Bibliofilia: Amor por livros e por ler. O Bibliófilo ama ler e sente devoção pelos livros, colecciona-os e admira-os.

30/01/2013

Estante à Quarta (30)




(Estantes feitas à medida, aqui)

29/01/2013

Um ano de Kindle

Fico sempre surpreendida como as coisas mudam. 

Há uns dias falava com a Célia acerca das nossas primeiras impressões quando foi lançado o primeiro Kindle da Amazon, no longínquo ano de 2007. Já com tecnologia e-ink, este leitor parecia bastante rudimentar e pouco promissor, especialmente para uma mente fechada como a minha. Nessa altura eu era ainda uma fervorosa defensora dos "verdadeiros livros", que nunca seriam ultrapassados pelas versões digitais, em última instância porque eu própria jamais renunciaria aos livros físicos. Jamais! Na ponta da língua tinha o manifesto anti-ebooks:


Porque os equipamentos não são funcionais! 

Porque ler num ecrã é penoso e cansativo!

Porque a bateria do leitor pode acabar a qualquer momento!

Porque gosto de sentir o peso e textura dos livros!

Porque ando sempre com um livro comigo!

Porque nunca vai ser tão fácil aceder a um ebook como ir à estante buscar um livro!

Nunca vai ser a mesma coisa! 

E, alas, e-readers não têm cheiro a livro! Pim!



Em 2010 era lançado o Kindle Keyboard, ou Kindle 3, um equipamento de terceira geração, com tecnologia melhorada. Foi este modelo de Kindle que me interessou pela primeira vez. Sempre convicta na minha fé anti-ebook, permaneci desdenhosa e pouco impressionada (mas ainda assim algo impressionada, contra a minha vontade). Com mais opiniões disponíveis na web, continuava em esforço para resistir à conversão. Quando as opiniões começaram a vir de pessoas próximas que acabaram por adquirir um, a situação tornou-se subitamente séria. 


Quanto mais lia sobre o assunto, mais irritada ficava com a falta de argumentos negativos para poder continuar a odiar ebooks. 

Mas como assim, não cansa os olhos? 

Como assim, o ecrã não reflecte a luz? 

Como assim, não tem comparação com leitura num computador?

Definam "lê-se bem quase como em papel".


Até que, não sei exactamente quando, cedi à tentação e deixei-me seduzir pelo Kindle. Lia as palavras racionais das e-evangelistas Célia e da WhiteLady3, espalhando a e-palavra, e cada dia me convertia mais. A Amazon, tal como revolucionou o negócio de venda de livros, fez o mesmo com a indústria dos e-books. Com uma tecnologia inovadora e uma oferta de livros satisfatória, criou um produto que finalmente vai de encontro às necessidades e exigências do leitor. O e-reader deixava de ser apenas mais um gadget sofisticado, e passava a ser uma verdadeira ferramenta de leitura, para o verdadeiro leitor. 

Em Março de 2011, já convertida, adicionava esta imagem ao blog, simultaneamente uma declaração de rendição e uma sugestão para a minha entidade paternal, que eu sabia que frequentava este espaço. Não teve o efeito pretendido. 



Durante todo o Verão as discussões sobre como o kindle é um amigo do leitor e dos livros estiveram ao rubro, com o anúncio de um novo modelo a ser apresentado perto do fim do ano. Em Setembro foi lançado o Kindle 4. O modelo "low cost" do Kindle, mais pequeno, mais leve, mais barato e com menos funcionalidades mas focado na sua função primária: leitura.


Veio o Halloween, e com ele um piquenique onde a Sofia mostrou o seu novíssimo Kindle 4. Foi amor à primeira vista. Tendo ouvido e lido tudo o que havia na net para ouvir e ler sobre o Kindle, nunca tinha visto um ao vivo. Fiquei maravilhada com a qualidade de um ecrã que "parece mesmo papel" e com o comportamento bizarro da e-ink no ecrã, imitando tinta real. Tentei metê-lo na minha carteira à socapa (fracassei) e desde esse dia o meu twitter feed nunca mais foi o mesmo. 

A hashtag #euqueroumkindle foi a mais popular durante semanas, e eu, qual arauto do Kindle, não me coibia de explicar a quem me quisesse (e não quisesse) ouvir porque é que o Kindle é um objecto de leitura fantástico e de enumerar todas as suas vantagens e desvantagens. Com a mudança de emprego em vista, fazia planos para um primeiro ordenado amazónico.

