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13/04/2011

O Espectáculo da Vida - A Prova da Evolução

O Espectáculo da Vida - A Prova da Evolução, Richard Dawkins


Título original: The Greatest Show on Earth - The Evidence for Evolution
Tradutor: Isabel Mafra
Nº páginas: 421
Editora: Casa das Letras (2009)

Sinopse: A evolução é um facto que não suscita dúvidas razoáveis, dúvidas sérias, dúvidas inteligentes, informadas e saudáveis. Não há dúvida de que a evolução é um facto. As provas da evolução são pelo menos tão fortes como as do Holocausto, mesmo considerando a existência de testemunhas oculares deste último. É uma verdade inquestionável que somos primos dos chimpanzés, primos mais distantes dos macacos, primos ainda mais afastados dos papa-formigas e manatins, primos ainda mais distantes das bananas e dos nabos… a lista poderia continuar para sempre. Ora isto não tem de ser verdade. Não se trata de uma verdade evidente, tautológica, óbvia e houve tempos em que a maior parte das pessoas, mesmo as instruídas, pensava que não era. Não tem de ser verdade, mas é. Sabemos isso porque uma vaga crescente de provas o confirma. A evolução é um facto e este livro demonstrá-lo-á. Nenhum cientista respeitável o discute e nenhum leitor imparcial concluirá este livro com dúvidas a esse respeito.


Opinião: Estava com bastante vontade de ler um bom livro de divulgação científica, principalmente tendo acompanhado no Fórum Bang! as leituras, dentro desse género, da pessoa que me recomendou este livro (um obrigada ao Magnus Marco), e que me abriram o apetite. Sendo a minha formação e interesses pessoais e profissionais na área da Biologia, esta foi uma escolha natural para iniciante.

A verdade é que provavelmente teria sido mais útil ler um livro fora da minha área de formação, mas confesso que temia que a divulgação científica fosse mais um discorrer de ciência pouco cativante, ao invés de uma forma interessante de conhecer ciência. Quanto a este livro, não podia estar mais enganada.

Dawkins escreve numa linguagem clara e acessível, sem deixar de ser eloquente, precisa e detalhada. A maior surpresa foi precisamente o bom humor que transparece nesta escrita, e a forma cativante como apresenta factos científicos bem como históricos.

O objectivo deste livro é expor de forma clara e inequívoca as provas conhecidas da evolução, de forma a constituir uma base de informação completa e simples disponível aos cidadãos do mundo moderno. Após anos de “luta” contra as teorias criacionistas, o autor sentiu que a influência dos criacionistas é cada vez maior, quer nas escolas (onde se começa a proibir o ensino da evolução!) quer junto do público em geral, numa política de desinformação. Com este livro, Richard Dawkins procura tão simplesmente expor as provas conhecidas, e explicar a razão pela qual constituem provas de que a evolução, qualquer que seja o seu caminho, é inegável.

O que senti na leitura deste livro foi que o programa completo de Biologia do 12º ano que estudei na escola está aqui explicado de forma facilmente assimilável, interessante e até divertida. A diferença é que o currículo de Biologia está acessível apenas aos estudantes dessa disciplina, ao passo que este livro constitui uma fonte de informação disponível a qualquer pessoa. O autor apresenta as referências (como cabe ao cientista), inclui apêndices com informação detalhada de estudos e inclui 12 páginas centrais com fotografias a cores, que refere ao longo do texto. Além destas imagens coloridas de alta qualidade, ao longo do texto surgem frequentemente imagens a preto e branco que elucidam passagens e raciocínios.

Fiquei impressionada com a enorme carga de informação apresentada de forma natural e facilmente compreensível até para o mais leigo dos leitores, muitas vezes recorrendo a metáforas improváveis mas interessantes. A minha favorita (além da que reproduzi no excerto) é a analogia entre as primeiras fases do desenvolvimento embrionário e uma estrutura de origami: a parte de um pedaço de papel único, e sem introduzir mais papel, parte-se se um simples quadrado, passando por várias construções até chegarmos a um complexo barco de bambu. Facilmente se interioriza o conceito, um pouco abstracto e difícil de “visualizar”, da divisão celular que ocorre no verdadeiro início da vida de um embrião. Conceitos específicos e “complicados” são explicados com igual naturalidade com que surgem explicações de fenómenos que conhecemos quase empiricamente, o que demonstra que o autor se dirige ao leitor sem preconceitos, sem distanciamentos intelectuais.

Obviamente eu não pertenço ao público-alvo deste livro, uma vez que tendo já estudado e compreendido os processos evolutivos, a evolução é para mim algo perfeitamente aceite. No entanto esses processos da evolução e os exemplos concretos não deixam de me fascinar, e como tal, este livro cativou-me e aprendi imensas coisas e relembrei outras mais esquecidas. Voltando ao público-alvo, este livro dirige-se ao comum cidadão, por assim dizer, e não à comunidade científica. É acessível a qualquer pessoa que sinta curiosidade pelo tema, e será com certeza uma leitura interessante.

Curiosamente, visitei recentemente a exposição Darwin, presente na Casa Andresen, no Jardim Botânico da Universidade do Porto, e tive oportunidade de observar fisicamente muitos elementos referidos ao longo do livro, o que se revelou um exercício bastante interessante. Aproveito também para recomendar a visita à exposição (decorre até Julho), bastante completa e interessante, além de permitir a visita à magnífica casa onde viveu Sophia de Melo Breyner.

O melhor: A forma clara e precisa, mas acessível, como conhecimento científico é exposto.
O pior: Pessoalmente, muita da informação já fez parte da minha informação, pelo que senti como uma repetição (apreciação pessoal, independente do livro em si).

4/5 – Gostei bastante



08/04/2011

Marina

Marina, Carlos Ruiz Zafón



Tradução: Maria do Carmo Abreu (+)
Nº de páginas: 260
Editora: Planeta (2010)

Sinopse: «Marina disse-me uma vez que apenas recordamos o que nunca aconteceu. Passaria uma eternidade antes que compreendesse aquelas palavras. Mas mais vale começar pelo princípio, que neste caso é o fim.» «Em Maio de 1980 desapareci do mundo durante uma semana. No espaço de sete dias e sete noites, ninguém soube do meu paradeiro.» «Não sabia então que oceano do tempo mais tarde ou mais cedo nos devolve as recordações que nele enterramos. Quinze anos mais tarde, a memória daquele dia voltou até mim. Vi aquele rapaz a vaguear por entre as brumas da estação de Francia e o nome de Marina tornou-se de novo incandescente como uma ferida fresca. «Todos temos um segredo fechado à chave nas águas-furtadas da alma. Este é o meu.» 



Opinião: Li este livro numa noite. Peguei nele a meio do serão e só o larguei quando o terminei, de madrugada. Se não me tivesse prendido imediatamente pela história, que começa como descrito na sinopse, ter-me-ia rendido apenas à escrita de Zafón. Deste autor já tinha lido o cada vez mais célebre A Sombra do Vento, ao qual fiquei rendida. Sabendo que este Marina foi o primeiro romance do autor, creio ter notado alguma diferença na escrita, mais descontraída e divertida (reflectindo também a personalidade do protagonista, Óscar), menos elaborada, se for esse o termo, mas igualmente descritiva de forma belíssima. 

