Bibliofilia: Amor por livros e por ler. O Bibliófilo ama ler e sente devoção pelos livros, colecciona-os e admira-os.
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29/01/2013

Um ano de Kindle

Fico sempre surpreendida como as coisas mudam. 

Há uns dias falava com a Célia acerca das nossas primeiras impressões quando foi lançado o primeiro Kindle da Amazon, no longínquo ano de 2007. Já com tecnologia e-ink, este leitor parecia bastante rudimentar e pouco promissor, especialmente para uma mente fechada como a minha. Nessa altura eu era ainda uma fervorosa defensora dos "verdadeiros livros", que nunca seriam ultrapassados pelas versões digitais, em última instância porque eu própria jamais renunciaria aos livros físicos. Jamais! Na ponta da língua tinha o manifesto anti-ebooks:


Porque os equipamentos não são funcionais! 

Porque ler num ecrã é penoso e cansativo!

Porque a bateria do leitor pode acabar a qualquer momento!

Porque gosto de sentir o peso e textura dos livros!

Porque ando sempre com um livro comigo!

Porque nunca vai ser tão fácil aceder a um ebook como ir à estante buscar um livro!

Nunca vai ser a mesma coisa! 

E, alas, e-readers não têm cheiro a livro! Pim!



Em 2010 era lançado o Kindle Keyboard, ou Kindle 3, um equipamento de terceira geração, com tecnologia melhorada. Foi este modelo de Kindle que me interessou pela primeira vez. Sempre convicta na minha fé anti-ebook, permaneci desdenhosa e pouco impressionada (mas ainda assim algo impressionada, contra a minha vontade). Com mais opiniões disponíveis na web, continuava em esforço para resistir à conversão. Quando as opiniões começaram a vir de pessoas próximas que acabaram por adquirir um, a situação tornou-se subitamente séria. 


Quanto mais lia sobre o assunto, mais irritada ficava com a falta de argumentos negativos para poder continuar a odiar ebooks. 

Mas como assim, não cansa os olhos? 

Como assim, o ecrã não reflecte a luz? 

Como assim, não tem comparação com leitura num computador?

Definam "lê-se bem quase como em papel".


Até que, não sei exactamente quando, cedi à tentação e deixei-me seduzir pelo Kindle. Lia as palavras racionais das e-evangelistas Célia e da WhiteLady3, espalhando a e-palavra, e cada dia me convertia mais. A Amazon, tal como revolucionou o negócio de venda de livros, fez o mesmo com a indústria dos e-books. Com uma tecnologia inovadora e uma oferta de livros satisfatória, criou um produto que finalmente vai de encontro às necessidades e exigências do leitor. O e-reader deixava de ser apenas mais um gadget sofisticado, e passava a ser uma verdadeira ferramenta de leitura, para o verdadeiro leitor. 

Em Março de 2011, já convertida, adicionava esta imagem ao blog, simultaneamente uma declaração de rendição e uma sugestão para a minha entidade paternal, que eu sabia que frequentava este espaço. Não teve o efeito pretendido. 



Durante todo o Verão as discussões sobre como o kindle é um amigo do leitor e dos livros estiveram ao rubro, com o anúncio de um novo modelo a ser apresentado perto do fim do ano. Em Setembro foi lançado o Kindle 4. O modelo "low cost" do Kindle, mais pequeno, mais leve, mais barato e com menos funcionalidades mas focado na sua função primária: leitura.


Veio o Halloween, e com ele um piquenique onde a Sofia mostrou o seu novíssimo Kindle 4. Foi amor à primeira vista. Tendo ouvido e lido tudo o que havia na net para ouvir e ler sobre o Kindle, nunca tinha visto um ao vivo. Fiquei maravilhada com a qualidade de um ecrã que "parece mesmo papel" e com o comportamento bizarro da e-ink no ecrã, imitando tinta real. Tentei metê-lo na minha carteira à socapa (fracassei) e desde esse dia o meu twitter feed nunca mais foi o mesmo. 

A hashtag #euqueroumkindle foi a mais popular durante semanas, e eu, qual arauto do Kindle, não me coibia de explicar a quem me quisesse (e não quisesse) ouvir porque é que o Kindle é um objecto de leitura fantástico e de enumerar todas as suas vantagens e desvantagens. Com a mudança de emprego em vista, fazia planos para um primeiro ordenado amazónico.

