Bibliofilia: Amor por livros e por ler. O Bibliófilo ama ler e sente devoção pelos livros, colecciona-os e admira-os.

25/02/2011

Alex 9 - A Guardiã da Espada



Alex 9 - A Guardiã da Espada, Martin S. Braun
Colecção: TEEN
Nº de páginas: 256
Editora: Saída de Emergência



Sinopse: A caminho da frente de batalha contra os invasores, o Príncipe Dael de Brodom descansava com a sua guarda junto às margens de um lago quando um estranho fenómeno aconteceu: uma estrela despenha se no lago, e das águas emerge uma mulher quase nua que cai inconsciente nos seus braços. Será este o sinal de que uma antiga profecia se está a realizar? Sem saber porquê, a Tenente Coronel Alex 9, da 3ª Unidade de Comandos de Elite, é projectada para um planeta muito parecido com a Terra, onde uma guerra entre impérios medievais se está a travar. Aparentemente, a chegada de Alex à Segunda Terra despoletou uma miríade de consequências políticas que estão ainda longe de fazer sentido. Ao longo deste volume, repleto de batalhas com espadas e armas magnéticas, as linhas de trama começam a cruzar se e descobrimos um conflito que se prepara há séculos. Mas onde levará?

Opinião: Não sei o que dizer em relação a este livro. Não há qualquer indecisão quanto a um ponto: gostei muito desta leitura! Há algum tempo que não me surgia uma leitura escrita verdadeiramente em fantasia. Mas por outro lado não consegui deixar de considerar alguns pontos que teriam beneficiado de um amadurecimento da escrita do autor. Martin S. Braun apresenta-nos uma mistura de diversas culturas, universos e mesmo contextos temporais, que me deliciou na originalidade. Não tanto dos elementos separadamente (mas também) mas principalmente pela maneira graciosa como foram interligados.

Temos essencialmente duas realidades principais que se misturam logo nas primeiras páginas. De um lado temos o elemento clássico da fantasia: uma terra medieval, com territórios rivais e governantes reais, o fascínio e temor pela magia e pelo inexplicável, as personagens fortes e cativantes que lideram batalhas ou lideram nos caminhos mais discretos da intriga. Do outro lado temos uma realidade futurista, num cenário de expansão da civilização humana pelos planetas do nosso sistema solar. E como é próprio da natureza humana, tal como no contexto medieval, também no contexto do futuro espacial os homens de guerreiam por recursos e poder. A unir estes dois elementos temos Alex 9, uma guerreira de armas laser e plasma e exímia em artes marciais. Por algum truque do destino, a rota da nave onde viaja, para fugir da batalha em Marte no fim da sua missão, é radicalmente alterada e a programação da sua cápsula de hibernação é alterada. Alex acorda de uma sesta de 200 anos, ao aterrar num planeta de outro sistema, mas em tudo semelhante à Terra, com habitantes em tudo semelhantes aos seres humanos que conhece. A aventura começa e Alex começa a descobrir que talvez tenha uma missão em tudo diferente das que sempre teve. Entrelaçadas nestas duas tapeçarias distintas encontramos também a cultura oriental e também uma pitada de cultura árabe, de uma forma que me encantou.

Se adorei o conceito deste livro e a generalidade da escrita do autor, existiram alguns elementos que me custaram a digerir, principalmente algumas características mais jovens da escrita e o ritmo acelerado da história. Se por um lado me deixou cheia de vontade de continuar a ler, por outro sentia que sempre que estava a cativar-me o ponto de vista de uma personagem, terminava o capítulo e surgia a visão de outra. Penso que não tive em mente que este é um livro direccionado para público mais jovem, e isso me impediu um pouco de aproveitar a leitura. A verdade é que não conseguia deixar de pensar que o autor tem potencialidades para escrever uma grande obra de fantasia, e isso me cegou um pouco para o óptimo livro que estava a ler, dentro do seu género. Não leio muitos livros para jovens adultos, mas penso que o que na maioria dos casos esses livros carecem de maturidade sob a forma do universo em que se passam (em regra pouco elaborado e não muito extenso) e das personagens jovens e imaturas. Neste caso, penso que Alex 9 tem um contexto muito mais próximo de High Fantasy do que de Young Adults, bem como as excelentes personagens que foram criadas, mas que no entanto é apresentado com alguns elementos de escrita mais leve e juvenil. Daí achar que o este autor tem inequivocamente potencial para muito mais (não desprestigiando o género juvenil). Uma nota muito especial para as descrições de momentos de acção e batalha, que achei bastante precisos, plenos de movimento, e no fundo um ponto forte do livro (apesar de na minha opinião pessoal achar que uma edição mais pesada na escrita propriamente dita teria sido vantajosa).