Óscar é um jovem de 15 anos que mora num internato na cidade de Barcelona. A sua rotina passa por aproveitar a janela de tempo entre o fim das aulas e o jantar para explorar Barcelona, e num desses dias acaba por entrar numa casa aparentemente desabitada, atraído por uma música sublime. Uns dias mais tarde, após uma fuga assustada que precipita um furto inadvertido, Óscar conhece a improvável inquilina desta mansão semi-abandonada, onde vive com o seu pai. Marina. 

Não pude obviamente deixar de identificar alguns pontos em comum com a história de A Sombra do Vento. A fórmula é em muito semelhante: Um jovem rapaz perdido nos mistérios de uma intriga em Barcelona, acompanhado de uma bela jovem. 

Esta história está repleta de mistérios e reviravoltas. Adivinhei todas as revelações antes de acontecerem, mas isso não fez com que tivesse gostado deste livro nem um bocadinho menos. Passo a explicar. Numa certa discussão familiar há uns meses, chegou-se à conclusão que todas as grandes obras literárias (ou uma grande maioria daquelas que nos apaixonam) e/ou cinematográficas, retirados todos os contextos e cenários e deixando apenas o núcleo, evocam o enredo tronco das tragédias gregas ou peças Shakespeareanas. Não foi por não ter sido apanhada de surpresa que deixei de me comover com a forma como esta história foi escrita, e o seu enredo apresentado. 

Este livro foi uma delícia do início ao fim, quer pela mistura de elementos históricos e fantásticos, pela graciosidade da linguagem e até, como piscadela de olho ao romance de terror, uma María Shelley no meio de um mistério que surge com estranhos objectos que ganham vida. E mais não digo. Mesmo no fim, acabei por ser surpreendida pelo rumo que os acontecimentos tomaram e pela forma como a história foi terminada… tal como começou. E já mencionei como adoro a escrita deste autor? Terminei este livro com aquele suspiro de quem termina uma aventura, mas que apreciou cada momento. 

O melhor: A escrita de Zafón. 
O pior: Alguns pontos de contacto com a obra que conheço do autor, e mais uma vez fiquei frustrada por não conhecer Barcelona. 

4/5 – Gostei bastante

03/04/2011

The Northern Lights

The Northern Lights, Philip Pullman
Editora: BBC Audiobooks (2002)
Narrador: Philip Pullman


Sinopse: In a landmark epic of fantasy and storytelling, Philip Pullman invites readers into a world as convincing and thoroughly realized as Narnia, Earthsea, or Redwall. Here lives an orphaned ward named Lyra Belacqua, whose carefree life among the scholars at Oxford's Jordan College is shattered by the arrival of two powerful visitors. First, her fearsome uncle, Lord Asriel, appears with evidence of mystery and danger in the far North, including photographs of a mysterious celestial phenomenon called Dust and the dim outline of a city suspended in the Aurora Borealis that he suspects is part of an alternate universe. He leaves Lyra in the care of Mrs. Coulter, an enigmatic scholar and explorer who offers to give Lyra the attention her uncle has long refused her. In this multilayered narrative, however, nothing is as it seems. Lyra sets out for the top of the world in search of her kidnapped playmate, Roger, bearing a rare truth-telling instrument, the compass of the title. All around her children are disappearing, victims of so-called "Gobblers", and being used as subjects in terrible experiments that separate humans from their daemons, creatures that reflect each person's inner being. And somehow, both Lord Asriel and Mrs. Coulter are involved.

Opinião: Este foi o primeiro livro que ouvi (não considerando uma colecção Disney que ouvia em criança acompanhada dos livros), e como tal esta opinião do livro é indissociável da minha opinião do audiobook por si só. A verdade é que já tinha lido este livro em 2008, mas nunca li os restantes dois livros da trilogia dos Mundos Paralelos (His Dark Materials, no original). Já andava com vontade de ler o resto da trilogia, mas tendo passado tanto tempo desde a leitura do primeiro, fui adiando. Quando decidi que ia experimentar ouvir audiobooks, decidi também que iria começar por um livro que já tivesse lido, e portanto ao escolher este livro foi uma matança de dois coelhos de uma cajadada só. Não só experimentei um audio-livro, como relembrei o primeiro livro da trilogia. 

Já tinha gostado bastante do livro na minha primeira leitura, há 3 anos. Não o considerei um livro para crianças, apesar da história nos ser contada do ponto de vista de uma. Lyra Belacqua é uma criança activa e irreverente, a crescer no seio da Universidade de Oxford (principalmente os telhados, as caves e outros locais proibidos), numa Inglaterra em muito igual à que conhecemos, mas em tudo o resto bastante diferente.  
Gostei bastante do conceito de "daemon" (creio que traduziram para "génio", em português) e de todo o significado profundo da ligação entre cada humano e o seu. Este livro tem todos os elementos de um verdadeiro livro de fantasia.  Entre o povo do rio (cultura em parte semelhante à cigana), estudiosos e teólogos, instrumentos misteriosos, clãs de bruxas em guerra, aeronautas em balão e fabulosos ursos armados. A intriga desenvolve-se em redor da entidade religiosa Magisterium, os estudos divergentes relacionados com a Poeira (Dust no original), reflexões filosóficas e crianças desaparecidas. Todas as aventuras da pequena Lyra, desde a Inglaterra steampunk à gelada e inóspita região do Norte, nos prendem do início ao fim, bem como os mistérios, as personagens enigmáticas e o terrível destino que se adivinha.

Se já tinha gostado de ler o livro, adorei ouvi-lo. Esta edição da BBC é narrada pelo próprio Philip Pullman, e as vozes das personagens pertencem a um pequeno elenco. Adorei o dinamismo do narrador, que conta a história ao ritmo da verdadeira acção e verbaliza o estado de espírito de Lyra mesmo fora dos diálogos.  Adorei a perfeita interpretação das personagens, que diferem nos sotaques e maneirismos próprios das personagens, e exploram os seus estados de espírito. 
Resumindo, não só fiquei cheia de vontade de continuar a ler a trilogia, como adorei esta experiência com os audiobooks, e continuarei a ouvi-los. É óptimo estar a aproveitar o tempo em que não podemos estar a ler, mas podemos ouvir. 


O melhor: O conceito de Daemon e a narração.
O pior: Algumas personagens surgem repentinamente a apenas com um propósito, perdendo alguma da ligação com a história.

4/5 - Gostei bastante

30/03/2011

O Traficante de Armas


O Traficante de Armas, Hugh Laurie
Título original: The Gun Seller
Tradutor: João Henriques (nota ++)
Editora: Caderno



Sinopse: Thomas lang é um ex-polícia que se tornou um mercenário. Um dia recebe a visita de um tal McClusky, que lhe oferece cem mil dólares para assassinar Alexander Woolf, um empresário americano com negócios na Inglaterra e Escócia. Indignado, Lang recusa o trabalho e decide avisar a vítima para o perigo que corre, em vez de matá-la: uma boa acção que não ficará impune. 

