica graphic novel não deixa ignorar o forte tema da segregação feminina na cultura árabe, além da escravatura. A triste história das duas personagens principais que passam  por diversas provações é mais triste ainda por saber que é a história de muitos seres humanos. 




Gone Girl (Em Parte Incerta) - Já falei imeeenso deste livro, e podem ouvir o que eu disse aqui, além da minha opinião. Este livro perturbou-me pela excelente caracterização psicológica das personagens. É assustadora a perspectiva de que pessoas com perturbações mentais retorcidas se cruzam connosco nas nossas vidas, mas é uma perspectiva real, e este livro demonstra-o de forma brilhante. 





08/05/2013

Estante à quarta (40)

Apartamento em Paris.



(detalhes aqui)

06/05/2013

Só Ler Não Basta - Ep. #4.2 - "Leitura Conjunta de Gone Girl"

Como se eu já não tagarelasse o suficiente, a Telma, a Carla e a Diana decidiram convidar-me para tagarelar com elas como convidada do Só Ler Não Basta de Abril. O tema da discussão foi o livro Gone Girl (Em Parte Incerta), da Gillian Flynn, que todas lemos recentemente. Problemas técnicos com o YouTube e os Hangouts do Google deixaram a primeira conversa que tivemos perdida em parte incerta na internet, mas aqui fica a conversa registada. A discussão é toda ela um enorme spoiler, por essa razão recomendada a quem já leu o livro, ou quem adora spoilers

Foi uma experiência atribulada e chegou a ser tecnicamente frustrante, mas adorei esta(s) conversa(s)! 



Para quem preferir ouvir a discussão em áudio, pode seguir este tutorial para transformar o vídeo em ficheiro MP3. 

01/05/2013

Estante à Quarta (39)


(imagem daqui)

29/04/2013

Memoirs of a Geisha


Autor: Arthur Golden

Nº de páginas: 512

Primeira edição: Knopf, 1997

Sinopse: In Memoirs of a Geisha, we enter a world where appearances are paramount; where a girl's virginity is auctioned to the highest bidder; where women are trained to beguile the most powerful men; and where love is scorned as illusion. It is a unique and triumphant work of fiction—at once romantic, erotic, suspenseful—and completely unforgettable.




Opinião: Este é um daqueles livros cuja edição portuguesa tinha na minha estante, literalmente, há anos à espera de vez. Daqueles cuja leitura vamos adiando sem nenhuma razão em particular e que quando finalmente o lemos nos perguntamos como pode o nosso julgamento ser tão fraco, quando se trata de escolher umas leituras em detrimento de outras. 

A própria capa do livro, nas edições posteriores ao filme de 2005, sempre me atraiu na sua simplicidade e beleza, as opiniões no geral eram positivas, e no entanto só recentemente decidi ler este livro.

Memoirs of a Geisha é uma obra de ficção escrita na forma de memórias, contadas na primeira pessoa, de uma mulher que viveu o auge da cultura das Geisha japonesas, e também o seu declínio pós e durante a Segunda Guerra Mundial. Chiyo Sakamoto, a menina de invulgares olhos cinzentos que conhecemos no início do livro, é tão diferente da geisha Sayuri Nitta que narra a história, que quando esta inadvertidamente revela a sua origem humilde algures na história, o deslize é tomado por gracejo. Chiyo e a irmã Satsu são levadas da sua aldeia piscatória natal e os seus caminhos divergem quando Chiyo é vendida a um okiya (casa de residência e formação de geishas) de Gion, um importante distrito de geishas de Kyoto.

Nem sempre o facto da história ser contada na primeira pessoa significa que o leitor crie afinidade com a personagem principal, ou sequer a considere interessante. Neste caso, a história contada por esta narradora cativou-me desde as primeiras páginas, e a ligação à personagem principal e ao seu destino foi imediata. O autor constrói imagens com palavras, usando a voz narrativa de Sayuri, que conquista o leitor desde o início com as suas metáforas simples e inteligentes. As fantásticas descrições do ambiente, cerimónias, danças e costumes japoneses, e particularmente, da cultura geisha transportam-nos de forma brilhante para a história e para este (para mim) estranho e misterioso mundo de mulheres, mas dominado por homens. Fiquei maravilhada com as descrições dos belíssimos kimonos usados por estas mulheres, e fascinada pelos diferentes conceitos de beleza e erotismo retratados neste contexto cultural. Divertiu-me e fez-me reflectir no cruzamento de culturas com os soldados e cidadãos norte-americanos, do ponto de vista da cordial cultura japonesa, no decorrer da guerra. 