Penso que este primeiro volume peca por demasiado introdutório, isto é, introduz muitas pistas e desafios para o leitor, sem chegar a desenvolver nenhuma linha em particular e sem oferecer respostas. O resultado foi uma leitora muito sedenta de informação e muito frustrada quando chegou ao fim do último capítulo!  Mas ao mesmo tempo já rendida às personagens e aos mistérios que se adensam. Fiquei imediatamente comprometida moral e existencialmente a ler o segundo volume assim que tiver oportunidade. É um livro que recomendo, e que foi sem dúvida uma surpresa, uma vez que parti para a sua leitura com um espírito muito céptico. A escrita de Martin S. Braun destruiu as minhas ilusões logo nas primeiras páginas.

O melhor: A graciosidade com que foram incluídas tantas vertentes culturais distintas, enriquecendo a história.
O pior: Sem dúvida o cariz mais jovem da escrita, em alguns pontos.

4/5 – Gostei bastante

Bang! 9

A Bang! 9 está já disponível nas Fnacs em todo o país, e em encomendas pelo site da Saída de Emergência. 

Graficamente a revista mantém e ainda supera o nível da edição 8, e certamente que o mesmo acontecerá com o conteúdo. Estou desejosa de lhe pôr as mãos em cima. Aqui fica a capa da revista, excelente por sinal!


A apresentação oficial deste número da revista trimestral do Fantástico vai decorrer às 21.30 de dia 4 de Março, na Fnac Colombo, em Lisboa. Caso tenham oportunidade, não deixem de dar um saltinho.
Os conteúdos prometem e esta edição dá algum destaque à comunidade blogger de amantes e leitores de livros. Além de um artigo que refere a importância crescente das críticas online (referenciado pelo Tiago aqui), a Bang! reservou um espaço de opiniões de alguns bloggers (incluindo esta Bibliófila). É a não perder, meus caros! :)  E relembro que é totalmente gratuita. Não há desculpas. 

24/02/2011

Booking Through Thursday — Algo novo, algo velho

Não havendo diferenças significativas - preferes livros usados? Ou livros novos? (refiro-me ao volume em si, não à antiguidade do título). A tua preferência faz-te notar as diferenças entre um livro usado normal e um exemplar novinho em folha, com capa em couro?


Quando se tratam de livros especiais e quando tenho condições para isso, gosto de comprar as edições mais “pomposas”, mas é muito raro. Por outro lado, tenho imensos livros que comprei em segunda mão. Na verdade, muitos foram comprados em alfarrabistas, e portanto nem tenho ideia quantas mãos por eles passaram. Obviamente quando o preço é semelhante entre exemplares novos e usados de edições equivalentes, opto pelos livros novos, mas quando se trata de livros semelhantes, não me incomoda adquirir um usado. Tenho adquirido o hábito de comprar livros de publicação recente em alfarrabistas por mesmo por leilão ou compra directa pela net. Penso que será o efeito da crise: muita gente deve comprar os livros para ler e rapidamente procura recuperar parte do dinheiro, eu procuro pagar menos por um livro recente e em bom estado. Não me incomoda minimamente que já tenha tido outro novo, desde que este o tenha tratado bem.
Frequento também alfarrabistas para encontrar aqueles livros que dificilmente encontro em livrarias, e confesso que adoro livros antigos. Só o cheiro ambiente entrar num alfarrabista me fascina e me faz demorar. Portanto não tenho preferência, e até gosto de comprar livros usados, mas desde que estejam em condições. Apesar de adorar livros antigos e bastante usados, dificilmente compro um que se esteja a desfazer, a não ser que seja o único que consigo encontrar! Já me aconteceu comprar um exemplar do Exodus, de Leon Uris, que procurei durante imenso tempo, e que estava um pouco (bastante) maltratado. Não me podia dar ao luxo de o rejeitar :)

22/02/2011

Déjà Lu, por uma boa causa

Venho partilhar convosco um blog que descobri recentemente.
É o Déjà Lu.
Trata-se um blog de leilões de livros já lidos e cedidos ao blog, revertendo o resultado dos leilões a favor da APPT21 (Associação Portuguesa de Portadores de Trissomia 21) e para o Centro de Desenvolvimento Infantil DIFERENÇAS.
Todos nós gostamos de adquirir livros a bom preço e em bom estado. Melhor ainda quando isso constitui uma contribuição importante. E tem bons livros! O último leilão a ter sido postado tem 2 livros que li e gostei muito, A Imperatriz Orquídea e o primeiro livro da Saga dos Otori. Dêem uma vista de olhos, vale a pena.

21/02/2011

Verdade ou Consequência? A Casa das Sete Mulheres

Depois da Célia do Estante de Livros, desta vez fui eu a desafiada a escolher “Verdade ou Consequência”, a rubrica mensal do Este meu cantinho... . Escolhi "Consequência", ficando assim “intimada” a ler um livro e escrever a minha opinião. A WhiteLady sugeriu-me o tema História, e como tenho na minha pilha muitos romances históricos o difícil foi escolher! O recém-adquirido (mas desejado há muito) A Casa das Sete Mulheres, de Leticia Wierzchowski, foi o escolhido.