A partir do momento em que o protagonista entra em contacto com a família Woolf ver-se-á imerso num turbilhão de mentiras, corrupção e violência, que o obrigará a esmagar umas quantas cabeças com a estatueta de um Buda, a medir o seu engenho com multimilionários malvados e deixar a sua vida (entre outras coisas) nas mãos de um grupo de femmes fatales. 

Hugh Laurie apresenta-nos um engenhoso e ácido romance que fará as delícias não só dos seus fãs, mas também de todos os leitores ávidos por enredos originais e cativantes. 


Opinião: Eu juro que tentei ler este livro sem ter em mente que o seu autor é um dos mais brilhantes comediantes europeu das duas últimas décadas. Eu juro que tentei ler este livro sem associar o narrador ao sotaque britânico delicioso do autor, e tentei ser imparcial relativamente ao sentido magnífico de humor de Hugh Laurie. Eu tentei, mas ele não deixou. 

Este livro respira Hugh Laurie em todas as letras. São vários os elementos: o excelente sentido de humor do narrador e personagem principal (publiquei aqui as primeiras linhas do livro, e dá para ver o tom do discurso); a mentalidade de superioridade britânica face à América da parte de um inglês “obrigado” a lidar com americanos em contexto profissional; até a necessidade de disfarçar o sotaque britânico tão próprio para exercer uma profissão e até fazer-se passar por americano nascido e criado; e Londres, cidade que adoro, como pano de fundo de grande parte da acção. Todos estes elementos, além de me remeterem para o artista Hugh Laurie e para as suas performances enquanto actor e comediante, prenderam-me do início ao fim como narrativa. Muitos só conhecem este artista pela famosa (e excelente, uma das minhas favoritas) série de TV House (e uns poucos pela fantástica Black Hadder), mas a carreira dele no Reino Unido começou há muitos anos atrás, e além de cantar, tocar e representar com um humor apurado, também escreve. Recomendo uma breve pesquisa no YouTube dos vídeos mais antigos dos programas deles se quiserem rir-se um bom bocado. Mas voltando ao livro...

Um homem britânico que anda metido com pessoal do governo de Sua Majestade, por causa de uma confusão com uns americanos brutos e limitados (não são todos?), que apenas procura levar a sua vida descansado, e se possível com uma Glock à mão. No meio disto tudo há uns negócios de venda de armas que envolvem terrorismo, e Thomas Lang é deixado numa encruzilhada moral, da qual só consegue ver os olhos da bela americana Sarah Woolf. 

Gostava de ter conseguido dedicar mais tempo à leitura deste livro, para que esta tivesse sido mais fluída, porque este enredo está repleto de reviravoltas, surpresas inesperadas e personagens determinantes. Infelizmente não tive disponibilidade para tal, e acabei por me sentir uma ou duas vezes perdida no meio de tantas curvas, mas sempre divertida e a soltar gargalhadas no autocarro. Se é verdade que por vezes me senti confusa com as reviravoltas no enredo, considero que além da escrita fantástica do autor, um dos pontos fortes neste livro é precisamente o facto de o leitor não saber em quem acreditar. Se por um lado Thomas Lang parece não poder confiar em ninguém (e quando parece que confia, nós não sabemos se confia mesmo ou se quando virar costas vai agir ao contrário), nós também não sabemos bem se confiamos em Thomas Lang. Estranho, não? Tendo em conta que o ponto de vista é dos pensamentos da personagem, é preciso o escritor ser terrivelmente engenhoso e inventivo para não revelar o que não quer que seja revelado. Até ao final, a dúvida quanto às verdadeiras intenções das personagens permanece juntamente com a verdade acerca do nosso herói. Porque ele torna-se o nosso herói desde o primeiro momento em que entramos na sua cabeça, mas mesmo assim o final é surpreendente. Reconheço que o enredo é pouco sólido de forma geral, porque se foca muito nos pormenores, mas não deixa de ser brilhantemente bem escrito, um livro despretensioso e uma óptima forma de passar o tempo. 


O melhor: A escrita divertida, chegando a ser hilariante. 

O pior: O enredo em si pouco sólido em certos pontos. 

4/5 – Gostei bastante

04/03/2011

Um Crime no Expresso do Oriente

Um Crime no Expresso do Oriente, Agatha Christie
Tradutor: Alberto Gomes
Nº de páginas: 236
Editora: Edições RBA


Sinopse: Em pleno Inverno, Poirot encontra-se em Istambul, decidido a tomar o Expresso do Oriente. Depois de uma noite mal passada, a sua tranquilidade é perturbada quando uma tempestade de neve obriga o comboio a parar e aparece o cadáver de um passageiro brutalmente apunhalado. 


Opinião: Este é apenas o segundo livro que leio da mestre do crime, Agatha Christie, depois de Morte no Nilo. É também o primeiro em que travo conhecimento com o mítico Hercule Poirot, apesar da sua fama o preceder, claro. 


Além do enredo em redor do crime, este livro conquistou-me logo pelo cenário, comboio mais famoso do mundo: o Expresso do Oriente. Adorei a maneira como cada uma das personagens (os suspeitos, portanto) foi sendo introduzida juntamente com um pedaço de informação relevante, mas aparentemente casual. 

Gostei do tom dedutivo dos diálogos e o livro prendeu-me desde o início até à última página. A única coisa que consegui adivinhar, quando estava quase no fim do livro e já se isolavam alguns suspeitos, foi que provavelmente nas poucas páginas que faltavam alguma reviravolta surgiria e mudaria tudo. E não me desiludiu. 
Tenho este livro numa edição da colecção de banca da RBA, e a qualidade é muito boa mesmo. Quer na publicação em si (capa dura e boa qualidade do papel) como da tradução e texto. 

Uma leitura leve mas absorvente, que dispensa apresentações. Recomendo.

O melhor: O raciocínio dedutivo. 
O pior: Nada que tenha identificado. 

4/5 – Gostei bastante.

25/02/2011

Alex 9 - A Guardiã da Espada



Alex 9 - A Guardiã da Espada, Martin S. Braun
Colecção: TEEN
Nº de páginas: 256
Editora: Saída de Emergência



Sinopse: A caminho da frente de batalha contra os invasores, o Príncipe Dael de Brodom descansava com a sua guarda junto às margens de um lago quando um estranho fenómeno aconteceu: uma estrela despenha se no lago, e das águas emerge uma mulher quase nua que cai inconsciente nos seus braços. Será este o sinal de que uma antiga profecia se está a realizar? Sem saber porquê, a Tenente Coronel Alex 9, da 3ª Unidade de Comandos de Elite, é projectada para um planeta muito parecido com a Terra, onde uma guerra entre impérios medievais se está a travar. Aparentemente, a chegada de Alex à Segunda Terra despoletou uma miríade de consequências políticas que estão ainda longe de fazer sentido. Ao longo deste volume, repleto de batalhas com espadas e armas magnéticas, as linhas de trama começam a cruzar se e descobrimos um conflito que se prepara há séculos. Mas onde levará?