Mas, conforme referi no primeiro post deste ano, um grupo de pessoas maravilhosas lembrou-se de acabar com as minhas lamúrias diárias no twitter, e juntou-se para me oferecer o tão desejado Kindle 4. Recebi-o precisamente há um ano, um dos melhores presentes que alguma vez recebi, da forma mais improvável e prestes a levar muita gente à loucura, com as minhas recusas em encontrar-me pessoalmente com o meu presente (eu a pensar que estavam a tramar uma qualquer infame manifestação de despedida. Oh meu deus, se eu soubesse! Ah, a ignorância!). O vídeo em que desembrulho o meu presente, que todos os amigos assistiram de vários pontos do país (e no Rio de Janeiro!) já não está disponível online, mas para mim permanece bem presente esse momento na minha memória. Muito mais do que pelo objecto em si, um gesto mais que tocante, numa altura em que tive de deixar todos os meus livros para trás. Acho que nunca vou agradecer o suficiente. 

Já foram publicadas mais do que suficientes opiniões e reviews do Kindle, e por isso não vou fazer uma. A minha opinião relativamente a e-books saiu reforçada com a minha experiência de um ano de Kindle; com o melhor da tecnologia ao meu dispor posso usufruir das vantagens e ao mesmo tempo continuar a adorar livros. Porque esse é o pior erro de quem segue as linhas do meu manifesto anti-ebooks: ler ebooks não significa deixar de ler livros físicos. 

Num ano de kindle li 15 livros completos, e em 4 alternei entre as edições física e digital. Não é um número gigante, mas tendo em conta que li 32 livros no ano passado, é uma proporção interessante.

O primeiro livro que li no meu kindle foi The Help, de Kathryn Stockett, que acabou de se revelar um dos favoritos do ano.

Alguém disse que só as pessoas estúpidas nunca mudam de opinião. Eu mudei ao longo do tempo e o meu manifesto anti-ebooks soa-me agora obsoleto. Ter um kindle não fez de mim menos bibliófila porque...

Os equipamentos não são funcionais! 
Os equipamentos são cada vez mais práticos e funcionais. O Kindle revolucionou o mercado, mas há agora várias marcas de equipamentos tão bons ou melhores, a preços cada vez mais acessíveis.

Ler num ecrã é penoso e cansativo!
A tecnologia de electronic paper é fantástica e a leitura é bastante semelhante à leitura em papel. Não só não cansa os olhos como até leio mais rapidamente no kindle.
A bateria do leitor pode acabar a qualquer momento!
A bateria dura semanas mesmo com utilização diária, mais vezes me aconteceu acabar um livro em plena viagem e não ter mais nada para ler do que ficar sem bateria no kindle (nunca aconteceu).

Gosto de sentir o peso e textura dos livros!
Sim, gosto de sentir o peso e textura dos livros, mas como é útil ler um livro de 800 páginas sem lesionar os pulsos. Como é fantástico andar em transportes públicos sem carregar 1kg literário extra.

Ando sempre com um livro comigo!
Continuo a andar sempre com um livro comigo. Quando não tenho um livro físico, tenho centenas no kindle. Posso acabar um livro e iniciar outro imediatamente. Cansada, posso suspender uma leitura mais pesada por um livro que exija menos atenção. As possibilidades são tantas como a capacidade em disco permite (permite centenas).

Nunca vai ser tão fácil aceder a um ebook como ir à estante buscar um livro!
Muito poucos foram os livros que tive dificuldade em adquirir para o kindle. Porque assim que penso em ler um, está à distância de um clique. 

Nunca vai ser a mesma coisa.
Não vai. Ler um ebook não é o mesmo que ler um livro físico. Vários livros tenho em ambas as edições, e vou continuar a adquirir livros e a suspirar com estantes.

Se o livro digital vai destruir o livro físico, creio que não será no meu tempo. Posso continuar a ler no meu adorado, querido, lindo kindle sem remorsos.  (mas eu também achava que a tecnologias dos e-readers ainda tardaria muitos anos até estar ao nível das exigências dos leitores...)

A minha maior dificuldade é perceber como é que sobrevivi tanto tempo sem ele. 


Alas, e-readers não têm cheiro a livros. Por isso é que continuo a snifar livros.

25/01/2013

Diário de Anne Frank - Livro interactivo




O Diário de Anne Frank foi um dos livros que mais me marcou. Li-o na minha adolescência e ficou sempre como um dos meus favoritos, apesar de nunca ter sentido vontade de o reler. 
Celebra-se agora o 65º aniversário da primeira publicação d'O Diário de Anne Frank, e a Penguin lançou uma aplicação, para Apple e Nook, para trazer o livro à vida e explorá-lo de forma interactiva.