Mas, conforme referi no primeiro post deste ano, um grupo de pessoas maravilhosas lembrou-se de acabar com as minhas lamúrias diárias no twitter, e juntou-se para me oferecer o tão desejado Kindle 4. Recebi-o precisamente há um ano, um dos melhores presentes que alguma vez recebi, da forma mais improvável e prestes a levar muita gente à loucura, com as minhas recusas em encontrar-me pessoalmente com o meu presente (eu a pensar que estavam a tramar uma qualquer infame manifestação de despedida. Oh meu deus, se eu soubesse! Ah, a ignorância!). O vídeo em que desembrulho o meu presente, que todos os amigos assistiram de vários pontos do país (e no Rio de Janeiro!) já não está disponível online, mas para mim permanece bem presente esse momento na minha memória. Muito mais do que pelo objecto em si, um gesto mais que tocante, numa altura em que tive de deixar todos os meus livros para trás. Acho que nunca vou agradecer o suficiente. 

Já foram publicadas mais do que suficientes opiniões e reviews do Kindle, e por isso não vou fazer uma. A minha opinião relativamente a e-books saiu reforçada com a minha experiência de um ano de Kindle; com o melhor da tecnologia ao meu dispor posso usufruir das vantagens e ao mesmo tempo continuar a adorar livros. Porque esse é o pior erro de quem segue as linhas do meu manifesto anti-ebooks: ler ebooks não significa deixar de ler livros físicos. 

Num ano de kindle li 15 livros completos, e em 4 alternei entre as edições física e digital. Não é um número gigante, mas tendo em conta que li 32 livros no ano passado, é uma proporção interessante.

O primeiro livro que li no meu kindle foi The Help, de Kathryn Stockett, que acabou de se revelar um dos favoritos do ano.

Alguém disse que só as pessoas estúpidas nunca mudam de opinião. Eu mudei ao longo do tempo e o meu manifesto anti-ebooks soa-me agora obsoleto. Ter um kindle não fez de mim menos bibliófila porque...

Os equipamentos não são funcionais! 
Os equipamentos são cada vez mais práticos e funcionais. O Kindle revolucionou o mercado, mas há agora várias marcas de equipamentos tão bons ou melhores, a preços cada vez mais acessíveis.

Ler num ecrã é penoso e cansativo!
A tecnologia de electronic paper é fantástica e a leitura é bastante semelhante à leitura em papel. Não só não cansa os olhos como até leio mais rapidamente no kindle.
A bateria do leitor pode acabar a qualquer momento!
A bateria dura semanas mesmo com utilização diária, mais vezes me aconteceu acabar um livro em plena viagem e não ter mais nada para ler do que ficar sem bateria no kindle (nunca aconteceu).

Gosto de sentir o peso e textura dos livros!
Sim, gosto de sentir o peso e textura dos livros, mas como é útil ler um livro de 800 páginas sem lesionar os pulsos. Como é fantástico andar em transportes públicos sem carregar 1kg literário extra.

Ando sempre com um livro comigo!
Continuo a andar sempre com um livro comigo. Quando não tenho um livro físico, tenho centenas no kindle. Posso acabar um livro e iniciar outro imediatamente. Cansada, posso suspender uma leitura mais pesada por um livro que exija menos atenção. As possibilidades são tantas como a capacidade em disco permite (permite centenas).

Nunca vai ser tão fácil aceder a um ebook como ir à estante buscar um livro!
Muito poucos foram os livros que tive dificuldade em adquirir para o kindle. Porque assim que penso em ler um, está à distância de um clique. 

Nunca vai ser a mesma coisa.
Não vai. Ler um ebook não é o mesmo que ler um livro físico. Vários livros tenho em ambas as edições, e vou continuar a adquirir livros e a suspirar com estantes.

Se o livro digital vai destruir o livro físico, creio que não será no meu tempo. Posso continuar a ler no meu adorado, querido, lindo kindle sem remorsos.  (mas eu também achava que a tecnologias dos e-readers ainda tardaria muitos anos até estar ao nível das exigências dos leitores...)

A minha maior dificuldade é perceber como é que sobrevivi tanto tempo sem ele. 


Alas, e-readers não têm cheiro a livros. Por isso é que continuo a snifar livros.

25/01/2013

Diário de Anne Frank - Livro interactivo




O Diário de Anne Frank foi um dos livros que mais me marcou. Li-o na minha adolescência e ficou sempre como um dos meus favoritos, apesar de nunca ter sentido vontade de o reler. 
Celebra-se agora o 65º aniversário da primeira publicação d'O Diário de Anne Frank, e a Penguin lançou uma aplicação, para Apple e Nook, para trazer o livro à vida e explorá-lo de forma interactiva.