Opinião: Não sei o que dizer em relação a este livro. Não há qualquer indecisão quanto a um ponto: gostei muito desta leitura! Há algum tempo que não me surgia uma leitura escrita verdadeiramente em fantasia. Mas por outro lado não consegui deixar de considerar alguns pontos que teriam beneficiado de um amadurecimento da escrita do autor. Martin S. Braun apresenta-nos uma mistura de diversas culturas, universos e mesmo contextos temporais, que me deliciou na originalidade. Não tanto dos elementos separadamente (mas também) mas principalmente pela maneira graciosa como foram interligados.

Temos essencialmente duas realidades principais que se misturam logo nas primeiras páginas. De um lado temos o elemento clássico da fantasia: uma terra medieval, com territórios rivais e governantes reais, o fascínio e temor pela magia e pelo inexplicável, as personagens fortes e cativantes que lideram batalhas ou lideram nos caminhos mais discretos da intriga. Do outro lado temos uma realidade futurista, num cenário de expansão da civilização humana pelos planetas do nosso sistema solar. E como é próprio da natureza humana, tal como no contexto medieval, também no contexto do futuro espacial os homens de guerreiam por recursos e poder. A unir estes dois elementos temos Alex 9, uma guerreira de armas laser e plasma e exímia em artes marciais. Por algum truque do destino, a rota da nave onde viaja, para fugir da batalha em Marte no fim da sua missão, é radicalmente alterada e a programação da sua cápsula de hibernação é alterada. Alex acorda de uma sesta de 200 anos, ao aterrar num planeta de outro sistema, mas em tudo semelhante à Terra, com habitantes em tudo semelhantes aos seres humanos que conhece. A aventura começa e Alex começa a descobrir que talvez tenha uma missão em tudo diferente das que sempre teve. Entrelaçadas nestas duas tapeçarias distintas encontramos também a cultura oriental e também uma pitada de cultura árabe, de uma forma que me encantou.

Se adorei o conceito deste livro e a generalidade da escrita do autor, existiram alguns elementos que me custaram a digerir, principalmente algumas características mais jovens da escrita e o ritmo acelerado da história. Se por um lado me deixou cheia de vontade de continuar a ler, por outro sentia que sempre que estava a cativar-me o ponto de vista de uma personagem, terminava o capítulo e surgia a visão de outra. Penso que não tive em mente que este é um livro direccionado para público mais jovem, e isso me impediu um pouco de aproveitar a leitura. A verdade é que não conseguia deixar de pensar que o autor tem potencialidades para escrever uma grande obra de fantasia, e isso me cegou um pouco para o óptimo livro que estava a ler, dentro do seu género. Não leio muitos livros para jovens adultos, mas penso que o que na maioria dos casos esses livros carecem de maturidade sob a forma do universo em que se passam (em regra pouco elaborado e não muito extenso) e das personagens jovens e imaturas. Neste caso, penso que Alex 9 tem um contexto muito mais próximo de High Fantasy do que de Young Adults, bem como as excelentes personagens que foram criadas, mas que no entanto é apresentado com alguns elementos de escrita mais leve e juvenil. Daí achar que o este autor tem inequivocamente potencial para muito mais (não desprestigiando o género juvenil). Uma nota muito especial para as descrições de momentos de acção e batalha, que achei bastante precisos, plenos de movimento, e no fundo um ponto forte do livro (apesar de na minha opinião pessoal achar que uma edição mais pesada na escrita propriamente dita teria sido vantajosa).

Penso que este primeiro volume peca por demasiado introdutório, isto é, introduz muitas pistas e desafios para o leitor, sem chegar a desenvolver nenhuma linha em particular e sem oferecer respostas. O resultado foi uma leitora muito sedenta de informação e muito frustrada quando chegou ao fim do último capítulo!  Mas ao mesmo tempo já rendida às personagens e aos mistérios que se adensam. Fiquei imediatamente comprometida moral e existencialmente a ler o segundo volume assim que tiver oportunidade. É um livro que recomendo, e que foi sem dúvida uma surpresa, uma vez que parti para a sua leitura com um espírito muito céptico. A escrita de Martin S. Braun destruiu as minhas ilusões logo nas primeiras páginas.

O melhor: A graciosidade com que foram incluídas tantas vertentes culturais distintas, enriquecendo a história.
O pior: Sem dúvida o cariz mais jovem da escrita, em alguns pontos.

4/5 – Gostei bastante

20/01/2011

Sr. Bentley, o Enraba-Passarinhos

Sr. Bentley, o Enraba-Passarinhos, Ágata Ramos Simões 
Núm. páginas: 162
Editora: Saída de Emergência



Sinopse: Sr. Bentley, o Enraba-Passarinhos, irá provocar incontroláveis convulsões aos amantes das ditas avezinhas e a qualquer incauto que ainda não tenha compreendido as verdades do mundo. É um clister moral, uma purga mal-pensante, um insulto ao bom-gosto, um gosto pelo insulto, um compêndio de palavras feias e um espelho do Portugal politicamente correcto em que o leitor habita. O Sr. Bentley não conhece travão e nada tem de sagrado. Mais do que uma pedrada no charco, é um verdadeiro pontapé nas penduricalhas miudezas deste pântano à beira mar encalhado; Portanto, leitor, acomode a coquilha sobre as jóias da família, proteja os dentes, e prepare-se para a porrada, porque o Sr. Bentley é um peso-pesado. Um Atlas que carrega com alegria sobre os ombros tudo o que de mais abjecto, medonho, mesquinho, estúpido e medíocre os portugueses têm… e, por isso, é um verdadeiro encanto. Pensando bem, caro leitor, tire daí a mãozinha; este livro não é para si! 



Opinião: Já estava há bastante tempo (anos) de olho neste livro curioso. O título por si só faz adivinhar uma obra diferente, e a sinopse não engana. Depois de tanto tempo a adiar, a leitura conjunta no Fórum Bang! foi a desculpa ideal que me levou a finalmente incluí-lo na encomenda. 

Assim que o livro chegou estava ansiosa para começá-lo, porque em adição às expectativas anteriores, verifiquei que este livro tem uma edição primorosa: capa dura, encadernação a um papel rugoso, quase tecido; fita de marcação de páginas; papel de excelente qualidade; e o melhor de tudo, engraçadas ilustrações ao longo do texto, que deram uma graça muito especial ao livro (apesar da ficha técnica não referir o autor das mesmas). Em suma, uma excelente edição, que muito me agradou. 

Talvez tivesse expectativas demasiado elevadas relativamente a este livro. Estava à espera de me fazer dar grandes gargalhadas e de o ler num ápice. Mas não. 