Além do livro completo em texto, podem ouvir-se partes narradas pela Helena Bonham Carter. A versão digital do livro contém diversas ligações para conteúdos extra, tais como clips áudio e vídeo, incluindo um comentário de Miep Gies, uma das pessoas que prestou auxílio a Anne Frank e a sua família. Podemos ver também uma edição facsimile do diário original traduzido para inglês, fotos da família antes da guerra, mapas originais feitos à mão, reproduções e esquemas do quarto e casa onde Anne Frank vivia escondida, etc. Adorei esta iniciativa, que considero uma excelente forma de conhecer ou redescobrir esta obra marcante e aprender um pouco mais sobre esta vertente da Segunda Guerra Mundial. Um pequeno vídeo mostra as potencialidades da aplicação, disponível por £6,99:




04/01/2013

2012 vs 2013


Numa altura em que se multiplicam na net os balanços do ano que passou e as resoluções para 2013, pode parecer um pouco estranho vir falar de resoluções de ano novo num blog que esteve quase um ano parado. 

A verdade é que, como é óbvio, a vida de um blog se rege pela vida da(s) pessoas(s) por trás dele, e a revolução (quase literal) que teve lugar na minha vida pessoal, começando depois do meio de 2011, deixou muito pouco espaço para leituras, a net em geral, e o blog, por arrasto. Faltou tempo e disponibilidade, mas sobretudo faltou vontade. 

Em vez de fazer um balanço tradicional do ano que passou, prefiro fazer uma comparação global e estabelecer perspectivas, uma espécie de one-on-one destes dois anos rivais, um 2012 vs 2013. Ora vejamos... Ready, set, go!

No início de 2012 dei por falhado um compromisso literário e fechei o desafio do Goodreads de 2011 sem o ter completado.Quiçá devido a praticamente não ter lido na segunda metade do ano anterior, e sem grande entusiasmo para reverter essa situação. No início de 2013 estabeleci o desafio deste ano para um nível superior ao que consegui completar em 2012. Talvez seja uma meta ambiciosa, mas só demonstra como estou cheia de vontade de ler coisas. A vontade é realista, a concretização logo se vê.

Em 2012 li 32 livros. Em 2013 tenciono ler 40.

Desses 32, 5 foram graphic novels. Em 2012 por esta altura não tinha quase nenhum registo de graphic novels nas minhas estantes. Por esta altura tenho uma lista crescente de volumes interessantes para ler/adquirir. 

Durante 2012 procurei deliberadamente livros mais curtos, e em resultado, li menos páginas do que no ano anterior. Já em 2013 já volto a sentir a minha velha e fatal atracção por calhamaços. 

Em Janeiro de 2012 estava a preparar-me para mudar de emprego, cidade e país, e comecei a perder a minha assiduidade na net. No início de 2013 estou instalada e finalmente a normalizar rotinas e hábitos antigos. 

Durante 2012 publiquei apenas duas opiniões. Escrevi outras 11, mas por algum motivo não senti vontade de publicar. Algumas vão ser publicadas em 2013. 

No ano passado por esta altura os novos modelos Kindle da Amazon ainda eram novidade, e eu andava há meses a choramingar que queria um kindle, um qualquer! Umas semanas depois chorava, desta vez a sério, ao abrir a embalagem da Amazon mais valiosa de sempre. Não apenas pelo Kindle 4 que continha, pelos livros pessoalmente seleccionados e oferecidos, mas muito especialmente por vir a transbordar de carinho e amizade. Dizem que tanta amizade não cabe numa caixa da Amazon, mas graças a 40 pessoas fantásticas, espalhou-se pela internet, via Twitter, e por uma vez, enganou bem. Este ano por esta altura, 13 dos 32 livros que li foram no meu Kindle, mais 3 foram divididos entre formato digital e físico ao longo da leitura. 

No início de 2012, ainda não sabia, mas ia ouvir nesse ano 9 audiobooks. Até 2012 ouvia livros a passar a ferro e a caminhar, agora oiço também enquanto cozinho, faço bolos, ando de bicicleta por Barcelona e para abafar os ruidosos clientes do supermercado enquanto faço compras. 

No ano passado esperava ler livros em português e inglês, este ano ambiciono ler também em espanhol. 

Em Janeiro de 2012 fiz um top dos melhores do ano. Em Janeiro de 2013 chego à conclusão que ler menos pode ser bom, quando se fazem boas escolhas. Ainda assim, no meio de várias surpresas agradáveis e confirmações deliciosas, com dificuldade destaco, sem ordem especial, os 5 livros que mais me marcaram em 2012:




A Vida de Pi, Yann Martel
Pequena Abelha, Chris Cleave
The Help, Kathryn Stockett
Habibi, Craig Thompson
As Mentiras de Locke Lamora, Scott Lynch

Não consigo dizer quantos livros comprei até Janeiro de 2012. Desde aí até Janeiro de 2013 comprei apenas 7.

