Bibliofilia: Amor por livros e por ler. O Bibliófilo ama ler e sente devoção pelos livros, colecciona-os e admira-os.

08/04/2011

Marina

Marina, Carlos Ruiz Zafón



Tradução: Maria do Carmo Abreu (+)
Nº de páginas: 260
Editora: Planeta (2010)

Sinopse: «Marina disse-me uma vez que apenas recordamos o que nunca aconteceu. Passaria uma eternidade antes que compreendesse aquelas palavras. Mas mais vale começar pelo princípio, que neste caso é o fim.» «Em Maio de 1980 desapareci do mundo durante uma semana. No espaço de sete dias e sete noites, ninguém soube do meu paradeiro.» «Não sabia então que oceano do tempo mais tarde ou mais cedo nos devolve as recordações que nele enterramos. Quinze anos mais tarde, a memória daquele dia voltou até mim. Vi aquele rapaz a vaguear por entre as brumas da estação de Francia e o nome de Marina tornou-se de novo incandescente como uma ferida fresca. «Todos temos um segredo fechado à chave nas águas-furtadas da alma. Este é o meu.» 



Opinião: Li este livro numa noite. Peguei nele a meio do serão e só o larguei quando o terminei, de madrugada. Se não me tivesse prendido imediatamente pela história, que começa como descrito na sinopse, ter-me-ia rendido apenas à escrita de Zafón. Deste autor já tinha lido o cada vez mais célebre A Sombra do Vento, ao qual fiquei rendida. Sabendo que este Marina foi o primeiro romance do autor, creio ter notado alguma diferença na escrita, mais descontraída e divertida (reflectindo também a personalidade do protagonista, Óscar), menos elaborada, se for esse o termo, mas igualmente descritiva de forma belíssima. 

Óscar é um jovem de 15 anos que mora num internato na cidade de Barcelona. A sua rotina passa por aproveitar a janela de tempo entre o fim das aulas e o jantar para explorar Barcelona, e num desses dias acaba por entrar numa casa aparentemente desabitada, atraído por uma música sublime. Uns dias mais tarde, após uma fuga assustada que precipita um furto inadvertido, Óscar conhece a improvável inquilina desta mansão semi-abandonada, onde vive com o seu pai. Marina. 

Não pude obviamente deixar de identificar alguns pontos em comum com a história de A Sombra do Vento. A fórmula é em muito semelhante: Um jovem rapaz perdido nos mistérios de uma intriga em Barcelona, acompanhado de uma bela jovem. 

Esta história está repleta de mistérios e reviravoltas. Adivinhei todas as revelações antes de acontecerem, mas isso não fez com que tivesse gostado deste livro nem um bocadinho menos. Passo a explicar. Numa certa discussão familiar há uns meses, chegou-se à conclusão que todas as grandes obras literárias (ou uma grande maioria daquelas que nos apaixonam) e/ou cinematográficas, retirados todos os contextos e cenários e deixando apenas o núcleo, evocam o enredo tronco das tragédias gregas ou peças Shakespeareanas. Não foi por não ter sido apanhada de surpresa que deixei de me comover com a forma como esta história foi escrita, e o seu enredo apresentado. 

Este livro foi uma delícia do início ao fim, quer pela mistura de elementos históricos e fantásticos, pela graciosidade da linguagem e até, como piscadela de olho ao romance de terror, uma María Shelley no meio de um mistério que surge com estranhos objectos que ganham vida. E mais não digo. Mesmo no fim, acabei por ser surpreendida pelo rumo que os acontecimentos tomaram e pela forma como a história foi terminada… tal como começou. E já mencionei como adoro a escrita deste autor? Terminei este livro com aquele suspiro de quem termina uma aventura, mas que apreciou cada momento. 

O melhor: A escrita de Zafón. 
O pior: Alguns pontos de contacto com a obra que conheço do autor, e mais uma vez fiquei frustrada por não conhecer Barcelona. 

4/5 – Gostei bastante

07/04/2011

Booking Through Thursday — Visível

Colo­cas os livros que tens (sejam quan­tos forem) à vista, para todo o mundo ver (pelo menos o mundo que entra na tua sala)? Ou mantém-​los escon­di­dos no escri­tó­rio, no quarto, na bibli­o­teca ou nou­tro sítio menos “público”?