O Sr. Bentley é um homenzinho desprezível. O desprezo que lhe é dirigido pelas pessoas em geral só é ultrapassado pelo desprezo que ele próprio sente pelas pessoas. Menos a sua santa esposa, a velha, que adora e maltrata com surpreendente vigor. Mas o que ele adora é visitar cemitérios e cuspir nas criancinhas. E insultar pessoas, claro, mas sempre com o seu guarda-chuva adorado, que lhe permite planar por esses céus afora e assim escapar a valentes sovas. 

Esta personagem é o centro de todo o livro. A autora escreve de forma deliciosa, com um brilhante domínio da língua, que nem o extenso uso do vernáculo disfarça. O livro está pejado de uma forte crítica à sociedade portuguesa (assumindo que não é esse o objectivo central do livro), num tom de humor negro que apesar de mordaz, não me fez rir se não em passagens. 

O Sr. Bentley é uma personagem caricata e excêntrica, e dizem que é mau como as cobras. Algumas das suas acções são verdadeiramente incríveis, e chegam a ser chocantes. Esse é outro tom do livro: chocante. Quer seja por algumas passagens do Sr. Bentley, quer pelo valente vernáculo utilizado (chega a ser palavra sim, palavra sim), é um livro que pode facilmente ferir algumas susceptibilidades. Na minha opinião pessoal os palavrões são despejados no texto como parte da caracterização do personagem (mas não deixam de ser cansativos a certa altura) e senti que em parte foi apenas e meramente com o objectivo de chocar o leitor. 

É um livro que relata episódios sucessivos das aventuras do Sr. Bentley, não necessariamente com ligação entre si. Senti que lhe faltou um fio condutor, um rumo que o poderia ter transformado numa obra genial e hilariante. Penso que este livro tinha enorme potencial e um conceito brilhante, mas a concretização ficou aquém do que poderia ter sido se a autora tivesse seguido um rumo mais maduro. 

É sem dúvida um livro diferente e irreverente, e não o considerei uma perda de tempo, mas não posso negar que me desiludiu um pouco, apesar de algumas cenas verdadeiramente interessantes. 


O melhor: A relação do Sr Bentley com a Miss Joyce e o final. 
O pior: Pensar que este livro tem um conceito brilhante e que poderia ter sido muito melhor. 

2/5 – Ok.

13/01/2011

Sally, Jorge Candeias


Sally, Jorge Candeias 
Nº páginas: 38
Ano: 2002
Editora: Edições Colibri / Câmara Municipal de Portimão


Sinopse: Sally é uma história de amor...é uma história de amor que é tudo menos convencional, nascida sem a interferência de hormonas ou feromonas num lugar estranho e mutável. É uma história de amor que, pelo menos aparentemente, é unilateral, e o objecto desse amor dá título ao conto. Sally é a mulher perfeita. Pelo menos é essa a resposta que obteriam do Alberto Liemann se lhe perguntassem alguma coisa. 
Aviso: além disto tudo, é também uma história de ficção científica. 



Opinião: Alberto entra num bar e pede uma bebida forte. O ambiente que o rodeia é se uma observação semi hostil de todos os seus movimentos. Então ouve uma voz feminina que o cumprimenta. O mundo de Alberto desaparece naquela voz cristalina, e concentra-se na sua origem: a magnífica mulher que o abordou. Chamava-se Sally. 

Este é um pequeno conto que li num ápice, assim que chegou à caixa de correio. Estava bastante curiosa relativamente a este pequeno livro, por conhecer o autor de outro tipo de trabalho: a tradução, excelente diga-se, de obras que adorei, como as Crónicas do Gelo e do Fogo, de George R. R. Martin, Duna de Frank Herbert e A Criança Roubada de Keith Donohue. 

Adorei a escrita fluída e deliciosa do autor e a maneira como a história evoluiu em direcção ao twist final, faz repensar tudo o que foi lido desde a primeira linha. Gostei muito deste conto, excepto pela sensação agri-doce de me ter sabido a pouco. Fiquei curiosa relativamente à eventualidade de o ver no registo de história mais longo e complexo. 

Podem acompanhar o autor na Lâmpada Mágica.

O melhor: Sally. 
O pior: Sabe a pouco. 


4/5 - Gostei bastante

11/01/2011

O Homem do Castelo Alto, Philip K. Dick


O Homem do Castelo Alto, Philip K. Dick
Título original: The Man in The High Castle

Núm. páginas: 288


Sinopse: Estamos em 1962. A Segunda Guerra Mundial terminou há dezassete anos e a população já teve tempo de se adaptar à nova ordem mundial. Mas não tem sido fácil: o Mediterrâneo foi drenado, a população de África foi eliminada e os Estados Unidos da América divididos entre nazis e japoneses. Na zona neutra que divide as duas superpotências vive o homem do castelo alto, autor de um bestseller de culto, uma obra de ficção que oferece uma teoria alternativa da história mundial em que o Eixo perdeu a guerra. O romance é um grito de revolta para todos aqueles que sonham derrubar os invasores. Mas poderá ser mais do que isso? Subtil e complexo, O Homem do Castelo Alto permanece como o melhor romance de história alternativa jamais escrito. 




Opinião: A premissa seduziu-me imediatamente: um contexto histórico em que a Segunda Guerra Mundial evoluiu no sentido inverso. Os Aliados perderam a guerra e os países do Eixo dominam a política mundial. A nova ordem mundial consiste numa divisão dos territórios conquistados entre nazis e japoneses, a eliminação do mar mediterrâneo e o extermínio total da população africana. O território leste do país que foi conhecido por Estados Unidos da América está sob o domínio nazi, enquanto que o território Oeste pertence ao Japão. 

Um cidadão sueco que viaja discretamente para o continente americano, onde negócios muito especiais o esperam com um japonês. Este japonês, profundo seguidor dos oráculos do antigo livro chinês I Ching, procura resultados auspiciosos para o futuro, ao mesmo tempo que sente uma terrível angústia face ao presente. É cliente habitual do comerciante nativo que vende objectos do período anterior à guerra, pérolas da extinta cultura norte-americana, aos milionários japoneses que dominam o território. Um dos fabricantes destes produtos é um judeu divorciado que mudou de nome para não ser identificado, e enviado para a Europa para as mãos dos nazis. Despede-se do seu emprego e, sob os augúrios do I Ching, o oráculo da velha sabedoria, procura um novo rumo para a sua vida e acalenta a esperança de reencontrar a ex mulher. Esta, por sua vez, decide fazer-se à estrada em busca do Homem do Castelo Alto, autor de O Gafanhoto será um fardo. Nesta insólita obra de ficção a realidade é totalmente diferente num mundo em que o Eixo perdeu a guerra e os Aliados saíram vitoriosos. 

Este livro é feito de subtilezas. Ao mesmo tempo que lemos acerca da ordem mundial que caracteriza este período de História alternativa, lemos o ponto de vista de personagens que tentam elas próprias viver numa sociedade cheia de tensões sociais e políticas. Quando quase todos tentam ser algo diferente do que aparentam, pode ser demasiado difícil conhecer a verdade. 