Em 2012 não tive qualquer expectativa ou motivação para este espaço. Em 2013, sem prometer para não ficar sem cumprir, vou deixar andar sem que se torne uma obrigação, e para que o que partilho seja o melhor.

Em 2012 este blog tinha um design, agora tem outro.

Para 2013 vou jogar ao Book Bingo da WhiteLady3 e Companhia, porque em 2012 não arrisquei desafio algum (o do GR não conta).

Há um ano estava a viver numa casa recheada com os meus mais de 400 livros, a grande maioria por ler. Hoje a minha nova biblioteca tem cerca de 30 livros, o triplo do que tinha em Março de 2012. 
A maioria ainda por ler. 

Entre 2012 e 2013 muita coisa mudou, mas há coisas que nunca mudam. 

14/06/2011

Leitor Convidado na Estante de Livros


A convite da Célia, a Bibliófila mudou-se para a Estante, por hoje. Ser o Leitor Convidado na Estante de Livros é qualquer coisa como atingir o topo da carreira dos book-bloggers. Neste caso, o topo da estante! 
Passem por lá, entrada livre para bibliófilos. 

(imagem daqui)

02/03/2011

Autor vs Obra

Surgiu no fórum Bang! uma animada discussão que acabou por derivar para o seguinte tema:
Até que ponto o leitor consegue/deve separar a apreciação da obra da opinião acerca do autor?

Lembro-me de alguns casos concretos: Miguel Sousa Tavares, António Lobo Antunes. Ambos são pessoas que desencadeiam polémica com as suas declarações, e ambos são escritores de sucesso. Também José Saramago despertou ódios em muita boa gente, e algumas das pessoas que o consideraram alguém desagradável são também admiradores da sua escrita.

A verdade é que na literatura procuro não misturar as águas, e tento não partir para uma leitura influenciada pela minha opinião pessoal acerca do autor em quanto pessoa. No caso particular do MST, do qual tenho uma opinião mais definida e não muito positiva, demorei muitos anos a finalmente ler o romance Equador, mas as razões foram todas menos o facto de não simpatizar com ele. Acabei por adorar o livro, tornou-se um dos meus favoritos, e continuo a considerar MST igualmente detestável nas suas intervenções na televisão (mesmo que admita que tem razão no que diz).

Terry Goodwin, autor da saga The Sword of Truth, causou uma enorme polémica no seio dos leitores de Fantasia, com algumas declarações e tomadas de posição no mínimo "fortes" relativamente aos seus livros e à literatura do género Fantasia e com considerações políticas. As suas afirmações inflamaram a internet (onde eu descobri essas barbaridades do senhor, aqui) e os leitores de Fantástico.Com muitos leitores perdidos pelo caminho, arrisco dizer.

A questão alarga-se a outras áreas que não a literatura, por exemplo, as recentes notícias do despedimento do estilista Galliano por declarações anti-semitas e de admiração nazi. A verdade é que o talento de Galliano é reconhecido independentemente das suas convicções, mas obviamente a questão moral associada não pode ser ignorada. Mais uma vez a questão criador vs obra é difícil de gerir.
Há uns anos atrás Tommy Hilfigger foi envolvido numa polémica relacionada com alegados comentários racistas, que originou um boicote aos produtos da sua marca que durou anos. Não se verificou a veracidade desses comentários, mas milhares de pessoas no mundo inteiro não hesitaram em deixar de adquirir as peças do criador e a sua marca. 

Estou convencida que tenho conseguido separar as águas, mas tenho relutância em afirmar com certeza que se um escritor proferisse declarações como as de Galliano, ou piores ainda, eu gastaria o meu dinheiro num livro seu. 
E vocês, conseguem separar o autor da sua obra? Avaliar um livro pelo que é e ignorar a opinião que têm do seu autor?

15/01/2011

Eu e os Livros (II)

Quando li o post da WhiteLady no Seu Cantinho, decidi partilhar também a minha história com os livros ao longo do tempo. E depois tive uma ideia melhor: desafiar um blog amigo a fazer o mesmo, e assim criar uma cadeia de histórias sobre livros.

Fica aqui o meu percurso no reino dos livros, apesar de não conseguir lembrar-me exactamente de quando começou.