Tenho a maioria dos meus livros na sala, e alguns na estante embutida na parede do hall de entrada, portanto qualquer pessoa que entra em casa vê logo esse, e as portas de vidro da sala deixam ver a estante. Não é que os tenha nesses sítios por algum motivo especial: os livros do hall de entrada estão lá porque essa estante não é móvel, e tem a profundidade perfeita para os paperbacks em inglês e livros de bolso em português, por isso estão todos juntinhos por lá. A sala é o local mais natural para ter as estantes (não tenho escritório), e sem dúvida que acho que uma parede cheia de estantes será a decoração mais bonita dessa divisão. 
Tenho outra estante pequena no quarto, que além de servir de móvel de aparelhagem, aparador e mais uma infinidade de coisas, tem um dos cubos com livros técnicos e revistas. Escolhi esses para o quarto não apenas por uma questão de organização, mas porque preferi manter os mais bonitos na sala, onde os posso ver eu própria, mais do que mostrá-los. 

Se bem que me apaixono por divisões forradas de livros, obviamente não é essa a razão pela qual os adquiro. 

Lua de Mel

 Lua de Mel, Banana Yoshimoto



Tradução (do italiano): Sandra Escobar (+)
Nº de páginas: 120
Editora: Cavalo de Ferro (2007)



Sinopse: Manaka e Hiroshi conhecem-se desde pequenos. Cresceram juntos, tornaram-se cúmplices, confidentes e casam-se ainda muito jovens. O seu amor foi construído sobre um passado em comum, mas as suas personalidades são muito diferentes. Manaka é serena e vive o seu jardim de forma profunda e meditativa, enquanto Hiroshi continua assombrado por traumas familiares. Hiroshi sofre a perda do avô e o casal decide então partir numa segunda lua-de-mel para a Austrália, uma viagem que lhes vai reservar surpresas, reencontros inesperados e a forte magia dos pequenos nadas. Banana Yoshimoto envolve o leitor no romance de dois jovens cujo amor e inocência vai chocar com as mais torpes manifestações do género humano. 






Opinião: Confesso que comprei este livro apenas por 3 razões, nenhuma relacionada com o conteúdo. Primeiro, pela capa. Ou melhor, pelas capas. Tentei fotografar de forma a mostrar como a edição cuidada deste livro é deliciosa (como tenho reparado que é a maioria das edições da Cavalo de Ferro. Porque nunca reparei nesta editora antes?!). A sobrecapa em forma de “caixa” sobre a capa vermelha faz uma montagem engraçada, o que me chamou à atenção para o livro e para o nome da autora. Nunca tinha lido um autor japonês, mas há muito que queria e isso levou-me a analisar o 3º motivo: o preço. Por 2€ (isso mesmo! Comprei na mesma ocasião d’O Reino de Glome) não hesitei em experimentar. 


Este pequeno livro conta a história de dois jovens, Manaka e Hiroshi, que se conhecem desde que se lembram. Passam juntos pela infância e pela adolescência, e da amizade e convivência vai nascendo um amor inocente e sereno. Observamos o ponto de vista de Manaka (que para os leigos ocidentais esclareço que é a rapariga), cuja personalidade serena é muito diferente do inseguro e traumatizado Hiroshi, que tem dificuldade em compreender. Essa incompreensão e questões que Manaka coloca a si própria passam para o leitor. 

Não me senti muito cativada pelas personagens e a sua relação, mas fui sendo seduzida pela escrita simples, mas fluída e de certa forma espiritual da escritora, que creio ser também devida à sua cultura. A história destas duas personagens é feita de dúvidas e desencontros emocionais, é acerca de enfrentarmos os nossos medos e evoca também a enraizada convicção japonesa de sermos melhores para dessa forma sermos melhores para os outros. 

Apesar de não me ter conquistado completamente, gostei, e vou seguramente ler mais livros da autora. 


O melhor: A escrita e o retrato de parte da cultura japonesa 

O pior: Só ter reparado no fim da leitura no glossário de termos japoneses, que teria gostado de ter visto ao longo da leitura 

3/5 - Gostei

06/04/2011

Estante à Quarta (5)

Alguém falou em aproveitar o espaço?
Que cantinho adorável.