Seguimos a vida de Sayuri ao longo do intenso e duro treino para se tornar uma geisha, das particularidades do entretenimento dos homens e da posição relativa das mulheres numa micro-sociedade competitiva. Talvez o melhor elogio que posso fazer é ter dado por mim a pensar que nesta personagem como real e inegável, apesar de saber bem que é fictícia (apesar de baseada numa geisha real). 

Este livro faz parte da lista de 1001 Livros Para ler Antes de Morrer, e foi nessa categoria que entrou no meu Book Bingo, mas recomendo-o a qualquer pessoa, principalmente as que apreciam a cultura japonesa. É de facto uma leitura memorável.


O melhor: As descrições dos kimonos, cerimónias e ambiente em geral. A personagem de Sayuri.

O pior: Um twist um pouco repentino antes do final, sem no entanto prejudicar a conclusão.


4/5 - Gostei bastante

24/04/2013

Estante à Quarta (38)


(imagem daqui)

17/04/2013

Bibliofilia pelo Mundo (VII) - Word on the Water

Word on the Water - Uma Livraria sobre águas


Numa altura de grandes monopólios editoriais e gigantes que controlam a venda de livros, três homens decidiram seguir contra a corrente no negócio de livros. Mais concretamente a corrente dos canais da cidade de Londres.

Word on the Water (Palavra sobre a água) é o nome desta original loja de livros em segunda mão. As suas instalações consistem de uma barcaça holandesa da década de 1920 completamente móvel, que viaja pelos canais de londres, lançando âncora por algumas semanas em diversos bairros e comunidades da cidade antes de seguir viagem novamente. 

(daqui)



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A barca foi remodelada e o equipamento modernizado, mas os proprietários mantêm orgulhosamente uma decoração retro, que adiciona charme e uma aura de romantismo a esta livraria já de si tão fascinante. O seu conteúdo, além do equipamento de navegação, inclui dois gatos - Queenie and Kitty - cadeiras confortáveis para leitura, um fogão a lenha, um amplificador de som no telhado da barca (que serve de palco para actuação de musicais e leituras de obras) e estantes recheadas de livros.







(daqui)
Sendo o espaço a bordo limitado e dando ênfase à declaração de diferença do próprio espaço, a livraria faz questão de conter no seu catálogo uma cuidadosa selecção de "livros de qualidade" e livros que que não se encontrarão numa qualquer livraria normal. Grandes clássicos, autores locais, livros infantis, alguns bestsellers e obras mais alternativas e obscuras encontram-se lado a lado nesta livraria improvável, que procura não apenas vender livros acessíveis em segunda mão (todos os paperbacks a 1-3£), mas também promover a literacia e a cultura na comunidade, de uma forma diferente.


Existem centenas de estabelecimentos comerciais em Londres cujas instalações consistem de barcas que circulam pela cidade, mas esta é o único que se dedica a comercializar livros, fazendo dela a única livraria flutuante da capital, navegando durante todo o ano, com bom ou mau tempo e sempre convidando os clientes a entrar.






                        
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(foto de Rii Schroer)
O francês "The Captain", é o dono do barco e encarrega-se das questões de navegação, enquanto Paddy Screech, "The Doctor" e John Privett "The Professor" tratam do negócio de compra e venda de livros. Juntos, levam a barca-livraria a espalhar cultura e artes, boa disposição, música e, claro, livros, aos diversos ancoradouros dos canais londrinos, no melhor estilo alternativo e boémio. Uma experiência literária diferente para bibliófilos ou meros curiosos.


O blog da livraria está desactualizado, mas para quem for em breve a Londres e quiser saber onde pára por estes dias a Word on the Water, ou simplesmente quiser acompanhar esta livraria especial, pode fazê-lo através do Twitter ou Facebook desta livraria independente.


  

11/04/2013

Bibliofilia #6

Bibliofilia é...


...Depressão pós-livro.