Não sei quando comecei a gostar de livros. Não me lembro qual o primeiro livro que li. Não me lembro qual a primeira história que me apaixonou e que me fez gostar de ler. Mas sei que lá em casa sempre houve livros: enciclopédias, livros de Ciência, História, Arte e de Natureza Animal. Os meus pais compravam para mim e para o meu irmão colecções daqueles livros infantis de páginas de cartão grosso, criados para resistir aos membros desajeitados de qualquer criança, mesmo assim tão manuseados que acabaram por se desfazer com o tempo. Eles liam-nos as histórias algumas vezes, mas naquela altura nem interessava tanto, o livro em si era o objecto que inspirava as histórias que nós inventávamos enquanto não as conseguíamos ler. 

Quando tinha 6 anos o meu pai levou-me à Biblioteca Municipal da nossa cidade, para eu me inscrever. Sei que idade tinha porque tinha entrado para a escola primária. Explicou-me que sendo leitora da Biblioteca podia pedir livros emprestados, ler e depois devolver. E que podia sempre voltar para buscar mais. Um edifício antigo (tão antigo que já nem é o mesmo hoje em dia), paredes de pedra e escadas escuras, chão de madeira e…deserto, claro. É engraçado, lembro-me que na altura senti-me tão intimidada. Eu nem sabia ler ainda! Fiquei um pouco chateada por quererem que eu lesse sem ainda ter aprendido! Acho que apesar da insistência do meu pai e da senhora bibliotecária (que apesar do edifício e tantas outras coisas terem mudado, permanece ainda por lá) não trouxe nenhum livro naquele primeiro dia. 


Não me lembro bem quando voltei lá, mas sei que depois do arranque envergonhado passei a ir diariamente à Biblioteca entregar 5 livros e trazer outros 5, que era o número máximo permitido. Era uma chatice preencher todos os cartõezinhos de papel cor-de-rosa das requisições, mas na verdade valia a pena, e com o tempo já nem era preciso mostrar o cartão. Livros da Disney, da Anita, contos tradicionais incontáveis e histórias infantis eram devorados diariamente. E a Biblioteca cheirava tão bem… E os livros estavam sempre lá outra vez, e alguns eu requisitava repetidamente e voltava a lê-los. Os livros de contos tradicionais eram os meus favoritos. Até recebi num Natal um livro cheio de histórias, uma para cada dia do ano (é claro que li logo tudo, mas pronto).

E quando passei para o ciclo e descobri que na escola havia outra biblioteca? É engraçado pensar que apesar de tanta oferta reli e voltei a reler tantos e tantos livros. Há histórias que simplesmente não nos deixam. 



Numa feira do livro na escola o meu pai comprou uma colecção de livros infantis sobre Gnomos, Dragões, Fadas e outras criaturas mágicas, e deu-mos com a condição de ler primeiro um outro livro, velhinho e muito estranho. Sem imagens, só letras! Cheia de vontade de ler os outros mágicos, devorei Os Cinco e A Ilha dos Murmúrios, naquilo que foi o início de uma fase de leitura mais juvenil. Depois d’Os Cinco foi Uma Aventura, Alice Vieira e Sophia de Mello Breyner (anos mais tarde viria a apaixonar-me pelo Equador do seu filho), os livros de Adrian Mole







Pelo meio foram surgindo livros tão marcantes como o Diário de Anne Frank e O Perfume. Tive tempo para me apaixonar pelos espirituosos Asterix e Obelix e ler e reler e reler os livros de BD do Tio Patinhas e companhia antes de, por volta dos 13, conhecer o pequeno feiticeiro caixa de óculos, Harry Potter e me apaixonar por um mundo mágico que me acompanhou até depois dois 20. 

Como sempre tive o hábito de frequentar bibliotecas, para mim era perfeitamente natural trocar livros com amigos, e tratá-los como se fossem meus. Muitos dos livros que mais me marcaram na minha vida foram-me emprestados ou requisitados (muitos dos quais tenho andado a adquirir recentemente para a minha estante pessoal). Um deles foi precisamente Harry Potter e a Pedra Filosofal, a empréstimo de uma amiga. A Câmara dos Segredos foi-me depositado na mesinha de cabeceira de um sábado de manhã, depois de muito pedinchar, certamente, e estava terminado antes do final da noite. 