Este livro despertou-me sensações contraditórias. Se por um lado adorei e admirei a construção do contexto alternativo da história e a detalhada caracterização emocional e psicológica das personagens, por vezes senti-me perdida na sua espiritualidade e sentido de fatalidade. No entanto, à medida que nos aproximamos do final, o livro prende-nos com a sensação fantástica que algo vai ser revelado, algo vai mudar, algo que é impossível travar porque é tão fatal como se já tivesse acontecido. As páginas finais denunciam o brilhantismo da obra. Recomendo! 

Uma nota para o excelente texto do Nuno Rogeiro, sem dúvida um conhecedor e admirador da obra de Dick. 

O melhor: O final e o Homem do Castelo Alto. 
O pior: Senti-me por vezes perdida nas divagações emocionais/espirituais, principalmente da personagem Tagomi. 


4/5 – Gostei Bastante

07/01/2011

A Caixa em Forma de Coração, Joe Hill


A Caixa em Forma de Coração, Joe Hill 


Título Original: The Heart-Shapped Box 
Páginas: 324 
Editora: Civilização 


Sinopse: Judas Coyne colecciona o macabro: um livro de receitas para canibais... uma corda usada num enforcamento... um filme snuff. Uma lenda do death metal de meia-idade, o seu gosto pelo bizarro é tão conhecido entre a sua legião de fãs como os excessos da sua juventude. Mas nada do que ele possui é tão inverosímil ou tão medonho como a sua última descoberta, um artigo à venda na Internet, uma coisa tão estranha que Jude não consegue resistir a pegar na carteira. 
Por mil dólares, Jude tornar-se-á o orgulhoso dono do fato de um homem morto que se diz estar assombrado por um espírito inquieto. Ele não tem medo. Passara a vida a lidar com fantasmas - o fantasma de um pai violento, o fantasma das amantes que abandonara sem compaixão, o fantasma dos companheiros de banda que traíra. Que importância teria mais um? Mas o que a transportadora entrega à sua porta numa caixa preta em forma de coração não é um fantasma imaginário ou metafórico, não é um benigno motivo de conversa. É real. 



Opinião: Judas Coyne é um homem de cinquenta e quatro anos que viu a sua banda ser um sucesso no mundo do metal, e que continua a ser uma estrela de rock mesmo depois da banda se ter desmembrado devido à morte dos seus dois companheiros. Jude vive numa quinta no estado de Nova Iorque, com os seus dois pastores alemães e a sua namorada do momento, Georgia. Esse não é o seu verdadeiro nome. Ao longo da sua carreira Jude foi coleccionando namoradas, raparigas góticas, fans da sua música, raparigas que se querem distanciar das meninas de província que foram. Enquanto estão com Jude são apenas o nome do estado de onde são originárias. Além de Georgia, Jude lida diariamente com o seu secretário pessoal Danny, um jovem simpático e falador que gere os contactos de Judas Coyne na sua carreira a solo, no escritório instalado nas traseiras da casa. 

A vida de Jude encontra-se bastante calma na manhã em que recebe a encomenda. Quando Danny lhe falou no leilão do “Fantasma do Padrasto”, Jude não hesitou em pagar mil dólares para terminar o leilão e adquirir um fato do homem morto, que a vendedora diz estar assombrado pelo espírito perturbado do seu padrasto. Quando abre a encomenda e descobre a caixa preta em forma de coração que é o receptáculo do fato do homem morto, algo se agita nas entranhas de Jude com um sentimento que algo não está bem. 

Bom, então isto é que é um livro de horror. Acho que afinal sou fan do género. Adorei este livro. Joe Hill escreve de forma fluída, espirituosa e terrivelmente real. Gostei particularmente da forma como a personagem principal, Jude, é construída. A ideia inicial é a de uma personagem de certa forma estereotipada e superficialmente interessante. Mas à medida que a história avança, e sempre com o ponto de vista da cabeça de Jude, vamos assistindo ao desdobramento da personagem, vamos conhecendo mais profundamente esta personagem e perceber que está extremamente bem construída, sem deixar de ser real. O mesmo se aplica ao enredo em si: aquilo que aparenta ser apenas um embuste ou uma mera his´toria de fantasma revela-se algo mais denso e profundo. E Negro. Foi surpreendente chegar ao fim e aperceber-me que a acção propriamente dita decorreu durante apenas alguns dias. O livro está cheio de flashbacks (que não o são realmente), personagens do passado que se confundem no presente, noites demasiado longas e dias em que os acontecimentos se precipitam. 

Com este livro tive finalmente aquela sensação fantástica de ligeiro temor, que aumenta ao passar das páginas, mas que me impele ainda mais na leitura. Aquele formigueiro que se sente quando se sabe que algo de mau e assustador vai acontecer. Ao pousar o livro, a sensação permanece e queremos saber ainda mais. 

Não conhecia o autor, e com este livro fico com a sensação que se trata de uma mente interessante, culta e livre de preconceitos. Suponho que não seja fácil escrever sobre uma personagem envolvida no mundo da música, em particular no mundo negro do metal, e construir uma história que não cai nos aterradores clichés associados a esta cultura e às pessoas que a constituem. Joe Hill conseguiu fazê-lo, e com uma graça e elegância que me fizeram soltar algumas gargalhadas ao longo do livro, e estabelecer imediatamente uma empatia com a personagem principal. 

Terminado este livro, sinto que testemunhei algo grande e íntimo, que não sei verdadeiramente explicar. Acho que algo do autor foi deixado nestas páginas. Não algo de literal, mas um vislumbre da natureza espirituosa e do humor negro e inteligente do escritor. 

Nas páginas finais da leitura deste livro, já pela noite dentro, dei por mim a levantar os olhos do livro e olhar para o rectângulo negro que era o corredor através da porta do quarto entreaberta. Sorri para mim e pensei para o livro “Raios. Apanhaste-me!”. 

O melhor: Jude e o conceito da “Estrada da noite”. 
O Pior: Demorei a entrar no ritmo de leitura, devido a falta de tempo para ler mais do que algumas páginas de cada vez. 

4/5 – Gostei bastante 



Aproveito para informar que este livro está agora à venda nas Fnacs e na Wook por apenas 5€!

04/01/2011

Cleo - Helen Brown


Cleo, Helen Brown
A história de uma gatinha que salvou uma família
Páginas: 352
Título original: Cleo: The Cat Who Mended a Family
Editora: Caderno




Sinopse: Helen estava na casa de uma amiga quando recebeu a notícia: Sam tinha acabado de morrer. Ainda pensou que Sam fosse um familiar qualquer distante, mas não, era mesmo o seu Sam, o seu filho mais velho: morreu atropelado, à frente do irmão mais novo. O mundo de Helen começou a ruir. Noites sem dormir, pensamentos suicidas, uma depressão profunda. Enquanto, à sua volta, a família se deixava levar pelo desespero, pelas discussões, pela tristeza infinita de perder um ente querido. Até que um dia bateram à porta. Era uma vizinha, trazia no colo um gato ainda bebé. Helen já nem se lembrava. Um mês antes tinha ido com os filhos ver uma ninhada, e prometera a Sam que lhe daria um dos gatinhos. E ali estava ele, uma impertinente bola de pêlo preto. O seu primeiro impulso foi rejeitar de imediato aquele pequeno intruso. Mas então viu Rob, o seu outro filho, a acariciar o bichano. E pela primeira vez em muito tempo, viu-o sorrir… Cleo tinha chegado a casa. E aos poucos começaria a devolver àquela família a alegria de viver.