Este livro retrata um período da História do Brasil que ficou conhecida como a Revolução Farroupilha, de uma perspectiva muito feminina. O descontentamento dos fazendeiros do Rio Grande do Sul, província do Império do Brasil, relativamente ao preço da carne e à escravatura negra, desencadeia uma revolta militar liderada pelo General Bento Gonçalves da Silva e com o apoio de outros militares, com o objectivo a deposição do Governador. Essa revolta evoluiu para uma Revolução anti-império, e através de uma série de acontecimentos e batalhas é proclamada a República do Rio Grande do Sul. Uma guerra entre Republicanos e Imperiais instala-se e parece não ter fim, que ficou conhecida como Revolução Farroupilha.

A Casa das Sete Mulheres é um romance que foi adaptado à televisão sob a forma de uma série de TV da Rede Globo. Quando vi a “novela”, em 2003, adorei e passei os 52 episódios agarrada a esta história de mulheres fortes e homens garbosos. Desde essa altura que tencionava ler o livro, mas a verdade é que nunca o vi à venda. Mais recentemente, nos últimos anos, procurei deliberadamente comprar uma cópia, mas não consegui encontrá-lo em lado nenhum. Tive imensa sorte em encontrá-lo no WinkinBooks, apesar de até o ler não saber bem quanta.
A verdade é que adorei este livro. A narrativa é deslumbrante e as personagens são magistralmente construídas. O ritmo da narrativa é por vezes errático, com avanços e recuos, pontos de vista da guerra e notícias que chegam de boca em boca, e cartas que são lidas antes dos acontecimentos que descrevem nos serem contados. A narração do ponto de vista de várias personagens é intercalada com os cadernos de Manuela, a protagonista e eterna Noiva de Garibaldi, que por sua vez tanto se referem ao tempo passado na estância como têm lugar décadas depois da guerra.
A escrita de Letícia Wierzchowski é deliciosamente descritiva. Quando lemos as linhas que enquadram a vida na estância quase que sentimos o vento minuano a soprar, os cheiros das plantas e o tom amarelo da paisagem. Quando nos é permitido visitar o cenário da guerra, as descrições são detalhadas e precisas, mas sempre incrivelmente bem escritas, numa prosa quase poética.
Sendo uma fan dos romances históricos, adoro a concretização do perfeito compromisso entre verdade histórica e o romance e a ficção. Este livro trouxe-me isso mesmo.
Além de um entretenimento viciante e ser praticamente uma “degustação” da linguagem, é também uma boa dose de História, que adorei experienciar.
Dei por mim a pesquisar na net mais informação sobre esta época da História brasileira, de tal forma a escrita me cativou para este tema. Além de ficar com uma noção bastante precisa do que significou este período da História do Brasil, e de me ter apaixonado pelas personalidades que lhe deram forma, senti-me conquistada pela riqueza da Língua Portuguesa. Neste livro deparei-me com imensas expressões regionais do Rio Grande do Sul, algumas usadas ainda hoje, que no português de Portugal são consideradas arcaicas. Deliciei-me com esta linguagem, e de facto o português é uma língua tão rica que é uma pena que algumas palavras deixem ter utilização corrente por cá.

A história começa com o convergir das personagens nos campos que vão constituir a duas frentes do rumo dos acontecimentos: enquanto os homens da família de Bento Gonçalves, o líder da Revolução Farroupilha, se reúnem para a guerra que se aproxima, as mulheres viajam das suas casas na cidade para se refugiarem da guerra na Estância da Barra, propriedade de D. Ana Joaquina, irmã de Bento Gonçalves. Com D. Ana viajam a irmã mais nova, D. Maria Manuela, e as suas três jovens filhas, Rosário, Mariana e Manuela. Juntamente com a cunhada D. Caetana, esposa de Bento, a filha mais velha, Perpétua e os 4 filhos crianças. Estas são as 7 mulheres que vão passar os anos da guerra numa estância no pampa gaúcho (juntamente com D. Antônia, irmã mais velha de Bento, Ana e Maria, proprietária da Estância do Brejo, a poucos minutos a cavalo da Estância da Barra). A história termina com o final da guerra, que se arrastou por 10 longos anos. Dez anos repletos de tristezas próprias da guerra, algumas alegrias, e principalmente acontecimentos que mudaram de forma irrevogável as vidas destas mulheres e da sua família.
O destino desta família é o reflexo do que aconteceu no Rio Grande nestes dez anos, uma região que não voltou a ser a mesma, tal como as pessoas que viveram esta guerra. O que aconteceu nestes dez anos, terão de descobrir por vós próprios. É um livro que recomendo sem reservas.

Uma nota final para referir que descobri no final da leitura que existe uma continuação publicada. Um Farol no Pampa é a continuação escrita por Letícia Wierzchowski, que infelizmente não está publicada em Portugal, mas que quero muito ler (e penso que será quase impossível encontrar A Casa das Sete Mulheres à venda nas livrarias, por isso não espero uma edição portuguesa). Estou a pensar mandar vir pela Wook a versão brasileira.