No 6º ano a minha professora de Português, tentando cativar alunos menos dados à leitura, propôs a leitura em voz alta de A Lua de Joana. Os 10 minutos finais de cada aula estavam reservados para ouvir a professora a ler mais um capítulo do livro, e quando tocava para a saída, implorávamos para ficar ouvir mais durante o intervalo. Já não me lembro do nome da professora, mas não me esqueci do livro. Li tudo de Paulo Coelho (apesar de hoje em dia não conseguir ver porquê, mas é daquelas coisas), apaixonei-me irrevogavelmente pelo Conde de Monte Cristo e adorei a magia no contexto histórico de Leonor de Aquitânia. Todos estes livros foram emprestados por amigas ou requisitados da Biblioteca. 

Também foi pela mão de uma amiga que conheci duas das minhas autoras favoritas. A Casa da Floresta foi o primeiro livro de Marion Zimmer Bradley que li, e os livros desta autora, principalmente a Saga de Avalon e O Presságio de Fogo, foram muito marcantes para mim e definiram muito do meu percurso como leitora no futuro. Um pouco mais tarde, quase como uma evolução natural, veio A Filha da Floresta, de Juliet Marillier, a minha escritora favorita. 

Por esta altura já se nota um certo padrão nas minhas leituras favoritas. Pois é, o meu género favorito é a fantasia. Muitas vezes considerado um género de literatura menor, não tenho vergonha de dizer que a fantasia me enche as medidas como leitora. A perfeita fusão entre o que de mais humano e real pode haver nas pessoas e a magia e os mistérios da Terra. 

Foi quando se esgotaram os novos livros da Juliet no mercado que me virei para a internet em busca de mais informações e contacto com a própria, e acabei por me infiltrar no mundo literário da net. A partilha de informação e opiniões levou-me a experimentar leituras que talvez não arriscasse. 

Mas tento ler de tudo e procuro pegar num livro em preconceitos relativos a géneros ou categorias (mas por reconhecer a minha queda para a fantasia, propus-me um compromisso literário para este ano). Estou sempre a querer ler mais, e parece sempre que é de menos. Costumo dizer que quando se tem um livro nunca se está só. Cresci no meio dos livros e cresci com eles. Mais do que companheiros que me acompanharam ao longo da minha vida, sei que aprendi alguma coisa com todos os livros que li. 


Qualquer pessoa pode tornar-se um bibliófilo. Aquele que já gostava de livros antes de saber ler e aquele que só percebeu que é apaixonado por livros quando leu aquela obra que tão inesperadamente o arrebatou e lhe encheu o coração de calor. 

As pessoas que não gostam de ler, simplesmente ainda não leram o seu livro favorito.

Gostava de ouvir as vossas histórias da maneira como os livros vos seguiram na vida. Vão ser todas diferentes, mas sei que vão ter muita coisa em comum.


Para continuar esta cadeia, desafio a Elphaba, do Histórias de Elphaba a contar a sua história literária.


Ficamos à espera :)

30/12/2010

Balanço 2010

Pois é, final de ano e tal.. 
Já que, no que aos livros diz respeito, já fiz as resoluções de ano novo, só me falta fazer o balanço de 2010. Sem mais delongas:

2010 foi o ano do Acordo Ortográfico. Apesar de ainda não estar em vigor, o (des)acordo chegou este ano e causou muito pânico aos amantes da Língua Portuguesa e da literatura, aos mais patrióticos ou aos simples cidadãos. Eu paniquei. Eu admito. Paniquei, e paniquei bem. (oh oh, esta palavra não existe nem no acordo nem fora dele, mas qualquer dia já existe, porque a Língua é mutável eheh. À excepção do Latim, claro, e às tantas é por isso que lhe chamam uma língua morta). Revoltei-me e reclamei, e voltei a revoltar-me com pérolas do género: "eu vou continuar a escrever como quero!" e "eu vou escrever sempre facto com o 'c'!". Mas isso descobri eu depois. Foi quando me disseram: E ainda bem, até porque de facto, facto escreve-se facto. Com acordo ou sem ele. Oh diabo... pensei eu, afinal ando enganada.

Porque a internet é uma fonte de informação inesgotável (entre outras coisas), e eu estou sempre a aprender com ela. Ou melhor, com outras pessoas melhor informadas que eu, com as quais me meto à conversa na net. A minha opinião em relação ao Acordo amadureceu, e o pânico foi-se. A culpa da minha ansiedade inicial, acuso e aponto o dedo, foi da catastrófica comunicação social, que desinforma habilmente a população. Acredito que não "vamos passar a escrever em brasileiro", nem de perto nem de longe. As alterações não são assim tão gigantes e são perfeitamente naturais. Li uns 3 ou 4 livros (pelo menos) traduzidos para a Língua Portuguesa ao abrigo das novas regras do Acordo, e só num deles é que me apercebi claramente das alterações. Outro houve em que me apercebi, mas apenas porque a meio da leitura soube que já estava escrito com as novas regras, e tratei de escaranfunchar todos os parágrafos daí em diante à procura dos "c" invisíveis, que acabei obviamente por encontrar.