Além do livro completo em texto, podem ouvir-se partes narradas pela Helena Bonham Carter. A versão digital do livro contém diversas ligações para conteúdos extra, tais como clips áudio e vídeo, incluindo um comentário de Miep Gies, uma das pessoas que prestou auxílio a Anne Frank e a sua família. Podemos ver também uma edição facsimile do diário original traduzido para inglês, fotos da família antes da guerra, mapas originais feitos à mão, reproduções e esquemas do quarto e casa onde Anne Frank vivia escondida, etc. Adorei esta iniciativa, que considero uma excelente forma de conhecer ou redescobrir esta obra marcante e aprender um pouco mais sobre esta vertente da Segunda Guerra Mundial. Um pequeno vídeo mostra as potencialidades da aplicação, disponível por £6,99:




24/01/2013

Shadowfell

Autor: Juliet Marillier

Nº de páginas: 410

Editora: Knopf Books (Setembro 2012)



Sinopse: Sixteen-year-old Neryn is alone in the land of Alban, where the oppressive king has ordered anyone with magical strengths captured and brought before him. Eager to hide her own canny skill—a uniquely powerful ability to communicate with the fairy-like Good Folk—Neryn sets out for the legendary Shadowfell, a home and training ground for a secret rebel group determined to overthrow the evil King Keldec. During her dangerous journey, she receives aid from the Good Folk, who tell her she must pass a series of tests in order to recognize her full potential. She also finds help from a handsome young man, Flint, who rescues her from certain death—but whose motives in doing so remain unclear. Neryn struggles to trust her only allies. They both hint that she alone may be the key to Alban’s release from Keldec’s rule.
Homeless, unsure of who to trust, and trapped in an empire determined to crush her, Neryn must make it to Shadowfell not only to save herself, but to save Alban.



Opinião: Não é novidade nenhuma que a Juliet Marillier é uma das minhas autoras favoritas. Apenas divide o pódio com a Anne Bishop, mas a Juliet é a minha autora favorita mais antiga e à qual sou mais fiel (se bem que tem um livro que já foi publicado em português há séculos, que comprei e que ainda não li; não falemos disso, não suporto a vergonha). É-me portanto difícil ser totalmente imparcial ao emitir opinião acerca desta autora. Mas mesmo com toda a minha devoção, é com pena que vejo as pressões editoriais obrigarem-na a apostar em romances Young Adult, um género que não é o meu favorito, nem o seu forte. 

Apesar desta mágoa pessoal, continuo a ler os seus livros Young Adult e a achar que são os melhores YA que alguma vez li. Porque a Juliet é assim: uma contadora de histórias nata, que cria personagens com as quais nos ligamos imediatamente, constrói um universo envolvente e um cenário cativante seja o que for que esteja a escrever, uma mestre com as palavras. 

Não foi por isso uma surpresa quando as primeiras páginas deste livro me fizeram refém, mais uma vez. Tal como comentei algures na altura, ler Juliet Marillier é como regressar a casa. 

Shadowfell é um livro YA, o primeiro de uma trilogia cuja protagonista, Neryn, é uma jovem em dificuldades. Após a perda da família, Neryn vive constantemente em fuga devido à perseguição levada a cabo pelo tirano Rei Keldec a todas as pessoas com dons mágicos. Numa altura em que todo o reino de Alban vive com medo, e ninguém ousa abrir a porta a uma rapariga "especial", Neryn viaja sozinha em direcção ao mítico local Shadowfell. A própria jovem não sabe o que encontrar nesse local, mas memórias desse nome no seio da família e um profundo instinto que a incentiva a continuar dão-lhe força para seguir viagem. Os elementos da Natureza e a influência humana prometem no entanto dificultar-lhe o progresso, mesmo com a ajuda das criaturas mágicas Good Folk, e do misterioso Flint. 

Neryn é uma personagem com a qual senti empatia desde o início, e a personagem do Flint, misteriosa e não totalmente confiável, constitui o cativante protagonista masculino. Quanto ao cenário e às personagens, a fórmula não é novidade alguma, pelo contrário, é típica da autora. Para alguns leitores seria o suficiente para  não ler mais do que os primeiros capítulos e pousar o livro, mas eu fui cativada desde o primeiro momento. Fui recompensada ao longo do livro pelas surpresas no enredo e pelo crescimento das personagens. A história ganha ritmo desde o início e nunca perde momentum, culminando num final surpreendente e, principalmente, abrupto e em aberto. Quando virei a página e vi que não havia mais capítulos fiquei chateada com a Juliet por me deixar assim pendurada, sedenta de mais história (já a perdoei). Até pensei que o livro era minúsculo, até ter confirmado que o número de páginas é "aceitável", assumindo portanto que a leitura é que terá sido demasiado rápida. 

Este não é um livro à altura da literatura para adultos que eu tanto adoro da autora. A história sabe a pouco e os fãs mais exigentes podem não ficar satisfeitos, mas é sem dúvida uma boa maneira de voltar a casa, e eu adorei-o mesmo assim. 


O melhor: A escrita, sempre a escrita da Juliet Marillier.

O pior: O final em aberto

4/5 - Gostei bastante

23/01/2013

Estante à Quarta (29)

Peças de joalharia bibliófila, da Janda JewelryAs minhas peças favoritas são as pulseiras, tão giras!