10/04/2013

Estante à Quarta (37)


(imagem daqui)

08/04/2013

The Great Gatsby


Autor: F. Scott Fitzgerald

Editora: Alma Books (2012)

Nº de páginas: 213

Publicado originalmente: Charles Scribner's Sons (1925)

ISBN: 1847492584

Sinopse: Jay Gatsby is the man who has everything. But one thing will always be out of his reach ...
Everybody who is anybody is seen at his glittering parties. Day and night his Long Island mansion buzzes with bright young things drinking, dancing and debating his mysterious character. For Gatsby - young, handsome, fabulously rich - always seems alone in the crowd, watching and waiting, though no one knows what for. 

Beneath the shimmering surface of his life he is hiding a secret: a silent longing that can never be fulfilled. And soon this destructive obsession will force his world to unravel.


Opinião: Muitos leitores se sentem defraudados com este O Grande Gatsby e eu entendo o porquê. Neste livro pouco há de grandioso se olharmos apenas para a forma desta história e a realidade das suas personagens. Não é um page turner cheio de reviravoltas, acontecimentos surpreendes e personagens apaixonantes. É, sim, uma narrativa curta e que consideraria até pouco rica em eventos, com uma primeira parte lenta e altamente descritiva de uma realidade com a qual, nós, leitores europeus do século XXI, não nos identificamos. Com personagens que não compreendemos totalmente e que sugerem pouco mais do que futilidade, dinheiro de berço e vidas privilegiadas. 

No entanto, na minha perspectiva, este livro tem a grandiosidade que o autor lhe procurou dar. Scott F. Fitzgerald decidiu escrever o "ultimate American novel" e o resultado foi O Grande Gatsby. 
A escrita é fantástica, sedutora nas nuances e entoações e ao mesmo tempo forte e desapaixonada, como que atirada ao leitor por quem escreve sem se importar se alguém vai ler. 

A história é-nos trazida pela perspectiva de Nick Carraway, que se muda para a rica Long Island, nos arredores da grande cidade de Nova Iorque. Esta mudança de residência vai permitir-lhe voltar a socializar com os seus amigos Tom e Daisy, uma nova geração de famílias endinheiradas e bem posicionadas socialmente, e que vivem as suas vidas numa frívola nuvem de eventos sociais, viagens e dinheiro. Ao mesmo tempo, a mudança vai também proporcionar a Nick o contacto com Jay Gatsby, o proprietário da maior mansão de Long Island (palco de estrondosas e dispendiosas festas de arromba e o local onde todos querem estar) mas que ninguém parece conhecer. 

A primeira parte do livro, descritiva e lenta em ritmo, transporta o leitor para esse ambiente da sociedade americana corrupta e endinheirada, e prepara-o para a confrontação e o desvendar dos mistérios de Gatsby. 

Fitzgerald traça um retrato de uma sociedade americana da época do pós-guerra, com a crítica do que se reconhece que ela tem de pior, e no entanto se aceita como dado adquirido. Uma sociedade corrupta de valores morais, em que o  "dinheiro antigo" das famílias abastadas se opõe ao "dinheiro novo" dos homens que constroem as suas próprias oportunidades. 

O Grande Gatsby é um retrato preciso e melancólico de uma época. A escrita de Fitzgerald é fabulosa para e o facto de ser um livro curto resulta brilhantemente. Após uma fase altamente descritiva do contexto da acção, um desencadear de acontecimentos em catadupa surge no último terço do livro e traz a narrativa a um final abrupto e até anti-climático. Toda a familiarização inicial com esta sociedade reverte para o final, em que as decisões das personagens determinam os acontecimentos, e são determinadas pelo mundo em que vivem. Juntamente com Nick, a personagem que nos narra a história, procuramos no final encontrar algo que dê sentido a estas personagens e aos seus destinos. Pessoalmente, senti-me tão desalentada e conformada com a maneira como tudo se desenrola, como o próprio Nick.

Um pequeno livro, que li numa belíssima edição que inclui biografia e fotos da vida do autor; um clássico moderno que recomendo e me faz esperar ansiosa pela nova adaptação cinematográfica que deverá estrear este ano. 

O melhor: A escrita, o retrato e a crítica social e o final.

O pior: A pressão de estar a ler aquele que é considerado o melhor clássico americano, sem no entanto estar por dentro da realidade da época nos Estados Unidos, nem da literatura americana em geral.

4/5 - Gostei bastante

03/04/2013

Estante à Quarta (36)

Para os bibliófilos com jeito para bricolage e com livros velhos e desinteressantes guardados.

(Publicado com detalhes aqui)