Se preferia que as coisas se mantivessem iguais? Claro. Mas não acho que seja motivo para pânico nem revoltas, muito menos arritmias literárias, principalmente porque ninguém vai ser obrigado a escrever segundo as novas regras, e as grafias anteriores ao Acordo serão aceites na mesma e consideradas igualmente correctas. 
Em suma, eu e praticamente toda a gente da minha geração e anteriores, vamos continuar a escrever como aprendemos e achamos bem. Quer seja porque somos contra ou porque burro velho não aprende línguas. Mas as gerações mais novas vão aprender na escola uma grafia mais adequada ao português que falam e que se falará nas próximas décadas.


Quanto à leitura per capita, e voltando ao balanço...

Li 43 livros em 2010. Mais do que em 2009 certamente, apesar de ter sido a primeira vez que contabilizei. 
Considerando o aumento na quantidade de literatura por metro quadrado cá de casa, e também das leituras per capita, devo dizer que em termos que quantidade não foi um ano nada mau. 

Igualmente, em termos de qualidade, 2010 foi um ano de boa colheita, por assim dizer.  Li excelentes livros ao longo deste ano. Alguns, não tenho dúvidas, tornar-se-ão com o tempo em favoritos de sempre. Apesar de todos os esforços, também li alguns livros que foram perdas de tempo. Nunca se consegue escapar totalmente às uvas podres, e pior são aquelas que até tinham bom aspecto.  
Segue a lista, no meu entender, claro:


O Melhor de 2010: 

(sem ordem definida)

A Sombra do Vento, Carlos Ruiz Zafón
Os Leões de Al-Rassan, Guy Gavriel Kay
A Canção de Kali, Dan Simmons
Duna, Frank Herbert
Os Homens que Odeiam as Mulheres, Stieg Larsson
A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo, Stieg Larsson
A Mulher do Viajante no Tempo, Audrey Niffenegger
O Físico, Noah Gordon
O Dardo de Kushiel e A Marca de Kushiel, de Jacqueline Carey
A Senhora de Shalador, Anne Bishop

O muito mau:
(vulgo, por que raio é que eu li isto?)
Darwinia, Robert Charles Wilson
Comer, Orar, Amar, Elizabeth Gilbert

As surpresas positivas:
Guerra Mundial Z, Max Brooks
Eu Sou a Lenda, Richard Matheson
A Canção de Kali, Dan Simmons

As desilusões:
Pátria, R. A. Salvatore
O Mago, Raymond E. Feist
O Evangelho do Enforcado, David Soares
O Festim dos Corvos, George R. R. Martin



A lista completa está na página Leituras 2010, no topo do blog. Lamentavelmente, só li 3 livros de autores portugueses. Pergunto-me: como é possível!? Que vergonha! É um dos objectivos para 2011, sem dúvida! Nunca se publicou tanto livro em Portugal, e as editoras estão a apostar, e bem, em jovens autores portugueses, principalmente no género do fantástico (tão inflamado nos dias que correm!). Há vários nomes de novos autores (alguns novos para mim, e outros verdadeiros estreantes) que tenho debaixo de olho, e não apenas por serem portugueses, mas porque me parecem verdadeiramente bons. E não se pode desperdiçar o talento nacional. Há que ter em atenção o PIB e comprar nacional.

Falando em PIB.. Quanto ao balanço financeiro do vício... Não quero fazê-lo! Até porque ainda quero ler muitos livros antes de morrer, e se fizesse as contas ainda entrava em paragem cardio-respiratória e a gata da foto ficava orfã, e ela não gosta de mais ninguém a não ser eu (e mesmo assim é só às vezes hihi).

Fica apenas a nota, pequenina, que tenho uma boa pilha para ler, e tenciono acabar com ela em 2011 (serve?). Ah, e que as minhas estantes estão cada vez mais bonitas :)

Desejo a todos umas excelentes entradas em 2011, e boas leituras.

24/11/2010

O público feminino no mercado editorial

As mulheres lideram os mercados de vendas. Esta é uma noção cada vez mais aceite em todo o lado, principalmente pelas lojas e pelas próprias marcas e fabricantes. Não apenas fabricantes de produtos tradicionalmente femininos, como roupa, acessórios, cosméticos e produtos para bebés, mas cada vez mais de telemóveis, computadores, automóveis, cinema, produtos de supermercado e… livros.