Opinião: Este foi um livro que, depois de quase um ano na estante, decidi do nada pegar e ler. E li-o num dia inteiro. Não é seguramente uma grande obra literária, é essencialmente uma história pessoal contada na primeira pessoa pela autora. Mas a leitura avança no ritmo agradável da escrita.

Helen é uma mãe de 2 filhos, de 9 e 6 anos. A sua família, filhos, marido e cadela, vivem numa casa de madeira no topo de uma encosta na capital da Nova Zelândia. As suas vidas são arrasadas quando o filho mais velho, Sam, morre atropelado num acidente, alterando o centro de gravidade de todos os elementos da família. Enquanto Helen se afunda numa depressão profunda, a sua família começa a desmoronar. Na segunda semana após a morte de Sam, a pequena Cleo é entregue em casa de Helen por uma vizinha. A gatinha, a mais pequena e frágil da ninhada, tinha sido escolhida por Sam um mês antes, mas é claro que Helen já não tinha memória desse compromisso, e não tencionava cumpri-lo. Todos na sua família eram amantes de cães, e nada fans de felinos. Cleo era a gata para Sam, mas sem ele, como poderiam adoptar uma gatinha bebé no momento mais negro das suas vidas? A verdade é que foi Cleo quem adoptou a família.

Este livro descreve uma depressão e dor tão profundas que eu creio não conseguir apreender nem à superfície: a perda de um filho. Apesar de toda a comoção associada ao relato real de uma tragédia tão triste, Helen Brown escreve com graça e precisão aquilo que em muitos livros acaba por se tornar numa mera torrente de desespero e depressão que arrasta o leitor. O resultado é uma empatia com a família em sofrimento, e o reconhecimento do desespero que uma situação assim causa num lar, mas sem cair na lamechice e no chorrilho de tristezas. E assim queremos continuar a ler. Ao mesmo tempo, criei imediatamente uma empatia com Cleo, a pequena gata metediça que invade a tristeza destas pessoas, e tem a ousadia de trazer a alegria de novo aos seus corações. Eu própria sou uma amante de gatos. Tenho uma gata comigo, e revi-a em muitas das situações engraçadas e enternecedoras que Cleo protagonizou. Afinal não é só a minha gata que, ao ver-me a ler um livro, considera isso um convite a vir posicionar-se precisamente entre o livro e os olhos da dona (e reclama quando é afastada), e não é só a minha que se sente atraída pelos cantos dos livros pelo que são: excelentes locais para esfregar o focinho e roer.

O início de cada capítulo tem uma frase que caracteriza os felinos, e vi nelas verdadeiras citações da Bíblia dos Gatos, se tal coisa existisse! Expressões como “O verdadeiro nome para um gato é ‘Sua Majestade’” e “É o gato que escolhe o dono, e não o contrário” fizeram-me rir de tão verdadeiras que são. Deliciei-me com as traquinices e a personalidade de Cleo à medida que a família endireitava o seu percurso na vida, e acreditei na força que adveio deste animal de estimação para ultrapassar outros obstáculos que foram surgindo.

No fundo acabei por ficar a gostar ainda mais de gatos! Quando soube que este livro abordava a temática da perda de um filho, temi ficar demasiado triste ao lê-lo, mas acabei por passar mais momentos a sorrir para o livro e até a rir alto (passando vergonhas no comboio, pois claro) do que com sentimentos tristes. 

Por outro lado, também temi um livro mais lamechas e pouco rico em conteúdo. Ainda bem que senti o impulso de pegar neste livro!

Fiquei agradavelmente surpreendida com a leveza de discurso e até com o carácter espirituoso com que esta história foi contada. Recomendo para os amantes de gatos, que  deliciar-se-ão com as traquinices felinas, mas também para as pessoas que pensam que não gostam de gatos. Talvez mudem de opinião.

Acabo esta opinião como comecei: não é seguramente uma grande obra literária, mas proporcionou-me bons momentos de leitura.
Uma nota final para as fotos pessoais da autora e da família, que vão surgindo, uma por capítulo, que não nos deixam esquecer que se trata de uma história real.

O melhor: Cleo, em todo o seu poderio felino.
O pior: Saber que, apesar de tudo, é uma história real

4/5 – Gostei bastante

12/12/2010

O Segredo do Chocolate, James Runcie


O Segredo do Chocolate, James Runcie
Título Original: The Discovery of Chocolate (2001)
Tradutor: Manuel Marques
Nº de páginas: 272 (formato bolso)
Editora: Saída de Emergência (2005)


Sinopse: Diego de Godoy, um jovem espanhol em busca de fama e fortuna, embarca rumo ao Novo Mundo no ano de 1518. Nas Américas luta ao lado de Cortés, o conquistador do México. No meio dessa grandiosa campanha, onde conhece o líder Asteca Montezuma, apaixona-se pela bela Ignacia, uma nativa que o inicia nos segredos sensuais do chocolate.

Apesar das circunstâncias separarem os amantes, Ignacia dá a Diego um elixir e uma promessa: "Se estiveres vivo, então eu estarei viva. Nunca desistas de me procurar."
Acompanhado pelo seu cão, Diego está destinado a vaguear pelo mundo através dos séculos, em busca do seu amor perdido, da perfeição do chocolate e do sentido da vida. No seu percurso pela Europa acompanha os maiores acontecimentos e cruza-se com personalidades como o excêntrico Marquês de Sade, ou o psicanalista Sigmund Freud.



Opinião: O conceito deste livro era promissor. Um jovem espanhol que parte para o Novo Mundo em busca de um presente para conquistar uma bela e rica donzela. Corre o ano de 1518, e Diego de Godoy, com a companhia do seu galgo Pedro, parte na esperança de conseguir encontrar algo que nenhum outro homem pudesse oferecer. No México, acaba por encontrar muito mais: não só conhece o líder Asteca Montezuma como se apaixona por uma nativa. A bela Ignacia seduz Diego com a sua beleza e com o sublime sabor do chocolate.
Os dois amantes são separados pelos acontecimentos que acabam por culminar na queda da civilização Asteca sob o jugo dos espanhóis, e os dois (e o cão) tomam uma estranha e secreta bebida, cujos efeitos Diego só descobre no momento em que se apercebe que passou um século desde a sua separação do seu amor. Começa assim uma longa viagem de Diego pela vida e pelos aromas do chocolate.