03/04/2011

The Northern Lights

The Northern Lights, Philip Pullman
Editora: BBC Audiobooks (2002)
Narrador: Philip Pullman


Sinopse: In a landmark epic of fantasy and storytelling, Philip Pullman invites readers into a world as convincing and thoroughly realized as Narnia, Earthsea, or Redwall. Here lives an orphaned ward named Lyra Belacqua, whose carefree life among the scholars at Oxford's Jordan College is shattered by the arrival of two powerful visitors. First, her fearsome uncle, Lord Asriel, appears with evidence of mystery and danger in the far North, including photographs of a mysterious celestial phenomenon called Dust and the dim outline of a city suspended in the Aurora Borealis that he suspects is part of an alternate universe. He leaves Lyra in the care of Mrs. Coulter, an enigmatic scholar and explorer who offers to give Lyra the attention her uncle has long refused her. In this multilayered narrative, however, nothing is as it seems. Lyra sets out for the top of the world in search of her kidnapped playmate, Roger, bearing a rare truth-telling instrument, the compass of the title. All around her children are disappearing, victims of so-called "Gobblers", and being used as subjects in terrible experiments that separate humans from their daemons, creatures that reflect each person's inner being. And somehow, both Lord Asriel and Mrs. Coulter are involved.

Opinião: Este foi o primeiro livro que ouvi (não considerando uma colecção Disney que ouvia em criança acompanhada dos livros), e como tal esta opinião do livro é indissociável da minha opinião do audiobook por si só. A verdade é que já tinha lido este livro em 2008, mas nunca li os restantes dois livros da trilogia dos Mundos Paralelos (His Dark Materials, no original). Já andava com vontade de ler o resto da trilogia, mas tendo passado tanto tempo desde a leitura do primeiro, fui adiando. Quando decidi que ia experimentar ouvir audiobooks, decidi também que iria começar por um livro que já tivesse lido, e portanto ao escolher este livro foi uma matança de dois coelhos de uma cajadada só. Não só experimentei um audio-livro, como relembrei o primeiro livro da trilogia. 

Já tinha gostado bastante do livro na minha primeira leitura, há 3 anos. Não o considerei um livro para crianças, apesar da história nos ser contada do ponto de vista de uma. Lyra Belacqua é uma criança activa e irreverente, a crescer no seio da Universidade de Oxford (principalmente os telhados, as caves e outros locais proibidos), numa Inglaterra em muito igual à que conhecemos, mas em tudo o resto bastante diferente.  
Gostei bastante do conceito de "daemon" (creio que traduziram para "génio", em português) e de todo o significado profundo da ligação entre cada humano e o seu. Este livro tem todos os elementos de um verdadeiro livro de fantasia.  Entre o povo do rio (cultura em parte semelhante à cigana), estudiosos e teólogos, instrumentos misteriosos, clãs de bruxas em guerra, aeronautas em balão e fabulosos ursos armados. A intriga desenvolve-se em redor da entidade religiosa Magisterium, os estudos divergentes relacionados com a Poeira (Dust no original), reflexões filosóficas e crianças desaparecidas. Todas as aventuras da pequena Lyra, desde a Inglaterra steampunk à gelada e inóspita região do Norte, nos prendem do início ao fim, bem como os mistérios, as personagens enigmáticas e o terrível destino que se adivinha.

Se já tinha gostado de ler o livro, adorei ouvi-lo. Esta edição da BBC é narrada pelo próprio Philip Pullman, e as vozes das personagens pertencem a um pequeno elenco. Adorei o dinamismo do narrador, que conta a história ao ritmo da verdadeira acção e verbaliza o estado de espírito de Lyra mesmo fora dos diálogos.  Adorei a perfeita interpretação das personagens, que diferem nos sotaques e maneirismos próprios das personagens, e exploram os seus estados de espírito. 
Resumindo, não só fiquei cheia de vontade de continuar a ler a trilogia, como adorei esta experiência com os audiobooks, e continuarei a ouvi-los. É óptimo estar a aproveitar o tempo em que não podemos estar a ler, mas podemos ouvir. 


O melhor: O conceito de Daemon e a narração.
O pior: Algumas personagens surgem repentinamente a apenas com um propósito, perdendo alguma da ligação com a história.

4/5 - Gostei bastante