Sim, as mulheres compram mais, usam mais, gastam mais. As mulheres influenciam as vendas de praticamente toda a gama de produtos, e por essa razão as marcas investem no público feminino para vender mais. Os livros não são excepção. Além de comprarem mais por natureza, lêem mais e compram mais livros! Cada vez vemos mais livros publicados com a ridícula (ou talvez não) categoria de “romance feminino”, e esses livros vendem melhor ainda que pãezinhos quentes. Autores como Nicholas Sparks, Nora Roberts, Lesley Pierce e aquela de nome impronunciável que só me atrevo a copiar de algum sítio onde já esteja escrito (Sveva Casati Modignani), são muito prolíficos e um sucesso de vendas garantido. Parece que todos os meses há um novo livro da Nora Roberts! Bom, não será bem assim, mas parece.

Em contrapartida, arrisco dizer que nem todas as mulheres pertencem ao público feminino. “Oh diabo… que confusão é esta?…” pensam vocês. Eu própria, sendo mulher, tenho dificuldades em conseguir conceber encaixar-me nessa categoria.

Vejamos, quem não gosta de um bom romance? Eu admito-me culpada. Adoro um bom romance. Adoro um livro que me faça chorar. Mas… detesto um livro que só tem romance. É confuso? Talvez. Torna-se mais fácil de entender se eu disser que o romance por excelência pertence a uma história maior, é vivido por personagens bem construídas num contexto bem elaborado e é contado numa escrita que toque o leitor, sem cair na lamechice.  
Romances há muitos. Dos bons é que rareiam. Já chorei com muitos livros, e nenhum deles era um “romance feminino”.

Mas eu não pretendo desprestigiar de forma algum estes livros nem os seus leitores. Se vendem muito, é porque há muita gente a comprar. E se compram muito, são pessoas que obviamente apreciam os livros que lêem, o que faz com que invistam nesses autores sem hesitação. São livros que sem dúvida lhes proporcionam bons momentos de leitura, e é essa a função de um livro. As editoras vendem, os leitores lêem. Não é difícil de perceber a lógica, e toda a gente fica contente!

As editoras investem num género literário que lhes garante retorno, e esse investimento cada vez paga melhor. Quanto a isso, nada que eu possa, ou queira fazer.
O que me irrita é o desprestígio dessas leitoras (sim, podemos perder a cabeça a assumir que são na esmagadora maioria leitoras e não leitores!) por parte das próprias editoras. Estou a referir-me a uma “moda” mais ou menos recente que, tenho verificado, se anda a espalhar nas livrarias: Livros “enfeitados” (na falta de melhor verbalização). Deixo-vos como exemplo os livros abaixo, e certamente conhecerão mais.






Desde saquinhos giros e coloridos a lacinhos, passando por flores de plástico… É todo um novo conceito de chamar a atenção para o livro. Já para não cair na discussão das ofertas e brindes que se oferecem agora com os livros. Por favor não me façam começar! Desde ursinhos de peluche a utensílios de cozinha, até um insólito fondue na compra de um livro sobre receitas de chocolate! (é verdade!). Eu que ficava tão contente quando na compra de um livro ofereciam... outro livro! Mas isso nos dias de hoje, pelos vistos, é tão pouco original! Até comida de gato vale! 


Um livro é um livro. A razão pela qual os bibliófilos compram um livro é para o ler. É claro que a estética é importante: procuramos completar sagas com edições semelhantes, gostamos de capas bonitas e adoramos bons gráficos e uma boa edição. E há coisa mais bonita do que uma bela estante cheia de livros? Certamente não se julga um livro pela capa, mas em caso de um olhar perdido numa livraria, uma capa cativante pode chamar o olhar (o que a leitura revela depois já é outra história). Mas em última instância, compramos o livro pelo conteúdo. Porque nos dá prazer ler os livros.
Desde quando é que o acto de comprar um livro depende mais daquilo que ele traz consigo do que simplesmente do seu conteúdo? Desde que as editoras acham que para nós mulheres comprarmos um livro, basta que seja bonitinho e tenha um romance comovente, e não conseguiremos resistir. É giro, eu percebo! Eu acho giro! Mas não é por isso que vou comprar o raio do livro! A expressão "livro de gaja" nunca teve tanta força.

O que está a acontecer aos livros? A verdade é que vende, e isso é que me irrita.

Fim do desabafo.



PS- Como raio esperam que eu enfie na minha estante um livro com uma flor de plástico colada na capa? o.O'