Louvo a capacidade do autor de descrever precisamente os aromas do chocolate com notável detalhe. Um verdadeiro apelo aos sentidos, na preparação, confecção e degustação do chocolate. Posso dizer que ele é o verdadeiro protagonista deste livro: o chocolate.
A premissa era boa: um contexto histórico interessante, a introdução de personalidades reais (como o Marques de Sade ou Freud) e o chocolate e as suas origens como pano de fundo. No entanto, senti que este livro ficou muito aquém do que poderia ter sido. As suas personagens foram mal exploradas e perdidas no meio dos acontecimentos da sua vida. A narrativa em tom leve e ligeiro foi inicialmente agradável, um avançar ritmado e levemente descrito como é natural numa fase inicial de introdução do enredo e personagens. Mas quanto mais avançava mais pensava quando é que começava a história propriamente dita. A verdade é que já tinha começado, mas o tom da narrativa e o muito rápido avançar dos acontecimentos, tão rapidamente descritos (não obstante, precisamente) que sentia quase só eram mencionados, fez-me sentir que a história não estava a ser explorada. 
Se Diego frequentemente afirmava que a sua longevidade lhe causava tédio e aborrecimento pelo lento ritmo da sua vida, eu senti precisamente o contrário. Excepção feita para as detalhadas e deliciosas descrições de chocolate, toda a restante acção passou a correr. Isso não seria por si só negativo, se não tivesse igualmente sentido que essa velocidade implicou um subdesenvolvimento do potencial das personagens e do enredo.

Foi uma leitura agradável e não é um mau livro, mas não me cativou. Fiquei com a sensação que o autor teria capacidade para um romance mais denso.

O melhor: O chocolate
O pior: A falta de profundidade do livro

2/5 – Está OK

04/12/2010

Eu Sou a Lenda, Richard Matheson




Eu Sou a Lenda, Richard Matheson
Título Original: I Am Legend
Tradutor: David Soares e Fernando Ribeiro
Data de publicação: 1954
Publicações Revista Visão
(original em Portugal por Saída de Emergência)



Sinopse: Robert Neville é o último homem vivo na Terra... mas não está sozinho. Todos os outros homens, mulheres e crianças transformaram-se em vampiros e estão sequiosos pelo sangue de Neville.

De dia, ele é o predador, caçando os mortos vivos pelas ruínas abandonadas da civilização. De noite, Neville barrica-se em casa e reza para que chegue a manhã.
Durante quanto tempo pode um homem sobreviver num mundo de vampiros?



Opinião: Li este livro no âmbito de um exercício de leitura conjunta no fórum Bang!, e foi um excelente exercício. Ao ler esta obra tentei ter sempre presente a data original de publicação: 1954. Não que isso tenha influenciado de forma definitiva a minha apreciação da obra, mas a consciência da “idade” da obra ajudou-me a entender que em alguns aspectos tenha “envelhecido” mal. Refiro-me essencialmente ao contexto científico e o concerne à investigação científica a que a personagem leva a cabo a dada altura no livro. Desconfio que alguns termos biológicos tenham sido prejudicados pela tradução, mas apenas por preciosismo. Posto isto, em todos os outros aspectos, achei o livro excelente.

Facilmente descobrimos pela sinopse que Robert Neville é o último ser humano vivo do planeta. Saber que não existe mais ninguém vivo à face do planeta não significa que esteja sozinho. Uma praga à escala planetária transformou todos os seres humanos (e não só) em vampiros e erradicou a civilização humana. Como se pode sobreviver em permanente ameaça por seres resilientes, violentos e sequiosos de sangue, e principalmente, que não permanecem mortos quando se matam?

E principalmente, como pode um homem viver rodeado da mais profunda solidão?
Porque é disso que se trata. A história é bem mais do que a capacidade de resistência humana da parte de um homem que se recusa a deixar-se vencer pela praga que lhe levou a família e todos os conhecidos. Esse homem que sobrevive a anos de ataques, anos de luta pela sobrevivência, sobrevive também a anos sem qualquer contacto humano. Que efeito terá isso num ser cuja parte integrante da sua biologia é a comunicação intra-específica?

Na minha opinião, a caracterização da personagem é brilhante. Todo o conflito emocional e psicológico da personagem, perdida num mundo, totalmente só, é descrito de forma magistral. A escrita não é particularmente deslumbrante, mas toda a carga emocional do homem na sua solidão e constante memória da mulher e da filha é avassaladora e bastante bem construída. Passa a quilómetros de distância dos lugares comuns, não fosse esta obra anterior a quase todas que tenho lido. Os dilemas interiores e as discussões que Robert tem consigo próprio são cheias de ritmo e humor, num tom ácido bastante compatível com uma personagem que perdeu toda a fé no futuro.

Apesar das minhas reservas relativamente à teoria científica que explica a praga, gostei do conceito de vampiro. Esqueçam o vampiro clássico, sedutor, super inteligente e bebedor de sangue dos vivos, porque esta história está construída com base numa premissa diferente em certos aspectos. Com tanto contacto com histórias de vampiros que temos tido nas últimas décadas, e com a oferta esmagadora que existe actualmente, foi uma lufada de ar fresco. Com mais de 55 anos, até podia ser ar bastante bafiento, mas não é.

É incrível como uma obra de 1954 se mantém tão actual em alguns aspectos. Sem querer revelar demasiado, considero que, por baixo da máscara de terror, esta obra encerra uma profunda e irónica crítica à sociedade humana “normalizada”. Num mundo em que todos somos iguais, não será aquele que se mostra diferente o anormal. Mas e se formos todos anormais? 


O que caracteriza o ser humano? A sua inteligência racional? A capacidade de organização em sociedade? É a humanidade a verdadeira característica da natureza humana? É no levantar de forma subtil todas estas questões, e não na luta homem vs vampiro, que esta obra se revela brilhante. Recomendo.

Além da história Eu Sou a Lenda, o livro oferece-nos 3 contos de terror, que achei deliciosos.
Nascido de Homem e Mulher, Presa e Perto da Morte. Adorei os três, mas os dois últimos achei divinais! Presa é verdadeiramente assustador, com ambiente com laivos de um Chucky tribal e um final genial.
Perto da Morte pode ser considerado um mini conto. Umas meras 2 páginas e meia de normalidade, que se torna brilhante na última linha.


Uma última nota para o filme com o mesmo nome, baseado neste livro, protagonizado por Will Smith. Foi a 3ª adaptação desta obra para o cinema, e eu não vi nenhuma delas. Tenho de tirar algum tempo para o fazer. Se sempre tive curiosidade me relação ao filme, agora que li o livro quero meramente fazer o habitual exercício de comparação. Pelo que já me foi dado a saber (começando pelo protagonista negro para interpretar uma personagem germânica) até parecem duas obras distintas, de tão diferentes que são. Para quem nunca leu o livro por achar o filme suficiente, recomendo ainda mais a leitura!


O melhor: A caracterização da personagem e os contos
O pior: Um mau envelhecimento da parte científica da história.

4/5 – Gostei Muito